segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Boa noticia, dia-a-dia: 7, segunda

Os conterrâneos e contemporâneos de Jesuss exclamam entusiasmados: “Hoje vimo coisas maravilhosas!” O que viram eles? Viram que Jesus ensinava e impressionava com a clareza, a simplicidade e a humanidade do seu ensinamento. Mas ele completava e confirmava suas palavras com gestos que resgatavam a vida minguada das pessoas que o rodeavam. Viram também a insistência e a criatividade de muita gente para beneficiar as pessoas mais necessitadas. Como não sew impressionar com aquele grupo de gente carregando uma maca com um doente, subindo no telhado, abrindo um buraco e fazendo descer a maca e o paralítico à frente de Jesus? Como não se impressionar com a atenção de Jesus, que “vê” a fé daquela gente, e com sua declaração lapidar de que ninguém deve nada a Deus, de que os pecados que lhes são impingidos estão perdoados, de que o paralítico está livre e convocado a se levantar e caminhar? É a força da Palavra e da Compaixão que brota do próprio coração de Deus, aquela mesma palavra silenciosa e eloquente que contemplamos na manjedoura e no testemunho martirial das primeiras comunidades cristãs, e não só. Também nós podemos ver coisas maravilhosas acontecendo de forma mais ou menos discretas, mas sempre generosas, em incontáveis gestos e atitudes de Necas e Marias Josés, Veras e Chiquinhos, Rogérias e Marlenes, Vilmas e Bertilos, gente sem nome nas manchetes televisivas mas escritas no coração de Deus... (Itacir Brassiani msf)

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Boa noticia, dia-a-dia: 5, sabado

Compaixão é o DNA de Deus, e isso fica mais que evidente na vida de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Desde sempre e para sempre, movido pela Compaixão, ele é peregrino no Santuário das dores e esperanças humanas, todas, pregando boas notícias, compartilhando e curando todo tipo de doenças e enfermidades. É do encontro vivo e pessoal com ele, da participação na sua Compaixão, que brota a Vocação, a descoberta de que somos intimados a viver de Compaixão e dedicar tudo o que temos e somos para peregrinar com ele e colaborar com sua obra. E isso coincide com a percepção de que nossa mais plena felicidade e realização depende disso. Da escuta deste chamado, que vem de dentro e de todos os lados, passamos à descoberta de que viver é ter uma Missão, é ser enviado, é sair ao encontro dos irmãos e para fazer irmãos. Não há verdadeira intimidade com Deus sem a participação na sua Compaixão, sem a resposta ao chamado que ele faz e sem empenho na sua missão de reabilitar o povo que vive cansado e abatido, como ovelha sem pastor. Por fim, esta Missão é muito mais que satisfação, unção, consolação e quietude. A Missão de Jesus e nossa é marcada pela Libertação, que vai da afirmação da dignidade de todo o humano ser à transformação das estruturas que oprimem e excluem, passando pelo anúncio incansável do céu novo e da terra nova que estão em gestação, e pela denúncia de tudo aquilo que retarda ou impede sua chegada. E tudo isso de graça, pois de graça recebemos, como pura graça é o Natal, na gruta e na mangedoura de Belém ou nas mais recônditas grotas e rincões. (Itacir Brassiani msf)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA (ANO C – 08.12.2015)

Imaculada Conceição de Maria: muito mais que pureza!
Em meio à caminhada do Advento, a festa da Imaculada Conceição de Maria nos lembra que a humildade, a escuta e a fé na ação misericordiosa e libertadora de Deus são atitudes que levam à vida feliz. O segredo da felicidade não está na posse ou no consumo de bens, nem na fama ou no sucesso que alcançamos ou no poder de atração que exercemos, mas na abertura humilde e profunda aos outros, ao futuro e a Deus. O fechamento orgulhoso em nós mesmos e o apego doentio ao presente não são caminhos de crescimento, mas sinais de doença.
Lucas nos apresenta Maria como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e que está pronta a dar o melhor de si para que essa Palavra se realize na história. Isabel proclama que Maria é alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele que a pronuncia. Obviamente, não se trata de uma palavra escrita na Bíblia, mas de uma mensagem eloquente, escrita nos acontecimentos. Além disso, no belo poema atribuído a Maria e conhecido como Magnificat, a mãe de Jesus e nossa aparece também como uma pessoa humilde e humilhada.
A humildade, a escuta e a fé estão intrinsecamente relacionadas, e são as marcas fundamentais da personalidade de Maria. Se Deus pôde realizar grandes coisas nela e através dela é porque encontrou a indispensável base humana já preparada. Por isso, não fazemos bem quando idealizamos e espiritualizamos Maria, como se não fosse gente como a gente, pois corremos o risco de desumanizá-la completamente, tirando-a da história. Para fazer-se humano o Filho de Deus precisa de pessoas fundamentalmente humanas, e não de criaturas angélicas!
O Evangelho diz que, depois da profunda experiência de ser amada e de receber a vocação de dar à luz aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. O que ela busca? Um sinal que possa confirmar a parceria de Deus com os humildes e sua aliança com os pobres. Ela já havia dado sua palavra Àquele que é capaz de fazer grandes coisas em favor do povo humilhado, mas nem tudo estava claro. A discípula se faz serva, a serva se mostra peregrina, e a peregrina sai em busca da hospitalidade e do discernimento na casa de Isabel.
No recôndito doméstico e acolhedor da sua velha parenta, escondida entre as montanhas e vales que circundam Jerusalém, enquanto Zacarias permanece mudo e à margem de tudo, duas mulheres louvam a Deus e profetizam. A discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida. Contemplando sua própria história e a epopéia do seu povo, Maria percebe e proclama a intervenção libertadora de Deus: ele dispersa os soberbos, derruba os poderosos, eleva os humildes e oprimidos, socorre seu povo e estende sua misericórdia a todas as gerações.
Neste encontro entre Maria e Isabel, preparado e celebrado às margens do poder e da badalação, o corpo festeja e é festejado. É bendito o corpo feminino de Maria, assim como bendito é o corpo que ela carrega no ventre. Bendito é o corpo de Isabel, capaz de perceber a incontida alegria daquele que preparará a estrada para a chegada do Messias, e bendito é o corpo dos mártires de todos os tempos. Bendito é também o corpo dos humilhados e dispensados pelos sistemas fechados, mas desde sempre destinados por Deus ao brilho.
A festa da Imaculada Conceção de Maria sublinha de forma contundente a dignidade do corpo, de todos os corpos. Mas é uma proclamação da dignidade especialmente dos corpos humilhados por uma cultura que os transforma em meios de produção, em objetos que podem ser vendidos e comprados, em produtos expostos nas vitrines e passarelas, sem brilho e sem beleza. É também o reconhecimento da beleza e da nobreza dos corpos doentes e envelhecidos pelo tempo, assim como do corpo eclesial dos muitos e diferentes membros.
Maria de Nazaré, de Belém e de Jerusalém! Tu és mulher, mãe e companheira em todos os caminhos e aventuras que geram e dão à luz mundos, homens e mulheres novos. Então, acompanha-nos neste tempo de preparação para o Natal do teu filho, ensinando-nos a sonhar caminhos que nos levem a mudanças profundas, tanto no nível pessoal como no âmbito eclesial e social. Ajuda-nos a perceber que simples arranjos exterrnos e mudanças de fachada apenas enganam e prejudicam o radical dinamismo de reconciliação que teu filho nos confiou como herança e missão. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
Gênesis 3,9-15.20 * Salmo 97 (98) * Carta aos Efésios 1,3-6.11-12 * Lucas 1,26-38


A Boa noticia, di-a-dia:4, sexta

Às vezes um pequeno acidente, algo não previsto na rotina, ou mesmo um acidente sem feridos, como o que provoquei ontem, para que nosso ânimo mude radicalmente, as palavras se tornem poucas, duras e tristes. Onde vão parar as palavras de entrega, de doação e de estímulo aos companheiros? Até a Palavra de Deus parece perder grande parte da sua força e luminosidade... Daí que é preciso abrir os olhos, levantar o olhar, ver para além daquilo que contraria nossas agendas e nos traz algum desconforto. Em momentos como esse, precisamos reaprender a clamar, como os cegos que seguem Jesus até sua casa: “Tem piedade de nós, filho de Davi!” E deixar que ele toque nosso olhar. Então seremos capazes de cer is surdos ouvindo as Palavras do Livro e os olhos dos cegos vendo no meio das trevas e das sombras, os humildes aumentando sua parca cota de alegria e os pobres se rejubilando, o prepotente e o trapaceiro sucumbindo que enganam e oprimem com falsas palavras, como prevê o profeta (cf. Is 29,18-20). Que o Senhor nos dê hoje sua Sabedoria e suscite em nós palavras de entrega!... (Itacir Brassiani msf)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Evangelho dominical

NO MARCO DO DESERTO

Lucas tem interesse em indicar com detalhes o nome dos personagens que controlam naquele momento as diferentes esferas do poder político e religioso. Eles são quem planifica e dirige tudo. No entanto, o acontecimento decisivo de Jesus Cristo prepara-se e acontece fora do seu âmbito de influência e poder, sem que eles tomem conhecimento nem decidam nada.
Assim aparece sempre o essencial no mundo e nas nossas vidas. Assim penetra na história humana a graça e a salvação de Deus. O essencial não está nas mãos dos poderosos. Lucas diz concisamente que «a Palavra de Deus veio sobre João no deserto», não na Roma imperial nem no recinto sagrado do Templo de Jerusalém.
Em nenhuma parte se pode escutar melhor que no deserto, a chamada de Deus para mudar o mundo. O deserto é um território da verdade. O lugar onde se vive do essencial. Não há lugar para o supérfluo. Não se pode viver acumulando coisas sem necessidade. Não é possível o luxo nem a ostentação. O decisivo é procurar o caminho acertado para orientar a vida.
Por isso, alguns profetas recordam tanto o deserto, símbolo de uma vida mais simples e melhor enraizada no essencial, uma vida todavia sem distorções por tantas infidelidades a Deus e tantas injustiças com o povo. Neste marco do deserto, João Batista anuncia o símbolo grandioso do «Batismo», ponto de partida de conversão, purificação, perdão e início de vida nova.
Como responder hoje a esta chamada? O Batista resume-o numa imagem tomada de Isaías: «Preparai o caminho do Senhor». As nossas vidas estão semeadas de obstáculos e resistências que impedem ou dificultam a chegada de Deus aos nossos corações e comunidades, à nossa Igreja e ao nosso mundo. Deus está sempre próximo. Somos nós os que temos de abrir caminhos para acolhe-Lo encarnado em Jesus.
As imagens de Isaías convidam a compromissos muito básicos e fundamentais: cuidar melhor do essencial sem nos distrairmos com o secundário; retificar o que temos vindo a deformar entre todos; tomar caminhos difíceis; afrontar a verdade real das nossas vidas para recuperar um perfil de conversão. Temos de cuidar bem dos batismos das nossas crianças, mas o que necessitamos todos é um «batismo de conversão».

José Antonio Pagola

Como preparar o natal?

Partilha: a condição para receber a visita de Deus (Lc 3,1-6)


Neste texto, Lucas fala da grande expectativa que se criou no povo ao redor da pregação de João Batista. Ele anunciava um batismo de conversão para o perdão dos pecados. Hoje também existe uma grande expectativa de conversão e de reconciliação com Deus que se manifesta de muitas maneiras.
Situando
Lucas situa a atividade de João Batista no 15º ano do governo de Tibério, imperador de Roma. Tibério foi imperador de 14 a 37 depois de Cristo. No ano 63 antes de Cristo, o império romano tinha invadido a Palestina, impondo ao povo uma dura escravidão. As revoltas populares se sucediam, uma depois da outra, sobretudo na Galileia, mas foram duramente reprimidas.
Do ano 4 antes ao ano 6 depois de Cristo, durante o governo de Arquelau, a violência estourou na Judeia. Este fato levou José e Maria a voltarem para Nazaré na Galileia e não para Belém na Judeia (Mt 2,22).  No ano 6, Arquelau foi deposto e a Judeia foi transformada numa província romana com procurador diretamente nomeado pelo imperador de Roma.
Pilatos foi um destes procuradores. Governou do ano de 26 a 36. Esta mudança no regime político trouxe certa calma, mas as revoltas esporádicas, como aquela de Barrabás (Mc 15,7) e a imediata repressão romana (Lc 13,1), lembravam a extrema gravidade da situação. 
Bastava alguém soprar na brasa e o incêndio da revolta explodia!A calma era apenas uma trégua, uma ocasião oferecida pela história, por Deus, para o povo fazer uma revisão do rumo da caminhada e, assim, evitar a destruição total. Pois Roma era cruel. Em caso de uma revolta, viria e acabaria com o Templo e a Nação. É nesse contexto que, em torno do ano 28 depois de Cristo, João Batista aparece anunciando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados.
Comentando
Lucas 3,1-2: A Palavra profética inserida na história
Lembrando os antigos profetas, Lucas tem a preocupação de situar os acontecimentos no tempo e no espaço. Ele dá os nomes dos governantes e descreve os lugares onde João atua. Pois a história da salvação não é uma história distinta da nossa. Ela é a nossa história.
A maneira como Lucas introduz a pregação de João é semelhante ao início dos livros dos antigos profetas. Eles costumavam indicar quem era o rei na época em que o profeta exercia a sua atividade. Veja, por exemplo, Isaías (Is 1,1), Jeremias (Jr 1,1-3), Oseias (Os 1,1), Amós (Am 1,1) e outros. Lucas faz o mesmo para dizer que, após quase 500 anos sem profeta, aparece novamente um profeta. Ele se chama João, o filho de Isabel e Zacarias.
Lucas 3,3: Arrependimento e perdão
João percorre a região do Jordão pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. Arrependimento (em grego: metonoia) significa mudança não só de comportamento, mas também de mentalidade. O povo devia tomar consciência de que o seu modo de pensar, marcado pela propaganda do Governo e do Templo, estava errado. Perdão traz consigo a reconciliação com Deus. João anuncia uma nova maneira do povo se relacionar com Deus.
Lucas 3,4-6: Definindo a missão de João
Lucas cita o seguinte texto de Isaías para ajudar os leitores e as leitoras a entenderem melhor o significado da pregação de João: "Voz que clama no deserto! Preparem os caminhos do Senhor!" (Is 40,3).
Neste texto, Isaías anunciava a volta do povo do exílio e a descrevia como se fosse um novo Êxodo. Era como se o povo, voltando do cativeiro da Babilônia, saísse do Egito e entrasse novamente no deserto. Para Lucas, Jesus inicia um novo Êxodo que estava sendo preparado pela pregação de João Batista no deserto.
Os Evangelhos de Mateus (Mt 3,3) e de Marcos (Mc 1,3) também citam a mesma frase de Isaías mas citam apenas o começo (Is 40,3). Lucas a cita por inteiro até onde Isaías diz: "E toda a carne verá a salvação de Deus" (Is 40,5). A expressão "toda a carne" significa todo o ser humano. Esta pequena diferença mostra a preocupação de Lucas em mostrar para as comunidades que a abertura para os pagãos já estava prevista pelos profetas! Jesus não veio só para os judeus, mas para que "toda a carne" pudesse ver a salvação de Deus.
Carlos Mesters e Mercedes Lopes

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (ANO C – 06.12.2015)

Uma profunda e abrangente mudança está em curso...

O Advento não é um simples tempo espera, ele sugere mudanças. A liturgia do segundo domingo nos convida a olhar para as experiências dos nossos antepassados e celebrá-las como próprias, em vista de uma escuta atenta e responsável: “Preparem o caminho!... Endireitem suas estradas!...” Nossa atenção é requisitada pelo presente, e exclamamos: “Que Javé mude a nossa sorte, como as torrentes do Negueb!” A profética convicção de que o lobo e o cordeiro pastarão juntos nos convoca a práticas concretas de mudança, a fim de que as pessoas humilhadas sejam elevadas.
O profeta Baruc atua num tempo difícil. O povo hebreu vivia disperso em meio a uma cultura hostil. A capital e seu suntuoso templo eram um monte de escombros. A nação não existia mais. Era um tempo de luto e de lamentação, sem esperanças, como o é hoje para as vítimas do “acidente” em Mariana e para os refugiados da fome na Africa e das guerras no Oriente Médio. Neste contexto, as palavras do profeta soam como um delírio: “Jerusalém, tire a roupa de luto e aflição e vista para sempre o esplendor da glória que vem de Deus. Vista o manto da justiça de Deus e a coroa gloriosa do Eterno...”
Os tempos sombrios e desoladores escondem no próprio ventre sementes que pedem para germinar e transformam os desertos em jardins. A gestação da nova humanidade e da nova criação é compromisso firmado pelo próprio Deus, e começa com o reconhecimento da nossa responsabilidade pelos males que agridem suas amadas criaturas. É o próprio Deus que nos anima, orienta e sustenta. Ele nos batiza com novos nomes e nos convoca a escalar os muros, olhar em todas as direções e contemplar um povo novo que vai sendo reunido com gente que vem de todos os lados.
Isso significa que está em curso um amplo, profundo e misterioso processo de gestação e de mudança, de dispersão dos orgulhosos e de libertação dos humilados. O que precisamos é assumi-lo e cuidar dele como a mãe cuida da criatura que carrega no seio, que depende dela mas não é sua propriedade. Importa ajudar Deus na tarefa de rebaixar colinas e aterrar vales, de aplainar o chão para facilitar seu crescimento e sua caminhada. E aqui podemos entender a relevância da atividade e das palavras proféticas de João Batista...
O profeta do Jordão sabe que é apenas o precursor de Algo melhor e de Alguém maior que ele. Sua missão transcorre num tempo em que coexistem e se articulam os poderosos da Judéia, de Roma e do Templo. Ele rompe com Jerusalém, capital da terra prometida que acabara se tornando centro de opressão, e se retira para o deserto, lugar da impotência, da resistência, do êxodo e da transformação profunda. É esta radicalidade profética que o faz grande, maior que os maiorais do seu tempo. Convicto de que o tempo estava maduro para mudanças profundas e amplas, João convoca seu povo a arregaçar as mangas: “Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas!”
Para João, a preparação deste caminho começa por endireitar as sinuosas curvas construídas pelos doutores da lei. Estas curvas dificultam ou impedem aos mais pobres e humildes o acesso à salvação, ou seja, ao reconhecimento da sua  humana dignidade e dos seus direitos mais elementares. Ele afirma que Deus está comprometido neste trabalho e faz a sua parte: aterra os vales, aplaina as colinas, endireita as curvas e tapa os buracos. Ou seja: vê a humilhação do seu povo, estende sua misericórdia a todas as gerações, derruba os poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,48-55).
Horizontes amplos e utopias de grande alcance são importantes. É absolutamente necessário perceber que o universo inteiro aspira e conspira para que a vida seja possível e abundante. Afastando-se de nós na mesma medida em que delas nos aproximamos, as utopias cumprem o papel essencial de nos manterem na caminhada. Mas elas também nos chamam à conversão, a mudanças profundas e concretas. Esta conversão começa com mudanças no modo de ver a vida, mas precisa também ser traduzida em práticas concretas e cotidianas no âmbito pessoal, familiar, comunitário e societário.
Deus querido, pai e mãe que amas e elevas os humilhados: ajuda-nos e acolher e viver o espírito do Advento, melhorando nosso viver de modo corajoso e radical. Que nossa fé e nosso amor cresçam e amadureçam em concretude e perspicácia. Que tuas Igrejas e cada um de nós nos dediquemos mais a abrir portas e janelas que em erguer muros; mais a elevar as pessoas humilhadas que a construir torres; mais na abertura de caminhos de encontro que na formulação de dotrinas que produzem desencontros. E assim estaremos preparando entre nós um lugar para o teu Filho. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profeta Baruc 5,1-9 * Salmo 125 (126) * Carta aos Filipenses 1,4-11 * Evangelho de São Lucas 3,1-6)

A Boa noticia, dia-a-dia: 3, quinta

No caminho que nos leva ao encontro do Senhor que vem, acolhemos hoje a companhia de São Francisco Xavier, o maior missionário católico da era moderna. Mais que muitos, ele descobriu que nos tornamos humanos e cristãos vivendo cotidianamente o Evangelho que nos põe em rota de saída e nos leva ao encontro dos irmãos para servi-los, e não repetindo mantras, invocações e expressões como “Senhor! Senhor!” No seu tempo, Francisco Xavier percebeu vivamente que os muros fortificados das cidades espanholas e da Igreja da Europa não podiam reter o Evangelho nem se fechar à entrada de “um povo justo, cumpridor da Palavra, firme em seu propósito” (cf. Is 21,2-3). Era necessário abrir as portas a este povo até então desconhecido de caminhar humilde, não necessariamente religioso e cristão, através do qual Deus derruba aqueles que vivem nas alturas e humilha as cidades orgulhosas. Que a França de hoje, assim como as cidades-fortalezas ou cidades-mercado norte-americanas, respondam de que adianta cercar-se de muros legais, de barreiras econômicas, de muros culturais... Acolhendo a companhia e o exemplo de Francisco Xavier, caminhemos a passos firmes e solidários em direção à periferia de Belém, e descubramos a companhia de Maria e José, que também percorrem esta estrada: a estrada das pessoas prudentes e sensatas, que ouvem a Palavra de Jesus e a encarnam em mil pequenas e grandes ações e gestos. A essa gente,uma caravana imensa, mesmo que pouco visível, nem a chuva de mercadorias supérfluas, nem o terremoto dos “impedimentos” decretados segundo a conveniência política e a necessidade de defender o indefensável, nem as avalanches de barragens plenas de dejetos minerais, podem abalar. (Itacir Brassiani msf)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Boa noticia, dia-a-dia: 2, quarta

Belém é, literalmente, a casa do pão. E o pão de cada dia é para nós expressão do alimento básico que possibilita e mantém a vida. A Palavra de Deus hoje nos lembra que, no desejo de Deus, não está apenas o acesso ao alimento mínimo ao seu povo, mas “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”. No horizonte do sonho de Deus não estão apenas indivíduos isolados que recebem uma cesta básica, mas um povo vivo e articulado, livre das teias que aprisionam, sem as lágrimas de injustiçados e esquecidos. Jesus de Nazaré é o lugar onde isso acontece. Na montanha, ele ocupa o espaço do templo, incapaz de realizar este desejo de Deus. Jesus é a porta do céu da abundância, e os coxos, os aleijados, os cegos, os mudos e os doentes são os protagonistas que ocupam o lugar dos sacerdotes e mestres da lei. Em Jesus, a compaixão de Deus se faz patente e potente, e a vida vem de roldão, para todos, começando pelos últimos. Mas, tudo começa com o envolvimento ativo e compassivo daqueles que foram seduzidos por ele, e com sua interpelação, ademais muito clara: “Onde vamos buscar, neste deserto, tantos pães para saciar tamnha multidão?...” “Quantos pães tendes?” Caminhemos, juntos, à casa do pão, onde Deus se faz alimento. E enquanto caminhamos, inventariemos os pães que levamos nas sacolas, ofereçamo-los a Jesus para que chegue a todos, e cantemos: “Vem, Senhor Jesus! O mundo precisa de ti!” Ou, noutra versão: “Pão em todas as mesas!... E a festa haverá, e o povo a cantar: Aleluia!”

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A boa noticia, dia-a-dia: 1, terça

A vida cristã é uma espécie de ponte que nos leva da saudade à esperança, da memória à utopia. Recordamos o nascimento de Cristo para esperar mais responsavelmente sua vinda. Relembramos o êxodo para esperar o advento. Celebramos a história para acender a utopia. Com realismo utópico, cremos que dos tocos secos nascerão brotos, que crianças brincarão com serpentes, que lobos e cordeiros brincarão juntos na relva. Mais ainda, cremos na convivência pacífica e fraterna da família de todas as criaturas: “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte: a terra estará tão repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar... A justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho...” (Is 11,9; Sl 71). Eis porque exultamos e cantamos mesmo que ainda seja noite... Nossos olhos, os discretos e argutos olhos da fé, são capazes de ver aquilo que ainda não existe, mas está em gestação e virá à luz. Quem avalisa estes sonhos desvairados é o próprio Jesus de Nazaré, o profeta da periferia: “Felizes os olhos que veem o que vos vedes!” (Itacir Brassiani msf)