sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Eu vim espalhar o fogo!

O FOGO DO AMOR

Dá medo pronunciar a palavra «amor». É uma palavra tão prostituída que nela cabe o melhor e o pior, o mais sublime e o mais mesquinho. No entanto, o amor está sempre na fonte de toda a vida sã, despertando e fazendo crescer o melhor que há em nós.

Quando falta o amor, falta o fogo que move a vida. Sem amor, a vida apaga-se, vegeta e acaba extinguindo-se. O que não ama fecha-se e isola-se cada vez mais. Gira loucamente sobre os seus problemas e ocupações, fica aprisionado nas armadilhas do sexo, cai na rotina do trabalho diário: falta-lhe o motor que move a vida.

O amor está no centro do Evangelho, não como uma lei que há que cumprir disciplinadamente, mas como o «fogo» que Jesus deseja ver arder sobre a terra, para além da passividade, da mediocridade ou da rotina da boa ordem. Segundo Jesus de Nazaré, Deus está próximo de nós procurando fazer germinar, crescer e frutificar o amor e a justiça do Pai. Esta presença de um Deus que não fala de vingança, mas de amor apaixonado e justiça fraterna, é o mais essencial do Evangelho.

Jesus vê o mundo como cheio da graça e do amor do Pai. Esta força criadora é como um pouco de levedura que há de fermentar a massa, um fogo aceso que há de fazer arder o mundo inteiro. Jesus sonha com uma família humana habitada pelo amor e pela sede de justiça, com uma sociedade que busca apaixonadamente uma vida mais digna e feliz para todos.

O grande pecado dos seguidores de Jesus será sempre deixar que o fogo se apague: substituir o ardor do amor pela doutrina religiosa, a ordem ou cuidado do culto; reduzir o cristianismo a uma abstração revestida de ideologia; deixar que se perca o seu poder transformador. No entanto, Jesus não se preocupou primordialmente em organizar uma nova religião ou inventar uma nova liturgia, mas encorajou um «novo ser», o nascimento de um homem novo radicalmente movido pelo fogo do amor e da justiça.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Sobre o divórcio

Jesus propõe uma alternativa à família patriarcal

806 | 15 de agosto de 2025 | Mateus 19,3-12

Há alguns dias estamos lendo e meditando as orientações de Jesus para a encarnação da novidade do Reino de Deus nas relações comunitárias e sociais. Hoje, a atenção se volta para as relações no interior da família, especialmente para as relações conjugais. A reflexão de Jesus é oportunizada por mais uma pergunta provocadora vinda da boca dos fariseus, que se posicionam como adversários de Jesus.

O ensino de Jesus é uma contundente defesa da dignidade das mulheres, no contexto de uma cultura patriarcal, na qual o marido tem direito de vida e de morte sobre a mulher. A família nascida da cruz de Jesus e reconfigurada pelo Reino de Deus rejeita de forma inequívoca as relações patriarcais, que eram aceitas como normais e normativas no mundo cultural romano e judaico. Mas essa aceitação e defesa volta de modo inesperado nos albores do século XXI.

Para Jesus, o matrimônio deve ser entendido em outra perspectiva, sem o domínio da figura masculina. Os fariseus tinham dificuldades de entender e aceitar isso. Para eles, a mulher fazia parte das propriedades do homem e a ele deveria ser submissa. Mas, para Jesus, as relações matrimoniais devem ser pautadas pela igualdade, pela reciprocidade, pela solidariedade e pela unidade. Este é o querer de Deus sobre o casal humano. Esta é a família verdadeiramente cristã e tradicional!

No enfrentamento com Jesus e no ensino ao povo, os fariseus e doutores da lei fazem uma leitura distorcida da Lei, e dizem que é ordem para todos aquilo que Moisés permitiu apenas como exceção. Mesmo fazendo essa concessão à dureza dos homens, Moisés pediu garantias à mulher divorciada, limitando o “direito ao despejo”. Jesus, por sua vez, propõe uma releitura da vida conjugal a partir da vontade original de Deus, sublinhando que homem e mulher se tornam uma unidade profunda, e nada deve desfazê-la.

Isso escandaliza os discípulos, contaminados também eles pela ideologia patriarcal. Jesus não se incomoda, e radicaliza ainda mais: além de tomarem como modelo as crianças, seus discípulos podem também se espelhar nos eunucos, outro grupo de pessoas desprezadas e marginalizadas pela excludente cultura patriarcal.

 

Sugestões para a meditação

§ Como você vive a vocação de ser uma só carne (comunhão, reciprocidade e solidariedade) na vida conjugal?

§ Em que medida vocês conseguem superar as relações ditadas pelo patriarcalismo e pelo individualismo?

§ Você tem conseguido superar uma compreensão machista e excludente da Palavra de Deus?

§ Como são tratadas as mulheres, as crianças e as pessoas homo afetivas na sua família e na sua Igreja?

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Perdoar 7 ou 70 vezes?

O perdão é sempre ilimitado e incondicional

805 | 14 de agosto de 2025 | Mateus 18,21-19,1

Nos capítulos 16 a 18 do seu evangelho, Mateus nos apresenta as orientações fundamentais de Jesus para que a comunidade de discípulos e discípulas assuma um estilo de vida alternativo, inovador, profético e crítico em relação aos estilos então predominantes. Nos textos de ontem e de hoje Jesus aborda a questão do enfrentamento das tensões e ofensas nas relações comunitárias.

Para ser fiel a Jesus, a comunidade cristã deve praticar o perdão como uma ação contínua e reiterada. O pedido de desculpas e o perdão não têm limites de tempo, nem restrições de pessoas ou de grupos. Sem isso, a vida em comunidade é inviável, e a liderança e a autoridade podem decair em opressão. O perdão concedido aos irmãos e irmãs é expressão viva do perdão recebido do Pai e decorrente dele. Negar o perdão aos semelhantes significa esvaziar o perdão concedido pelo Pai,

Jesus ilustra isso com uma parábola, focalizada em quem deve perdoar. Jesus não costuma apresentar os reis como imagem de Deus, e sim os pais de família. Mas a parábola de hoje sublinha que, como o rei dessa história, Deus exige que seus filhos e filhas perdoem, porque foram antes perdoados. O perdão do rei tem pouco a ver com o perdão recebido e praticado pelos cristãos. Diferentemente do perdão do rei, o perdão de Deus não é condicionado e revogável, mas definitivo e incondicional.

Os 10 mil talentos devidos ao rei por um dos seus servos correspondem a um ano dos tributos cobrados de Israel pelo imperador romano (uma fortuna que mal podemos imaginar!), enquanto que a dívida do empregado inferior corresponde a apenas 100 dias de trabalho. A diferença é descomunal. Isso ressalta a imensa diferença entre as dívidas, entre o perdão que recebemos de Deus por Jesus e o perdão que devemos dar aos irmãos e irmãs que incorreram em débitos conosco.

Note-se que o rei não aceita dar mais prazo ao devedor, como ele mesmo pedira, mas perdoa a dívida de forma incondicional e plena. Nisso, ele simboliza a compaixão ilimitada de Deus. Mas o outro empregado não dá prazo, nem perdoa, e se mostra mais cruel que o próprio rei. Para Jesus, gentileza gera gentileza, perdão gera capacidade de perdoar. Para o cristão, o perdão é norma e obrigação, não uma opção!

 

Sugestões para a meditação

§ Todos já vivemos a experiência de ofender uma pessoa próxima e querida, ou de ser ofendido por outros

§ Mesmo que o perdão que recebemos dessas pessoas possa não ter sido pleno e total, Deus não nos tratou assim

§ Recorde suas experiências de ser perdoado pelas pessoas próximas, e, principalmente, por Deus

§ Você já se percebeu tentado a colocar condições e limites ao perdão que os outros lhe pedem?

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Quando nos ofendem

Faça tudo para preservar os vínculos fraternos!

804 | 13 de agosto de 2025 | Mateus 18,15-20

Mateus dedica os capítulos 16 a 18 do seu evangelho para nos apresentar o empenho de Jesus na formação dos seus discípulos no modo de vida inspirado no Reino de Deus. Temos aqui as orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida liminar: alternativo, inovador, profético e crítico aos estilos de vida então habituais e predominantes.

Embora seja chamada a ser alternativa, a comunidade dos discípulos de Jesus não é perfeita. Enquanto caminha no mundo, as tensões e conflitos são inevitáveis no. Às vezes, as lideranças são intolerantes com os erros dos seus irmãos e irmãs. Para evitar que o fiquem à mercê do humor das autoridades, Jesus traça um caminho pedagógico, em três passos. Quer ajudá-los a tomar consciência dos erros e mudar.

O ponto de partida é a convicção de que a ofensa recíproca é algo sério, que precisa ser resolvido, e não ser “jogado embaixo do tapete”. Tudo começa com um diálogo pessoal e fraterno, para que o pecador reconheça seu deslize. Se isso não resolve, volta-se a conversar com ele na presença de testemunhas. Se também isso resultar em fracasso, a questão é levada à comunidade dos discípulos. Mas nem assim o êxito está garantido! As relações humanas não se resolvem com soluções técnicas!

Se as três tentativas fracassarem, a ruptura então pode ser declarada publicamente. Mas a missão reconciliadora dos cristãos fiéis não termina com esta declaração. Colocando os ofensores resistentes no grupo dos publicanos e pecadores, Jesus está dizendo que eles são campo permanente de missão, como ele mesmo o demonstrou sobejamente, tanto por seu ensino como mediante suas ações. Longe de Jesus tolerar ou ratificar práticas de exclusão definitiva! Jesus mesmo vai ao encontro dos publicanos e pecadores e os resgata para uma vida fraterna.

Jesus pede paciência e lucidez na relação com as pessoas que erram, ou seja, com todos os membros da comunidade. A comunidade cristã (e não apenas Pedro!) tem a faculdade de atar e desatar, ou seja: de discernir quem está dentro e quem se coloca fora dela. Mas é sempre o próprio Jesus que manifesta sua inesgotável misericórdia por sua presença e ação na comunidade dos discípulos e discípulas.

 

Sugestões para a meditação

§ Como você, sua família e sua comunidade enfrentam os conflitos e tensões de relacionamento e convivência?

§ Por que é sempre mais fácil queixar-se das pessoas que nos ofendem ou prejudicam a terceiros, evitando falar com elas?

§ Reflita sobre o que significa, na perspectiva de Jesus, tratar os ofensores como gentios ou cobradores de impostos?

§ Você tem conseguido se exercitar na confiança no cuidado do Pai e na hospitalidade na sua prática comunitária e pastoral?

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Os grandes e os pequenos

Para Jesus, as periferias devem estar no centro | 803 | 12.08.2025 | Mateus 18,1-14

Nos capítulos 18 a 20 do seu evangelho, Mateus nos oferece diversas catequeses de Jesus dedicadas aos seus discípulos, a caminho para Jerusalém. Trata-se de orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida alternativo e profético, testemunhando assim a força transformadora do Evangelho na vida pessoal e nas relações comunitárias, sociais, econômicas e políticas.

A tentação do elitismo e do autoritarismo rondam a comunidade de Jesus desde sempre, e o tempo que vivemos não nos deixa dúvidas. A pergunta sobre quem é o maior o demonstra, e a resposta de Jesus quer cortá-la pela raiz. Para ilustrar a virada radical que a chegada do Reino provoca nas pessoas, na escala de valores e no coração do mundo, Jesus toma a figura da criança como símbolo vivo e eloquente.

Aqui, a criança, tomada como símbolo e como exemplo, não significa a pureza e a inocência, “virtudes” que a modernidade burguesa gosta de enfatizar para esconder suas hipocrisias, mas a sua condição social de fragilidade, insignificância e marginalidade. Para Jesus, as crianças são o retrato perfeito da comunidade cristã, que nasceu para viver nas margens e ensaiar uma vida alternativa ao judaísmo e ao império romano, assumindo a fraternidade, a igualdade e a minoridade.

Esse estilo de vida vai contra a corrente, precisa ser aprendido e exercitado tenazmente, pois é exigente. Como as crianças, os discípulos de Jesus são preciosos aos olhos de Deus, são importantes por serem pequenos, são tirados dos últimos lugares e colocados nos primeiros. E as autoridades cristãs têm o dever de protegê-los. Eles podem se perder, ou seja, tornarem-se mais frágeis e vulneráveis ainda. O primeiro dever de um pastor é cuidar de quem é fraco, ensinava o Pe. Berthier.

O Pai do céu não quer que nenhum deles se perca, e a comunidade deve assumir esse cuidado em nome de Deus. Por sua vez, os discípulos devem confiar totalmente na acolhida que o Pai suscita nas pessoas e nos povos aos quais são enviados. Não somos grandes ou importantes pela origem, pela riqueza, pela educação, pela profissão, pela função social ou pelo poder que exercemos, mas pelo batismo e porque somos filhos amados do Pai e portadores do tesouro do Reino.

 

Sugestões para a meditação

§ Exercite sua imaginação e procure participar da cena com todos os seus sentidos, para acolher o sentido integral do texto

§ Você percebe as ambições e expectativas de reconhecimento e precedência que às vezes se insinuam nos seus trabalhos?

§ Como você se sente em relação à condição liminar (margem, insignificância, despojamento) dos discípulos de Jesus?

§ Você tem conseguido se exercitar na confiança no cuidado do Pai e na hospitalidade na sua prática comunitária e pastoral?

domingo, 10 de agosto de 2025

A moeda na boda do peixe

É livre a pessoa que não decide por medo ou ambição | 802 | 11.08.2025 | Mateus 17,22-27

Jesus já havia falado longamente aos seus discípulos sobre o “seu destino”, ou sobre o desfecho do seu caminho: a rejeição, a perseguição, a condenação e a eliminação, como se ele fosse uma pedra incômoda e dispensável na construção do mundo. Por isso, no texto de hoje ele fala disso em poucas palavras, alertando de novo seus discípulos em relação à expectativa de sucesso.

O sentimento de tristeza dos discípulos não é apenas causado pelos previsíveis sofrimentos de Jesus, mas também (ou até principalmente) pela frustração das próprias expectativas de sucesso e de prosperidade que eles alimentavam seguindo Jesus. Não entrava na cabeça deles a ideia de um enviado de Deus que não mostrasse poder e não fosse consagrado pelo sucesso e pela fama.

É nesse contexto que, questionados pelos funcionários do templo se Jesus não paga os impostos, os discípulos se apressam em blindar o mestre, afirmando que ele cumpre direitinho suas obrigações com o império injusto. Percebendo o que eles haviam dito, mais por medo que que tinham que por amor à verdade, Jesus esclarece sua posição e convida seus seguidores a uma reflexão lúcida e ponderada.

Tanto Jesus como os cristãos somos radicalmente livres de todo tipo de imposição, inclusive das mais dissimuladas e potentes, que são aquelas que vem de dentro de nós mesmos e da cultura que herdamos. No templo e no mundo, somos filhos, e não estranhos, herdeiros e não escravos. Jesus e seus seguidores não devemos nada a ninguém, a não ser o amor fraterno.

Entretanto, essa liberdade não significa licença para fazer o que quisermos, mas somente aquilo que é bom, que faz bem aos outros. Essa é a liberdade mais difícil de exercitar! Por isso, mesmo sendo livres frente a tudo, evitamos aquilo que pode escandalizar ou prejudicar os outros. É isso que Jesus ilustra com sua sugestão de pagar o imposto com a ajuda do peixe que ele pede para pescar.

Somos livres para amar e servir, para fazer da nossa vida um dom cotidiano e generoso pelos outros, especialmente pelas pessoas mais penalizadas e indefesas. Como nossa vida está segura nas mãos do Pai, não tememos a morte, qualquer que seja sua forma, e semeamos livros mais que armas.

 

Sugestões para a meditação

§ Reconstrua a cena, observando atentamente as palavras e perguntas de Jesus, assim como a “média” que Pedro pretende fazer com os funcionários do templo

§ Perceba também a tristeza dos discípulos de Jesus diante de mais um anúncio do caminho da rejeição e da perseguição, que é o caminho de Jesus, mas também o caminho de quem o segue

§ Você se sente realmente libertado por Jesus, livre inclusive da necessidade de ser o primeiro e sempre levar vantagem?

sábado, 9 de agosto de 2025

Espera ativa

O cristão vive uma espera ativa da volta do Senhor | 801 | 10.08.2025 | Lucas 12,35-40

Jesus não se deixa impressionar com as pequenas multidões que o seguem. Aqueles que entendem o que significa crer e seguir seus passos são poucos, e mesmo esta minoria acaba abandonando-o quando é acusado, preso, torturado e crucificado. Tudo recomeça a partir de um pequeno rebanho fiel e corajoso e nele encontra sua força. Como vimos no último domingo, quem crê em Jesus Cristo e segue seus passos tem um tesouro pelo qual está disposto a relativizar tudo o mais.

Jesus pede que busquemos ‘bolsas antifurto’, pois onde está nosso tesouro está também nosso coração. Para seus discípulos, não há riqueza mais preciosa que o Reino de Deus. Mesmo que este seja um sonho que só será pleno no futuro, a atitude cristã fundamental é a espera ativa. É isso que Jesus nos ensina hoje, lançando mão de três pequenas parábolas: os empregados que esperam a volta do patrão; o dono da casa que toma precauções contra os ladrões; os administradores encarregados de cuidar a casa durante sua ausência.

Diante da resistência das estruturas injustas e da força dos hábitos arraigados, somos rondados pela tentação da passividade. Como não sabemos se o Senhor da história chegará antes da meia-noite, ou se o Reino de Deus só se fará ver na madrugada distante e incerta, entregamo-nos ao sono da passividade, indiferença e deserção.

Estamos no mundo à espera de Alguém que está para voltar. Temos que estar acordados para abrir a porta quando ele chegar. Precisamos esperar colocando-nos a serviço do povo de Deus. Os que apostam no caminho alternativo proposto por Jesus são um pequeno rebanho, mas existimos para ajudar no parto da nova humanidade. Não podemos dormir sobre os louros de um passado numericamente glorioso. A Igreja é um depósito de sementes que devem ser jogadas na terra!

Estamos neste mundo como administradores encarregados de cuidar a casa, a quem se pede vigilância e serviço. Temos o direito de festejar e celebrar os inúmeros pequenos avanços do Reino de Deus, mas sem deixarmo-nos embriagar pelas ideologias do poder e do sucesso. Vivemos como migrantes que ainda buscam uma pátria definitiva. Com as grandes testemunhas da fé, sabemos que não temos aqui morada definitiva, mas apenas tendas, que podem ser desarmadas facilmente.

 

Sugestões para a meditação

§ Acolha deste texto as luzes e estímulos que você necessita para viver responsavelmente e esperar realisticamente

§ Recorde agradecido o nome, o rosto, a história e a melhor herança deixada pelas pessoas queridas que partiram

§ Tendo presente esta herança, o testemunho de tantos cristãos e a Boa Notícia de Jesus, como você honrar a vida e não apenas sobreviver, honrar seus falecidos e não apenas lamentar?

Dia dos pais

A importância da figura do pai

Para falar de Deus, Jesus recorre à experiência humana do pai. Ele chama e nos ensina a chamar Deus de “papai”. Assim, por um lado, o amor e a confiança em Deus dependem da experiência que temos do pai biológico ou afetivo, e, por outro, a paternidade precisa se inspirar em Deus, que é sua figura plena e acabada. Assim, a experiência humana da paternidade nos ajuda a compreender Deus, e a descoberta da paternidade de Deus pode purificar a relação com nosso pai biológico.

Não chegaremos a compreender o que significa dizer que Deus é como um pai sem apagar e imagem de Deus que o cristianismo veiculou a partir da idade média. A catequese medieval apresentou Deus como alguém cuja vontade escapa à nossa compreensão, que pode querer tudo e o seu contrário, um ser com características de tirano e arbitrário. E Jesus crucificado é visto e apresentado como a primeira vítima dessa vontade tirânica.

A modernidade ocidental reagiu a essa imagem distorcida, mutilada e mutiladora de Deus. Pensadores da estatura de Marx, Nietzsche, Freud e Sartre criticaram, com razão, essas imagens limitadas e deformadas de divindade e paternidade: uma vontade absolutista, cega e exterior ao sujeito, identificada com a lei, a ordem e o limite, que age como um freio à liberdade humana e impede que as pessoas cheguem à maturidade.

Mas, com isso, a modernidade acabou apagando e eliminando a figura do pai na vida social. Eliminando o pai, questionando a lei e eliminando os limites, ela deu à luz um pensamento débil, eliminou a verdade e desconfiou de tudo. O ser humano passou a sentir-se inseguro, perdido, sem referências. E acabou fabricando para si outros pais e mitos substitutivos: Hitler, Mussolini, celebridades diversas do espetáculo e do esporte.

Para superar este paradoxo, o Cardeal Martini propõe situar a figura do pai em outro horizonte. Ele diz que o ser humano carrega em si dois dinamismos concorrentes: a inquietude diante da morte, do limite e da finitude; o desejo de descoberta, de curiosidade, de plenitude. E, para suportar esta tensão, busca a diversão, e leva isso ao extremo na sociedade contemporânea: faz tudo para eludir o limite e para iludir a morte.

Nesse contexto, o Cardeal Martini insere o verdadeiro rosto da paternidade, tanto humana como divina: o pai é a certeza de uma origem e um futuro, de uma referência firme. Assim, o pai é resgata a nossa identidade de seres humanos e de filhos de Deus. Redescobrindo o papel positivo do pai, da lei e dos limites, o ser humano descobre também que não é uma liberdade indiferente e sem sentido, mas uma liberdade para crescer em direção à plenitude, uma liberdade para o bem.

Freud nos lembra que o pai é também aquele que afasta o filho da mãe, permitindo que ele desenvolva a autonomia e se engaje na vida do mundo. Assim, a figura do pai nos ajuda a ter o justo olhar sobre o outro. É à luz da paternidade que a fraternidade e a dimensão do outro como irmão e irmã se manifestam. Na vida cristã, é a paternidade de Deus que nos ajuda a avançar com audácia e confiança, a abandonar-nos em Deus, como Jesus o fez. E isso é essencial para o equilíbrio da sociedade e para o equilíbrio pessoal.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

A fé move montanhas?

A fé suscita a ação e garante sua fecundidade | 800 | 09.08.2025 | Mateus 17,14-20

O episódio do Evangelho de hoje está situado após a transfiguração de Jesus. É o último exorcismo narrado por Mateus, e seu foco não é propriamente a cura da epilepsia, mas a fragilidade e a inoperância da fé dos discípulos. Não se sabe claramente se eles haviam se sentido pequenos demais diante da grande missão que haviam recebido, ou haviam esquecido que eram apenas mediadores.

Um homem anônimo se aproxima de Jesus e implora sua misericórdia pelo filho que sofre de epilepsia, doença que o coloca frequentemente em risco de vida. Um detalhe importante é que o homem já havia buscado ajuda junto aos discípulos, que, de fato, haviam recebido de Jesus autoridade e competência para curar enfermidades (Mt 10,8). Mas algo que era fácil para Jesus parecia impossível aos discípulos, e eles haviam fracassado na tentativa de curar o rapaz.

A reação de Jesus diante desse fracasso é extremamente dura: fala dos próprios discípulos como gente fraca na fé e geração perversa, em nada melhor que a multidão. É possível que o fracasso dos discípulos tenha duas causas: eles podem ter esquecido que estavam a serviço do Reino de Deus e quiseram chamar a atenção sobre si mesmos; eles não estavam de acordo com a reinserção social dos doentes através da cura. Pensam que Deus não teria poder de mudar a situação através deles.

Advertindo seus discípulos sobre a debilidade da sua fé, Jesus demonstra que entende a fé como colocar em prática a vontade misericordiosa, vivificadora e libertadora de Deus. Quem crê de verdade, busca soluções humanas para os problemas humanos, e, assim, ajuda Deus a remover montanhas de egoísmo, dominação e marginalização. A problema não são as montanhas de terra e de rochas, mas de preconceitos e ideologias.

Entretanto, os discípulos missionários não podem esquecer que não são protagonistas destacados, mas apenas humildes mediadores da vontade de Deus e do Reino de Deus. Nada é impossível para o homem ou mulher que vive pela fé. Se não for assim, o fracasso está dado: não conseguem mudar nada, não superam os obstáculos, não se põem em saída, reduzem perigosamente o bem que podem fazer.

 

Sugestões para a meditação

§ Reconstrua na imaginação o fracasso dos discípulos em curar o jovem doente, inseri-lo de novo na sociedade e conferir-lhe nela um papel

§ Visualize e participe da cena em que o pai clama a Jesus por misericórdia pelo seu filho

§ Procure entender a dura reação de Jesus diante da dificuldade dos discípulos para se entenderem como mediadores da vontade de Deus

§ Sua fé é capaz de remover a montanha da indiferença, da intolerância e da exclusão que dominam nossa sociedade?

Viver vigilantes

NÃO VIVER ADORMECIDOS

Um dos riscos que hoje nos ameaçam é o de cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada. Não é fácil escapar. Com o passar dos anos, os projetos, objetivos e ideais de muitas pessoas acabam apagando-se. Não são poucos os que acabam por se levantar todos os dias apenas para «ir andando».

Onde podemos encontrar um princípio humanizador, desalienante, capaz de nos libertar da superficialidade, da massificação, do aturdimento ou do vazio interior?

É surpreendente como Jesus fala insistentemente da vigilância. Pode-se dizer que entende a fé como uma atitude vigilante que nos liberta da falta de sentido que domina os homens e mulheres que caminham pela vida sem qualquer meta ou objetivo.

Habituados a viver a fé como uma tradição familiar, uma herança ou mais um costume, não somos capazes de descobrir toda a força que ela contém para nos humanizarmos e darmos um novo sentido às nossas vidas.

É por isso que é triste observar quantos homens e mulheres abandonam uma fé vivida de forma inconsciente e pouco responsável para adotar uma atitude incrédula tão inconsciente e pouco responsável quanto a sua posição anterior.

O apelo de Jesus à vigilância chama-nos a despertar da indiferença, da passividade ou do descuido com que muitas vezes vivemos a nossa fé. Para vivê-la de forma lúcida precisamos conhecê-la com mais profundidade, confrontá-la com outras atitudes possíveis face à vida, agradecê-la e tratar de a viver com todas as suas consequências.

A fé é, assim, luz que inspira os nossos critérios de atuação, força que impulsiona o nosso compromisso de construir uma sociedade mais humana, esperança que anima toda a nossa vida quotidiana.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez