quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Perder ou ganhar a vida?

O que estamos dispostos a dar em troca da vida? | 799 | 08.08.2025 | Mateus 16,24-28

O evangelho de hoje está situado literariamente depois da profissão de fé e dos discípulos em Jesus como “o Messias, o Filho do Deus Vivo”. Vem também depois da cena em que os discípulos revelam dificuldade de aceitar o caminho da cruz (cf. Mt 16,21-28), e imediatamente antes da cena da transfiguração (Mt 17,1-13). É essa dificuldade dos discípulos com a imagem de messias que justifica essa catequese incisiva e delimitadora de Jesus, e a própria transfiguração que a segue.

Jesus estabelece dois pré-requisitos para quem quiser ser seu discípulo: negar a si mesmo, que significa desistir de práticas que impedem o advento do Reino de Deus (abrir mão de projetos pessoais e egoístas, entregar-se inteiramente à vontade do Pai); tomar a própria cruz e seguir Jesus, ou seja: assumir um estilo de vida que pode provocar humilhação, que comporta marginalização, dor e morte. Em outras palavras: o discípulo deve estar pronto para seguir o caminho de vida percorrido por Jesus.

Esta disposição de “perder a vida” por Jesus e pelo Reino de Deus a fim de entrar na vida verdadeira é uma convocação à identificação com o destino dos insignificantes e à aceitação do risco de ser tratado como criminoso pelas elites, aceitando até o martírio por resistir ao status quo. E isso significa, por outro lado, não dar a vida pelo império romano (ou qualquer outro sistema de poder), ou “morrer pela pátria e viver sem razões”. Só Deus é grande e pode pedir o dom da nossa vida.

Jesus assegura que a vinda do Reino de Deus é coisa certa como o sol que nasce todo dia. Mas “ganhar o mundo inteiro” será, para os discípulo, sempre uma tentação (cf. Mt 4,8), e, para salvar a própria vida, a maioria é induzida a escolher o caminho mais seguro, o interesse próprio, o silêncio e a submissão por medo da perseguição. Entretanto, perder a vida para ganhá-la, como Jesus, equivale a não se submeter nem ceder ao medo.

A glória que envolverá Jesus na sua volta é a glória da cruz, do amor vivido de forma incondicional e em medida extrema. E é isso que continuamos vendo, também nós, ao nosso lado: homens e mulheres “que se amam mais que a si, e dizem com firmeza: vê, Senhor, estou aqui!” E nós também confirmamos: Conta comigo, Senhor!

 

Sugestões para a meditação

§ Retome e repita pausadamente cada expressão e cada afirmação de Jesus aos seus seguidores

§ Compare cada uma dessas afirmações com o seu evangelho e a sua vida como um todo e entenda o sentido

§ O que significa hoje, na situação sanitária e social do Brasil e do mundo, perder ou ganhar a vida no sentido evangélico?

§ Você conhece pessoas que ganharam “um mundo de vantagens” mas perderam o sentido e o gosto da vida? 

Aldeia Fosa

Uma visita abençoada

Hoje à tarde, em companhia da Dianifer (Assistente Social da Diocese de Santa Cruz), do Maurício e da Oldi (Comissão Pastoral da Terra da Diocese), tive a grata alegria de visitar a Aldeia Fosa, do povo Kaigang, em Cruzeiro do Sul.

A aldeia está se preparando para a grande festa Keki, durante a qual receberá a visita de outras cinco aldeias Kaigang do Rio Grande do Sul. Estavam no ritual de preparação do chá Keki, resultado de 9 ervas socadas no pilão e misturadas com água e mel, que será servido na festa.

Fomos recebidos com muita atenção e hospitalidade pelo Vice Cacique (autoridade política) Vergelino Nascimento e pelo Pagé (autoridade religiosa) Pedro Garcia. Também falou conosco o professor bilíngue Mauro, Kaigang formado em pedagogia. Também estava visitando a aldeia dois médicos e um grupo de estudantes de medicina da Univale (Lajeado).

Eles nos brindaram com uma roda de conversa sobre a religião, a cultura e as lutas dos Kaigang e dos demais povos originários do Brasil. Eles ainda não têm um território demarcado, e isso prejudica o cultivo da identidade religiosa e cultural, além de deixa-los a mercê da pressão do mercado imobiliário. Também lamentam que sua cultura não é vista como tal pela sociedade local, que valoriza apenas a cultura dos povos migrantes e dos gaúchos.

No final, pediram-me a bênção cristã para a aldeia. Antes, pedi que o Pagé Pedro me abençoasse. Ele consentiu e fez um rito de bênção, invocando sobre mim os espíritos da floresta e dos animais, para que conspirassem pelo meu bem. Fiquei muito honrado e emocionado.

Queira Deus que aqui se inicie um caminho respeitoso de diálogo e apoio solidário entre a Diocese de Santa Cruz e as aldeias indígenas que estão em nosso território.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O que você diz de mim?

Jesus não se satisfaz com respostas simples e decoradas | 798 | 07.08.2025 | Mateus 16,13-23

“Quem dizem vocês que eu sou?” Para os primeiros cristãos era muito importante lembrar sempre de novo essa pergunta de Jesus para não esquecer quem eles estavam seguindo, com qual projeto eles estavam colaborando e por quem estavam arriscando a vida. Esta pergunta é dirigida a nós, qualquer que seja nosso tempo e nosso lugar.

Somos tentados a responder a essa pergunta com fórmulas cunhadas pelo cristianismo ao longo dos séculos: Jesus é o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo, o Redentor da humanidade. Mas, para ser discípulo de Jesus, não basta dizer estas palavras, pois são mais fórmulas aprendidas na infância, aceitas mecanicamente, repetidas com superficialidade e afirmadas verbalmente, do que experiências vividas e refletidas.

Confessamos a Cristo por costume, por piedade ou por disciplina, mas podemos estar vivendo sem captar a originalidade de sua vida, sem escutar a novidade de seu apelo, sem deixar-nos atrair por seu amor apaixonado, sem contagiar-nos por sua liberdade e sem esforçar-nos em seguir seu caminho e prosseguir sua missão.

Nós o adoramos como “Deus”, mas Ele não é o centro de nossa vida. Nós o confessamos como “Senhor’, mas vivemos de costas para seu projeto. Nós o chamamos de “Mestre”, mas não assimilamos sua lição maior. Vivemos como membros de uma religião, mas não somos discípulos de Jesus. A clareza das fórmulas doutrinais pode dar-nos segurança e dispensar-nos de um encontro vivo com Jesus.

Há cristãos que vivem uma religiosidade instintiva, recebida e guardada por costume ou tradição, mas não sabem o que é alimentar-se de Jesus e deixar-se orientar por ele. Todos precisamos colocar-nos diante de Jesus, deixar-nos olhar por Ele e escutar sua pergunta: “Quem sou eu realmente para você?”

Respondemos a esta pergunta muito mais com a vida do que com palavras claras, sublimes e difíceis, que mais impressionam que comunicam. E respondemos com uma atitude de adesão àquele que é nossa paz, que fez unidade daquilo que era dividido. (José Antônio Pagola)

 

Sugestões para a meditação

§ Depois de uma boa aceitação da sua pregação e dos seus gestos, Jesus começa a enfrentar oposição, e até os discípulos resistem

§ Neste contexto de crise dos próprios seguidores, Jesus os confronta com as imagens e expectativas deles a seu respeito

§ Por isso, Jesus completa a resposta de Pedro com a indicação da cruz como seu caminho e caminho dos seus seguidores

§ Pedro responde em nome de todos, mas também no fechamento e na resistência, a todos nos representa

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Jesus se transfigura

Jesus nos revela os caminhos de Deus, e a nós cabe escutá-lo! | 797 | 06.08.2025 | Lucas 9,28-36

Depois de ter sido reconhecido por Pedro como “o Cristo de Deus”, Jesus disse a Pedro: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar...  E se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará” (Lc 9,22-23).

Os discípulos não conseguem aceitar este caminho proposto por Jesus. Sentem-se desconcertados diante de um Messias servidor. Resistem a um caminho que os levará a ser companheiros dele no anúncio do Reino e na perseguição. Não passa pela cabeça deles carregar a cruz da rejeição, imposta a quem ousa se rebelar contra os poderes do Império.

É neste contexto que Jesus sente necessidade de retirar-se para rezar, dialogar com o Pai e discernir os passos seguintes. Chama e leva consigo Pedro, Tiago e João, os três discípulos mais resistentes ao caminho que propunha e os mais aferrados às ambições de poder. O medo e a resistência deles se mostra no sono insuportável, como aconteceria de novo mais tarde, no Jardim das Oliveiras (cf. Lc 22,45).

Simbolicamente, o sono assinala o desejo de fugir, de voltar atrás, de não escutar nada senão as próprias ideias e ambições. O trio de discípulos não se interessa pelo tema da conversa de Jesus com Moisés e Elias, e são despertados apenas pelo brilho de Jesus e seus convidados. Glória e poder sim no horizonte do interesse deles, tanto que desejam reter o tempo, separar os espaços e eternizar esta agradável visão.

Mas a glória e o esplendor do poder não são expressões inequívocas de Deus, nem da sua vontade. É a sombra tenebrosa de uma nuvem – imagem daquela nuvem que acompanhara o povo na caminhada através do deserto e envolvera a montanha na celebração da Aliança – que desfaz o entusiasmo dos discípulos e os conduz à verdade à qual resistem: “Este é o meu filho, o eleito. Escutai-o!” É a profecia que manifesta o esplendor de Deus. A presença de Moisés e de Elias apontam para isso.

 

Sugestões para a meditação

§ Leia atentamente, palavra por palavra, e visualize demoradamente a cena e os personagens

§ Procure identificar o núcleo essencial da cena, e o conflito ou a tensão que ela pretende resolver

§ Como tem sido seu caminho diário de meditação do Evangelho, especialmente nesta primeira semana do mês vocacional?

§ Quais são as suas resistências a Jesus Cristo e à sua mensagem? Onde se localizam as tensões mais significativas?

§ Quais são as tentativas de fuga ou de alienação (construir tendas em lugares agradáveis) que rondam você e sua comunidade?

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

No meio do mar bravio

Jesus estende sua mão a quem abre a mão aos pobres | 796 | 05.08.2025 | Mateus 14,22-36

Depois de saciar a multidão faminta com a partilha solidária de pão e peixe, Jesus envia os discípulos à sua frente e se retira para rezar durante toda uma noite, sozinho, como ensinara aos seus discípulos. Em oração, ele renova seu compromisso para que o nome do Pai seja santificado, que que venha seu reino, sua vontade seja feita, e que o pão chegue a todas as mesas.

Paralelamente, já no meio do mar e da noite, o barco dos discípulos é agitado pelo vento e pelas ondas. Certamente a agitação é também interior, frente à compaixão de Jesus pelo povo e à convocação de todos a colaborarem com o atendimento às suas necessidades essenciais. O mar representa todas as forças adversas, tanto interiores como exteriores, inclusive a pressão do império romano.

A aproximação de Jesus em meio ao mar agitado e ameaçador não resolve a situação, e até a torna mais grave, pois, pensando que ele fosse um fantasma, os discípulos começam a gritar de pavor e medo. Por isso, as primeiras palavras de Jesus são para acalmar e encorajar seus seguidores, insistindo que é ele mesmo, e não uma fantasia deles. Ao fazer seu pedido, Pedro deixa entrever que a dúvida sobre quem é que se aproxima continua.

A aparente fé e submissão de Pedro a Jesus denota um certo desejo de participar do seu poder, mas não consegue disfarçar o medo e a fragilidade que o envolvem e são mais profundas que a própria fé. Quando ele grita de medo, temendo mais as ondas e o vento que a Jesus, este lhe estende a mão e adverte: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” E assim que ele entra no barco, tudo se acalma, e Jesus é reconhecido como Filho de Deus.

As tribulações e riscos fazem parte da vida dos discípulos de Jesus: medo, cansaço, incompreensão, vontade de abandonar tudo. Mas precisamos deixar a palavra de Jesus ressoar forte em nossos ouvidos e em nosso coração e segurar a mão que ele nos estende. É assim que teremos condições de prosseguir, com e como ele, o ministério de restaurar a vida dos pobres, predominante para os ministros ordenados, mas comum a todas as vocações e ministérios eclesiais.

 

Sugestões para a meditação

§ Procure participar das três cenas: Jesus retirando-se para uma noite de oração; os discípulos no meio do mar agitado pelas ondas, gritando de pavor no meio da noite; a aproximação de Jesus, seu diálogo com Pedro e a calmaria que se fez

§ Tente perceber o conteúdo do diálogo orante de Jesus com o Pai: certamente ele faz menção à morte de João Batista, à sua compaixão pelo povo, ao pão tornado acessível a todos, aos discípulos que ele havia enviado à sua frente

§ Recorde situações de aperto e desespero pelas quais você passou, e como a fé na presença de Jesus lhe ajudou

domingo, 3 de agosto de 2025

Nosso bezerro de ouro

A permanente tentação do bezerro de ouro

Entre as diversas e preciosas narrativas que a tradição bíblica nos oferece temos a eloquente e pedagógica história do bezerro de ouro (cf. Êxodo 32,1-24). O contexto histórico é o do êxodo das tribos hebreias que fugiam da opressão do Egito guiadas pela esperança de chegar à sonhada terra. Moisés, que liderava a aventura desde a saída, havia subido à montanha para discernir os passos e rumos da luta, e tardava a voltar.

Diante da demora do líder, o povo protestou, mostrando-se cansado de um Deus “visível” apenas numa nuvem, às vezes tenebrosa, outras vezes luminosa (cf. Ex 33,7-11). E pediu um Deus mais concreto, palpável e controlável. Desejou uma caminhada menos tortuosa, com meta mais determinada e chegada mais definida. Por isso, pediu a Aarão, colaborador de Moisés: “Faça para nós um deus que caminhe à nossa frente, porque não sabemos o que aconteceu com esse Moisés que nos tirou do Egito” (Ex 32,1).

A transcendência de um Deus que interdita imagens reducionistas deixa o povo confuso e deprimido. O Deus de Abraão e de Moisés não se deixa prender e limitar por nada. Insiste em apontar um caminho sempre aberto, mas sem um ponto de chegada. Teima em manter seu povo a caminho. Não aceita instituições fechadas e cristalizadas. Mostra a sua glória, mas não permite que Moisés e seu povo o vejam de frente (cf. Ex 33,18-23). Permanece mistério imanipulável, transcendente e inapreensível.

Também hoje multiplicam-se os cânticos de sereia que insistem na necessidade de submeter-nos às taxas e vociferações dos que se imaginam imperadores do mundo, em finalizar a caminhada e refugiar-se atrás dos muros das cidades, mesmo que se saiba que foram construídos para segregar. Insistem que é hora de imaginar um deus que fique à nossa disposição, que considere as nossas preferências e satisfaça a nossa irracional sede de desforra. Dizem que a modernidade acabou, e que a democracia é uma quimera.

Também nós somos tentados a fundir o nosso bezerro de ouro. Desejamos mais estabilidade e segurança às custas de menos liberdade e menos solidariedade. Queremos uma sociedade e uma Igreja com figura e instituições bem definidas, com metas mensuráveis. A consolidação da democracia, a busca de uma de "outro mundo possível" e de “uma Igreja mais sinodal” parecem-nos um caminho cansativo e sem fim. Preferimos as velhas definições e imposições, mesmo que sejam terrivelmente castradoras.

O problema é que, seguindo esse bezerro e os mitos que o representam, acabamos comportando-nos como “gado”: rotulamos como ideologia aquilo que é ciência; taxamos de interesseiras e sonhadoras as lideranças que sugerem um olhar mais amplo; acusamos de ditadura o que é apenas aplicação de justais leis; tratamos como inimigos todos aqueles que ousam divergir; atribuímos ao demônio as iniciativas e organizações voltadas à construção de uma sociedade menos desigual e mais justa.

E somos atraídos pelos oportunistas que nos chamam a levantar, oferecer holocaustos e sacrifícios, sentar-nos para comer e beber e levantar-nos de novo para nos divertir (cf. Ex 33,6). Seria inteligente estender uma lona de circo que encubra as tragédias e transforme tudo em espetáculo? Seria sábio defender o poder dos opressores e negar a sede de justiça que nos move? Seria aceitável encher nossas praças com estátuas de guerreiros e exterminadores em vez de profetas e sonhadores? Se a resposta for positiva, o que fazer do Evangelho e da memória incômoda da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo?

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

5 pães e 2 peixes

O milagre do pão em todas as mesas começa pela partilha | 795 | 04.08.2025 | Mateus 14,13-21

Jesus não foi um milagreiro de ocasião, um curador preocupado em realizar prodígios para fazer propaganda de si mesmo. Seus seus milagres são sinais que abrem uma brecha no mundo de injustiças, e apontam já para uma realidade nova, meta final da caminhada existencial e social do ser humano, que os evangelhos sinóticos denominam Reino de Deus.

Concretamente, o milagre que conhecemos como “multiplicação dos pães” (que deveria ser chamada “distribuição solidária de alimentos para uma multidão faminta”) é um sinal que nos convida a tomar consciência de que o projeto de Jesus é alimentar os homens e mulheres e reuni-los numa fraternidade real e universal, na qual todos saibam e queiram partilhar o pouco ou o muito que têm.

Para os cristãos, a fraternidade e a partilha não são apenas duas exigências ao lado de tantas outras, mas a única maneira de construir o reino do Pai neste mundo. Essa fraternidade pode ser mal-entendida, se pensamos que amamos o nosso próximo simplesmente porque não lhe fazemos nada de mal, embora, concretamente, vivamos focados no próprio bem-estar.

Por ser sacramento e fermento de fraternidade, a Igreja é chamada a promover, em cada momento da história, novas formas de estreita fraternidade entre os homens e mulheres e entre os povos. Devemos aprender a viver com um estilo mais sóbrio e fraterno, escutando as novas e velhas necessidades do homem de hoje.

A luta pelo desarmamento e pela paz, a proteção do meio ambiente, a solidariedade com os famintos, a partilha com os desempregados, a ajuda aos drogados, a preocupação com os idosos esquecidos são outras tantas exigências para quem se entende irmão e quer multiplicar para todos o pão que as pessoas necessitam para viver. Para os cristãos, o amor e a amizade social não são sentimentos, mas relações sociais.

O relato do evangelho de hoje nos lembra que não podemos comer tranquilos o “nosso” pão e o “nosso” peixe enquanto ao nosso lado há homens e mulheres ameaçados pela fome. Na verdade, nada é exclusivamente nosso! Tudo o que temos foi confiado ao nosso cuidado para que não falte nada a ninguém. Os que vivem tranquilos e satisfeitos devem ouvir as palavras de Jesus: «Dai-lhes vós de comer».

 

Sugestões para a meditação

§ Acompanhe Jesus e os discípulos na sua retirada para o deserto, alertado pelo martírio de João Batista

§ Veja as pessoas necessitadas que os seguem, porque veem em Jesus o último porto e única esperança e note a confusão dos discípulos

§ O que significa para você a ordem de Jesus: “Deem-lhes vocês mesmos de comer?

sábado, 2 de agosto de 2025

Aumentar os celeiros

Na abundância, sejamos mais generosos na partilha | 794 | 03.08.2025 | Lucas 12,13-21

Chamando Jesus de mestre, o personagem sem nome do evangelho de hoje não está expressando sua adesão a ele. Jesus percebe a ironia da saudação, tanto que, dá a entender que, se não for aceito como mestre, também não pode ser buscado como juiz. No fundo, Jesus percebe que este indivíduo não é uma pessoa em necessidade e nem um candidato a discípulo. Trata-se de alguém queimado pela ganância. Mas essa situação proporciona a Jesus a oportunidade de falar sobre a relação do discípulo com os bens.

“Atenção! Guardai-vos contra todo tipo de ganância, pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens”. Esta é a reação de Jesus ao perceber que, por trás do pedido de “justiça”, não está uma necessidade, nem uma sede de justiça, mas o desejo de possuir bens. E, para sublinhar a seriedade da exortação, Jesus propõe uma parábola na qual o protagonista é uma pessoa radicalmente voltada para si mesma, que fala e decide tudo sozinha e não se interessa por mais ninguém.

No final de uma safra bem-sucedida, o personagem diz a si mesmo: “Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe e goza da vida”. Como não lembrar aqui a parábola do rico que festeja todos os dias, indiferente à miséria de Lázaro que jaz à sua porta (Lc 16,19-31)? Segundo Jesus, as pessoas que agem assim são desprovidas de qualquer resquício de razão, vazias de qualquer valor humano, e passam longe da piedade cristã. São o tipo de indivíduos que, com suas decisões, cavam abismos que os separam dos demais “simples humanos”.

Mas, se o acúmulo desmedido de bens é tolice, o que significa ‘ser rico diante de Deus’? Está claro que, para Jesus, o problema não está nos bens em si mesmos. O mal dos bens está no obstáculo que podem interpor à liberdade radical e ao engajamento no movimento do Reino de Deus, que passa necessariamente pela partilha solidária.

O Reino de Deus é a pérola preciosa e o tesouro que vale mais que tudo, o terreno no qual brota o trigo que vai para a mesa dos pobres, o ventre no qual é gerada a nova humanidade. Aos ricos, o que falta não são armazéns novos, mas uma visão mais solidária e um coração mais generoso. A pessoa rica diante de Deus é aquela que, na abundância, aumenta o tamanho da mesa, para acolher, e não as dimensões do celeiro para entesourar!

 

Sugestões para a meditação

§ Preste atenção nas palavras do protagonista da parábola: o “eu” está no centro de tudo, ocupa todo o seu pensamento

§ Quais as luzes que a parábola e o ensino de Jesus trazem para quem só pensa em acumular, e para quem não tem nem o necessário?

§ O que significar hoje ser “rico diante de Deus” e “não ajuntar tesouros para si mesmo”?

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

É tempo de curtir!

UMA VIDA MAIS SAUDÁVEL

«Deita-te, come, bebe e dá-te uma boa vida»: este lema do homem rico na parábola evangélica não é novo. Tem sido o ideal de não poucas pessoas ao longo da história, mas hoje vive-se em grande escala e sob uma pressão social tão forte que é difícil cultivar um estilo de vida mais sóbrio e saudável.

A sociedade moderna há muito institucionalizou o consumo: quase tudo está orientado para desfrutar de produtos, serviços e experiências sempre novas. O lema do bem-estar é claro: «Dê-se uma boa vida». O que nos é oferecido através da publicidade é juventude, elegância, segurança, naturalidade, poder, bem-estar, felicidade. Temos que alimentar a vida no consumo.

Outro fator decisivo na evolução da sociedade atual é a moda. Sempre houve na história dos povos correntes e gostos flutuantes. A novidade é o império da moda, que se converteu no principal guia da sociedade moderna. Já não são as religiões ou ideologias que guiam o comportamento da maioria. A publicidade e a sedução da moda estão substituindo a Igreja, a família ou a escola. É a moda que nos ensina a viver e a satisfazer as necessidades artificiais do momento.

Outra característica que marca o estilo de vida moderno é a sedução dos sentidos e o cuidado com o externo. Temos que prestar atenção ao corpo, à linha, ao peso, à ginástica e aos check-ups; é preciso aprender novas terapias e remédios; temos que seguir os conselhos médicos e culinários de perto. Temos que aprender a «se sentir bem» consigo mesmo e com os outros; temos que saber mover-nos habilmente no campo do sexo: conhecer todas as formas de prazer possíveis, desfrutar e acumular novas experiências.

Seria um erro «demonizar» esta sociedade que oferece tantas possibilidades de cuidar das várias dimensões do ser humano e de desenvolver uma vida integral e integradora. Mas não seria menos errado deixarmo-nos arrastar levianamente por qualquer moda ou reclame, reduzindo a existência a puro bem-estar material. A parábola evangélica convida-nos a descobrir a insensatez que se pode encerrar nesta abordagem da vida.

Para acertar na vida, não basta passar bem. O ser humano não é apenas um animal sedento de prazer e bem-estar. Está feito também para cultivar o espírito, conhecer a amizade, experimentar o mistério do transcendente, agradecer a vida, viver a solidariedade. É inútil queixarmo-nos da sociedade atual. O importante é agir de forma inteligente.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Herodes e João

As tradições, leis e honras não estão acima da vida! | 793 | 02.08.2025 | Mateus 14,1-12

A notícia sobre a trama que levou o profeta João Batista à morte não é uma espécie de parênteses sem relevância na apresentação da missão de Jesus, embora possa parecer isso. O episódio é uma antecipação daquela que seria a sorte de Jesus e um alerta aos discípulos: eles precisam ser lúcidos e corajosos, não fechar os olhos frente à prepotência e não ter medo.

Herodes é um político judeu que exerce um poder limitado, concedido ou, pelo menos, tolerado pelo imperador de Roma e a serviço dele. É um príncipe pequeno e insignificante, que entra em colisão com o Reino de Deus anunciado por Jesus e age com prepotência contra seu irmão, se apossando de sua esposa. É contra essa prepotência, e contra outros desmandos e injustiças que reinavam na corte, na sociedade e no judaísmo, que João Batista se levanta corajosamente.

Mateus deixa claro que Herodes desejava eliminar o incômodo profeta. Ele temia que a pregação de João acabasse provocando uma revolta popular, e, dada a popularidade que desfrutava, tinha que esperar a ocasião perfeita, para não perder completamente o apoio do povo. E a ocasião se lhe oferece numa festa que reúne a elite masculina do seu reino e chama mulheres como parte da diversão e das orgias. Dançar no meio dos homens significava insinuar-se o oferecer serviços sexuais.

E João Batista, que não come nem bebe, acaba tendo o seu destino definido numa festa com comida, bebida e dança. Atendendo ao pedido de sua mulher, Herodes valoriza mais os códigos de honra do poder e da família patriarcal que os mandamentos da religião que professa, e que proíbem matar. Herodes, e não sua mulher, é o responsável pela morte de João, pois há tempos desejava matá-lo, e sua mulher não tinha poder para tanto. Herodes se aproveita da situação, inclusive do pedido dela, para eliminar um crítico incômodo e assegurar a benevolência do império romano.

Jesus é informado do desfecho da vida do profeta e amigo, mas isso não o intimida, nem diminui sua fidelidade no anúncio e na construção do Reino de Deus. Antes, ele colhe essa ocasião para perceber e sublinhar a urgência e a relevância da sua missão. Por mais belas e estimulantes que sejam as parábolas do Reino de Deus, a sua realização encontra violenta resistência.

 

Sugestões para a meditação

§ Leia atentamente esse relato, e perceba o papel de cada personagem na execução de João Batista

§ O profeta do Jordão não recuou diante das ameaças e riscos, e manteve sua pregação e suas denúncias

§ Recorde o nome de profetas e profetizas que marcaram a vida dos cristãos nos últimos tempos

§ Deixe-se estimular e motivar pelo testemunho de João Batista e dos profetas e profetizas que você recordou