Os conterrâneos e contemporâneos de
Jesuss exclamam entusiasmados: “Hoje vimo coisas maravilhosas!” O que viram
eles? Viram que Jesus ensinava e impressionava com a clareza, a simplicidade e
a humanidade do seu ensinamento. Mas ele completava e confirmava suas palavras
com gestos que resgatavam a vida minguada das pessoas que o rodeavam. Viram
também a insistência e a criatividade de muita gente para beneficiar as pessoas
mais necessitadas. Como não sew impressionar com aquele grupo de gente
carregando uma maca com um doente, subindo no telhado, abrindo um buraco e
fazendo descer a maca e o paralítico à frente de Jesus? Como não se
impressionar com a atenção de Jesus, que “vê” a fé daquela gente, e com sua declaração
lapidar de que ninguém deve nada a Deus, de que os pecados que lhes são
impingidos estão perdoados, de que o paralítico está livre e convocado a se
levantar e caminhar? É a força da Palavra e da Compaixão que brota do próprio coração
de Deus, aquela mesma palavra silenciosa e eloquente que contemplamos na
manjedoura e no testemunho martirial das primeiras comunidades cristãs, e não
só. Também nós podemos ver coisas maravilhosas acontecendo de forma mais ou
menos discretas, mas sempre generosas, em incontáveis gestos e atitudes de
Necas e Marias Josés, Veras e Chiquinhos, Rogérias e Marlenes, Vilmas e
Bertilos, gente sem nome nas manchetes televisivas mas escritas no coração de
Deus... (Itacir Brassiani msf)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
sábado, 5 de dezembro de 2015
A Boa noticia, dia-a-dia: 5, sabado
Compaixão é o DNA de Deus, e isso
fica mais que evidente na vida de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Desde
sempre e para sempre, movido pela Compaixão, ele é peregrino no Santuário das
dores e esperanças humanas, todas, pregando boas notícias, compartilhando e
curando todo tipo de doenças e enfermidades. É do encontro vivo e pessoal com
ele, da participação na sua Compaixão, que brota a Vocação, a descoberta de que somos intimados a viver de Compaixão e
dedicar tudo o que temos e somos para peregrinar com ele e colaborar com sua
obra. E isso coincide com a percepção de que nossa mais plena felicidade e
realização depende disso. Da escuta deste chamado, que vem de dentro e de todos
os lados, passamos à descoberta de que viver é ter uma Missão, é ser enviado, é sair ao encontro dos irmãos e para fazer
irmãos. Não há verdadeira intimidade com Deus sem a participação na sua
Compaixão, sem a resposta ao chamado que ele faz e sem empenho na sua missão de
reabilitar o povo que vive cansado e abatido, como ovelha sem pastor. Por fim,
esta Missão é muito mais que satisfação, unção, consolação e quietude. A Missão
de Jesus e nossa é marcada pela Libertação,
que vai da afirmação da dignidade de todo o humano ser à transformação das
estruturas que oprimem e excluem, passando pelo anúncio incansável do céu novo
e da terra nova que estão em gestação, e pela denúncia de tudo aquilo que
retarda ou impede sua chegada. E tudo isso de graça, pois de graça recebemos,
como pura graça é o Natal, na gruta e na mangedoura de Belém ou nas mais
recônditas grotas e rincões. (Itacir
Brassiani msf)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA (ANO C – 08.12.2015)
Imaculada
Conceição de Maria: muito mais que pureza!
Em meio à caminhada
do Advento, a festa da Imaculada
Conceição de Maria nos lembra que a humildade, a escuta e a fé na ação
misericordiosa e libertadora de Deus são atitudes que levam à vida feliz. O
segredo da felicidade não está na posse ou no consumo de bens, nem na fama ou
no sucesso que alcançamos ou no poder de atração que exercemos, mas na abertura
humilde e profunda aos outros, ao futuro e a Deus. O fechamento orgulhoso em
nós mesmos e o apego doentio ao presente não são caminhos de crescimento, mas
sinais de doença.
Lucas nos apresenta Maria
como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e que está pronta a dar o
melhor de si para que essa Palavra se realize na história. Isabel proclama que
Maria é alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele
que a pronuncia. Obviamente, não se trata de uma palavra escrita na Bíblia, mas
de uma mensagem eloquente, escrita nos acontecimentos. Além disso, no belo
poema atribuído a Maria e conhecido como Magnificat,
a mãe de Jesus e nossa aparece também como uma pessoa humilde e humilhada.
A humildade, a escuta
e a fé estão intrinsecamente relacionadas, e são as marcas fundamentais da
personalidade de Maria. Se Deus pôde realizar grandes coisas nela e através
dela é porque encontrou a indispensável base humana já preparada. Por isso, não
fazemos bem quando idealizamos e espiritualizamos Maria, como se não fosse
gente como a gente, pois corremos o risco de desumanizá-la completamente,
tirando-a da história. Para fazer-se humano o Filho de Deus precisa de pessoas
fundamentalmente humanas, e não de criaturas angélicas!
O Evangelho diz que,
depois da profunda experiência de ser amada e de receber a vocação de dar à luz
aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. O que
ela busca? Um sinal que possa confirmar a parceria de Deus com os humildes e
sua aliança com os pobres. Ela já havia dado sua palavra Àquele que é capaz de
fazer grandes coisas em favor do povo humilhado, mas nem tudo estava claro. A
discípula se faz serva, a serva se mostra peregrina, e a peregrina sai em busca
da hospitalidade e do discernimento na casa de Isabel.
No recôndito
doméstico e acolhedor da sua velha parenta, escondida entre as montanhas e
vales que circundam Jerusalém, enquanto Zacarias permanece mudo e à margem de
tudo, duas mulheres louvam a Deus e profetizam. A discípula, serva e peregrina
se transforma em profetiza destemida. Contemplando sua própria história e a
epopéia do seu povo, Maria percebe e proclama a intervenção libertadora de
Deus: ele dispersa os soberbos, derruba os poderosos, eleva os humildes e
oprimidos, socorre seu povo e estende sua misericórdia a todas as gerações.
Neste encontro entre
Maria e Isabel, preparado e celebrado às margens do poder e da badalação, o
corpo festeja e é festejado. É bendito o corpo feminino de Maria, assim como
bendito é o corpo que ela carrega no ventre. Bendito é o corpo de Isabel, capaz
de perceber a incontida alegria daquele que preparará a estrada para a chegada
do Messias, e bendito é o corpo dos mártires de todos os tempos. Bendito é também
o corpo dos humilhados e dispensados pelos sistemas fechados, mas desde sempre
destinados por Deus ao brilho.
A festa da Imaculada
Conceção de Maria sublinha de forma contundente a dignidade do corpo, de todos
os corpos. Mas é uma proclamação da dignidade especialmente dos corpos
humilhados por uma cultura que os transforma em meios de produção, em objetos que
podem ser vendidos e comprados, em produtos expostos nas vitrines e passarelas,
sem brilho e sem beleza. É também o reconhecimento da beleza e da nobreza dos
corpos doentes e envelhecidos pelo tempo, assim como do corpo eclesial dos
muitos e diferentes membros.
Maria de Nazaré, de Belém e de Jerusalém! Tu és mulher, mãe e
companheira em todos os caminhos e aventuras que geram e dão à luz mundos,
homens e mulheres novos. Então, acompanha-nos neste tempo de preparação para o
Natal do teu filho, ensinando-nos a sonhar caminhos que nos levem a mudanças
profundas, tanto no nível pessoal como no âmbito eclesial e social. Ajuda-nos a
perceber que simples arranjos exterrnos e mudanças de fachada apenas enganam e
prejudicam o radical dinamismo de reconciliação que teu filho nos confiou como
herança e missão. Assim seja! Amém!
Itacir
Brassiani msf
Gênesis 3,9-15.20 * Salmo 97 (98) *
Carta aos Efésios 1,3-6.11-12 * Lucas 1,26-38
A Boa noticia, di-a-dia:4, sexta
Às vezes um pequeno acidente, algo não
previsto na rotina, ou mesmo um acidente sem feridos, como o que provoquei
ontem, para que nosso ânimo mude radicalmente, as palavras se tornem poucas,
duras e tristes. Onde vão parar as palavras de entrega, de doação e de estímulo
aos companheiros? Até a Palavra de Deus parece perder grande parte da sua força
e luminosidade... Daí que é preciso abrir os olhos, levantar o olhar, ver para
além daquilo que contraria nossas agendas e nos traz algum desconforto. Em
momentos como esse, precisamos reaprender a clamar, como os cegos que seguem
Jesus até sua casa: “Tem piedade de nós, filho de Davi!” E deixar que ele toque
nosso olhar. Então seremos capazes de cer is surdos ouvindo as Palavras do
Livro e os olhos dos cegos vendo no meio das trevas e das sombras, os humildes
aumentando sua parca cota de alegria e os pobres se rejubilando, o prepotente e
o trapaceiro sucumbindo que enganam e oprimem com falsas palavras, como prevê o
profeta (cf. Is 29,18-20). Que o Senhor nos dê hoje sua Sabedoria e suscite em
nós palavras de entrega!... (Itacir Brassiani msf)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Evangelho dominical
NO MARCO
DO DESERTO
Lucas tem interesse em
indicar com detalhes o nome dos personagens que controlam naquele momento as
diferentes esferas do poder político e religioso. Eles são quem planifica e
dirige tudo. No entanto, o acontecimento decisivo de Jesus Cristo prepara-se e
acontece fora do seu âmbito de influência e poder, sem que eles tomem
conhecimento nem decidam nada.
Assim aparece sempre o
essencial no mundo e nas nossas vidas. Assim penetra na história humana a graça
e a salvação de Deus. O essencial não está nas mãos dos poderosos. Lucas diz
concisamente que «a Palavra de Deus veio sobre João no deserto», não na
Roma imperial nem no recinto sagrado do Templo de Jerusalém.
Em nenhuma parte se pode
escutar melhor que no deserto, a chamada de Deus para mudar o mundo. O deserto
é um território da verdade. O lugar onde se vive do essencial. Não há lugar
para o supérfluo. Não se pode viver acumulando coisas sem necessidade. Não é
possível o luxo nem a ostentação. O decisivo é procurar o caminho acertado para
orientar a vida.
Por isso, alguns profetas
recordam tanto o deserto, símbolo de uma vida mais simples e melhor enraizada
no essencial, uma vida todavia sem distorções por tantas infidelidades a Deus e
tantas injustiças com o povo. Neste marco do deserto, João Batista anuncia o
símbolo grandioso do «Batismo», ponto de partida de conversão, purificação,
perdão e início de vida nova.
Como responder hoje a esta
chamada? O Batista resume-o numa imagem tomada de Isaías: «Preparai o caminho do Senhor».
As nossas vidas estão semeadas de obstáculos e resistências que impedem ou
dificultam a chegada de Deus aos nossos corações e comunidades, à nossa Igreja
e ao nosso mundo. Deus está sempre próximo. Somos nós os que temos de abrir
caminhos para acolhe-Lo encarnado em Jesus.
As imagens de Isaías
convidam a compromissos muito básicos e fundamentais: cuidar melhor do
essencial sem nos distrairmos com o secundário; retificar o que temos vindo a
deformar entre todos; tomar caminhos difíceis; afrontar a verdade real das
nossas vidas para recuperar um perfil de conversão. Temos de cuidar bem dos
batismos das nossas crianças, mas o que necessitamos todos é um «batismo de conversão».
José Antonio Pagola
Como preparar o natal?
Partilha: a
condição para receber a visita de Deus (Lc 3,1-6)
Neste texto,
Lucas fala da grande expectativa que se criou no povo ao redor da pregação de
João Batista. Ele anunciava um batismo de conversão para o perdão dos pecados.
Hoje também existe uma grande expectativa de conversão e de reconciliação com
Deus que se manifesta de muitas maneiras.
Situando
Lucas situa a
atividade de João Batista no 15º ano do governo de Tibério, imperador de Roma.
Tibério foi imperador de 14 a 37 depois de Cristo. No ano 63 antes de Cristo, o
império romano tinha invadido a Palestina, impondo ao povo uma dura escravidão.
As revoltas populares se sucediam, uma depois da outra, sobretudo na Galileia,
mas foram duramente reprimidas.
Do ano 4 antes
ao ano 6 depois de Cristo, durante o governo de Arquelau, a violência estourou
na Judeia. Este fato levou José e Maria a voltarem para Nazaré na Galileia e
não para Belém na Judeia (Mt 2,22). No ano 6, Arquelau foi deposto e a
Judeia foi transformada numa província romana com procurador diretamente
nomeado pelo imperador de Roma.
Pilatos foi um
destes procuradores. Governou do ano de 26 a 36. Esta mudança no regime
político trouxe certa calma, mas as revoltas esporádicas, como aquela de
Barrabás (Mc 15,7) e a imediata repressão romana (Lc 13,1), lembravam a extrema
gravidade da situação.
Bastava alguém
soprar na brasa e o incêndio da revolta explodia!A calma era apenas uma trégua,
uma ocasião oferecida pela história, por Deus, para o povo fazer uma revisão do
rumo da caminhada e, assim, evitar a destruição total. Pois Roma era cruel. Em
caso de uma revolta, viria e acabaria com o Templo e a Nação. É nesse contexto
que, em torno do ano 28 depois de Cristo, João Batista aparece anunciando um
batismo de arrependimento para o perdão dos pecados.
Comentando
Lucas 3,1-2: A
Palavra profética inserida na história
Lembrando os
antigos profetas, Lucas tem a preocupação de situar os acontecimentos no tempo
e no espaço. Ele dá os nomes dos governantes e descreve os lugares onde João
atua. Pois a história da salvação não é uma história distinta da nossa. Ela é a
nossa história.
A maneira como
Lucas introduz a pregação de João é semelhante ao início dos livros dos antigos
profetas. Eles costumavam indicar quem era o rei na época em que o profeta
exercia a sua atividade. Veja, por exemplo, Isaías (Is 1,1), Jeremias (Jr
1,1-3), Oseias (Os 1,1), Amós (Am 1,1) e outros. Lucas faz o mesmo para dizer que,
após quase 500 anos sem profeta, aparece novamente um profeta. Ele se chama
João, o filho de Isabel e Zacarias.
Lucas 3,3: Arrependimento e perdão
João percorre
a região do Jordão pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos
pecados. Arrependimento (em grego: metonoia) significa mudança não só de
comportamento, mas também de mentalidade. O povo devia tomar consciência de que
o seu modo de pensar, marcado pela propaganda do Governo e do Templo, estava
errado. Perdão traz consigo a reconciliação com Deus. João anuncia uma nova
maneira do povo se relacionar com Deus.
Lucas 3,4-6: Definindo a
missão de João
Lucas cita o
seguinte texto de Isaías para ajudar os leitores e as leitoras a entenderem
melhor o significado da pregação de João: "Voz que clama no deserto!
Preparem os caminhos do Senhor!" (Is 40,3).
Neste texto,
Isaías anunciava a volta do povo do exílio e a descrevia como se fosse um novo
Êxodo. Era como se o povo, voltando do cativeiro da Babilônia, saísse do Egito
e entrasse novamente no deserto. Para Lucas, Jesus inicia um novo Êxodo que
estava sendo preparado pela pregação de João Batista no deserto.
Os Evangelhos
de Mateus (Mt 3,3) e de Marcos (Mc 1,3) também citam a mesma frase de Isaías
mas citam apenas o começo (Is 40,3). Lucas a cita por inteiro até onde Isaías
diz: "E toda a carne verá a salvação de Deus" (Is 40,5). A expressão
"toda a carne" significa todo o ser humano. Esta pequena diferença
mostra a preocupação de Lucas em mostrar para as comunidades que a abertura
para os pagãos já estava prevista pelos profetas! Jesus não veio só para os
judeus, mas para que "toda a carne" pudesse ver a salvação de Deus.
Carlos
Mesters e Mercedes Lopes
SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (ANO C – 06.12.2015)
Uma profunda e abrangente mudança está em curso...
O Advento
não é um simples tempo espera, ele sugere mudanças. A liturgia do segundo
domingo nos convida a olhar para as experiências dos nossos antepassados e
celebrá-las como próprias, em vista de uma escuta atenta e responsável:
“Preparem o caminho!... Endireitem suas estradas!...” Nossa atenção é
requisitada pelo presente, e exclamamos: “Que Javé mude a nossa sorte, como as
torrentes do Negueb!” A profética convicção de que o lobo e o cordeiro pastarão
juntos nos convoca a práticas concretas de mudança, a fim de que as pessoas
humilhadas sejam elevadas.
O profeta
Baruc atua num tempo difícil. O povo hebreu vivia disperso em meio a uma
cultura hostil. A capital e seu suntuoso templo eram um monte de escombros. A
nação não existia mais. Era um tempo de luto e de lamentação, sem esperanças,
como o é hoje para as vítimas do “acidente” em Mariana e para os refugiados da
fome na Africa e das guerras no Oriente Médio. Neste contexto, as palavras do
profeta soam como um delírio: “Jerusalém, tire a roupa de luto e aflição e
vista para sempre o esplendor da glória que vem de Deus. Vista o manto da
justiça de Deus e a coroa gloriosa do Eterno...”
Os tempos
sombrios e desoladores escondem no próprio ventre sementes que pedem para
germinar e transformam os desertos em jardins. A gestação da nova humanidade e
da nova criação é compromisso firmado pelo próprio Deus, e começa com o
reconhecimento da nossa responsabilidade pelos males que agridem suas amadas
criaturas. É o próprio Deus que nos anima, orienta e sustenta. Ele nos batiza
com novos nomes e nos convoca a escalar os muros, olhar em todas as direções e
contemplar um povo novo que vai sendo reunido com gente que vem de todos os
lados.
Isso
significa que está em curso um amplo, profundo e misterioso processo de
gestação e de mudança, de dispersão dos orgulhosos e de libertação dos
humilados. O que precisamos é assumi-lo e cuidar dele como a mãe cuida da
criatura que carrega no seio, que depende dela mas não é sua propriedade.
Importa ajudar Deus na tarefa de rebaixar colinas e aterrar vales, de aplainar
o chão para facilitar seu crescimento e sua caminhada. E aqui podemos entender
a relevância da atividade e das palavras proféticas de João Batista...
O profeta
do Jordão sabe que é apenas o precursor de Algo
melhor e de Alguém maior que ele. Sua
missão transcorre num tempo em que coexistem e se articulam os poderosos da
Judéia, de Roma e do Templo. Ele rompe com Jerusalém, capital da terra prometida
que acabara se tornando centro de opressão, e se retira para o deserto, lugar
da impotência, da resistência, do êxodo e da transformação profunda. É esta
radicalidade profética que o faz grande, maior que os maiorais do seu tempo.
Convicto de que o tempo estava maduro para mudanças profundas e amplas, João
convoca seu povo a arregaçar as mangas: “Preparem o caminho do Senhor,
endireitem suas estradas!”
Para João,
a preparação deste caminho começa por endireitar as sinuosas curvas construídas
pelos doutores da lei. Estas curvas dificultam ou impedem aos mais pobres e
humildes o acesso à salvação, ou seja, ao reconhecimento da sua humana dignidade e dos seus direitos mais
elementares. Ele afirma que Deus está comprometido neste trabalho e faz a sua
parte: aterra os vales, aplaina as colinas, endireita as curvas e tapa os
buracos. Ou seja: vê a humilhação do seu povo, estende sua misericórdia a todas
as gerações, derruba os poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,48-55).
Horizontes
amplos e utopias de grande alcance são importantes. É absolutamente necessário
perceber que o universo inteiro aspira e conspira para que a vida seja possível
e abundante. Afastando-se de nós na mesma medida em que delas nos aproximamos,
as utopias cumprem o papel essencial de nos manterem na caminhada. Mas elas
também nos chamam à conversão, a mudanças profundas e concretas. Esta conversão
começa com mudanças no modo de ver a vida, mas precisa também ser traduzida em
práticas concretas e cotidianas no âmbito pessoal, familiar, comunitário e
societário.
Deus querido, pai e mãe que amas e elevas
os humilhados: ajuda-nos e acolher e viver o espírito do Advento, melhorando
nosso viver de modo corajoso e radical. Que nossa fé e nosso amor cresçam e
amadureçam em concretude e perspicácia. Que tuas Igrejas e cada um de nós nos
dediquemos mais a abrir portas e janelas que em erguer muros; mais a elevar as
pessoas humilhadas que a construir torres; mais na abertura de caminhos de
encontro que na formulação de dotrinas que produzem desencontros. E assim
estaremos preparando entre nós um lugar para o teu Filho. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profeta Baruc 5,1-9 * Salmo 125 (126) * Carta aos
Filipenses 1,4-11 * Evangelho de São Lucas 3,1-6)
A Boa noticia, dia-a-dia: 3, quinta
No caminho que nos leva ao encontro do Senhor que vem, acolhemos hoje a
companhia de São Francisco Xavier, o maior missionário católico da era moderna.
Mais que muitos, ele descobriu que nos tornamos humanos e cristãos vivendo
cotidianamente o Evangelho que nos põe em rota de saída e nos leva ao encontro
dos irmãos para servi-los, e não repetindo mantras, invocações e expressões
como “Senhor! Senhor!” No seu tempo, Francisco Xavier percebeu vivamente que os
muros fortificados das cidades espanholas e da Igreja da Europa não podiam reter
o Evangelho nem se fechar à entrada de “um povo justo, cumpridor da Palavra,
firme em seu propósito” (cf. Is 21,2-3). Era necessário abrir as portas a este
povo até então desconhecido de caminhar humilde, não necessariamente religioso
e cristão, através do qual Deus derruba aqueles que vivem nas alturas e humilha
as cidades orgulhosas. Que a França de hoje, assim como as cidades-fortalezas ou
cidades-mercado norte-americanas, respondam de que adianta cercar-se de muros
legais, de barreiras econômicas, de muros culturais... Acolhendo a companhia e
o exemplo de Francisco Xavier, caminhemos a passos firmes e solidários em
direção à periferia de Belém, e descubramos a companhia de Maria e José, que
também percorrem esta estrada: a estrada das pessoas prudentes e sensatas, que
ouvem a Palavra de Jesus e a encarnam em mil pequenas e grandes ações e gestos.
A essa gente,uma caravana imensa, mesmo que pouco visível, nem a chuva de
mercadorias supérfluas, nem o terremoto dos “impedimentos” decretados segundo a
conveniência política e a necessidade de defender o indefensável, nem as
avalanches de barragens plenas de dejetos minerais, podem abalar. (Itacir
Brassiani msf)
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
A Boa noticia, dia-a-dia: 2, quarta
Belém é, literalmente, a casa do pão. E
o pão de cada dia é para nós expressão do alimento básico que possibilita e mantém
a vida. A Palavra de Deus hoje nos lembra que, no desejo de Deus, não está
apenas o acesso ao alimento mínimo ao seu povo, mas “um banquete de ricas
iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos
vinhos”. No horizonte do sonho de Deus não estão apenas indivíduos isolados que
recebem uma cesta básica, mas um povo vivo e articulado, livre das teias que
aprisionam, sem as lágrimas de injustiçados e esquecidos. Jesus de Nazaré é o
lugar onde isso acontece. Na montanha, ele ocupa o espaço do templo, incapaz de
realizar este desejo de Deus. Jesus é a porta do céu da abundância, e os coxos,
os aleijados, os cegos, os mudos e os doentes são os protagonistas que ocupam o
lugar dos sacerdotes e mestres da lei. Em Jesus, a compaixão de Deus se faz
patente e potente, e a vida vem de roldão, para todos, começando pelos últimos.
Mas, tudo começa com o envolvimento ativo e compassivo daqueles que foram
seduzidos por ele, e com sua interpelação, ademais muito clara: “Onde vamos
buscar, neste deserto, tantos pães para saciar tamnha multidão?...” “Quantos
pães tendes?” Caminhemos, juntos, à casa do pão, onde Deus se faz alimento. E
enquanto caminhamos, inventariemos os pães que levamos nas sacolas, ofereçamo-los
a Jesus para que chegue a todos, e cantemos: “Vem, Senhor Jesus! O mundo
precisa de ti!” Ou, noutra versão: “Pão em todas as mesas!... E a festa haverá,
e o povo a cantar: Aleluia!”
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
A boa noticia, dia-a-dia: 1, terça
A vida cristã é uma espécie de ponte que
nos leva da saudade à esperança, da memória à utopia. Recordamos o nascimento
de Cristo para esperar mais responsavelmente sua vinda. Relembramos o êxodo
para esperar o advento. Celebramos a história para acender a utopia. Com
realismo utópico, cremos que dos tocos secos nascerão brotos, que crianças
brincarão com serpentes, que lobos e cordeiros brincarão juntos na relva. Mais
ainda, cremos na convivência pacífica e fraterna da família de todas as
criaturas: “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte: a terra
estará tão repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar... A
justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho...” (Is 11,9; Sl 71).
Eis porque exultamos e cantamos mesmo que ainda seja noite... Nossos olhos, os
discretos e argutos olhos da fé, são capazes de ver aquilo que ainda não
existe, mas está em gestação e virá à luz. Quem avalisa estes sonhos
desvairados é o próprio Jesus de Nazaré, o profeta da periferia: “Felizes os
olhos que veem o que vos vedes!” (Itacir Brassiani msf)
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