quinta-feira, 23 de abril de 2026

A lei e a compaixão

Quem ama cumpre integralmente toda a Lei

1060 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Sexta-feira | João 6,52-59

Neste penúltimo trecho da catequese que Jesus após a multiplicação dos pães e dos peixes, a reflexão se concentra sobre a condição humana e vulnerável de Jesus (sua “carne” e seu “sangue”). No centro da polêmica está a questão do caminho que assegura a vida plena: a Lei ou a pessoa humana concreta e frágil de Jesus?

O judaísmo chamava “Lei” ao conjunto de valores e práticas (proibições e mandamentos) que garantiam que uma pessoa fosse boa; em outras palavras, que garantiam a salvação. É o que hoje chamamos de ideologia: conjunto de fins e meios, valores e práticas que nos tornam “pessoas de bem”, diferentes e melhores que os outros. Hoje, são leis como “cada um para si”; “quem pode mais chora menos”; “direitos humanos são para os humanos direitos...

Os líderes do judaísmo oficial consideraram inaceitável que Jesus Cristo, na concretude da sua compaixão e da sua humana fragilidade pudesse ser o caminho para o bem-viver, para uma pessoa ser agradável a Deus. Para eles, não existia outro caminho senão o poder, a separação, a supremacia de uns sobre outros, a distância em relação àqueles “que não rezam pela nossa cartilha”.

Jesus, por sua parte, insiste que não há caminho para a vida abundante que não passe pela assimilação daquela compaixão que o faz irmão e servidor da humanidade, especialmente das pessoas excluídas, a ponto de dar a própria vida. Isso fica claro na expressão “carne e sangue”, que Jesus repete quatro vezes nestes breves versículos. É na sua paixão e morte que ele dá seu corpo e sangue e se torna pão para o mundo. Salva-se quem assimila sua humanidade.

Assim, Jesus de Nazaré, o Enviado do Pai para dar vida ao mundo entregando livremente sua vida, o Filho do Homem que demonstra em sinais a compaixão de Deus assume e supera o Antigo Testamento, mostra que a Lei caducou. O amor de Jesus, assimilado por seus discípulos, é o que dá vida ao mundo. Quem come deste “pão”, viverá eternamente, e saciará a fome e a sede da humanidade.

 

Sugestões para a meditação

O que significa a insistência de Jesus, que fala quatro vezes em “comer” sua carne e “beber” seu sangue?

Será que não nos enganamos ainda hoje, pensando que o que nos salva é o “poder” de Jesus, e não sua compaixão e humanidade?

Em que apostamos “todas as nossas fichas”, porque cremos que somente isso nos dá vida e salvação?

O que significa viver “por causa de Jesus”, assim como ele viveu “por causa do Pai” que vive e o enviou?

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