segunda-feira, 8 de abril de 2013

Fatos & Personagens: a ilha que desobedeceu ao FMI

A boa saúde

No ano de 2011, no dia 9 de abril, pela segunda vez a população da Islândia disse não às ordens do Fundo Monetário Internacional.

O FMI e a União Européia tinham decidido que os trezentos e vinte mil habitantes da Islândia deveriam assumir a bancarrota dos banqueiros e pagar suas dívidas internacionais na base de doze mil euros por cabeça.

Essa socialização pelo avesso foi rejeitada em dois plebiscitos. “Essa dívida não é nossa. Por que vamos pagar?”

Num mundo enlouquecido pela crise financeira, a pequena ilha perdida nos mares do norte nos deu, a todos nós, uma saudável lição de bom-senso.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 123)

Solenidade da Anunciação


Anunciação: Deus reconhece e aprecia nossa graciosidade!
(Zc 7,10-14; 8,10; Sl 39/40; Hb 10,4-10; Lc 1,26-38)
A celebração da Anunciação recorda que Deus é substancialmente dom que se faz carne e corpo e assume o ser humano como sua morada. Assumindo a corporeidade humana, o Filho entende cumprir a vontade (e não apenas uma vontade) do Pai. A ele não agradam sacrifícios e holocaustos, que eliminam carne e corpo, mas uma vida capaz de amar no corpo e na carne. Deus e humanidade estão absolutamente e desde sempre comprometidos e imbricados um com o outro. Deus é o destino do ser humano, e a criatura humana é a morada de Deus.
“Alegre-se, cheia de graça!”
O anúncio do mensageiro de Deus é dirigido a Maria, mas não tem nela seu termo. Na anunciação, Maria representa a humanidade que é querida por Deus como sua morada e sua parceira. As palavras do anjo nos asseguram que, aos olhos de Deus, a humanidade é cheia de graça, bonita e charmosa. Por isso, não podemos nos contentar com coisas de pequena monta, projetos acanhados e interesses mesquinhos. Deus tem grandes planos para realizar por nós e através de nós!
É claro que frequentemente o medo limita nossas iniciativas e não sabemos bem como fazer as coisas. O que o mensageiro divino pede é que saibamos confiar na força criadora do Espírito de Deus, pois ele transforma montes de ossos secos e vales áridos em comunidades vivas e roças abundantes. Quando a humanidade se mantém aberta à iniciativa de Deus, nada é impossível. Quando estamos convictos de que Deus aposta em nós, tudo é possível.
“O Senhor está com você!”
Em nossas celebrações repetimos várias vezes “Ele está no meio de nós!” Mas esta presença de Deus em nosso meio não é automática nem inócua. Ela depende da nossa adesão ao projeto de Deus e, ao mesmo tempo, interpela a uma resposta consequente. Implica sempre num discernimento dessa presença e dessa vontade no meio dos acontecimentos humanos. Isso é próprio de um Deus que fala e age de modo humano, que mistura seu Espírito à nossa carne.
O rei Acaz se recuss a discernir os sinais de Deus, mas não consegue se livrar da responsabilidade de se posicionar frente às dores e esperanças do seu povo. Para justificar sua omissão, o rei recorre inclusive à teologia, afirmando que não pode colocar Deus à prova. Tomando a palavra, o profeta diz que Deus é capaz de fazer a vida brotar nos corpos virgens e estar ao lado do seu povo nos momentos difíceis e nas lutas mais árduas. Seu nome é Emanuel, Deus-conosco.
Na espiritualidade da Sagrada Família damos centralidade à encarnação, na qual “se manifesta o dom de Deus aos homens”. Nesta humilde e discreta família hebréia, na concretude e na simplicidade estonteante de Jesus de Nazaré, Deus se mostra o presente mais precioso e se faz presença definitiva na carne vulnerável e fértil, na busca comunitária e sem descanso de sua vontade, nas múltiplas alianças vividas cotidianamente para levar todas as pessoas à única família do Pai.
“Tu me deste um corpo!”
A carta aos Hebreus nos apresenta um diálogo orante de Jesus com o Pai. Segundo esta carta, a encarnação é uma resposta generosa que substitui sacrifícios e ofertas. Assim, sgundo Jesus Cristo, assumir a condição humana com suas possibilidades e debilidades, fazer-se próximo e irmão é uma ação mais importante e agradável a Deus que qualquer oferenda ou ato litúrgico. A encarnação não se dá em vista dos socrifícios mas para substituí-los! O corpo não é um elemento a ser sacrificado mas assumido, já que seu valor supera as ofertas e sacrifícios.
Ao mesmo tempo, a encarnação expressa a resposta humana e divina diante de Deus. “Eis-me aqui para fazer a tua vontade.” Trata-se de assumir a corporeidade histórica, assim como as relações humanas e as estruturas sociais, para realizar no mundo a vontade de Deus, para ajudar na plenificação da vida de todas as criaturas. Ser corpo, permanecer no corpo, humanizar os corpos é um meio para realizar a vontade de Deus e uma expressão do seu cumprimento. Claro que se trata, em primeiro lugar, do corpo dos outros, e não de uma auto-complacência fechada e egoísta.
“Para Deus nada é impossível.”
A maioria das religiões parece temer a corporeidade e a matéria e, por isso, criam normas e sistemas para afastar os fiéis do mundo concreto e fixar a atenção num hipotético mundo espiritual. O próprio cristianismo não está livre desta tentação. A ideologia que afirma a existência de dois mundos diversos e opostos e de duas histórias paralelas diminui a força de fermentação e de transformação da fé e reduz a religião a um acontecimento privado e íntimo. E um dos frutos desta concepção é a idéia de que algumas mudanças são impossíveis.
Ora, a encarnação traz consigo a afirmação de que para Deus nada é impossível, e não se trata apenas da concepção virginal. Maria representa a comunidade eclesial e, num sentido mais amplo, a humanidade, e o que o anjo afirma é que não há limites para a ação divina, nem mesmo nossa recusa intransigente. O desejo profundo de Zacarias e de Isabel, a esperança viva de Maria e de José, a radical expectativa do Reino por parte dos oprimidos abrem possibilidades de uma intervenção radical e transformadora de Deus na história mediante a encarnação. Para Deus não é impossível, antes, é desejável fazer-se presente no corpo humano e humanizador.
Inspirados pela encarnação que se realiza na Sagrada Família de Nazaré, compreendemos que é inadiável a missão de encontrar ou abrir vias para destruir os muros que separam e “conduzir todos os homens e mulheres à única família do Pai”. E isso para além das diferenças étnicas, culturais, etárias, econômicas, políticas, sociais, etc. Os dons recebidos, se não forem comunicados e compartilhados, perdem tanto sua beleza como sua vitalidade.
“Eis aqui a serva do Senhor!”
O sim discreto e comprometido de Maria abre possibilidades inauditas para a humanidade. Para fazer-se carne, Deus bate à porta das  criaturas e se fica à espera da sua resposta. Acolhendo a proposta divina, Maria nos mostra que a atitude que melhor contribui para a realização da vontade de Deus não é a de ser senhora e patroa, mas humilde servidora. Aquele que eleva os humildes e rebaixa os orgulhosos escolhe servos/as e parceiros/as aos quais confia sua obra libertadora.
Mas é claro que a postura de servidora assumida por Maria não tem nada de ingenuidade ou de passividade. No seu cântico, Maria mostra que servir o Senhor e cumprir sua vontade significa discernir a ação na Deus na elevação dos humilhados e no atendimento das necessidades dos famintos, assim como na limitação do poder dos poderosos e dos bens dos ricos. Em Maria e na vida dos cristãos, o serviço não se casa com a ausência de crítica social e teológica.
Tanto quanto manifetação do dom de Deus à humanidade, o evento da encarnação nos mostra “a resposta do homem ao dom de Deus na sua expressão mais clara”. A encarnação não é apenas o movimento descendente e condescendente de Deus em direção à humanidade e ao corpo, mas também o movimento ascendente e transcendente dos homens e mulheres que pronunciam e mantém seu sim à proposta de Deus. Nossa mãe Maria, nosso pai José e nosso irmão Jesus, na sua radical disponibilidade ao projeto de Deus, são as mais belas flores desta nossa humanidade ferida e redimida.
“Não escondi tua justiça dentro do meu coração...”
Aproximemo-nos agradecidos/as e necessitados/as da mesa do Senhor. Ofereçamos a ele nosso corpo vivo e comprometido com novas relações, e assim ele nos dará seu próprio corpo e nos acolherá numa vida cujo dinamismo nada pode estancar. E rezemos com a alegria e o espanto das comunidades antigas: “Alegra-te, tu que és o trono do Rei. Alegra-te, pois carregas aquele que tudo carrega. Alegra-te, estrela que revelas o sol. Alegra-te, útero da divina encarnação. Alegra-te, pois por meio de ti a encarnação se renova. Alegra-te, porque por meio de ti o Criador se faz criatura, o Senhor se faz servo, o grande se faz criança. Alegra-te, Maria, cheia de graça! O Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus!”
Pe. Itacir Brassiani msf

domingo, 7 de abril de 2013

A Palavra de Deus na nossa vida (7)


2 Coríntios 2,1-17. O perfume do Evangelho
Paulo havia decidido não ir a Corinto para não afligir a comunidade. A tristeza da comunidade haveria entristecido também a ele. Por outro lado, Paulo não queria dominar as comunidades, queria ajudá-las a crescer amavelmente. Por isso, havia enviado uma carta (que foi perdida), escrita “entre muitas lágrimas”, na qual manifestava sua preocupação e seu desprazer, mas para que percebessem a grande estima que tinha pelos cristãos de Corinto. Não que seu desgosto, causado por aqueles que o tinham ofendido pessoalmente, tivesse desaparecido (cf. 7,12). Na verdade, é toda a comunidade que foi ofendida por tais pessoas. E era justo puni-las. Mas a punição, diz Paulo, não deve ser imposta com dureza: o necessário exercício da correção não deve colocar em perigo a salvação dos culpados. Por isso, é necessário usar a caridade do perdão com quem semeou discórdia. Apesar das dificuldades surgidas, Paulo não deixa de dar graças a Deus por tê-lo feito partícipe do Evangelho da ressurreição, aquele Evangelho que comunicou a todos incansavelmente, sobretudo aos pagãos, e que se tornou “perfume de Cristo” para o mundo inteiro. Paulo tem consciência de que o anúncio do Evangelho é o fundamento da vida cristã, e que, para aqueles que o escutam, o Evangelho se torna uma ocasião decisiva para escolher entre a vida e a morte. Quem acolhe o Evangelho se torna o perfume de Cristo. Daqui nasce a responsabilidade de não privar ninguém da Palavra de vida que vem de Deus. Fortalecidos pelo Evangelho, comuniquemo-lo com franqueza e generosidade, a fim de que chege ao mundo inteiro o perfume de Cristo.
Reflexão preparada pela Comunidade Santo Egídio de Roma e traduzida ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

sábado, 6 de abril de 2013

A Palavra de Deus na nossa vida (6)


Domingo, 7 de abril: II Domingo da Páscoa
At 5,12-16; Sl 117; Ap 1,9-13.17-19; Jo 20,19-31: Domingo da Divina Misericórdia. Memória do genocídio de 1994, na Ruanda. Para os hebreus, é o dia da memória da Shoah, no qual é recordado o extermínio do seu povo nos campos nazistas.
Na tarde do domingo da Páscoa os apóstolos continuavam trancados no cenáculo. Jesus havia passado quase todo o dia com dois anônimos discípulos que retornavam tristes a Emaús, onde moravam. O Evangelho deste segundo domingo da Páscoa (Jo 20,19-31), nos conduz à tarde daquele dia.
O evangelista nos conta que, enquanto os discípulos estavam reunidos “com as portas fechadas por medo dos judeus”, Jesus entrou e se colocou no meio deles. Ele lhes havia dito na última ceia: “Eu voltarei a vós. Ainda um pouco de tempo e o mundo não mais me verá; mas vós me vereis, porque eu vivo, e vós vivereis” (Jo 14,18-19). Mas eles não haviam entendido e, de qualquer modo, não haviam acreditado.
Naquela tarde da páscoa inicia para eles uma nova compreensão de Jesus. Agora vêem um Jesus diferente, ressuscitado, mesmo que seja muito parecido com o Jesus de antes: no seu corpo são visíveis os sinais dos pregos e o corte da lança, como se se quisesse dizer que estamos apenas no inicio da ressurreição. Muitos são ainda hoje os corpos marcados pelas feridas e sofrimentos que esperam uma ressurreição...
Jesus ressuscitado está ali, no meio dos seus, para confiar-lhes sua própria missão: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Se trata de uma única missão, que parte do Pai e, através de Jesus, é transmitida aos discípulos: é a missão de levar ao mundo a paz e o perdão. Foi uma tarde cheia de alegria para aqueles dez discípulos: eles haviam reencontrado o Senhor. Os dois discípulos de Emaús, que voltaram na noite que se seguiu, aumentaram ainda mais a alegria.
Mas Tomás, homem disponível e generoso, não estava presente. Uma vez ele havia dito que estava pronto a morrer por Jesus, mesmo que depois tenha fugido, como todos os demais discípulos. Quando os dez lhe dizem que tinham visto o Senhor, Tomás esfria os ânimos com sua resposta: “Se não vir a marca dos pregos nas suas mãos, se eu não puser o dedo na marca dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (20,25).
Tomás diz inicialmente “se não vir” e, depois acrescenta, considerando que também os olhos podem enganar (certamente Tomás não quer fazer parte do crescente número de videntes) uma prova física um pouco brutal: pôr o dedo no buraco deixado pelos pregos e a mão na brecha aberta pela lança no peito de Jesus. Tomás não acolhe o anúncio dos dez e permanece, não sem suas razões, triste e sem esperança.
Depois de oito dias, exatamente como no domingo de hoje, estando todos de novo reunidos, e Tomás com eles, Jesus volta. Mais uma vez, as portas estavam fechadas por causa do medo. Todos sentem medo, inclusive Tomás: a falta de fé e o medo estão sempre juntos. Depois de saudá-los mais uma vez desejando a paz, imediatamente Jesus procura Tomás com o olhar, chama ele pelo nome e se aproxima: “Põe o teu dedo aqui, e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!” (20,27).
Diante de Jesus, ainda marcado pela cruz, Tomás não pode senão confessar sua fé: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus replica: “Creste porque me viste? Felizes os que, sem terem visto, creram!” (20,29). É a última bem-aventurança do Evangelho, aquela que sustenta as geraçãos que doravante não nascerão da visão mas da escuta do Evangelho anunciado pelos apóstolos.
Uma antiga lenda diz que a mão de Tomás permanece vermelha de sangue até à sua morte. O Senhor, como se recolhesse nossa pouca fé, exorta cada um de nós, como fez a Tomás, a tocar com as mãos as feridas da humanidade, a aproximarmo-nos das situações de martírio e de abandono: a nossa incredulidade é assumida pelo Senhor e transformada em amizade e fonte de paz. A escuta do Evangelho e a caridade são a estrada da nossa felicidade.
Reflexão preparada pela Comunidade Santo Egídio de Roma e traduzida ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

A Palavra de Deus na nossa vida


Marcos 16,9-15. Ide por todo o mundo
Assim como João, também Marcos nos diz que Jesus ressuscitado aparece antes de tudo a Maria Madalena. Esta mulher, que Jesus havia libertado de sete demônios, se torna a primeira anunciadora da ressurreição. Ela, “que muito amou”, e a quem, por isso, muito foi perdoado, recebe o privilégio de ser a primeira discípula do ressuscitado e a primeira que recebe a missão de anunciar sua ressurreição. Os apóstolos, mostrando mais uma vez sua sordidez, não acreditam. Ainda esão escravos da mentalidade deste mundo e, sobretudo, do próprio esquecimento. Desde o primeiro momento da ressurreição, o Senhor se serve da fragilidade dessa mulher para confundir a presunção dos discípulos. A tradição bizantina, com grande sabedoria espiritual, a chama “apóstola dos apóstolos”. Em poucas linhas, o evangelista retoma o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús (narrado mais amplamente por Lucas) e sublinha que ele ainda não havia aparecido aos apóstolos, ou seja, àqueles que havia colocado à frente da sua Igreja. E mais uma vez os apóstolos não conseguem acreditar nos dois discípulos que contam aquilo que lhes havia acontecido. Parece que o evangelista quer sublinhar que a dificuldade de crer na ressurreição vem desde o início da Igreja, desde os primeiros dias. De qualquer modo, a incredulidade e as dificuldades que os discípulos experimentam não podem deter a urgente missão de anunciar a todos a vitória de Jesus sobre a morte. A cada discípulo é confiada a missão grave e honrosa de comunicar a ressurreição de Jesus, sua vitária sobre o mal e a morte. E não é por acaso que os primeiros anunciadores da ressurreição não são os apóstolos, mas uma mulher e dois discípulos anônimos. É como para dizer que é tarefa de cada fiel comunicar o Evangelho da Páscoa.
Reflexão preparada pela Comunidade Santo Egídio de Roma e traduzida ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Segundo Domingo da Pascoa


A missão brota do encontro pessoal com Jesus ressuscitado
(At 5,12-16; Sl 117/118; Ap 1,9-13.17-19; Jo 20,19-31)
A experiência da ressurreição de Jesus Cristo é feita em ritmo de missão. As portas da Igreja não podem permanecer fechadas, nem por medo, nem por comodismo. A Paz que Jesus nos oferece fazendo-se presente nas celebrações, não escondendo as marcas no seu corpo ferido, não pode ser acolhida como um convite ao deleite e à tranquilidade. Ele nos envia como cordeiros que arcam com o peso do pecado do mundo, que multiplicam seus gestos de compaixão libertadora. “Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês.” Não lamentemos se não tivemos a graça de tocar nas mãos chagadas de Jesus Cristo ressuscitado. Não temos necessidade disso para reconhecer os outros como irmãs e irmãos e partir em missão, pois fazemos parte dos/as discípulos/as felizes porque acreditam mediante o testemunho daqueles/as que santificam o Nome de Deus porque morrem defendendo a vida, como o fizeram nossos irmãos mártires evangélicos Martin Luther King (+04.04.1968) e Dietrich Bohnoeffer (+09.04.1945).
“Jesus entrou e pôs-se no meio deles.”
Naquela noite do primeiro dia da semana as portas da sala onde se encontravam os discípulos desiludidos e assustados estavam firmemente trancadas. O ambiente externo era hostil e aquele punhado de sonhadores cheios de ambiguidade sentia-se desamparado. A lembrança da traição de Jesus por um dos discípulos, da negação pública de um dos principais e da deserção de quase todos doía e envergonhava. Era noite por fora e por dentro, e nem mesmo a Boa Notícia anunciada por Maria Madalena – “Eu vi o Senhor! – conseguia arrancá-los daquela prostração.
A noite e aquele ambiente fechado contrasta com a manhã luminosa e o ambiente aberto no qual Maria Madalena se encontra com Jesus ressuscitado (cf. Jo 20,1-18). Os discípulos vivem aquela mesma sensação de escuridão e ameaça que haviam experimentado enquanto atravessavam o lago, depois da tentativa frustrada de transformar Jesus em rei (cf. Jo 6,16-21). Mas as trevas da noite costumam ser proporcionais à luz da aurora que se esconde no seu ventre. Como aquela noite na qual Deus fez vigília e iniciou a libertaòão do povo do Egito (cf. Ex 12,42; Dt 16,1).
Superando todos os obstáculos, Jesus irrompe no meio dos discípulos. Não vem com acusações ou advertências. Os discípulos se alegram quando Jesus, mostrando-lhes as mãos e o lado, se apresenta como Cordeiro com o qual se inicia a festa do êxodo libertador. “A paz esteja convosco!” Ele faz questão de mostrar as mãos nas quais o Pai tinha posto tudo (cf. Jo 13,3); as mãos que realizaram as ações de Deus (cf. Jo 3,36); as mãos firmes das quais nenhuma ovelha pode ser arrancada (cf. Jo 10,28). Estas mãos simbolizam a historicidade e a concretude humana da sua presença na comunidade de fé.
“Como o Pai me enviou, também eu vos envio.”
É a experiência de uma presença que rompe os fechamentos e ilumina as trevas, alegra e pacifica os discípulos. “Então, se alegraram por verem o Senhor.” Porém Jesus parece querer evitar a tentação de uma paz que consola tanto quanto acomoda. Como Deus havia feito no início da criação, Jesus transmite seu Sopro aos discípulos e os constitui agentes vivificadores, sinais e instrumentos de uma nova  criação. “Então soprou sobre eles e falou: ‘Recebei o Espírito Santo’.”
Assim, a experiência pascal é mais que a certeza da presença de Jesus ressuscitado no seio de uma comunidade recolhida e encurralada pelo medo de um mundo hostil ou complacente consigo mesma. É também o êxodo corajoso e libertador de todos os fechamentos e redis para prosseguir o caminho trilhado por Jesus Cristo e estender sua ação em todas as latitudes. Mais ainda: não encontraremos e não conheceremos verdadeiramente Jesus Cristo ressuscitado enquanto não estivermos situados num horizonte de esperança e engajados num movimento de solidariedade.
“A quem perdoardes os pecados, serão perdoados...”
É claro que não encontramos no evento que hoje nos é narrado uma definição clara e completa da missão dos cristãos. Mas Jesus dá algumas indicações muito importantes: somos enviados/as como ele foi enviado pelo Pai, ou seja, como Cordeiros que carregam o pecado do mundo. Perdoar é libertar uma pessoa de uma carga ou fardo, de um peso que prende e impede de viver plenamente, como Jesus fizera com a mulher samaritana (cf. Jo 4,1-42), com aquele homem que sofria há 38 anos (cf. Jo 5,1-18), com a mulher acusada de adultério (cf. Jo 8,1-11), com o cego de nascença (cf. Jo 9,1-41)...
Mas se trata também de, conduzidos e fortalecidos pelo Espírito de Jesus, construir uma comunidade de homens e mulheres que procuram romper com o espírito do mundo e tomar distância das estruturas de pecado. Aqui o ‘pecado’ consiste em comprometer-se voluntariamente uma ordem injusta, enquanto que a comunidade cristã nasce como caminho e alternativa a este compromisso. Na medida em que a comunidade de discípulos/as vive concretamente esta alternativa, as pessoas que se opuserem a ela de forma consciente e voluntária acabam consolidando a própria situação de pecado.
“Muitos sinais e prodígios eram realizados entre o povo...”
A primeira expressão da missão que brota da experiência pascal é o testemunho de vida fraterna e solidária, diante do qual a sociedade toma posição. E a segunda é o anúncio de que isso é feito em nome de Jesus, “o primeiro e o último, Aquele que vive”, a pedra rejeitada pelos construtures e escolhida por Deus como pedra principal. É em Jesus que se fundamenta nosso novo viver e nossa irrenunciável missão. Mas a nossa missão como cristãos não se reduz a isto.
Desde os primeiros passos históricos, fiéis àquilo que viram e ouviram sobre Jesus, os cristãos viveram sua missão com gestos e sinais muito concretos. “Muitos sinais e prodígios eram realizados entre o povo pelas mãos dos apostolos”, diz sinteticamente o livro dos Atos dos Apóstolos. Pessoas atormentadas vinham da periferia de Jerusalém e doentes eram levadas às praças para que fossem tocadas ao menos pela sombra de Pedro. “E todos eram curados.”
Hoje a missão continua sendo tecida pelos fios do testemunho, do diálogo, do anúncio e o serviço de defender e promover a vida. Partindo do encontro com o Ressuscitado, o anúncio e o testemunho  se fazem verdade não apenas no cuidado dos doentes, mas também nas diversas iniciativas e cuidados pastorais em favor das crianças, dos encarcerados, dos migrantes, dos operários, da mulher marginalizada, da juventude, da terra, da família e de tantos outros grupos humanos necessitados.
“Se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei.”
Às vezes ficamos um pouco desconcertados diante da incredulidade de Tomé e da sua insistência em ver para crer. Mas é o próprio Jesus que provoca “mostrando-lhes as mãos e o lado” e convidando Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado...” E João, na visão relatada no Apocalipse, diz que voltou-se para ver quem lhe falava, e alguém semelhante a um ser humano pôs sobre ele a mão direita e disse: “Não tenhas medo!”
Integrando-se à comunidade apostólica e tocando o corpo chagado de Jesus, Tomé professa a fé que custara a amadurecer. “Meu Senhor e meu Deus!” Adquire a capacidade de romper com todos os demais senhores que disputam sua submissão e reverencia um Deus que se faz próximo, que se deixa tocar, que se faz carne vulnerável e torturada. Mas descobre que felicidade maior provam aqueles/as que acreditam mediante o testemunho dos outros, mesmo sem a privilegiada experiência que fizera.
Efetivamente, acorrrendo às comunidades cristãs os homens e mulheres de hoje têm o direito de sentir a mão de Jesus Cristo tocando seus ombros cansados e espantando o medo. Têm o direito de se encontrarem com um corpo de Cristo marcado pela perseguição e pelo serviço e alheio às honras e grandezas. Têm direito de encontrar a paz e a alegria de uma gente que reconhece ser pecadora e perdoada, que não se importa em ser pedra rejeitada pelos poderes deste mundo.
 “Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”
Jesus de Nazaré, Cordeiro de Deus, o último num mundo obcecado pelo poder e o primeiro no Reino de Deus. Na mesa da tua Palavra e do teu corpo somos nutridos e encorajados a partir em missão de tirar o pecado do mundo, de amar e servir incondicionalmente. E o faz tornando-se uma bênção que de mil formas toca, desperta, cura, liberta. Dá-nos a graça de crer em ti a partir do testemunho daqueles que provaram teu amor e tocaram tuas chagas. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

A Palavra de Deus na nossa vida (5)


João 21,1-14. Aparição às margem do lago
Os apostolos haviam abandonado as redes para se tornarem pescadores de gente (cf. Lc 5,10). Agora, depois da crucificação de Jesus, voltam a ser pescadores de peixe. Quando Jesus ressuscitado aparece, sem ser eeconhecido, a experiência do início se repete. Também dessa vez eles haviam trabalhado a noite inteira sem conseguir nada. É a experiência de um trabalho sem frutos, de pensamentos, preocupações e agitações que não levam a nada. De fato, sem a luz do Evangelho é difícil trabalhar frutosamente. Mas, com a aproximação de Jesus, brilha a aurora de um novo dia. É o ressuscitado, mas eles não se dão conta, não o reconhecem. Mesmo cansados e compreensivelmente desconfiados, eles o obedecem e lançam as redes no outro lado. Talvez tenham sentido naquela voz o eco de uma voz conhecida, da voz que haviam escutado e os havia fascinado durante três anos. Mas não acreditam que ele ainda pudesse falar. Talvez seja apenas instintivamente – é belo este instinto que vem do hábito de escutar o Evangelho – que obedecem e lançam as redes. A pesca é abundante, acima de qualquer expectativa. É nesse momento que os apóstolos reconhecem o Senhor. A eficácia do Evangelho abre os olhos e o coração deles. Talvez tenham compreendido melhor aquilo que Jesus lhes havia dito no passado: “Sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5). Somente com o Senhor o impossível se torna possível. É o discípulo amado que se dá conta. É ele que reconhece o Senhor e o diz a Pedro que, tomado de alegria, se joga no mar para chegar a Jesus nadando. É naquelas margens que os discípulos revivem a comunhão com o mestre. Jesus já havia preparado para eles as brasas, e esperava os peixes da pesca milagrosa. É o banquete do ressuscitado com os seus amigos. As palavras do evangelista aludem àquelas da multiplicação dos pães e da eucaristia. Efetivamente, é propriamente a celebração litúrgica o lugar onde se edifica a comunidade dos discípulos, o lugar da multiplicação do amor.
Reflexão preparada pela Comunidade Santo Egídio de Roma e traduzida ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Palavra de Deus na nossa vida (6)


Marcos 16,9-15. Ide por todo o mundo
Assim como João, também Marcos nos diz que Jesus ressuscitado aparece antes de tudo a Maria Madalena. Esta mulher, que Jesus havia libertado de sete demônios, se torna a primeira anunciadora da ressurreição. Ela, “que muito amou”, e a quem, por isso, muito foi perdoado, recebe o privilégio de ser a primeira discípula do ressuscitado e a primeira que recebe a missão de anunciar sua ressurreição. Os apóstolos, mostrando mais uma vez sua sordidez, não acreditam. Ainda esão escravos da mentalidade deste mundo e, sobretudo, do próprio esquecimento. Desde o primeiro momento da ressurreição, o Senhor se serve da fragilidade dessa mulher para confundir a presunção dos discípulos. A tradição bizantina, com grande sabedoria espiritual, a chama “apóstola dos apóstolos”. Em poucas linhas, o evangelista retoma o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús (narrado mais amplamente por Lucas) e sublinha que ele ainda não havia aparecido aos apóstolos, ou seja, àqueles que havia colocado à frente da sua Igreja. E mais uma vez os apóstolos não conseguem acreditar nos dois discípulos que contam aquilo que lhes havia acontecido. Parece que o evangelista quer sublinhar que a dificuldade de crer na ressurreição vem desde o início da Igreja, desde os primeiros dias. De qualquer modo, a incredulidade e as dificuldades que os discípulos experimentam não podem deter a urgente missão de anunciar a todos a vitória de Jesus sobre a morte. A cada discípulo é confiada a missão grave e honrosa de comunicar a ressurreição de Jesus, sua vitária sobre o mal e a morte. E não é por acaso que os primeiros anunciadores da ressurreição não são os apóstolos, mas uma mulher e dois discípulos anônimos. É como para dizer que é tarefa de cada fiel comunicar o Evangelho da Páscoa.
Reflexão preparada pela Comunidade Santo Egídio de Roma e traduzida ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Palavra de Deus na nossa vida


Lucas 24,13-35. Os discípulos de Emaús
Com a narração de Emaús, a Igreja nos convida a permanecer ainda dentro do dia da Páscoa: não podemos nos afastar dela, devemos revivê-la para experimentar o mistério salvífico. Nós continuamos hoje a viagem daqueles dois discípulos. Podemos dizer que a tristeza deles é a nossa tristeza e, certamente, a de tantos homens e mulheres que vivem esmagados pela dor e pela violência. Quantas pessoas hoje, cedendo porque pensam que nada pode mudar, voltam, como aqueles dois discípulos, à aldeia de origem, às próprias preocupações e interesses? É verdade que não faltam motivos para a resignação: o próprio Evangelho às vezes é derrotado pelas forças do mal. Todos vemos que, não raramente, o ódio vence o amor, o mal supera o bem, a indiferença é mais forte que a compaixão. Mas eis que aparece entre nós um estrangeiro – sim, um homem que não se submeteu à mentalidade do mundo – e começa a nos explicar as escrituras. E então se estabelece um diálogo entre aqueles dois e o estrangeiro. O diálogo continua e, pouco a pouco, a tristeza dos discípulos desaparece e o coração deles se aquece de novo. Eles nem se dão conta daquilo que acontece: será preciso que cresçam no conhecimento e no amor para que seus olhos se abram. Depois de muita conversa, quase no fim da viagem, brota do coração deles uma oração muito simples: “Fica conosco!...” (Lc 24,29). O estrangeiro atende o pedido deles. O mesmo Jesus havia sugerido aos discípulos: “Pedi e recebereis…” (Jo 16,24). E, no Apocalipse, declara: “Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição...” (Ap 3,20). Jesus entrou para jantar com os dois e, enquanto partia o pão, eles o reconheceram. Vendo aquele gesto de “partir o pão”, gesto que só Jesus sabia fazer, os dois  reconheceram o mestre. Jesus não estava mais preso à sepultura: agora os acompanhava pelas estradas do mundo. E, de fato, imediatamente saíram a comunicar o Evangelho da ressurreição aos outros irmãos.
Reflexão da Comunidade Santo Egídio
(Traduzido ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)

terça-feira, 2 de abril de 2013

A Palavra de Deus na nossa vida



João 20,11-18. Eu vi o Senhor!
A liturgia nos convida a continuar junto àquela sepultura onde fora depositado Jesus. E nos mostra Maria Madalena que permanece ali, chorando a morte do seu Senhor. A perda da única pessoa que a havia compreendido e que a havia libertado da escravidão de sete demônios impedia que ficasse em casa, mergulhada na dor e sepultada na resignação e na derrota. Ao contrário, essa experiência impulsionou Maria Madalena em direção à sepultura, a permenecer próxima de Jesus: não conseguia ficar longe do mestre, mesmo que ele estivesse morto. Como estamos longe do amor dessa mulher! Choramos muito pouco a perda do nosso Senhor. Maria se mostra consolada, mas não resignada. Ela pede a todos – aos dois anjos e ao ‘jardineiro’ – onde está Jesus. Ela está inteiramente concentrada na busca do mestre. Nada mais lhe interessa. É um exemplo vivo de uma pessoa que crê, que não deixa de buscar o Senhor. Interroga também o guarda do jardim: vê Jesus com os olhos, mas não o reconhece. Seus olhos se abrem somente quando ela ouve sua voz, quando é chamada pelo nome. Acontece a mesma coisa conosco. Não são os olhos que nos permitem reconhecer Jesus, mas sua voz, sua Palavra. Aquele timbre, aquele tom, o nome pronunciado com uma ternura que tantas vezes havia tocado seu coração, fazem cair a barreira que a morte havia levantado entre ela e Jesus, e Maria o reconhece ao ouvir a sua voz. Escutá-lo com o coração daquela mulher, mesmo uma só vez, significa não abandoná-lo jamais. A voz de Cristo – o Evangelho! – ninguém esquece. Mesmo que a escutemos apenas por um momento, jamais renunciaremos a ela. De fato, a familiaridade com as palavras evangélicas é familiaridade com o Senhor, é o caminho para vê-lo e encontrá-lo. Maria se joga aos pés de Jesus e o abraça com afeto intenso de quem reencontrou o homem decisivo da sua vida. Mas Jesus lhe diz: “Não me detenhas... Vai dizer aos meus irmãos...” (Jo 20,17). O amor evangélico é uma energia que nos leva adiante. Maria estava ainda mais feliz quando corria novamente ao encontro dos discípulos para anunciar a todos: “Eu vi o Senhor!” Ela, a pecadora, tornou-se a primeira “apóstola” do Evangelho da ressurreição.
Reflexão da Comunidade Santo Egídio
(Traduzido ao português a pedido da mesma por Itacir Brassiani msf)