Não vote pela servidão voluntária!
No evangelho do próximo domingo temos mais uma
cena da tensão entre Jesus e os fariseus, sacerdotes e demais autoridades do
templo. Eles preparam uma armadilha a Jesus: “É lícito ou não pagar imposto a
César?” (Mateus 22,15-22). O que eles não esperavam é que Jesus, respondendo de
modo politicamente correto e cauteloso, acrescentasse Deus na história:
“Devolvam a Deus o que é de Deus”. A vida e a liberdade do povo não pertencem a
César!
Como defensora de uma ordem social injusta, a
elite de Jerusalém estava interessada em manter os próprios privilégios,
concedidos pelo poder invasor. Ela age em oposição a Jesus e aos seus, dissimulando
seu caráter malicioso e violento. Cinicamente, usam moedas nas quais está
escrito que o imperador romano é o filho ou escolhido de Deus. Na sua resposta,
Jesus pede que não prestem lealdade incondicional aos impérios e a seus
comandantes.
Num contexto eleitoral marcado pela violência
verbal e física, pela intolerância e pela mentira usadas sistematicamente, a
prática do discernimento recomendado por Jesus é fundamental. Atenção com o uso
político da religião e com o uso religioso da política! Atenção com a pressão
dos chefes, patrões, comunicadores e líderes religiosos para cabrestear o seu voto!
Atenção com a mentira interesseira de quem diz que “fé e política não se
discutem”!
No segundo turno das eleições não vamos
simplesmente escolher o candidato “da nossa preferência”, nem apenas optar
entre “direita ou esquerda”. Vamos decidir o presente e o futuro da nossa
nação: escolheremos um governo democrático ou um governo autoritário; aqueles
que celebram a imposição de taxas e prometem entregar aos EUA as riquezas e a
autonomia, conquistada em 1822 e defendida com enormes dificuldades, suor e
sangue?
Mas o que está em jogo não é apenas a
soberania política. Há também o risco de abrirmos as portas ao fascismo, que
não vem de rosto descoberto, mas fantasiado de liberdade. Podemos tolerar que
crianças celebrem uma vitória com uma arma (real ou falsa, pouco importa) na
mão? Pode um fiel cristão esclarecido e um cidadão lúcido dar seu apoio a um candidato
que mente sobre tudo, que homenageia torturadores, e que pretende limitar os
direitos sociais, dar anistia aos golpistas legitimamente condenados e
enrijecer a lei penal para adolescentes?
Não pretendo tolher a liberdade de ninguém,
mas o ministério que exerço pede de mim um posicionamento lúcido e responsável
em questões tão relevantes como estas. Você é quem decide o seu voto, mas, se
você é cristão, precisa compreender o que está em jogo, considerar o bem dos mais
vulneráveis e levar em conta o jeito de Jesus e seu Evangelho, sem se deixar
levar pelo impulso ou pela simpatia. Não escolha servir e defender os próprios
algozes!
Dom Itacir Brassiani msf
Nenhum comentário:
Postar um comentário