quinta-feira, 2 de abril de 2026

Missa dos Santos Óleos

O presbítero é um construtor de unidade e de paz


Queridos irmãos no ministério, queridos irmãos e irmãs, peregrinos de esperança! Na oração da coleta desta missa da unidade presbiteral, pensando especialmente nos presbíteros, fazíamos dois pedidos: a graça de participarmos da unção e consagração de Jesus Cristo pelo Espírito Santo; e a graça de sermos constituídos testemunhas e colaboradores da sua obra de regeneração da humanidade. O ministério que exercemos não é mérito, mas graça; não é honraria, mas serviço.

A unção profética de Jesus de Nazaré

Iniciando sua missão de anunciar e espalhar sinais da chegada do Reino de Deus, Jesus busca inspiração no profeta Isaías. Mergulhando na experiência desse profeta, Jesus amadurece a percepção de que fora ungido e enviado pelo Espírito Santo para uma missão bela e exigente: anunciar a Boa Notícia do Reino aos pobres; para proclamar a libertação aos cativos; para devolver a visão a quem não consegue ver; para libertar os oprimidos; enfim, para proclamar um ano de graça e júbilo.

Esse discernimento Jesus não o fez durante um retiro solitário, mas num encontro comunitário, junto dos seus conterrâneos, na Sinagoga de Nazaré. Ele estava rodeado de gente cansada de receber más notícias e ameaças; de gente que tateava como cegos e não conseguia compreender o mal que os cercava; de gente que se sentia como prisioneira por medo do império romano; de gente que não suportava mais ouvir da boca dos sacerdotes e doutores da lei mandamentos e proibições.

Para Jesus, esta unção e envio é algo tão real, tão forte e tão urgente que, percebendo a expectativa que pulsava no olhar de todos, ele só ousa acrescentar uma frase: Hoje se cumpre essa passagem da escritura! O tempo de espera chega ao fim e começa o tempo da graça. Doravante ele não fará outra coisa que demonstrar isso nas pregações que faz, nas ações que realiza e na formação que dispensa aos discípulos.

Profetas da gratuidade e alegria

Caros irmãos presbíteros! Participar da unção profética de Jesus Cristo e da missão que dela deriva nos coloca na linha de frente das grandes lutas na qual se encontram os construtores de uma nova humanidade. Nossa vida e nossa missão adquire sentido e consistência na multiplicação de gestos de cuidado e atenção que contribuem para diminuir o sofrimento, amadurecer a liberdade e trazer alegria à vida daqueles que vivem cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor.

Como presbíteros, não somos uma espécie de executivos de uma grande empresa que espalha seus tentáculos pelo mundo afora e tem como objetivo de aumentar seus clientes e seus dividendos. Também não somos um tipo de legisladores que se esmeram em multiplicar leis impositivas ou proibitivas que aumentam o peso do fardo que os pobres carregam. Também não somos juízes que fecham os olhos às vítimas e proferem sentenças frias que, como as serpentes, ferem quase sempre os pés dos descalços.

Somos membros de um povo peregrino e discípulos de um homem ungido pelo Espírito, que veio morar entre nós e passou pelo mundo fazendo o bem; que não teve onde reclinar a cabeça e frequentemente não encontrou repouso nem mesmo na sua própria casa. A missão de fazer o bem e distribuir o óleo da alegria o consumiu inteiramente, e disso que ele extraiu forças. Ele não convocou ninguém para o jejum, mas para a festa; não estimulou a competição, mas a cooperação e o serviço recíproco. Eis nosso modelo! Eis nosso caminho!

Configurar-se a Jesus, Cabeça do Corpo e Pastor do rebanho

São João Paulo II nos ensina que os presbíteros são chamados a ser uma representação sacramental de Jesus Cristo enquanto Cabeça e Pastor. Recebemos a missão de “prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o seu estilo de vida” e tornando-nos sua transparência no meio do rebanho que nos é confiado (cf. Pastores Dabo Vobis, § 15). Isso é imensamente belo, e terrivelmente comprometedor. Nossa inspiração é o Cristo Cabeça e Pastor, que sempre agiu como servidor.

Enquanto cabeça do corpo e pastor do rebanho, Jesus não age promulgando ordens ou despachando no escritório. Ele se aproxima de todos e chega aos que estão mais longe. Ele abre os braços a todos, consolando os aflitos, ungindo os doentes, ensinando os errantes, formando discípulos, percorrendo caminhos e chegando às casas, fazendo-se tudo para todos. Enquanto Cordeiro, ele dá sua vida para vencer o pecado do mundo.

São estas ações que o presbítero prolonga, é esse o estilo de vida que ele atualiza, e esse o rosto do qual ele é reflexo. Somos herdeiros de homens e mulheres que, diante das ameaças dos chefes de plantão, respondiam que deviam obediência a Deus, e não aos homens; de gente que extraiu força da própria fraqueza, que se manteve firme como se visse o invisível, que sabia em quem tinha depositado sua confiança.

Nossas promessas são também nossos desejos

Hoje renovaremos, diante do povo de Deus ao qual temos a alegria de pertencer, as promessas que fizemos no dia em que a Igreja nos ordenou. Mais que promessas, são desejos sinceros, metas que estabelecemos e buscamos. É porque conhecemos nossas fragilidades e desvios que as renovamos, confiando na ação da graça de Deus.

A primeira promessa e desejo é viver estreitamente unidos ao Senhor Jesus, renunciando a interesses egoístas, superando atitudes agressivas e evasivas e cultivando um amor maduro, concretizado no cuidado e na condescendência do Bom Pastor. Quem não desejaria isso? Que o Senhor complete em nós a obra que ele começou!

A segunda promessa e desejo é ser dirigentes criativos e fiéis das celebrações litúrgicas e da oração do Povo de Deus, agir inspirados no Cristo Cabeça e Pastor, que age como Servo, guiados sempre pelo amor e jamais pela ambição. Quem não desejaria isso? Que o Senhor complete em nós a obra que ele começou!

Artesãos de consensos

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que os presbíteros têm uma tarefa central na busca e encontro de consensos pastorais, tão importantes para uma caminhada sinodal (cf. DGAE, § 179). Os consensos nem sempre coincidem com a opinião da maioria, e são um tremendo desafio na tomada de decisões, pois supõem abandonar as divisões e diferenças e encontrar um ponto de concordância que possa unir a todos na missão comum.

Todos os segmentos e membros do Povo de Deus devem participar da formação dos consensos, para que possam assumi-lo em corresponsabilidade. Mas, no caminho da escuta e do diálogo em vista do encontro desse consenso, a atuação firme e respeitosa dos ministros ordenados é indispensável. Eles participam e, ao mesmo tempo, guiam os demais membros do povo de Deus nessa busca. A Igreja diocesana conta com essa qualidade na execução do novo Plano Diocesano de Evangelização.

Memória e missão

Fazer memória da graça da vocação presbiteral neste dia da Ceia do Senhor significa, como afirma Santo Agostinho, entrar num santuário amplo e sem limites. Não é a mesma coisa que conservar algo do passado, pois significa tornar sempre novo e atual o que aí está guardado. Somente fazendo esta memória é que podemos viver e reviver o que o Senhor nos entregou, diz o Papa Leão XIV.

E o Papa Leão continua: “A memória unifica o nosso coração no Coração de Cristo e a nossa vida na vida de Cristo, para que nos tornemos capazes de levar a Palavra e os Sacramentos da salvação ao povo santo de Deus, a fim de termos um mundo reconciliado no amor. Só no Coração de Jesus encontramos a nossa verdadeira humanidade de filhos de Deus e de irmãos entre nós”.

 Construtores de unidade e de paz

Num mundo marcado por crescentes tensões, inclusive no seio das comunidades eclesiais, o presbítero é chamado a promover a reconciliação e a gerar comunhão. Ser construtor de unidade e de paz significa servir sem impor-se. “A fraternidade sacerdotal torna-se um sinal crível da presença do Senhor Ressuscitado entre nós quando caracteriza o caminho comum dos nossos presbitérios”, diz o Papa.

“Ser construtores de unidade e de paz significa ser pastores hábeis na arte de compor os fragmentos de vida que lhes são confiados; ajudar as pessoas a encontrar a luz do Evangelho no meio das tribulações da existência; ser leitores sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos e das modas; oferecer propostas pastorais que regeneram a fé, construindo boas relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da fraternidade”. 

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