sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A vida do missionário se complica

A vida do missionário se complica, mas fica cheia de graça | 617 | 08.02.2025 | Marcos 6,30-34

No episódio do envio dos apóstolos ao “estágio missionário” (cf. Mc 6,7-13), a ênfase recaía sobre as instruções de Jesus para a missão. Na crônica sobre a trama e morte de João Batista (cf. Mc 6,14-29), o evangelista sublinhava o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos com os profetas que não calam a verdade. Este é o caminho e o destino de Jesus, s os discípulos que ele envia também devem preparar-se para isso.

No episódio de hoje, Marcos descreve o que acontece quando os discípulos voltam do breve “estágio missionário”. Eles foram enviados como missionários itinerantes, dedicados integralmente ao anúncio e realização do Reino de Deus, absolutamente dependentes da hospitalidade alheia. Voltando, eles se reúnem com Jesus e compartilham o que haviam feito e ensinado.

Atento ao cansaço e aos limites do apostolado deles, Jesus os convida para um retiro de descanso e de aprofundamento do seu ensino. Este descanso ou retiro se faz necessário, pois é muita gente chegando para pedir socorro, e isso pode limitar até as condições para se alimentar adequadamente. Mas a proposta de descanso se torna uma lição de dedicação incansável ao Reino de Deus, concretizada na compaixão pelo povo necessitado.

De fato, enquanto os discípulos que apenas estreavam como apóstolos ainda tinham dificuldades de reconhecer a identidade de Jesus, as multidões cansadas e abatidas, abandonadas pelos seus líderes e pastores políticos e religiosos, intuem quem é Jesus, depositam nele suas derradeiras esperanças e chegam antes deles no desejado “retiro”. É isso que relatam os versículos subsequentes.

A dedicação incansável de Jesus ao povo, e sua ação curadora e emancipadora, é a lição que faltava aos apóstolos. A missão não é uma etapa, um momento, uma entre outras atividades que nos ocupam. A divina e humana compaixão não conhece agenda. E as pessoas descartadas pelos “pastores” de plantão são a prioridade dos discípulos missionários. Mesmo quando se retiram para a oração e a formação, o povo está presente por todos os lados.

 

Meditação:

§ Releia o texto com atenção, acompanhando o retorno dos apóstolos, o convite ao descanso, a multidão que os rodeia

§ A formação, a oração, as celebrações e outras demandas da vida cristã não podem ser obstáculos ao “ministério da compaixão”

§ A verdadeira evangelização (anúncio da Boa Notícia de Deus) se concretiza e culmina na compaixão demonstrada nas ações

§ Em que medida é a humana e divina compaixão de Jesus que dinamiza nossa formação, nossa oração e nossa missão?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Que preço nos dispomos a pagar pela nossa coerência?

Que preço nos dispomos a pagar pela nossa coerência? | 616 | 07.02.2025 | Marcos 6,14-29

Ontem meditamos sobre o episódio do envio dos doze apóstolos e o ensino sobre o que é essencial na missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como peregrinos e hóspedes; confiar na força libertadora dos meios frágeis; manter a abertura e o diálogo; fazer bem e fazer bem sem olhar a quem. E, na cena de amanhã, refletiremos sobre o retorno e a partilha da experiência missionária.

É aparentemente estranho que o evangelista coloque, entre o envio e o retorno dos apóstolos, o relato sobre a condenação e morte de João Batista. Parece um parêntesis. Mas não é! Inserindo aqui este episódio, Marcos quer dar a entender que os apóstolos herdam tanto a missão como o destino de Jesus. Ele inicia sua missão com a prisão de João, é comparado a ele, e terá o destino dos profetas. Assim também os discípulos enviados em seu nome.

Neste relato temos uma crítica mordaz às elites que controlam Israel, um registro do conluio incestuoso de interesses políticos, militares e comerciais, e uma denúncia vigorosa dos seus caprichos assassinos. Herodes convida para sua festa a nobreza, o exército e as lideranças regionais. O juramento de um Herodes bêbado prometendo dar à bailarina, sua enteada, a metade dos seus bens assinala o modo estranho como as elites tomam suas decisões políticas.

Mesmo que aparentemente deseje conhecer Jesus, Herodes não o conseguirá, pois silenciou a Voz que anunciava o Verbo, e sem voz não há palavra. Seu casamento com a cunhada, que era também, como o costume de então, uma aliança política e diplomática, era criticada por João. Imaginando que Jesus seria João Batista que retornava, Herodes reconhece seu fracasso na tentativa de calar a voz dos profetas que o criticavam.

Nessa espécie de crônica policial percebemos o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos e profetas que não calam a verdade, mesmo quando têm que pagar essa fidelidade com a própria vida. Jesus seguirá por esse mesmo caminho, e terá semelhante destino. E os discípulos missionários que ele envia também devem se preparar para isso. Os cristãos serão sempre luz que revela o que costuma ser escondido, sinais de contradição!

 

Meditação:

§ Releia o texto com atenção, observando bem as nuances do relato e participando da cena que ele descreve

§ Você percebe a crítica irônica do evangelista às elites da Galileia, assim como sua denúncia vigorosa da sua violência?

§ O que explica o arrefecimento da profecia das lideranças cristãs nos tempos atuais, e como poderemos resgatá-la?

§ Como desenvolver nos discípulos missionários de hoje a coragem da verdade e a ousadia do testemunho?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O discípulo maduro se torna apóstolo

O discípulo que amadurece se torna apóstolo ao modo de Jesus | 615 | 06.02.2025 | Marcos 6,7-13

No episódio anterior (v. 1-6), o esperado encontro de Jesus com sua família e seus conterrâneos de Nazaré terminou em desencontro. Jesus percebeu que, como ocorreu com muitos profetas, ele não era reconhecido pelas pessoas mais próximas dele, tanto do povoado como da própria família. Eles também são vítimas da ideologia que não consegue acreditar na força dos fracos.

Mas Jesus não se rende às objeções, vindas da elite religiosa e muito disseminadas, a um Deus que assume a condição humana. Os sinais mais eloquentes e transformadores do Reino de Deus vêm exatamente da ação dos pequenos e marginalizados. Que eles atuem de forma pública e transformadora é um sinal da libertação já conquistada. O Reino de Deus não depende da eficácia dessas ações, pois o fato de os amordaçados falarem já é a libertação em curso.

Indiferente a este desprezo, Jesus põe sua confiança naquela gente pequena e desprezada que ele acolheu e escolheu para a sua comunidade-semente, a nova família que ele reuniu em torno do Evangelho. E, mais tarde, os envia para multiplicar sua ação emancipadora por doze, sem o apoio de meios potentes, que só fazem impressionar e intimidar. Seria como negar com os fatos a Boa Notícia que anunciavam com as palavras.

É este o significado das recomendações que Jesus faz àqueles e aquelas que envia: não levar reserva de alimentação, nem reserva técnica de dinheiro; dispensar também as roupas desnecessárias; levar apenas o cajado e calçar sandálias, para facilitar e agilizar as caminhadas. Mas Jesus pede que eles não deixem de fazer o que é indispensável: não atuem sozinhos, mas em companhia de outros; larguem mão dos pensamentos elitistas, que menosprezam os pobres; curem os doentes e libertem as pessoas dominadas, para que possam viver plenamente; evitem retaliações violentas contra aqueles que não os ouvem nem acolhem.

Eis o essencial da missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como amigos e hóspedes; confiar na força libertadora da fragilidade; manter a abertura e o diálogo; fazer o bem sem olhar a quem. Um bom aprendiz e discípulo torna-se bom mestre e apóstolo.

 

Meditação:

§ Releia o texto com atenção, interagindo com Jesus e com aqueles que ele escolheu e instruiu para a missão

§ Em que medida nós e nossas comunidades ainda não conseguimos aceitar a importância das ações frágeis e pequenas?

§ Você acredita mesmo que este mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor?

§ Como superar a tentação de confiar apenas nos meios potentes e nos agentes mais poderosos para desenvolver nossa missão?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Deus trabalhou com mãos humanas

Deus amou com coração humano e trabalhou com mãos humanas | 614 | 05.02.2025 | Marcos 6,1-6

Apesar dos títulos de poder que a história associou a ele, Jesus de Nazaré partilhou a sorte das pessoas humildes e marginalizadas. Ele não fez coro com os soberbos e satisfeitos, nem foi indiferente ao destino das pessoas desprezadas. Nasceu numa estrebaria, habitou numa cidade insignificante, foi trabalhador braçal, aproximou-se de grupos sociais considerados suspeitos, foi preso e executado entre outros condenados, fora dos muros de Jerusalém. Em sua cidade, Jesus era conhecido como um carpinteiro, e seus familiares eram pessoas muito humildes.

O trecho do evangelho de hoje mostra a admiração e a inquietação dos conterrâneos de Jesus sobre a origem e o carisma de Jesus. Como o conheciam desde pequeno, perguntavam-se: “Onde foi que arranjou tanta sabedoria? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” Do ponto de vista da origem, Jesus não poderia ser o que dava a impressão de ser. Para seus conterrâneos, a sabedoria não poderia vir de pessoas comuns e humildes como eles. Por mais seus ensinamento e ações impressionassem, sua pertença a um povoado e uma família marginal era como uma pedra de escândalo.

Jesus, por sua vez, fica muito impressionado com esta visão estreita, com a influência que a ideologia das elites exerce sobre os humildes habitantes da sua aldeia. Por trás dela está a ideia da inferioridade e impotência dos pobres, da sua radical e eterna dependência de benfeitores poderosos. Como tantos outros, aquele povo simples havia interiorizado e assimilado a insignificância que os outros lhe atribuíam. E parece que esse escândalo atinge os próprios familiares e parentes de Jesus.

Por isso, Jesus repete um provérbio popular da sua região: “Um profeta só não é estimado na sua pátria, entre seus parentes e familiares...” Aqueles que conheciam sua origem humilde e suas mãos calejadas na carpintaria não conseguiam reconhecer nele os traços do Profeta ou do Messias. Mas para Jesus o escândalo dos habitantes de Nazaré significa falta de fé, daquela abertura essencial que permite reconhecer a presença de Deus nas pessoas simples, acolher as surpresas e a ação de Deus que se manifesta onde menos se espera.

 

Meditação:

§ Releia o texto com atenção, imaginando-se presente em Nazaré, interagindo com os familiares e conterrâneos de Jesus

§ Em que medida também nós resistimos em admitir que pessoas simples, em lugares remotos podem fazer grandes coisas?

§ Como nós e nossas comunidades vivemos nossa origem, frequentemente humilde e de pouca relevância social

§ Deixe-se seduzir por Jesus Cristo, o Deus na carpintaria e na cruz, assumindo uma vida simples e priorizando os meios frágeis

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Jesus cura e faz o bem sem olhar a quem

Por onde passa, Jesus cura e faz o bem sem olhar a quem | 613 | 04.02.2025 | Marcos 5,21-43

O texto do evangelho de hoje está literariamente estruturado em forma de sanduíche: no início e no fim está a cena da menina doente; no meio, temos a cena da mulher que sofria de hemorragia há 12 anos. A menina, mesmo muito enferma, tem alguém por ela: seu pai é chefe de uma sinagoga. A mulher enferma já sofrera na mão de muitos médicos, e não pode contar com ninguém que interceda por ela.

Jairo, o chefe da sinagoga e pai da adolescente que “está nas últimas” atira-se aos pés de Jesus e pede insistentemente que ele faça um gesto que a cure e faça viver. Jesus atende o seu pedido e caminha com ele, ladeado por uma multidão. Tudo parecia andar bem de acordo com as expectativas e necessidades, mas, no meio do caminho apareceu uma mulher sofrida, sem nome e sem ninguém.

Ela sofria de hemorragia fazia 12 anos, havia sido depauperada pelos médicos, e, “em vez de melhorar, piorava cada vez mais”. 12 anos de dor, de isolamento social por causa da “impureza” provocada pelo fluxo de sangue, de uma pobreza que se agravava a cada dia. Também ela ouviu falar de Jesus, mas não ousou pedir nada. Apenas aproximou-se discretamente por trás e tocou na roupa dele. Movida pela fé, acreditava que o seu toque não transmitiria sua impureza a Jesus, mas atrairia dele a graça da cura.

Aproximando-se de Jesus e tocando na roupa dele, a mulher viu-se curada. Mesmo apertado pela multidão por todos os lados, Jesus percebe que algo acontecera. Uma pessoa tão sofrida não poderia passar por Jesus sem que ele se sentisse profundamente tocado! Mesmo embaraçada pelo seu gesto inusitado, a mulher se apresenta, e ouve de Jesus uma palavra poderosa e empoderadora: “És minha filha, e o que te curou é a tua fé. Vai em paz!”

Enquanto Jesus se entretém com esta mulher, a filha de Jairo morre, e seus empregados querem dispensar Jesus do pedido que ele lhe fizera. Então Jesus pede ao chefe da sinagoga que aprenda a crer como a mulher sem nome. E, chegando à casa, interrompe os lamentos, põem ordem na confusão, fica sozinho com os pais na peça onde está a menina, estende a mão a ela e a coloca de pé. E ela caminha, livre e curada, diante de uma multidão admirada.

 

Meditação:

§ Perceba a situação de abandono social da mulher anônima, mas também sua confiança e sua fé, e a estratégia que nasce delas

§ Perceba como Jesus não dá preferência a quem tem um intercessor importante, e como toma a fé de uma pagã como exemplo

§ Qual é a atenção que dispensamos às pessoas que, movidas pela necessidade e pelo desespero, irrompem em nossas igrejas?

§ O que podemos fazer para que a Igreja reconheça o espaço que cabe às mulheres na sua missão e organização?

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Estruturas violentas geram doenças

Jesus cura as doenças geradas por estruturas violentas | 612 | 03.02.2025 | Marcos 5,1-20

Acalmada a tempestade de medos que os agitava, os discípulos chegaram com Jesus ao território pagão. Esta região ficava próxima a Tiberíades, cidade construída por Herodes em homenagem ao imperador Tibério. Ela foi erguida sobre os restos de um cemitério e, por isso, Herodes teve que forçar os judeus para que fossem habitar nela. A menção aos porcos reforça o caráter impuro dessa cidade considerada pagã pelos judeus.

Este é o mais dramático relato de exorcismo de Marcos, tanto pelos detalhes narrativos como pela situação da pessoa dominada e pelos efeitos dessa dominação. Aquele homem vivia errante nos cemitérios e feria o próprio corpo. É um retrato da desumanização à qual havia chegado, sob a dominação dos demônios. Mas é importante compreender o que são e o que representam estes demônios.

Chama a atenção o fato de Jesus pôr um fim às tentativas dos demônios para nomeá-lo. O título de Filho do Deus Altíssimo tem ressonâncias pagãs, e representa uma ameaça para as pessoas já terrivelmente feridas e segregadas. E, mais que isso, Jesus consegue impor-lhes a obrigação de dizer quem são. “Meu nome é legião, porque somos muitos”, é a resposta do demônio a Jesus. Aquele homem destruído em sua personalidade é uma das vítimas do império.

O episódio ocorre numa região marcada pela dominação romana, com forte presença do comércio e do exército. Ora, o nome de um dos destacamentos do exército romano era exatamente “legião”, e seu símbolo era o porco! Marcos não podia ser mais claro: o demônio que agride e despersonaliza o povo é a dominação romana, através do exército! Não se trata de espíritos misteriosos, mas de sujeitos e instituições bem concretas e identificáveis.

Libertado e reconstruído, o homem antes possuído e transtornado se transforma em apóstolo. Tanto os cuidadores dos porcos como os comerciantes da cidade percebem o “estrago” que Jesus faz nos seus negócios, e pedem, sem rodeios, que ele se retire da região. Para alguns, um povo enfermo pelo medo e pelo abandono é um bom negócio. E sempre há quem prefira os negócios funcionando à custa de pessoas morrendo! Que não seja assim entre nós, nem em nossa Igreja!

                                  

Meditação:

§ Releia o texto e perceba a degradação do homem possuído, a diálogo dele com Jesus, a mudança que Jesus provoca nele

§ Hoje volta a tentação de atribuir ao demônio o sofrimento das pessoas, enquanto que Jesus nos ensina que não é assim

§ Quanto maiores são as tensões vividas por um povo, tanto maior é a incidência de doenças e transtornos

§ Senhor, faze calar o tumulto interior que provocam em mim o medo, a competição e o egoísmo, e liberta-me para amar

sábado, 1 de fevereiro de 2025

47ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul

Uma Romaria da Terra, das águas e de todas as criaturas

A diocese de Santa Cruz do Sul abre suas portas para acolher a 47ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, na terça-feira de carnaval (4 de março próximo). Há quase 50 anos, cristãos e agentes sociais se reúnem ecumenicamente para celebrar a memória do líder indígena Sepé Tiaraju e resgatar sua luta por uma terra repartida, habitável e sem males. Desta vez, a cidade de Arroio do Meio acolherá os romeiros vindos de todo o estado.

A escolha do lugar para este encontro de fé, solidariedade e esperança não é arbitrária. A diocese de Santa Cruz foi uma das mais atingidas pelos eventos climáticos extremos que se abateram sobre o Rio Grande do Sul em setembro de 2023 e maio de 2024. E Arroio do Meio é uma das que mais sofre com estas catástrofes, em parte, frutos der um projeto econômico insustentável e da irresponsabilidade humana.

No Vale do Taquari, os clamores das pessoas e comunidades atingidas ainda ressoam, mesmo abafadas pelo rumor da reconstrução. As lágrimas pelas perdas humanas, culturais e econômicas continuam brotando, mesmo sem a visibilidade de antes. A terra desnudada e os rios assoreados seguem expondo suas feridas e convocando-nos a tratá-los como irmãos e irmãs, e não como fontes de lucros e cloacas de dejetos.

A deterioração das condições de vida da Casa Comum e seus habitantes não é obra do acaso, nem vontade de Deus, pois ele selou uma aliança com Noé, sua família e todas as criaturas, assegurando que dele não viria nenhuma destruição (cf. Gn 8,15-22). Esta aliança foi ratificada e renovada em Jesus Cristo (cf. Lc 22,20). Neste horizonte, as dores da terra deveriam ser dores de parto, de nascimento, e não de destruição (cf. Rm 8,22).

Como sujeitos dotados de razão e responsabilidade e, mais ainda, como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, não podemos fechar os olhos diante de tudo o que está acontecendo ao nosso redor: as “catástrofes ambientais”; as agressões violentas ao meio ambiente; a desumana indiferença diante dos empobrecidos e outros vulneráveis; os generosos movimentos de socorro solidário e de produção sustentável.

Reconstruir a Casa Comum com fé, esperança e solidariedade” é o repto que nos guiará nesta romaria. Queremos que seja um encontro entre a Igreja sofrida, que ainda chora a dor de perdas irreparáveis, e a Igreja solidária, que não se nega a repartir recursos, estender a mão e pisar na lama para socorrer seus irmãos e irmãs; um verdadeiro encontro samaritano entre vítimas e socorristas. Esta não é uma “procissão das criaturas”, mas uma peregrinação de quem quer uma terra habitável para todos.

Você é convidado a participar desta celebração da paixão e páscoa de Jesus na via sacra da Casa Comum e seus habitantes; a tocar as chagas abertas por um projeto econômico predatório; e a apertar a mão das pessoas que você ajudou generosamente de longe.

É hora de despirmo-nos das roupas sujas e apertadas das ideologias que nos cegam e nos fazem tratar os outros como concorrentes e inimigos. Soou o sinal anunciando a hora de vencer o consumismo predatório que nos anestesia diante da urgência de fazer tudo para entregar às novas gerações um mundo habitável e um estilo de vida sustentável.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo de Santa Cruz do Sul

Apresentação de Jesus

UMA FÉ SIMPLES

O relato do nascimento de Jesus é desconcertante. Segundo Lucas, Jesus nasce numa terra onde não há lugar para O receber. Os pastores tiveram de O procurar por toda Belém até que o encontraram num lugar afastado, deitado numa manjedoura, sem mais testemunhas do que os Seus pais.

Aparentemente, Lucas sente necessidade de construir um segundo relato em que a criança é resgatada do anonimato para ser apresentada publicamente. Que lugar mais apropriado do que o Templo de Jerusalém para Jesus ser acolhido solenemente como o Messias enviado por Deus ao seu povo?

Mas o relato de Lucas é desconcertante. Quando os pais se aproximam do templo com a criança, quem vem ao seu encontro não são os sumos sacerdotes e outros líderes religiosos. Mais adiante, eles o entregarão para ser crucificado. Jesus não pode ser nessa religião segura de si mesma e esquecida do sofrimento dos pobres.

Tampouco O vêm receber os mestres da Lei que ensinam as suas tradições humanas nos átrios daquele Templo. Anos mais tarde rejeitarão Jesus por curar os doentes violando a lei do sábado. Jesus não encontra acolhimento em doutrinas e tradições religiosas que não ajudam a viver uma vida mais digna e saudável.

Quem acolhe Jesus e o reconhece como Enviado de Deus são dois anciãos de fé simples e de coração aberto, que viveram as suas longas vidas esperando a salvação de Deus. Os seus nomes parecem sugerir que são personagens simbólicos. O ancião chama-se Simeão (o Senhor ouviu), a anciã chama-se Ana (oferenda). Eles representam a tanta gente de fé simples que, em todos os povos de todos os tempos, vivem com a sua confiança colocada em Deus.

Os dois pertencem aos ambientes mais saudáveis de Israel. São conhecidos como o grupo dos pobres do Senhor. São pessoas que não têm nada, apenas a sua fé em Deus. Não pensam na sua fortuna ou no seu bem-estar. Só esperam de Deus a consolação que o seu povo necessita, a libertação que procuram geração após geração, luz que ilumina as trevas nas quais vivem os povos da terra. Agora sentem que as suas esperanças se cumprem em Jesus.

Esta fé simples que espera de Deus a salvação, é a fé da maioria. Uma fé pouco cultivada, que se concretiza quase sempre em orações desajeitadas, que se formula em expressões pouco ortodoxas, que se desperta sobretudo em momentos difíceis de apuro. Uma fé que Deus não tem nenhum problema em entender e acolher.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Em Jesus, brilha a luz da dignidade da vida de todos os povos

Em Jesus, brilha a luz da dignidade da vida de todos os povos | 611 | 02.02.2025 | Lucas 2,22-40

O momento alto e revelador desta cena, que ilumina a festa de hoje, nascida como festa do encontro e conhecida também como festa da luz, não é o cumprimento das leis de purificação por Maria e José, mas o encontro, à margem dos dirigentes do templo, com Simeão e Ana, assim como o que eles anunciam. Na cena narrada por Lucas, tudo chama a atenção para o significado do filho que Maria e José apresentam ao povo de Deus.

Simeão, idoso e piedoso, toma o Menino nos braços e, com seu olhar penetrante, vê nele a presença libertadora de Deus na fragilidade humana. É uma salvação que desborda as fronteiras étnicas e religiosas de Israel: ela se destina a todos os povos, é luz que ilumina todas as nações, sem excluir nenhuma e ninguém. Ana também fala do Menino a todas as pessoas que peregrinam na esperança. Como os pastores representam a acolhida de Jesus pelos excluídos, Simeão e Ana expressam sua acolhida pelo resto piedoso e fiel.

No interior do suntuoso templo, Maria e José observam a alegria consoladora de quem esperou longamente, e experimentam certo brilho. Poucas coisas estão claras, mas cresce neles a percepção de que o filho que lhes foi confiado é especial para todos os povos. Porém, este brilho é ofuscado, em certo sentido, pelas palavras misteriosas que Simeão dirige a Maria. Jesus vai incomodar, pois veio para desmascarar o colocar pedras no caminho dos exploradores.

Como todos nós, José e Maria precisam peregrinar e crescer no escuro da fé. Como Abraão, eles se lançam na estrada sem saber aonde chegarão. Simplesmente, ousam acreditar e peregrinar, e isso lhes é creditado como justiça. Abrem-se, pouco a pouco, à novidade que Deus manifesta através do nascimento daquele inesperado filho. Eis o caminho a ser seguido pelos religiosos e religiosas.

O breve cântico de Simeão é uma síntese do credo dos primeiros cristãos. Jesus é Boa Notícia e caminho de libertação para todos os povos. Ele é também o paradigma da responsabilidade missionária dos homens e mulheres que se consagram a Deus e ao seu Evangelho: sair do estreito âmbito das instituições para ser presença solidária, consoladora e libertadora para todas as pessoas e povos.

                                  

Meditação:

§ Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens, nos gestos, nas atitudes e nas palavras deles

§ Observe e contemple as ofertas de resgate apresentadas por Maria e José, próprias dos casais pobres e humildes,

§ Procure perceber como, nas palavras de Simeão e de Ana, transparece a vida e a missão do Jesus adulto e dos cristãos

§ Com que palavras e atitudes as pessoas consagradas poderíamos apresentar Jesus e seu Evangelho aos homens e mulheres de hoje?

O Evangelho dominical (02.02.2025)

NINGUÉM ESTÁ SOZINHO

Ainda hoje existe entre os cristãos um certo elitismo religioso que é indigno de um Deus que é amor infinito. Há quem pense que Deus é um Pai estranho que, embora tenha milhões e milhões de filhos e filhas que nascem geração após geração, na realidade só se preocupa verdadeiramente com os seus favoritos. Deus agiria sempre assim: escolhe um povo eleito, seja o povo de Israel ou a Igreja, e dedica-se totalmente a ele, deixando os outros povos e religiões num certo abandono.

Mais ainda. Afirmou-se com toda a tranquilidade que não há salvação fora da Igreja, citando frases como a tão conhecida de São Cipriano, que, retirada do seu contexto, é assustadora: «Não pode ter Deus como Pai que não tem a Igreja como Mãe».

É certo que o Concílio Vaticano II ultrapassou esta visão indigna de Deus ao afirmar que «não está longe daqueles que procuram, entre sombras e imagens, o Deus desconhecido, pois que todos recebem d’Ele a vida, a inspiração e todas as coisas, e o Salvador quer que todos os homens se salvem» (Lumen gentium 16), mas uma coisa são estas afirmações conciliares e outra os hábitos mentais que continuam a dominar a consciência de muitos cristãos.

Deve ser dito com toda a clareza. Deus, que cria todos por amor, vive centrado sobre todas e cada uma das suas criaturas. A todas chama e atrai para a felicidade eterna em comunhão com Ele. Nunca houve um homem ou uma mulher que tenha vivido sem que Deus o tenha acompanhado desde o mais profundo do seu ser. Ali onde há um ser humano, qualquer que seja a sua religião ou o seu agnosticismo, ali está Deus suscitando a sua salvação. O seu amor não abandona nem discrimina ninguém. Como diz São Paulo: «Em Deus não há distinção de pessoas» (Rm 2,11).

Rejeitado na sua própria cidade de Nazaré, Jesus recorda a história da viúva de Sarepta e a de Naamã, o sírio, ambos estrangeiros e pagãos, para deixar claro que Deus se preocupa com os seus filhos e filhas, mesmo que não pertençam ao povo eleito de Israel. Deus não se ajusta aos nossos esquemas e discriminações. Todos são seus filhos e filhas, os que vivem na Igreja e os que a deixaram. Deus não abandona ninguém.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez