sábado, 20 de julho de 2024

O Evangelho dominical (Pagola) - 21.07.2024

DESCANSO RENOVADOR

É uma alegria para o crente encontrar-se com um Jesus, pois ele sabe compreender as necessidades mais profundas do ser humano. Por isso enche-se a nossa alma de alegria quando ouvimos o convite que dirige aos seus discípulos: «Vinde para um lugar tranquilo e descansem um pouco».

Os homens necessitam festejar. E talvez hoje mais do que nunca. Submetidos a um ritmo de trabalho inflexível, escravos de ocupações e tarefas por vezes esgotadoras, necessitamos desse descanso que nos ajude a libertar-nos da tensão, do desgaste e da fadiga acumulada ao longo dos dias.

O homem contemporâneo acabou frequentemente por ser escravo da produtividade. Tanto nos países socialistas como nos países capitalistas, o valor da vida foi reduzido, na prática, à produção, à eficiência e ao desempenho no trabalho. Segundo H. Cox, o homem atual «comprou a prosperidade ao preço de um vertiginoso empobrecimento dos seus elementos vitais». A verdade é que todos corremos o risco de esquecer o valor último da vida para nos afogarmos no ativismo, no trabalho e na produção.

A sociedade industrial tornou-nos mais trabalhadores, mais bem organizados, mais eficazes, mas, ao mesmo tempo, há muitos que têm a impressão de que a vida se lhes escapa tristemente entre as mãos. Por isso o descanso não pode ser apenas a pausa necessária para repor as nossas energias esgotadas ou a válvula de escape que nos liberta das tensões acumuladas, para voltar com novas forças ao trabalho habitual.

O descanso deveria ajudar-nos a regenerar todo o nosso ser, descobrindo novas dimensões da nossa existência. A festa deve recordar-nos que a vida não é só esforço e trabalho esgotador. O ser humano foi eito também para desfrutar, para brincar, para desfrutar da amizade, para rezar, para agradecer, para adorar… Não devemos esquecer que, acima das lutas e das rivalidades, todos estamos chamados a partir de agora a desfrutar como irmãos da festa que um dia será definitiva.

Temos que aprender a fazer férias de outra forma. Não se trata de ficar obcecado em passar bem a todo o custo, mas de saber disfrutar com simplicidade e gratidão os amigos, a família, a natureza, o silêncio, os jogos, a música, o amor, a beleza, a convivência. Não se trata de nos esvaziarmos na superficialidade de uns dias vividos de forma louca, mas de recuperar a harmonia interior, cuidar mais das raízes da nossa vida, encontrar-nos conosco mesmo, desfrutar da amizade e do amor das pessoas, desfrutar de Deus através de toda a criação.

E não esqueçamos algo importante. Só temos direito ao descanso e à festa se nos cansarmos diariamente no esforço por construir uma sociedade mais humana e feliz para todos.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Jesus é o Servo enviado pelo Pai para elevar o homem

Jesus é o Servo enviado pelo Pai para elevar o homem humilhado | 416 | 20.07.24 | Mateus 12,14-21

Jesus havia questionado fortemente o ensino e a prática dos fariseus, orgulhosos da sua piedade ostensiva, afirmando a prioridade da vida sobre a lei. Isso ficou muito claro nos episódios dos discípulos que colhem trigo para comer em dia de sábado e na cura do homem com mão seca (cf. 12,1-8 e 12,9-13), o primeiro dos quais lemos e comentamos ontem. Os fariseus sentem o golpe, mas não desistem, e, no sagrado dia de sábado, tramam a morte de Jesus.

Sabendo disso, Jesus retira-se do ambiente da sinagoga. Uma multidão de gente necessitada, mesmo sem conhecer a fundo e sem aderir a Jesus, vai atrás dele em busca de alívio para seus fardos, que são muitos e pesados. E o evangelista diz que ninguém voltou sem ser beneficiado. O que a religião oficial do judaísmo e seus agentes não conseguem ou não querem fazer, Jesus faz, sem descanso e sem impor condições. Mas ele rejeita toda forma de publicidade pelo bem que faz, e isso é bem diferente de alguns pregadores que conhecemos.

Nesse momento, o evangelista busca na profecia de Isaías a chave para bem entender a identidade e o modo de agir de Jesus. Jesus é o Servo anunciado pelo profeta, uma realização plena e superior do resto humilde e fecundo do povo deportado. Sendo Servo, Jesus não assusta nem oprime, mas traz vida e bem-viver. O Servo (a palavra hebraica é a mesma para dizer “servo” e “criança”) é aquele que faz em tudo a vontade de Deus, e não a sua, ou a vontade das instituições.

Jesus é também o filho Amado do Pai, aquele que realmente o agrada, pois o amor compassivo e misericordioso é a base e a motivação de tudo o que diz e faz. Ele é o Escolhido a dedo por Deus Pai para realizar uma missão e, para tanto, foi ungido e recebeu o dinamismo do Espírito de Deus, a própria ação de Deus no mundo. Ele recupera a sociedade e o mundo de caídos e diminuídos pelas mais diversas forças de opressão, e os faz como Deus os sonhou.

Sendo Servo, Amado e Escolhido, Jesus evita gastar tempo em discussões teóricas e não se ocupa com a própria defesa. Ele não grita nas praças, como faziam os mensageiros dos imperadores. Ele não é peso ou ameaça para quem está atribulado e fragilizado, como pavio que vai se apagando. Ele não quebra quem já está “moído” pela dominação, como a cana. Ele é a esperança de todos povos, a visita de Deus que estabelece sua morada definitiva na humanidade.

 

Meditação:

·        Acolha e deixe ressoar em você as imagens eloquentes do profeta Isaías: Servo, Amado, Escolhido, Enviado.

·        Como poderemos testemunhar um Jesus Cristo que não grita para se impor, não quebra quem já está machucado, que não esmaga quem já está arrasado?

·        Você não acha que gastamos muito tempo e energia defendendo-nos e em discussões estéreis com quem se opõe ao Evangelho?

quinta-feira, 18 de julho de 2024

As escrituras nos apresentam um Deus compassivo

As escrituras nos apresentam um Deus compassivo e misericordioso | 415 | 19.07.24 | Mateus 12,1-8

Nesta cena a questão central que Jesus discute com os fariseus parece ser a questão da obediência à Lei. Porém, sobressai outra questão, mais importante: as leis e costumes que controlam a comida e o acesso a ela. A recorrente menção do evangelista ao campo de trigo, aos grãos e à fome, ao ato de comer, tanto dos discípulos como de Davi e seus companheiros, não deixa dúvidas. O sistema econômico limitava o direito dos pobres à alimentação, e os fariseus agiam para limitar aos discípulos o acesso ao alimento. O império da legalidade impedia a segurança alimentar do povo mais pobre.

Temos visto como o ensinamento e a prática de Jesus são alternativos, e confrontam e desafiam as leis e sistemas, e não apenas as leis religiosas. Jesus revoluciona o papel da lei, do templo e a própria imagem de Deus. Ele é o filho do homem, o Senhor, o enviado pelo Pai, para revelar e realizar a sua vontade, anunciada nas escrituras, mas esvaziada pelo templo. Deus é misericórdia, e de nós ele espera misericórdia, e não cultos vazios e duros legalismos que penalizam os que já enfrentam tantas penas. A questão não se resume em admitir a existência de Deus, mas em afirmar que ele é compaixão, e demonstrar essa compaixão das próprias relações.

A misericórdia é a essência do relacionamento de Deus com suas criaturas, é a forma da justiça divina na relação com o ser humano, e praticá-la significa reconhecer Deus assim como ele é, e enfrentar e superar as práticas restritivas que limitam ou impedem o acesso dos seus filhos e filhas aos direitos humanos básicos, como a alimentação. A misericórdia é o dinamismo que brota da internalização das misérias do próximo, e esse dinamismo torna impossível a indiferença, a dominação e a opressão. É isso que Jesus faz, com a maior liberdade, e fazem seus discípulos/as. A fome tem prioridade sobre as leis e instituições.

Jesus questiona fortemente a interpretação restritiva e fria das escrituras ensinada e praticada pelos fariseus, que se mostram sempre tão corretos. Por duas vezes ele questiona: “Nunca lestes?” E adverte: “Se tivesses compreendido o que significa...” na verdade, a interpretação que eles fazem das escrituras é limitada e interesseira. Jesus é maior que o templo e a lei, é a superação de ambos e a chave-de-leitura da verdadeira religião. Para ele, a lei, o templo e o alimento pertencem a Deus, e crer é fazê-los acessíveis a todos. Tudo isso e tudo o mais está abaixo do querer de Deus.

 

Meditação:

·    Você identifica também hoje sinais de uso da fé para se dispensar da atenção à vida das pessoas?

·    E o que dizer da economia liberal, que faz da comida, da água, da saúde e de tudo o mais uma simples mercadoria, limitando o acesso de multidões a ela?

·    Como colocar em prática hoje, na sua família e na sua comunidade, a vontade de um Deus que prioriza a misericórdia e não a lei, o culto e os sacrifícios?

quarta-feira, 17 de julho de 2024

O caminho e o ensino de Jesus não é canga que amarra e pesa

O caminho e o ensino de Jesus não é canga que amarra e pesa | 414 | 18.07.24 | Mateus 11,28-30

Num contexto de rejeição da sua pessoa e da sua mensagem, Jesus elevou seu louvor ao Pai pelos discípulos e discípulas que entendem e acolhem o caminho do Reino de Deus. E sublinha que é resultado do querer de Deus que a elite do judaísmo nada consiga entender, e que os segredos da sabedoria da vida são acessíveis aos pobres. Eles, os pequenos e os pobres, foram libertados do cansaço pelo cumprimento de um monte de leis que não lavavam a nada.

A alegria e o consolo de Jesus é ver que, para encontrar alívio dos fardos que carregamos, muitos seguimos seus passos. Sua palavra e suas ações abrem-nos as portas da liberdade e da humanização, e todos precisamos aprender dele e com ele a promover, em palavras e ações, o Reino de Deus, que suscita e inaugura práticas, estruturas, relações, prioridades e perspectivas alternativas. E isso jamais será um peso ou uma tarefa a mais, mas algo que alivia nossos fardos.

O jugo ou caminho de Jesus não é canga que amarra e domina, mas leveza que nos torna mais humanos. E ele nos convida a aprender do seu coração a mansidão e a bondade, pois nele não há espaço para a indiferença, para a vingança e para a violência. O coração de Jesus, ou o Reino que ele encarna e antecipa, é suave, bom e amável, é misericórdia e compaixão que afirma, reabilita e liberta os oprimidos.

O que nos cansa ou abate hoje? Às vezes fingimos e não queremos demonstra, mas a competição predatória e a ânsia de chegar em primeiro lugar, de dominar tudo, de ter e consumir tudo o que nos convencem que necessitamos, de tomar medrosa distância dos empobrecidos e diferentes, de bajular os poderosos e vencedores de plantão, de multiplicar orações e ritos sem fim, tudo isso nos cansa e nos deixa vazios, exaustos, frustrados e prostrados.

Nesse contexto, Jesus e seu Evangelho nos apontam outro caminho, mais realizador e mais humano. Ele tem suas exigências, mas seus custos não são pagos por uma vida sem gozo e sem sentido. A felicidade não consiste em possuir tudo, mas em necessitar de pouco! A humildade de Jesus é sua descida definitiva ao nível humano. A mansidão de Jesus é sua compaixão, que o compromete com a humanidade, e não cobra nem condena. Eis o caminho para viver com prazer e alegria.

 

Meditação:

·    O evangelho de hoje nos orienta para uma atitude madura e adequada em todas as etapas do nosso caminho: aprender de Jesus

·    Você seria capaz de dar nome e descrever o que é que mais está cansando e pesando na sua vida cristã e eclesial hoje?

·    Você consegue identificar os projetos e barreiras que pesam sobre as pessoas mais pobres e dificultam seu crescimento?

·    Como você, sua família e sua comunidade podem proceder para que as celebrações e a leitura orante não se tornem mais um peso?

terça-feira, 16 de julho de 2024

A maior e mais profunda alegria de Jesus é ser entendido pelos humildes

A maior e mais profunda alegria de Jesus é ser entendido pelos humildes | 413 | 17.07.24 | Mateus 11,25-27

Ontem, na celebração de Nossa Senhora do Carmo, a cena da mãe e dos parentes de Jesus que vão à sua procura nos chamava a fazer parte da família de Jesus mediante a prática da vontade de Deus em nossa vida cotidiana. No breve texto de hoje, Jesus muda radicalmente de tom, e se dirige carinhosamente aos discípulos e discípulas, como que para consolar e fortalecer quem se sente inseguro.

Na sua lucidez, Jesus não ignora a divisão e a rejeição que seu Evangelho provoca. Mas, a partir da sua intimidade com o Pai, percebe que há gente generosa que o acolhe, adere a ele, muda o rumo da própria vida. Ele sabe que essa é a vontade do Pai: que o Reino de Deus, que pertence aos pequenos, humildes e pobres, seja por eles levado adiante, não obstante a extrema limitação dos meios ao alcance deles. Nisso, os sábios das academias e os poderosos entronados contam pouco.

Os sábios e entendidos que se fecham à Boa Notícia do Reino de Deus são as elites culturais, políticas e religiosas, todos os grupos que se sentem superiores, sabidos e seguros, e não conseguem admitir nada além dos próprios interesses de classe. Mas, entre eles, há também outros menos elitizados, que se deixam influenciar por essa mentalidade, e se fecham à novidade libertadora de Deus: algumas cidades, gente do povo e até parentes de Jesus. Tanto ontem como hoje!

Os “pequeninos” dos quais Jesus fala são as pessoas humildes, sem segurança, receptivas ao Evangelho e à pessoa de Jesus, aquelas que o seguem como discípulas, dispostas e aprender sempre. São as pessoas mais vulneráveis, às vezes iludidas pelos doutores da lei, e até vistas como tolas. São as pessoas que entram para a comunidade dos discípulos, convictas de que mestre não é quem sabe tudo, mas quem aprende sempre, que vivem como eternas aprendizes.

Mas, atenção! Não é pelo fato de sermos contados entre os batizados ou “frequentadores” dos sacramentos que somos automaticamente discípulos e estamos livres da arrogância de quem pensa saber tudo. Na relação interna em nossas comunidades, e na postura diante das demais confissões cristãs e outras religiões, é frequente sentirmo-nos melhores, superiores e entendidos. Ou eu estou enganado?

 

Meditação:

·    Sublinhe ou se detenha na palavra ou frase de Jesus que lhe parece mais bela e significativa nesse momento

·    Em quais circunstâncias você se percebe agindo como sábio/a e entendido/a, que tem tudo a ensinar e nada a aprender?

·    Como poderíamos traduzir, com palavras e para as situações de hoje, essa belíssima alocução de Jesus?

·    O que fazer para deixar-se surpreender a cada dia pelas delicadezas de um Deus que tem prazer em ser acolhido pelas pessoas humildes e afirmar a dignidade das vítimas?

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A prática da vontade do Pai gera células de uma nova sociedade

A prática da vontade do Pai gera células de uma nova sociedade | 412 | 16.07.24 | Mateus 12,46-50

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado do Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Depois disso, Jesus deixa a sinagoga, e, nesta cena, está em uma casa, não necessariamente a sua, com seus discípulos e discípulas. Essa casa é como se fosse o lugar de encontro e convivência de uma nova família, uma família alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém (não diz se é um discípulo ou não) avisou Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Seus familiares aproximam-se respeitosamente, e não interrompem a ação missionária de Jesus. Estariam movidos pela saudade? Pelo desejo de que ele voltasse para casa? Pela vontade de segui-lo na aventura do Reino de Deus? Estar dentro ou fora dessa casa delimita claramente a pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino ou a auto exclusão dele.

A novidade do Reino de Deus, muito esperada por todos desde há séculos e trazida por Jesus, implica claramente em uma mudança nas relações sociais, econômicas, religiosas, políticas, mas também das relações familiares. É no horizonte do Reino de Deus que Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão ao homem e senhor, sempre funcional aos sistemas estruturados sobre a dominação.

Jesus responde ao aviso da chegada dos familiares com uma pergunta, uma declaração e um gesto. Ele pergunta quem são seus irmãos, suas irmãs e sua mãe. Dirigindo-se aos discípulos e discípulas que o circundam, ele afirma, como que indicando com a mão: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” A comunidade de discípulos é a nova família, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, pois, ninguém mais que ela, viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é nossa mãe, irmã e discípula. Mas é importante também que nos sintamos incluídos por Jesus no âmbito da sua família. Somos seus irmãos, irmãs e sua mãe, se fazemos a vontade do Pai. Mais que poderosa intercessora por nossos pedidos nem sempre evangélicos, Nossa Senhora do Carmo nos guia na busca e na escuta de Jesus.

 

Meditação:

·    Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

·    Como ressoa em você o questionamento de Jesus aos que falam em nome de sua família e sua resposta a eles?

·    Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos/as aqueles/as que vivem seu Evangelho?

domingo, 14 de julho de 2024

A força transformadora do Evangelho gera tensões e divisões

A força transformadora do Evangelho gera tensões e divisões | 411 | 15.07.24 | Mateus 10,34-11,1

O final da catequese missionária de Jesus segundo o evangelho de Mateus é surpreendente e, para alguns, pode inclusive soar como estranho. Ele, cujo nascimento foi celebrado como paz na terra, que disse que são felizes os fazedores de paz, que pediu que seus enviados saudassem a todos desejando a paz, diz agora que não veio trazer a paz, mas a espada e a divisão, inclusive a divisão no interior da própria família. O que aconteceu com Jesus e como podemos interpretar esse ensino de forma coerente com o restante do Evangelho?

De fato, o que provoca divisão não é uma vontade deliberada nossa ou de Jesus, mas a novidade e o dinamismo transformador do Reino de Deus. O que Jesus quer é que o Reino de Deus ganhe espaço e força, revolucionando as relações humanas, sociais, políticas, culturais e econômicas. E, diante disso, ninguém pode ficar indiferente. O projeto do Reino de Deus e a lógica predominante na sociedade, segundo a qual “quem pode mais chora menos”, se opõem radicalmente. O Reino de Deus é como uma espada que divide e pede uma lealdade sem meias palavras.

A lealdade a Jesus e aos valores do Reino de Deus deve estar inclusive acima dos valores da família patriarcal, por mais que haja, também hoje, quem deseje mantê-la e promove-la em nome da civilização cristã. Amar mais a Jesus que aos familiares significa colocar ele e o Reino de Deus, a fraternidade sem fronteiras, acima de todos os outros valores e vínculos. Neste sentido, Jesus é uma espada que divide!

É na adesão ao Reino de Deus que encontramos felicidade e vida abundante. A acomodação e as alianças com o “cada um para si” conduzem à frustração. Tomar a cruz e seguir Jesus significa aceitar a humilhação e a rejeição, mas não necessariamente o sofrimento. Implica em subverter a ordem, em permanecer leal a Jesus, vivendo e testemunhando a vida nova do Reino, até ao martírio.

Se isso tudo nos parece estranho e nos assusta, como assustou aos discípulos daquele tempo, Jesus nos consola: ele e o Pai estarão presentes nos seus discípulos, e quem recebe seus discípulos missionários, recebe a ele. Nenhum gesto de hospitalidade e solidariedade, por menor que seja, cairá no vazio. Eis o modo de ganhar a vida, de não perder o dom que recebemos.

 

Meditação:

·    Sublinhe ou se detenha na frase ou afirmação de Jesus que lhe parece mais estranha, paradoxal ou surpreendente

·    Procure confrontar essa palavra com a vida e missão de Jesus, especialmente sua entrega na cruz

·    Que rupturas a lealdade a Jesus e ao Reino de Deus, professada solenemente no batismo, lhe pede hoje?

·    Repita os versículos que falam da acolhida aos discípulos/as, e deixe que estas palavras reverberem em sua mente e seu coração

sábado, 13 de julho de 2024

Passo a passo, com recursos frágeis, o caminho se faz

Passo a passo, com recursos frágeis, o caminho se faz | 410 | 14.07.24 | Marcos 6,7-13

No episódio que meditamos no domingo passado e antecede esta cena, o esperado encontro de Jesus com sua família e com seus conterrâneos de Nazaré terminou em desencontro. Jesus percebeu que, como muitos profetas, ele não era reconhecido pelas pessoas mais próximas dele, tanto do povoado como da própria família. Eles também eram vítimas da ideologia que não consegue acreditar na força dos fracos.

Mas Jesus não se rende às objeções a um Deus que assume a condição humana humilhada, que afunda seus pés na lama deixada pelas enchentes e arregaça as mangas na reconstrução da humanidade destruída. Os sinais mais eloquentes e transformadores do Reino de Deus vêm exatamente da ação dos pequenos e marginalizados. Que eles atuem de forma pública e transformadora é um sinal da libertação já conquistada. O Reino de Deus não depende da eficácia dessas ações, pois o fato de os amordaçados falarem já é a libertação em curso.

Indiferente a este desprezo, Jesus põe sua confiança naquela gente pequena e desprezada que ele acolheu e escolheu para ser uma comunidade-semente, a nova família que ele reuniu em torno do Evangelho do Reino de Deus. E os envia para multiplicar sua ação emancipadora por doze, sem o apoio de meios potentes, que só fazem impressionar e intimidar. Contar com o poder do saber e do prestígio seria como negar com os fatos a Boa Notícia que anunciavam com as palavras.

É este o significado das recomendações que Jesus faz àqueles que envia: não levar reserva de alimentação, nem reserva técnica de dinheiro; dispensar também as roupas desnecessárias, ostentadas por aqueles que querem impressionar e buscam destaque; levar apenas o cajado para se apoiar nas travessias perigosas e calçar sandálias, para facilitar e agilizar as caminhadas. Obviamente, Jesus não se opõe aos meios tecnológicos que podem dar maior alcance ao anúncio do Evangelho.

Mas Jesus pede que eles não deixem de fazer o que é indispensável: não atuem sozinhos, mas em companhia de outros; convertam os pensamentos elitistas, que menosprezam os pobres; curem os doentes e libertem as pessoas dominadas, para que possam viver plenamente; evitem retaliações violentas contra aqueles que não os ouvem nem acolhem. Eis o essencial da missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como amigos e hóspedes; confiar na força libertadora da fragilidade; manter a abertura e o diálogo; fazer bem e fazer bem sem olhar a quem.

 

Meditação:

·        Releia o texto com atenção, interagindo com Jesus e com aqueles que ele escolheu e instruiu para a missão

·        Em que medida nós e nossas comunidades ainda não conseguimos aceitar a importância das ações frágeis e pequenas?

·        Você acredita mesmo que este mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor?

O Evangelho dominical (Pagola) - 14.07.2024

 SEM APOIO SOCIAL?

Como poderia a Igreja recuperar o seu prestígio social e exercer novamente a influência que tinha na sociedade há apenas alguns anos? Sem o confessar talvez, em voz alta, são muitos os que anseiam pela volta daqueles tempos em que a Igreja podia anunciar a sua mensagem a partir de plataformas privilegiadas que contavam com o apoio dos poderes político e econômico.

Não deveríamos lutar para recuperar novamente esse poder perdido que nos permite fazer uma propaganda religiosa e moral eficaz, capaz de superar outras ideologias e correntes de opinião que se vão impondo entre nós? Não deveríamos desenvolver estruturas religiosas mais poderosas, fortalecer as nossas organizações e tornar a Igreja uma espécie de empresa mais competitiva e lucrativa?

Sem dúvida, no fundo desta preocupação há uma vontade sincera de levar o Evangelho aos homens e mulheres do nosso tempo, mas será esse o caminho a seguir? As palavras de Jesus, ao enviar os seus discípulos sem pão nem sacola, sem dinheiro nem túnica extra, insistem antes em caminhar pobremente, com liberdade, leveza e total disponibilidade.

O importante não é um equipamento que nos dê segurança, mas a própria força do Evangelho vivido com sinceridade, pois o Evangelho penetra na sociedade não tanto através de meios eficazes de propaganda, mas através de testemunhas que vivem fielmente o seguimento de Jesus Cristo.

A organização e as estruturas são necessárias na Igreja, mas apenas para sustentar a vida evangélica dos crentes. Uma Igreja carregada de bagagem excessiva corre o risco de se tornar sedentária e conservadora. A longo prazo, estará mais preocupada em prover suas próprias necessidade do que caminhar livremente e generosamente ao serviço do reino de Deus.

Uma Igreja mais desprotegida, mais desprovida de privilégios e mais empobrecida em poder sociopolítico, será uma Igreja mais livre, capaz de oferecer o evangelho na sua verdade mais autêntica.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 12 de julho de 2024

O destino dos enviados poderá ser o mesmo do de quem que envia

O destino dos enviados poderá ser o mesmo do de quem que envia | 409 | 13.07.24 | Mateus 10,24-33

No texto que rezamos ontem, Jesus nos apresentava as atitudes que devem nortear a vida dos discípulos missionários: confiança, simplicidade, prudência e perseverança. Hoje, no trecho que segue o de ontem, Jesus ressalta a importância de manter ele, seu anúncio e sua prática, em tudo e sempre, como modelo e referência, e de jamais deixar-se imobilizar ou guiar pelo medo.

Jesus inicia as palavras que meditamos hoje sublinhando uma certa paridade entre o seu modo de viver e a atitude daqueles que ele envia como discípulos missionários. Trata-se, por um lado, de não buscar aplausos, protagonismos e posições de poder ou relevância, pois ele sempre se apresentou como servidor; e, isso significa ter consciência de que as violências que ele sofreu poderão ser vividas também por aqueles que ele envia à sua frente e em seu lugar.

Jesus ilustra isso recorrendo ao senso e à experiência comum das relações sociais: o discípulo não está acima do mestre, e o servo não está acima do senhor. Ele não critica isso que hoje seria inaceitável aos olhos do homem moderno, mas acrescenta que os discípulos missionários não são seus empregados, e sim irmãos e irmãs, pessoas que fazem parte de sua família. Se a Jesus, que é como que o chefe da família, o acusaram de ser agente do chefe dos demônios, isso também pode ocorrer com os irmãos e irmãs que ele envia.

Mas a insistência dessa exortação missionária de Jesus recai sobre a necessidade de confiar, de não ter medo. O medo pode paralisar, limitar ou desorientar o anúncio e o testemunho do Reino de Deus, e pode levar os discípulos missionários até a fugir da missão. Mas, para Jesus, tudo está dentro do conhecimento compassivo e da vontade do Pai. Os “podres poderes” têm um poder limitado, têm “pés de barro”, e não podem matar o fermento da vida inaugurada em Jesus. Como diz Paulo, mesmo que seus enviados sejam perseguidos, o Evangelho não está algemado. 

Temer a Deus significa permanecer fiel à missão, pois ela é parte indissociável da vida nova em Cristo. Significa também ter mais em conta a vontade de Deus que as pressões e intimidações dos poderosos. Sem essa confiança de base, a vida perde seu esplendor e seu dinamismo. Deus é Pai e está próximo e atento às necessidades dos seus amados pequeninos. E nada escapa do seu cuidado por nós. Ademais, aquele que nos envia, é nosso advogado!

 

Meditação:

·    Deixe que ressoe em você e rumine por um instante cada uma das recomendações de Jesus aos discípulos  

·    Repita e deixe ecoar em sua mente e seu coração cada palavra de estímulo de Jesus aos seus discípulos/as

·    O que significa para você, nesse momento, a ordem insistente de Jesus: “Não tenha medo”?