quarta-feira, 24 de abril de 2013

Reflexões de um velho e generoso missionário


Fui deveras um bom pastor?

No período que me encontro no Lar de Nazaré, em Passo Fundo, venho tendo a feliz oportunidade para boas leituras, para orar e rever minha vida em diversos aspectos.

Venho me detendo, com mais afinco, na avaliação sobre como tenho vivido minha consagração a Deus como religioso MSF e como exerci o ministério sacerdotal, até atingir a bela idade de 83 anos. Inicialmente, lembro que em 10-02-1943 celebrei meus 13 anos de vida. Dia seguinte, parti para o Seminário de Santo Ângelo. Portanto, há 70 anos, exatamente! Queria eu ser PADRE!... Nem idéia tinha de que me dirigia para uma congregação MISSIONÁRIA. Passados oito anos, dia 11-02-1951, dia de N. Sra. de Lourdes, tornei-me MSF, ao emitir os santos votos, no então Escolasticado São José.

De lá para cá, atuei na pastoral paroquial, na formação, na coordenação Provincial. Nos últimos anos, estive a serviço da paróquia Sagrada Família de Santo Ângelo. Agora, recolhido ao silêncio do Lar de Nazaré, trato de me avaliar, perguntando-me:  “Na minha vida, fui deveras MISSIONÁRIO da Sagrada Família?... De 2002 para cá, em Santo Ângelo, FUI  DEVERAS B0M PASTOR?...”

Penso  que fui mais ou menos. Poderia e deveria ter sido bem mais. Por quê?... Das tantas e tantas horas que dediquei ao cultivo da horta e à limpeza nos arredores da casa paroquial, bem que devia tê-las usado  para visitas aos enfermos,  catequizandos, ao atendimento às pessoas, etc.

Certa ocasião, num encontro pessoal com Dom Estanislau, manifestei-lhe que eu vinha me questionando, até com certa angústia, a respeito do estilo da ação pastoral em determinadas paróquias.” Sem  pretensão de ser dono da verdade, minha impressão, Dom Estanislau, é a de que corremos o risco de ser pastores demasiadamente confinados em nossos gabinetes e casas paroquiais, com insuficiente ação  e presença junto ao povo, seja tanto da matriz, como dos bairros e das comunidades do interior. (Aliás, o que era o meu caso!...)

Neste exato momento, nos debruçamos em Capítulos Locais e Provincial a fim de avaliar o presente e planejar o futuro nos mais diversos aspectos!... Urge resgatar nossa identidade missionária!... Sim!... Mas, por sua vez, como e qual será o nosso estilo de atuação pastoral em nossas paróquias?... Como  será  nosso AGIR, para sermos catalogados como BONS PASTORES?...

Concluo, com sábias palavras de nosso amado Fundador, que praticou o que nos recomenda incisivamente (repete quatro vezes ‘é preciso’!):  “AH, MEUS FILHOS, É PRECISO IR ÀS ALMAS, ELAS NÃO IRÃO A VÓS... É PRECISO PROCURAR O POVO E NÃO ESPERAR QUE ELE VENHA AO NOSSO ENCONTRO. AS ALMAS NÃO VÊM A DEUS EM BANDO, É PRECISO CONQUISTÁ-LAS UMA A UMA. É PRECISO CONQUISTAR OS HOMENS, AS MULHERES, OS JOVENS, AS CRIANÇAS. QUALQUER OUTRA IDÉIA QUE SE FIZER DO MINISTÉRIO É FALSA OU, AO MENOS, INCOMPLETA...”

Pe. Rodolpho Ceolin msf
Passo Fundo, 31 de março de 2013
Festa da Páscoa do Senhor  

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Fatos & Personagens: o genocídio dos armênios


Mártires armênios do genocídio

Na noite de 23 para 24 de abril de 1915, sob o pretexto de que estavam organizando uma revolta de todos os armênios residentes na Turquia, foram presos em massa em Constantinopla políticos, eclesiásticos, jornalistas, advogados e literatos armênios. Foi o começo daquilo que será conhecido como o segundo maior genocídio da história, só superado pelo genocídio dos hebreus pelo nazismo.

Entre 1915 e 1918, deportações maciças e tratamentos desumanos levaram ao desaparecimento nos desertos da Síria de 1.500.000 armênios nas areias da Síria. Aqueles que conseguiram fugir se refugiaram nos campos de refugiados do oriente médio ou do outro lado das montanhas do Cáucaso.

Mesmo sendo verdade que não é fácil compreender a complicada mistura de fé, identidade nacional e ação política visando a independência política que levou ao genocídio deste povo, os armênios recordam seus irmãos mortos durante a primeira guerra mundial como mártires, perseguidos por ódio à sua fé e à sua diversidade.

De qualquer modo, é historicamente certo que foram pouquíssimos aqueles que, para se salvar da fúria destruidora dos turcos, se converteram ao islamismo, renegando a fé dos seus pais.

(Comunità de Bose, Il libro dei testimoni, San Paolo, Milano, 2002, p. 207)

Fatos & Personagens: Guerra das Malvinas


Guerra das Malvinas

A Guerra das Malvinas (1982), guerra pátria que por um instante uniu os argentinos pisados, culmina com a vitória do exército colonialista da Grã-Bretanha.

Não sofreram nenhum arranhãozinho os generais e coronéis argentinos que tinham prometido derramar até a última gota de sangue. Os que declararam a guerra não estiveram  nela nem de visita.

Para que a bandeira argentina ondulasse nestes gelos, causa justa em mãos injustas, os altos comandos enviaram ao matadouro os rapazinhos enganchados pelo serviço militar obrigatório, que mais morreram de frio que de bala.

Não lhes treme e mão: com mão firme assinam a rendição os violadores de mulheres amarradas, os verdugos de trabalhadores desarmados.

(Eduardo Galeano, O século do vento, L&PM, 2010, p. 349)

domingo, 21 de abril de 2013

Solidariedade da CNBB com os/as moradores/as de rua


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CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz 

Nota de solidariedade aos moradores em situação de rua

A Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz; o Regional Centro Oeste da CNBB e a Arquidiocese de Goiânia, reunidos na 51ª Assembleia geral da CNBB, em Aparecida – SP, manifestam seu repúdio ao extermínio da população em situação de rua que vem ocorrendo em Goiânia-GO e na Grande Goiânia. De agosto de 2012 a abril deste ano, foram brutalmente assassinados 30 moradores em situação de rua, dos quais a grande maioria é de jovens, inclusive uma criança de 11 anos.

Diante desta condenável situação, solicitamos:

1.             Que os poderes públicos municipal, estadual e federal tomem medidas urgentes que eliminem esta situação de violência e restabeleçam a paz e segurança aos moradores de rua;
2.             Que as mortes dos moradores em situação de rua sejam investigadas e federalizadas imediatamente;
3.             Que sejam tornados públicos os resultados das investigações com sua ampla divulgação na mídia;
4.             Que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez;
5.             Que o Estado de Goiás e a Prefeitura de Goiânia se responsabilizem efetivamente pelas mortes dos moradores em situação de rua e se comprometam em auxiliar os familiares das vítimas;
6.             Que sejam criados, em caráter emergencial, espaços físicos que ofereçam alimentação, dormitório e, sobretudo, segurança aos moradores em situação de rua;
7.             Que se criem políticas públicas de inclusão social dos moradores em situação de rua, devolvendo-lhes a dignidade humana roubada e ferida e os tire dessa situação degradante.

Lamentamos que casos como o de Goiânia se repitam em outras partes do país. Conclamamos aos gestores públicos que promovam a justiça e o fim do extermínio de tantas pessoas humanas que, como todo povo brasileiro, merecem viver e conviver com dignidade.Na esperança de que nosso pedido seja atendido e de que a paz volte a reinar neste chão, invocamos a bênção de Deus sobre todos os seus filhos e filhas.

Aparecida – SP, 17 de abril de 2013

D. Guilherme Antonio Werlang MSF - Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da CNBB

Bispos membros da Comissão:  Dom Enemésio Angelo Lazzaris FDP; Dom José Luiz Ferreira Sales CSSR; Dom José Moreira Bastos Neto; Dom Pedro Luiz Stringhini; Dom Roque Paloschi;
Dom José Luiz Majella Delgado CSSR, Presidente do Regional Centro-Oeste da CNBB
Dom Washington Cruz CP – Arcebispo Metropolitano de Goiânia - GO

Fatos & Personagens: Defenda-se!


O indignado

Aconteceu na Espanha, num povoado de La Rioja, no anoitecer do dia 21 de abril de 2011, durante a procissão da Semana Santa.

Uma multidão acompanhava, calada, o passar de Jesus Cristo e dos soldados romanos que despejavam chicotadas em cima dele.

Um voz rompeu o silêncio. Montado nos ombros do seu pai, Marcos Rabasco gritou para o açoitado: “Se defenda! Se defenda!”

Marcos tinha dois anos, quatro meses e vinte e um dias de idade...

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 135)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Fatos & Personagens: Baía dos Porcos


Um papelão inesquecível

Foi a maior expedição militar de toda a história do mar do Caribe. E o maior fiasco.

Os donos de Cuba, despojados, desalojados, proclamavam, de Miami, que morreriam lutando pela devolução, contra a revolução.

O governo norte-americano acreditou neles, e seus serviços de inteligência demonstraram, uma vez mais, que não mereciam esse nome.

No dia 20 de abril de 1961, três dias depois do desembarque na Baía dos Porcos, os heróis, armados até os dentes, apoiados por barcos e aviões, se renderam sem lutar.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 134)

Diminuição da idade penal: o manifesto dos juízes


CARTA DE VITÓRIA EM DEFESA DA RESPONSABILIDADE

Os Juízes de Direito integrantes do Fórum Nacional da Justiça Juvenil, representantes dessa área da Justiça especializada de todas as Unidades da Federação brasileira, reunidos por ocasião do seu XIII Encontro Nacional, que se realiza em Vitória, ES, no período de11 a 13 de abril de 2013, manifestam a todos os demais segmentos do Sistema de Justiça e às redes de atendimento à infância e juventude em particular, e à Nação Brasileira em geral, as convicções seguintes:

1) Preocupam-se com a permanente exposição dos cidadãos brasileiros à toda sorte de riscos, violências e vitimizações, que entendem poderiam estar sendo evitadas mediante soluções de maior responsabilidade na gestão das políticas de Estado correspondentes.

2) Compreendem, solidarizam-se e associam-se, assim, como autoridades, como profissionais, como cidadãos e como pais de família, aos reclamos da sociedade pela adoção de respostas de Estado mais efetivas na contenção ao alastramento e agravamento da criminalidade, inclusive juvenil.           

3) Ponderam, entretanto, que o problema da violência é cercado de grande complexidade e não será resolvido por soluções simplistas como o mero endurecimento das legislações punitivas.

4) Manifestam, em contrário, sua convicção de que a excessiva carga de vingança pública instalada no trato das questões penais, ao contrário de solucionar, reveste atualmente um dos principais fatores criminógenos, por um lado legitimando a omissão das políticas públicas no trato dos apenados, e por outro gerando, em contrário, interpretações jurídicas que tendem à permissividade e ao esvaziamento da efetividade do sistema punitivo, exatamente como contraponto aos excessos da violência estatal.

5) Nesse momento, em que a sociedade reclama diuturnamente e com cada vez maior intensidade por mais segurança, garantia da ordem pública e proteção social, torna-se oportuno aplacar as respostas emocionais, buscando uma reflexão serena, racional e aprofundada quanto à escolha das estratégias que possam alcançar soluções efetivamente resolutivas que, conciliando justiça e segurança, representem a mais elevada aspiração do bem comum.

6) Nesse contexto, apesar das graves deficiências que enfrenta, o Sistema de Justiça Juvenil deve servir de exemplo ao Sistema de Justiça Criminal, e não ao contrário, como vem sendo postulado. Porque, embora desconhecida da maioria, a Justiça Juvenil, que abrange atos infracionais praticados por adolescentes entre 12 e 17 anos, tem-se mostrado incomparavelmente mais rápida, mais rigorosa, efetiva e transformadora do que a Justiça Penal de adultos. E é assim por basear-se num marco legal mais flexível, de caráter interdisciplinar e humanizante, indubitavelmente mais qualificado e capaz de responsabilização do infrator do que a mera retribuição punitiva.

7) Assim, se o que a sociedade demanda é mais segurança e não apenas o mero recrudescimento da retaliação vingativa, com seus indissociáveis efeitos colaterais violentos que hoje contaminam as comunidades marginalizadas, e dali se espalham para o sofrimento de todos, um debate democrático e responsável não pode esgotar-se na questão de reduzir a idade penal – aliás cláusula pétrea e por isso imodificável da Constituição da República - ou aumentar a duração das medidas socioeducativas.

8) Nesse sentido, oportuno ponderar que a Justiça Juvenil conta com um recente instrumento legal, a Lei 12.594, de 18.01.2012, fruto de 14 anos de ampla discussão com a sociedade e os setores técnicos especializados. E que a observância dos novos critérios legais no atentimento aos infratores juvenis representa um avanço civilizatório que não pode ser descartado em favor de um modelo de resposta penal que já se demonstrou infrutífero ao longo dos séculos, e que hoje chega ao colapso, não se justificando racionalmente que se pretenda insistir na receita de um remédio que está matando o paciente.

9) Advertem, com isso, que o brilho fácil e emotivo dos discursos pelo mero endurecimento da legislação penal, seja para adolescentes seja para adultos, representam uma tentadora armadilha que visa a desviar o foco da discussão com relação às verdadeiras raízes do problema da violência.

10) Disponibilizam-se, diante do exposto, e para isso pedem apoio de todos os segmentos da imprensa e dos movimentos sociais, a discutir ampla e abertamente tais questões com a sociedade, respeitada a complexidade de uma pauta que deve necessariamente incluir questões como:

a)       A corrupção, o desvio de finalidade e o desperdício dos orçamentos públicos;
b)       A gestão amadorística, desorientada e assistemática das políticas públicas por inumeráveis pessoas sem a mínima qualificação profissional nomeadas para cargos de confiança, cuja alternância e descontinuidade ao longo dos anos não permitem a mínima estruturação e estabilidade na condução dos serviços públicos a seu encargo;
c)        A insuficiência de investimentos, ou a gestão perdulária por falta de integração, em políticas de prevenção e proteção social, notadamente nos campos da educação, da assistência e da saúde;
d)       O abandono, a degradação e o descaso com as instituições do sistema prisional, que já se estende assustadoramente para as unidades socioeducativas;
e)       O desparelhamento dos quadros funcionais de carreira que prestam apoio à efetividade da legislação responsabilizante, tanto no sistema de justiça quanto no atendimento socioeducativo;
f)         A bem de ilustrar a possibilidade de soluções de sucesso nesse campo, convidam a conhecer e reclamam que todos as Unidades da Federação brasileira possam contar com um atendimento socioeducativo das medidas de meio fechado com a qualidade do Sistema em construção no Estado do Espírito Santo, concebido e executado nos moldes do SINASE.

11) Nesse aspecto, ressaltam e por concluir manifestam sua preocupação quanto ao andamento, a cargo do Poder Executivo nas várias esferas, do que se refere à implantação do sistema de avaliação e monitoramento; ao planejamento das políticas socioeducativas; e à definição das responsabilidades pelo financiamento do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, determinações estas constantes da Lei 12.594/2012, e que, quando efetivamente cumpridas, permitirão um dividendo social de qualidade e resolutividade incomparável com as soluções de mudança legal reducionistas, aliás habitualmente propostas ou insufladas pelos mesmos parlamentares e governantes que se omitem em cumprir tais obrigações legais quando no exercício da Administração Pública.

Sala de Sessões do Tribunal Pleno da Justiça do Estado do Espírito Santo, aos treze dias do mês de abril de dois mil e treze.

4° Domingo da Pascoa


O testemunho de amor e serviço desperta vocações.
(At 13,14.43-52; Sl 99/100; Ap 7,9.14-17; Jo 10,27-30)

O quarto domingo do tempo pascal nos apresenta Jesus como Cordeiro-Pastor que revela e anuncia o Pai mais através do testemunho e das ações que de palavras. Na mensagem que preparou para a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações, celebrada há 50 anos no 4° domingo da páscoa, o nosso papa emérito Bento XVI diz que as vocações “nascem da experiência do encontro pessoal com cristo, di diálogo sincero e familiar com ele, para entrar na sua vontade”. O aprofundamento dessa relação com ele, na qual a pessoa se torna capaz de acolher o chamado de Deus, “ é possível no âmbito de comunidades cristãs que vivem uma intensa atmosfera de fé, um generoso testemunho de adesão ao Evangelho, uma paixão missionária que induz a pessoa à doação total de si mesma pelo Reino de Deus...” Assim, as vocações são sinais da esperança que se fundamenta na fé (tema da jornada).
“Eu as conheço e elas me seguem...”
A fé em Deus se mostra mais pelas ações que pelos ritos, orações e palavras.  É isso que Jesus afirma na discussão com as autoridades religiosas em plena festa da dedicação do Templo, em Jerusalém. Os chefes do Templo procuram Jesus questionando-o: “Até quando nos deixarás em suspenso? Se tu és o Messias, o Cristo, dize-nos abertamente!” E Jesus retruca: “Eu já vos disse, mas vós não acreditais. As obras que eu faço em nome do meu Pai dão testemunho de mim” (Jo 10, 24-25).
Jesus apresenta suas credenciais de Messias, de missionário do Pai: as ações que realiza em favor da humanidade, especialmente em favor dos últimos da escala social. Neste debate com as autoridades do judaísmo Jesus nega a legitimidade de uma fé que não tenha apoio no próprio modo de agir. Quem está sem reservas ao lado do ser humano está com Deus. E quem está de alguma maneira contra o ser humano, mesmo que invoque o nome de Deus e participe de ritos religiosos, está contra ele.
“Somos seu povo e rebanho do seu pasto”, diz o salmista. Mas ser do rebanho de Jesus Cristo implica em escutar sua Palavra e seguir seus passos, assumir sua pró-existência. Crer nas obras que defendem e resgatam a dignidade humana é mais importante que crer na sua Palavra (cf. Jo 10,38). Crer em Jesus significa segui-lo, dar continuidade à sua obra. “Eu as conheço e elas me seguem.” Seguir Jesus implica em entregar-se sem reservas à luta pelo bem da humanidade, especialmente das pessoas humilhadas.
“Eu lhes dou a vida eterna.”
O denominador comum das múltiplas ações que expressam nossa fé é o amor. A autenticidade e a frutuosidade da nossa fé em Jesus não reside na multiplicação de atividades desconexas e sem alma. Mais que um sentimento, o amor é o dinamismo básico e permanente que nos move no reconhecimento do outro como outro, na defesa da sua dignidade inviolável e na priorização das suas necessidades humanas fundamentais, inclusive em detrimento das nossas.
O amor faz da nossa vida uma pró-existência, uma vida empenhada em favor dos outros. O amor é que nos faz humanos, nos dá à luz como pessoas. A descoberta e a construção da nossa identidade não se dá primariamente através da reflexão, do movimento de dobrar-se sobre si mesmo e escutar a voz interior, mas da tomada de posição diante de uma voz externa que chama: “Aqui estou! Envia-me!” (Is 6,8). Uma vida assim vivida não pode ser tragada pela morte ou diminuída pelas ameaças: é re-suscitada sempre de novo, têm força de eternidade.
“Gente de todas as nações, tribos, povos e línguas...”
O amor autenticamente humano e cristão não reconhece nenhum tipo de fronteira. Enquanto pró-existência e afirmação da dignidade do outro enquanto outro, o amor rompe com os muros levantados em nome da religião, da raça, da classe, do sangue, dos interesses econômicos. O amor é o único dinamismo capaz de globalizar verdadeiramente o mundo, sem excluir ninguém, pois começa pelo diferente, pelo outro, pela exterioridade em relação a todos os sistemas e instituições.
Neste sentido é interessante o testemunho dos Atos dos Apóstolos, que mostra como Paulo e Barnabé conseguem abrir as fronteiras rígidas do judaísmo e estabelecem relações com os povos não-judeus. Partindo dos conflitos provocados pelo anúncio de Jesus Cristo dentro do judaísmo eles se voltam aos grupos considerados pagãos. Experimentando acolhida e respeito, os cristãos de origem não-judaica vivem uma grande alegria. E nem mesmo a perseguição consegue levar Paulo e Barnabé de volta à estreiteza dos laços étnicos e religiosos.
Mas aqui precisamos de novo lembrar que o amor não se resume a um princípio formal ou um sentimento interior. Sem deixar de ser uma opção fundamental e um horizonte iluminador e crítico, o amor não existe fora das infinitas e pequenas ações que o encarnam na realidade. Poderíamos dizer que o amor não existe em si mesmo, ele não é, mas ‘vai sendo’ na imensa constelação de ações que afirmam e confirmam a vida e a dignidade das pessoas, começando pelas que nos são próximas e chegando àquelas que deslocamos para longe, como os índios, de cujo drama Galdino de Jesus, queimado vivo nas ruas de Brasília no dia 21 de abril de 1997, é um símbolo dramático.
“Muitos judeus e prosélitos praticantes seguiram Paulo e Barnabé.”
Se as palavras explicam e ilustram, o testemunho desperta e atrai. É claro que a mensagem anunciada por Paulo e Barnabé cumpre seu papel, mas é o testemunho de uma vida radicalmente mudada e colocada em risco que atrai judeus, prosélitos e gente vinda do paganismo. A mesma coisa podemos dizer a respeito da vocação e da con-vocação: a oração é importante, a pregação e o incentivo cumprem seu papel, mas o testemunho de uma vida ‘desvivida’ no amor é eloquente e irresistível.
Na sua mensagem para o dia de hoje, Bento XVI reflete sobre a vocação como sinal de esperança fundada na fé. Segundo ele, tudo parte da experiência de um Deus que é fiel ao seu amor pelo mundo. “É este amor, manifestado plenamente em Jesus Cristo, que interpela a nossa existência, pedindo a cada qual uma resposta a propósito do que fazer da sua vida e quanto está disposto a apostar para a realizar plenamente”. Este amor exigente e profundo nos infunde coragem e nos dá esperança no caminho da vida e no futuro, e desperta confiança em nós mesmos, na história e nos outros, lembra o Papa.
Jesus continua passando pelos nossos caminhos hoje e nos vê imersos em nossas atividades, com nossos desejos e necessidades. “É precisamente no nosso dia-a-dia que ele continua a dirigir-nos a sua palavra; chama-nos a realizar a nossa vida com ele, o único capaz de saciar a nossa sede de esperança.” Mas para acolher este convite “é preciso deixar de escolher por si mesmo o próprio caminho. Segui-lo significa entranhar a própria vontade na vontade de Jesus, dar-lhe verdadeiramente precedência, antepô-lo a tudo o que faz parte da nossa vida: família, trabalho, interesses pessoais, nós mesmos.”
“Vi uma multidão imensa que ninguém podia contar...”
Mas considerar como vocação unicamente a vida religiosa e o ministério sacerdotal é um erro teológico e pastoral. Rezando pelas vocações, pedimos a Deus que ajude nossas comunidades a se tornarem ambientes nos quais despertem e amadureçam as diversas vocações – leigas, religiosas e sacerdotais, litúrgicas e políticas –  que ajudam a anunciar, celebrar e construir a utopia do Reino de Deus. Elas compõem uma multidão imensa de gente que, orientando sua vida pelas sendas do Cordeiro, está de pé diante dele, pronta a cumprir a missão que ele lhe confia.
Nesta jornada mundial de oração pelas vocações, que vem sendo realizada há 50 anos, pedimos também que as autoridades eclesiásticas tenham a coragem de abrir novos caminhos e possibilidades ministeriais. Não seria um paradoxo enfatizar a necessidade da vida sacramental e, ao mesmo tempo, fazer os sacramentos dependerem unicamente de homens celibatários, dificultando assim o acesso do povo à graça sacramental? Faz sentido em pleno século XXI e diante de tanta necessidade excluir a metade fiminina da humanidade do acesso ao ministério ordenado?
“Servi ao Senhor com alegria!”
Jesus amado, Cordeiro de Deus e Bom Pastor! Através dos homens e mulheres que vivem a vocação como serviço e compaixão fazes teu amor libertador chegar a todas as gerações. Mediante estas pessoas, a maioria delas anônimas, enxugas as lágrimas do teu povo. Faz com que nossa palavra e nosso testemunho ajude a Boa Notícia do teu Reino chegar a todos os recônditos da terra. Tu nos fizeste, nos chamaste e somos teus/tuas. Possamos então realizar com desvelo e criatividade a missão que nos confiaste, membros diferentes de um único corpo no qual bate um único coração. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf