quarta-feira, 16 de abril de 2025

Lições da eucaristia e do lava-pés

Querer ser superior aos outros é querer estar acima de Deus | 685 | 17.04.2025 | João 13,1-15

Com o lava-pés iniciamos a segunda parte do evangelho de João, que põe em cena a paixão de Jesus. Este mistério é introduzido pela última ceia, e a narração se estende por três capítulos, recheados de diálogos entre Jesus e seus discípulos sobre questões absolutamente centrais na vida cristã. 

Aproxima-se a festa da páscoa, e Jesus sabe que sua hora chegou. Então, ele se reúne com seus amigos numa refeição cálida e amistosa que, no costume judaico, precede a ceia pascal. Jesus tem plena consciência em relação ao que está para acontecer. Ele não é um profeta ou um mestre surpreendido por acontecimentos inesperados, mas caminha soberano, consciente e livre para a entrega da própria vida.

Um novo personagem, o diabo, entra em cena e atua em Judas. Então o amor de Jesus pela humanidade se torna duro combate. É neste momento que ele se despoja do manto da divindade e se reveste do linho da humanidade para conduzi-la e mantê-la na sua amizade.  O despojamento que se manifestou na encarnação em Belém e em Nazaré se radicaliza na ceia e na cruz em Jerusalém.

Abaixando-se para lavar os pés dos discípulos, Jesus antecipa o movimento da paixão e morte, sua descida “aos infernos”, ou à “mansão dos mortos”. De certo modo, ele repete o gesto de acolhida que Maria de Betânia havia feito a ele. Jesus se despoja da sua condição divina para nos acolher, e retoma sua gloria na manhã da ressurreição.

Lavar os pés era um ofício degradante, um trabalho reservado aos escravos pagãos. Jesus lava nossos pés para que participemos da sua vida e missão de servo excluído. Assim, entende-se a resistência insistente de Pedro, mas, diante da insistência de Jesus, consente, inclusive pedindo com excesso. Mas o faz por obediência a um chefe, não por consciência.

Fazendo isso, Jesus não quer simplesmente demonstrar humildade. O que ele faz é rejeitar de forma contundente toda forma de superioridade e hierarquia, que não valorize a dignidade de cada pessoa e perpetua a desigualdade. O amor e o serviço fraterno, especialmente aos mais vulneráveis, é o ensaio geral da vida cristã, a “prova dos nove” do amor a Deus. Reivindicar superioridades equivale a colocar-se acima de Deus.

 

Meditação:

§ Leia atentamente, com o coração, com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, verbo por verbo, esta bela cena

§ Acompanhe o gesto de Jesus, permita que ele lave seus pés, e, principalmente, entenda o que ele quer transmitir com isso

§ Por que Pedro resiste ao gesto de Jesus? Será que ele não quer defender a própria superioridade?

§ Por que nos custa tanto reconhecer a dignidade e os direitos humanos, a absoluta igualdade de todos os seres humanos?

terça-feira, 15 de abril de 2025

Jesus diz que deseja celebrar sua páscoa conosco

Jesus diz que deseja celebrar sua páscoa em nossa casa | 684 | 16.04.2025 | Mateus 26,14-25

No evangelho segundo Mateus, do qual é extraída a cena de hoje, a ceia de despedida de Jesus é precedida pelo anúncio da traição de Judas. O fato é também narrado por João, mas com nuances bastante diferentes, e depois da ceia. Em todos os casos, ao celebrar a ceia pascal e assinar com ela seu testamento, Jesus se mostra consciente das traições que o cercam.

É importante notar que Jesus pede que a ceia seja celebrada numa casa, no ambiente “profano” e íntimo das pessoas que compartilham o sangue e o destino. É neste ambiente de intimidade e memória do evento fundador do povo de Deus, neste acontecimento da aliança nova e eterna de Deus com a humanidade, que a traição se desenvolve. Por isso, a ação de Judas é também uma traição do espírito da comunidade e da ceia eucarística.

Mateus nos relata um fato estranho: é Judas, um dos Doze, que procura a elite religiosa do templo para entregar Jesus a eles. Os dirigentes não precisavam dessa ajuda, pois sabiam muito bem quem era ele e por onde ele andava. A ação de Judas contrasta com a atitude de gratidão de uma mulher na casa do leproso que fora curado por Jesus, um pouco antes: enquanto Judas entrega Jesus, a mulher o acolhe.

Judas acerta com os sacerdotes, pelo seu “serviço sujo”, o equivalente a um mês de trabalho de um pastor, ou igual à indenização que deveria ser paga por um escravo ferido por um boi. Na verdade, a iniciativa estranha de Judas revela uma tendência geral de desistência, negação, traição e ruptura com Jesus e seu Evangelho. Mas isso não muda a decisão de Jesus, e ele se mostra consciente daquilo que estava ocorrendo.

Jesus fala que um dos Doze haveria de traí-lo, todos ficam aflitos e perguntam se casualmente seriam eles, esperando uma resposta negativa. Então o foco da cena faz convergir a nossa atenção para a figura de Judas, que faz a mesma pergunta e também espera uma resposta negativa, como que para encobrir ou disfarçar aquilo que o aproximava dos hipócritas que controlavam a religião e o templo. E ele não chama Jesus de Senhor, mas de mestre, desobedecendo a proibição explícita de Jesus.

 

Meditação:

§ Leia atentamente a narração de Mateus, e perceba o clima de tensão e as contradições que envolvem todos os discípulos

§ É possível perceber, por traz da traição, a ruptura de Judas com Jesus e sua proposta de comunhão do reino de Deus?

§ Será que a tentação de resistir, desistir, amaciar ou desviar do evangelho do diálogo e da acolhida não está nos rondando?

§ O que significa lembrar que a traição acontece na mesa da eucaristia e envolve os mais próximos de Jesus?

segunda-feira, 14 de abril de 2025

A tragédia de Judas Iscariotes

Quem entrega Jesus é um dos que se sentaram à mesa com ele | 683 | 15.04.2025 | João 13,21-38

A cena que se desenvolve em plena ceia de despedida de Jesus, depois do gesto simbólico do lava-pés. Entretanto, na caminhada da semana santa, o episódio vem antes da ceia do Senhor, e está focalizado na possibilidade da traição e da negação que nos ronda a todos. Jesus estremece ao manifestar a certeza de que está sendo traído por um dos seus seguidores mais próximos. E fala isso ainda à mesa, onde dissera que daria a vida pelos seus.

O contexto da cena, como de todo o episódio da ceia de Jesus, está marcado por um clima de suspeita, medo, negação e traição. Jesus fala aos seus discípulos: “Um de vós me entregará”. Como eles não sabem a quem Jesus se refere, todos se olham com suspeita. Somente o discípulo confidente e amigo de Jesus fica sabendo quem é, mas Jesus não o anuncia publicamente, preservando, o quanto possível, a honra do traidor.

Não há como saber qual foi a tragédia maior: aquela que desabou sobre Jesus ou o caminho tenebroso de Judas. Sendo um dos apóstolos, Judas recebe das mãos de Jesus um “pedaço da sua vida” e a leva aos inimigos de Jesus. Toma a decisão de repudiar e entregar Jesus, não come do pão e não bebe do vinho, embora tenha permitido que ele lavasse seus pés. Assim, Judas faz sua opção definitiva contra Jesus (é o que significa dizer que Satanás entrou nele). Por isso, não pode mais ficar com Jesus e se perde na escuridão da noite. Quem acompanhará Jesus até o fim?

Outro personagem que recebe destaque na cena é Pedro. Ele não é leviano, mas ainda não tinha aceitado Jesus e seu Evangelho de encarnação, serviço e despojamento. Pedro mostra-se arrogante e obstinado, mas tenta esconder sua fraqueza e sua decepção. Trata Jesus como líder, e diz estar disposto a dar a vida por ele, mas dá a impressão de querer separar Jesus dos demais seres humanos. Jesus não ensina a dar a vida por ele, mas com ele, pelo ser humano fragilizado. Por isso, ironiza a declaração afoita e arrogante de Pedro. Quando Pedro nega Jesus, o canto do galo na escuridão da noite expressa o canto de vitória do diabo, aquele que divide os discípulos e se alegra com essa divisão.

 

Meditação:

§ Participamos, sempre que possível, da mesa eucarística, mas o aceitamos plenamente, e ao seu caminho de serviço solidário?

§ Como Pedro, prometemos emalto e bom tom seguir Jesus por onde quer que ele vá, mas isso é pra valer?

§ O que nos custa mais, ou até consideramos inadmissível, no caminho que Jesus propõe a quem deseja segui-lo?

§ Até que ponto temos consciência das fraquezas, negações e traições ao caminho de vida percorrido e proposto por Jesus?

domingo, 13 de abril de 2025

O gesto de Maria de Betânia

A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo... | 682 | 14.04.2025 | João 12,1-11

Seis dias antes da páscoa, Jesus se afasta de Jerusalém e busca acolhida em Betânia, entre os amigos e discípulos Marta, Maria e Lázaro. A casa está tomada pela emoção, pois Lázaro havia voltado à vida, e eles oferecem a Jesus uma agradecida refeição. É neste contexto que Maria realiza um gesto surpreendente, como se quisesse anunciar a passagem de Jesus deste mundo ao Pai: ela busca um frasco de perfume caríssimo (custa 10 meses de salário!), unge os pés de Jesus e os enxuga com os cabelos.

O efeito é inesperado: o perfume enche a casa! (João fala de ‘oikumene’ o mundo habitado, a ‘casa comum’). Jesus acolhe este gesto de Maria, mas Judas reage protestando contrariado. Nele ressoa a tentação da Igreja diante da novidade desmedida do amor. Jesus toma a Palavra e confirma que o gesto de Maria é correto e justo: ela antecipa o embalsamamento do seu corpo e, com isso, aceita e preanuncia sua paixão.

É como se houvesse em Deus uma pobreza, uma necessidade de amor maduro e lúcido da humanidade. Deus busca adoradores em Espírito e verdade, e o cego de nascimento e Maria de Betânia são capazes de tal amor. A sede de amar os homens e mulheres e de ser por eles amado atravessa o evangelho de João e encontrara seu ponto alto na cruz. “Tenho sede”!

O gesto de Maria é um gesto de amor por Jesus, que ela reconhece como enviado do Pai. É gesto de esperança à luz do mistério da paixão que se aproxima. É gesto de fé, dessa fé que deve se espalhar como bom perfume de Cristo. Da nossa parte, somos chamados a prolongar o gesto de fé de Maria, a derramar sobre o corpo de Jesus o perfume do nosso amor.

Podemos honrar o corpo de Jesus nas Escrituras, pois a vida cristã é escuta, acolhida e prática da Palavra. Podemos também honrar o corpo de Jesus na Eucaristia, para que ele tome forma em nós e nós nos transformemos nele. Podemos honrar o corpo de Cristo no corpo eclesial, constituído por aqueles que vivem do Espírito de Cristo. E há o corpo de Cristo que espera nosso serviço no corpo dos pobres, interlocutores da missão, e no corpo da família das criaturas, nossa casa comum.

 

Meditação:

§ O que o gesto aparentemente exagerado de Maria diz para a nossa espiritualidade de homens e mulheres adultos e maduros?

§ Como entender e trazer para nosso contexto atual o argumento falso de Judas e a resposta de Jesus?

§ O gesto de Maria de Betânia é o movimento no qual somos chamados a entrar para honrar o corpo de Cristo

§ Acolhemos realmente o caminho de Jesus como ele nos apresenta: esvaziamento solidário, serviço gratuito, profecia destemida?

§ Como manifestamos concretamente nosso cuidado agradecido e reverente ao “corpo de Jesus” hoje?

sábado, 12 de abril de 2025

Ele se tornou igual aos homens

Ele se tornou igual aos homens, semelhante aos escravos | 681 | 13.04.2025 | Lucas 19,28-40

Jesus vem da Galileia e entra na capital do seu país dominado por Roma, montado num jumento. Nada de cortejos de honra, nem de generais e cavalos, nem dos gestos protocolares de cortesia dispensados aos grandes senhores. Como diz o hino de Paulo, Jesus chega a Jerusalém como sempre foi: um servidor, um simples homem, esvaziado de ambições e grandezas, radicalmente obediente à vontade do Pai e às necessidades dos outros.

Jesus de Nazaré chega caminhando à frente de um entusiasmado grupo de seguidores e admiradores. Os camponeses da zona periférica da capital o aclamam como filho e herdeiro de Davi. Eles faziam parte daquele “resto fiel” que esperava um Messias e o dia da mudança, e sabia reconhecer num indignado e revolucionário Aquele que vem em nome de Deus.

Na verdade, o grupo que acolhe e acompanha Jesus na entrada em Jerusalém saúda o despontar do reino messiânico inspirado em Davi. Mas, entrando na cidade, Jesus não realiza as ações que muitos esperavam. Tendo chegado perto da capital, ele a contempla de longe e chora, lamentando o fechamento à profecia e o apego às leis e demais instituições. Ele é o servo paciente e o ouvinte atento da Palavra do qual fala Isaías.

Entrando em Jerusalém montado num jumento, Jesus faz uma sátira aos libertadores militares, conhecidos no passado e temidos no presente. Um grupo de discípulos mais exaltado solta a voz e o proclama o Messias esperado, mas Jesus faz questão de demonstrar que é um Messias radicalmente diferente: pobre e pacífico. O entusiasmo suscitado no povo do entorno da capital não durará muito tempo.

Percebendo o desfecho que o esperava, Jesus se sente abatido, e chega a se perguntar qual direção deve tomar. No momento crucial, depois da festa de acolhida e da ceia de despedida, enfrenta um discernimento difícil e pede aos discípulos que fiquem com ele e vigiem.  É um exercício de confronto profundo com a vontade do Pai, com a missão escrita em caracteres confusos e exigentes. Nem a divisão entre os discípulos, nem os sinais anunciadores de traição o fazem mudar seu plano.

 

Meditação:

§ Releia o texto com calma, prestando atenção aos personagens, ao que eles fazem e ao que eles dizem

§ Perceba os sinais que demonstram que a cena é uma espécie de teatro que ironiza as marchas dos grandes chefes e não tem nada de triunfal

§ Será possível que também nós acolhemos Jesus em ocasiões solenes, mas depois relativizamos seu Evangelho e sua presença?

§ Que palavras e que lições para u cuidado da Casa Comum Jesus nos trasnmite na cena do Evangelho de hoje?

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Domingo dos Ramos

COM OS CRUCIFICADOS

O mundo está cheio de igrejas cristãs presididas pela imagem do Crucificado, e também está cheio de pessoas que sofrem, crucificadas pelo infortúnio, pela injustiça e pelo esquecimento: doentes privados de cuidados, mulheres maltratadas, idosos ignorados, crianças violadas, migrantes sem documentos nem futuro. E pessoas, muitas pessoas afundadas na fome e na miséria em todo o mundo.

É difícil imaginar um símbolo mais carregado de esperança do que essa cruz plantada pelos cristãos em toda a parte: uma comovente memória de um Deus crucificado e uma lembrança permanente da sua identificação com todos os inocentes que sofrem injustamente no nosso mundo.

Essa cruz, erguida entre as nossas cruzes, recorda-nos que Deus sofre conosco. Deus sofre com a fome das crianças de Calcutá, sofre com os assassinados e torturados do Iraque, chora com as mulheres maltratadas dia após dia nas suas casas. Não sabemos explicar a raiz última de tanto mal. E, mesmo que o soubéssemos, não nos serviria de muito. Só sabemos que Deus sofre conosco. Não estamos sozinhos.

Mas os símbolos mais sublimes podem ser pervertidos se não recuperarmos o seu verdadeiro conteúdo uma e outra vez. O que significa a imagem do Crucificado, tão presente entre nós, se não vemos marcados no seu rosto o sofrimento, a solidão, a tortura e a desolação de tantos filhos e filhas de Deus?

Que sentido tem levar uma cruz sobre o nosso peito se não sabemos carregar a mais pequena cruz de tantas pessoas que sofrem junto a nós? O que significam os nossos beijos ao Crucificado se não despertam em nós o afeto, o acolhimento e a proximidade com aqueles que vivem crucificados?

O Crucificado desmascara como ninguém as nossas mentiras e covardias. Do silêncio da cruz, Ele é o juiz mais firme e manso do aburguesamento da nossa fé, da nossa acomodação ao bem-estar e da nossa indiferença ante os que sofrem. Para adorar o mistério de um Deus crucificado não basta celebrar a Semana Santa; é preciso também aproximar-se mais dos crucificados, semana após semana.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


Domingo dos Ramos

As pedras gritarão

Com ramos, flores e cânticos, no próximo domingo, o povo cristão se reúne nas ruas e templos para aclamar seu líder manso e humilde, nem mito, nem capitão. Ele vem ao nosso encontro manso e pobre, montado num jumento. Só alguém infinitamente grande é capaz de fazer-se tão pequeno e tão próximo! Deus se recusa a dar algo à humanidade: ele se dá inteiramente e sem reservas em Jesus de Nazaré.

Para entender o relato da entrada de Jesus em Jerusalém precisamos abandonar as fantasias de poder e sucesso que nos seduzem e cegam. Não há nada de triunfal na cena descrita por Lucas (19,28-40). Nada de cortejos de honra, nem de generais e cavalos, nem gestos de cortesia protocolar. Jesus de Nazaré chega a Jerusalém depois de uma decisão firme e de uma longa caminhada. E não chega impondo taxas e ameaçando meio mundo, como se fosse senhor de tudo e de todos.

Jesus faz questão de entrar na cidade montado num jumento. O povo do campo e da zona periférica da capital o aclama como filho e herdeiro de Davi. “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor!” É um coro de pessoas que reconhece num profeta e sonhador incômodo, rejeitado e considerado subversivo e perigoso, o Enviado de Deus. Àqueles que reagiam com medo e indignação a esta aclamação popular, Jesus mesmo responde: “Se eles se calarem, as pedras gritarão!”

Olhando a cidade ainda de longe, Jesus chora. Lamenta o seu fechamento à profecia e seu apego às rígidas tradições. Denuncia a violência dos podres poderes de ontem e de hoje, sejam eles Pilatos, Cesar, Trump, Putin, Zelensky ou Netanyahu... Ele é o servo paciente e discípulo da Palavra do qual fala Isaías (50,4-7). E é dessa escuta que brota uma palavra que desperta e encoraja as pessoas acorrentadas pelo medo.

Jesus, porém, não realiza as ações poderosas que muitos esperavam. Entrando em Jerusalém montado num jumento, ele se faz uma sátira aos libertadores militares, conhecidos no passado e temidos no presente. O entusiasmo suscitado num pequeno grupo não dura muito tempo. Os gritos de ‘hosana’ logo serão substituídos pelo insolente ‘crucifica-o’. Sereno e forte, Jesus faz questão de demonstrar que é um Messias radicalmente diferente: pobre e pacífico.

Depois da acolhida festiva pelo povo da periferia e da ceia de despedida com seus discípulos, Jesus enfrenta um discernimento difícil e pede aos discípulos que fiquem com ele e vigiem.  Sua oração é um exercício de confronto profundo com a vontade do Pai, com a missão escrita em caracteres obscuros e exigentes. Jesus se sentirá abatido, e chegará a se perguntar qual direção deve tomar. Mas nem a divisão entre os discípulos e os sinais anunciadores de traição o fazem mudar o rumo.

Neste Domingo de Ramos, aclamemos com serena alegria o mestre e profeta Jesus de Nazaré. Como peregrinos de Esperança, acompanhemos de perto seus passos, acolhamos seus gestos, escutemos suas lições. Não caiamos na tentação de segui-lo apenas de longe ou quando for conveniente. Não deixemos às pedras a missão de aclamar e profetizar. E não esqueçamos que tantos outros discípulos permaneceram com ele, comungaram seu destino e se tornaram semente.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo diocesano de Santa Cruz do Sul

Será que Jesus virá?

Será que Ele bem ou não para a festa da Páscoa?  | 680 | 12.04.2025 | João 11,45-56

Na meditação de ontem, Jesus concluía o debate com as lideranças do templo reafirmando sua filiação divina – suas ações o fazem parecido com o Pai – e que a elite religiosa é filha da idolatria (que a tradição judaica chama de prostituição), pois rejeita, persegue e quer matar Jesus, assim como os discípulos fiéis a ele.

Na cena de hoje, que está situada depois da ressurreição de Lázaro, estas mesmas “autoridades” confirmam a decisão de eliminar Jesus, dispensando um processo minimamente legal. Diante da crescente adesão do povo a Jesus, elas sentem estar perdendo a influência e terreno. Então, reúnem o “conselho superior” (o Sinédrio) para tomar uma decisão.

As lideranças religiosas do templo não toleram pessoas livres, conscientes e vivas. Como Jesus e sua pregação são os responsáveis por isso, reúnem-se os que pretendem representar os “interesses de Deus”, seja pelo cargo que exercem, seja pelo saber que administram. Reunidos, fazem uma leitura negativa e tendenciosa dos acontecimentos, não conseguem ver nada de bom e tão somente ameaça naquilo que Jesus faz.

Pode parecer incrível, mas esses líderes religiosos não estão interessados no cumprimento da vontade de Deus e na proteção e melhoria da vida do povo, mas apenas no risco de perderem a “clientela religiosa” para Jesus. Porém, disfarçam, e justificam sua decisão assassina acenando para o risco de que Jesus, agitando as esperanças do povo, viesse a provocar uma represália romana. Em outras palavras, apelam à “lei de segurança nacional” para defender seus interesses.

Ironicamente, Caifás, em nome do conselho e como chefe que encarna perfeitamente a instituição, opõe-se à ação de Deus em Jesus para “salvar” o “lugar de Deus”, que é o templo. Isso faz com que Jesus se afaste do templo e se esconda, onde atrai mais discípulos e se dedica à última etapa de formação deles antes de ser levado à morte. Mas, com a morte na cruz, Jesus acaba decretando o fim da identificação do povo de Deus com a nação judaica, pois abre as portas para os “filhos de Deus dispersos”.

 

Meditação:

 Qual é o verdadeiro motivo da reunião do Conselho do Sinédrio, e o que seus membros temem a respeito de Jesus?

Que tipo de “leitura da realidade” eles fazem? O que dizem de Jesus? Isso que eles dizem é verdade?

Como entender que as ações emancipadoras e restauradoras de Jesus provoquem tanta indignação e violência nas lideranças religiosas?

Elas podem se arrogar a autoridade de representantes de Deus? O que isso significa para as autoridades e lideranças cristãs de hoje?

§ Elas podem se arrogar a autoridade de representantes de Deus? O que isso significa para as autoridades e lideranças cristãs de hoje?

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Não anular as Escrituras

Não distorcer as ações de Jesus, nem anular as Escrituras | 679 | 11.04.2025 | João 10,31-42

Estamos no contexto literário do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus aplica a si mesmo as sugestivas metáforas da porta e do pastor. Um dos momentos mais provocativos é quando Jesus declara que todos os que vieram antes dele são ladrões, assaltantes ou mercenários, e apenas ele é um pastor bom, o único disposto a dar a vida pelo rebanho. A reação das lideranças religiosas foi acusá-lo de estar completamente louco.

Para Jesus, uma pessoa mostra sua personalidade e valor nas ações que realiza e nas relações que estabelece. E isso vale também para Deus, que mostra que é justo e bondoso emancipando e libertando as pessoas mais vulneráveis. Por isso, Jesus não defende sua missão com palavras, mas com o testemunho de suas ações. São elas que mostram que ele é o enviado do Pai, não por presumido poder, mas por a intensidade da compaixão.

E quando as lideranças religiosas do templo ameaçam apedrejá-lo, Jesus pergunta pelo motivo da rejeição e do ódio. Se ele é o que demostram suas obras, são elas que devem ser louvadas ou reprovadas, e não suas palavras. “Por quais das minhas ações mereço ser condenado?”, pergunta ele. Mas as elites religiosas fazem questão de divorciar as palavras de Jesus da compaixão que ele demonstra, e querem condená-lo por suas declarações, interpretadas no horizonte da própria ideologia.

Como defensores de uma palavra morta e de uma lei desligada da vida, e por mais piedosos que aparentem ser, eles não se interessam pela exploração praticada na sociedade e até dentro do templo, desde que os exploradores tenham o nome de Deus em seus lábios. E acabam traindo a fidelidade às Escrituras, pois silenciam quando elas dizem que todos os que agem de modo semelhante à ação de Deus são deuses (cf. Sl 82). E esquecem que a lei existe para defender a dignidade e a liberdade das vítimas.

Como a pessoa se revela pelas obras que faz, apelando à violência e planejando assassinar Jesus, a elite do templo demonstra que é assassina e perseguidora, e não representa a vontade e a ação de Deus, o Pai de Jesus. É por isso que Jesus sai do templo e do território que se tornara lugar de opressão. Fora do templo, do outro lado do rio Jordão, exatamente onde João viveu sua vocação profética, ele continua atraindo discípulos. E o povo vê nas ações de Jesus a realização da profecia do Batista.

 

Meditação:

§ Observe o diálogo difícil e tenso entre Jesus, que se mostra em suas ações de compaixão, e a elite religiosa, que o acusa de blasfêmia

§ Releia e perceba o sentido das acusações levantadas contra Jesus e dos argumentos que apresenta para se defender

§ Será que não somos tentados pelo mesmo pecado das elites do templo: dissociar aquilo que proclamamos daquilo que fazemos?

§ Sendo verdade que são nossas ações e relações que revelam nosso valor, o que nossas ações estão revelando de nós e nossa Igreja?

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Conhecer a Deus

Conhece a Deus quem segue Jesus e guarda a sua Palavra | 678 | 10.04.2025 | João 8,51-59

O texto de ontem terminava com Jesus acusando indiretamente as lideranças religiosas de serem assassinas e justificarem suas ações com uma imagem pervertida e interesseira de Deus. Na sequência, Jesus nega que eles sejam filhos de Abraão, e diz que eles são filhos do diabo, ou filhos da mentira. A reação deles é violenta: Jesus é acusado de ser samaritano e estar possuído pelo demônio.

Quando Jesus insiste que seu ensino ilumina e conduz à vida e à liberdade, que quem o segue não será envolvido pelas trevas da morte, “o pessoal do templo” pensa ter encontrado uma prova da sua loucura, pois a vida demonstra que todos morrem, inclusive Abraão e os profetas. Eles não conhecem senão a vida mortal e a morte amarga. Não conseguem entender que a vida pode ser vazia e tediosa, ou intensa e indestrutível. A simples possibilidade de uma vida terna e eterna lhes causa desestabilização.

A discussão entre Jesus e o pessoal do templo é permeada pela ironia, tanto da parte do deles como de Jesus. Isso aparece tanto nas perguntas como nas respostas de ambos os lados: “Quem pretendes ser?  Acaso és maior que nosso pai Abraão?” “Não tens 50 anos e vistes Abraão?” Mas a ironia não esquece nem se afasta do conteúdo em discussão: Quem de fato conhece a Deus e realiza suas ações?

Jesus não reivindica nem recorre a títulos para falar de si mesmo. Ele conhece a Deus como Pai, e demonstra que é seu Filho e seu Enviado porque participa da ação de Deus em defesa do ser humano. Tomando distância até do próprio Abraão, e afirmando que ele é pai “de vocês” (e não “nosso” pai), Jesus escapa das apertadas amarras de raça e de nação. Deus, enquanto Pai, está para além do “cercadinho” ou “bolha” do gênero, raça e nação, e estende nossos laços de fraternidade a toda a humanidade.

Por fim, Jesus diz que Abraão exultou e se alegrou ao visualizar “o meu dia”. Não é Jesus que viu Abraão, mas Abraão que previu em Jesus o Enviado de Deus e o início dos tempos messiânicos. Quando Jesus afirma “antes que Abraão existisse, eu sou”, a taça da raiva do “pessoal do templo" transborda: eles pegam em pedras para executar Jesus, comprovando que são assassinos e que o templo deixou de ser casa de Deus e se tornou lugar de comércio, violência e morte.

 

Meditação:

§ Releia o texto atentamente, participe do debate, interaja com os protagonistas, perceba o que está em jogo

§ Qual é a imagem que fazemos de Deus, e em que medida essa imagem nos emancipa e nos torna solidários e libertadores?

§ Nossa imagem de Deus está preso a ideologias como o machismo, o nacionalismo, o patriarcalismo, o liberalismo?

§ Em que medida, para defender nossa ideia de Deus e nossa religião, somos capazes de usar de violência contra os outros?