sexta-feira, 10 de abril de 2015

Iniciando uma nova estaçao

Oração para o início de uma nova estação

Que eu seja árvore,
não tenha medo de perder as folhas secas,
pois mais tarde elas se transformarão em adubo para a minha terra.
Que eu seja qualquer coisa que mude,
um ser que não tenha medo do tempo,
nem da velhice...
Que eu não coma a vida em pequenas garfadas,
ou melhor,
que eu não me preocupe em ser educado...
Que minha boca se encha de vida,
e, se for necessário, que eu sorria com a boca cheia.
Que eu seja flor, que resseca,
mas que também tenha coragem de brotar.
Quero ser e não ser,
E, se por causa do movimento ,
tudo o que chamo de “meu” cair,
não importa!
Vou procurar outras coisas para chamar de minhas.
Afinal, achamos que temos as coisas, as pessoas,
Mas, na verdade, só temos a nós mesmos
e ao Deus que habita e que está sempre presente,
também quando somos ausentes de nós mesmos.

Nov. Paulo Henrique msf

quinta-feira, 9 de abril de 2015

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (ANO B – 12.04.2015)

Quem crê, vê mais longe, vê com o olhar de Deus.

A experiência e a fé na ressurreição de Jesus Cristo é gerada em ritmo de missão. Por isso, as portas da Igreja não podem permanecer fechadas por medo ou por comodismo. A paz oferecida pelo Senhor ressuscitado que, sem perder as feridas abertas nas mãos e nos pés, se faz presente no meio de nós, nos envia como cordeiros que carregam o pecado do mundo. “Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês.” Mesmo sem tocar nas mãos feridas do Cristo ressuscitado, reforcemos nossos vínculos com a comunidade, reconheçamo-lo presente nos irmãs e irmãos nossos e partamos em missão.
João sublinha que era noite e que as portas estavam muito bem fechadas. Os discípulos estavam desanimados, amedontrados e sem perspectivas. É o mesmo escuro pavoroso que haviam experimentado quando atravessaram sozinhos o mar agitado, depois que Jesus saciara a fome de uma multidão e recusara o poder político (cf. Jo 6,16-21). Esse escuro lembra também a escuridão que se fez às três horas da tarde, quando Jesus fora crucificado. Ao medo da possível perseguição pelas autoridades judaicas se juntava a frustração pela imagem de um Messias crucificado...
Dói na consciência dos discípulos a traição, a negação e a deserção no caminho da cruz. Eles não formam uma comunidade, mas um grupo rachado, frustrado, envergonhado. Mas remorso e medo não são muros que impedem a manifestação de Jesus. Ele se faz presente inesperadamente, e sua primeira palavra não é de advertência ou acusação, mas de acolhida e pacificação: “A paz esteja com vocês!” E lhes mostra as feridas nas mãos e no lado esquerdo, assegurarando que sua história concreta é importante, que sua presença não é mera fantasia e que seu amor fiel e solidário continua.
A alegria, tão característica da Páscoa, não brota apenas da certeza de que ressuscitaremos um dia, mas também da experiência atual e cotidiana de não sermos condenados, de sermos aceitos como amigos e amigas de Jesus de Nazaré, apesar dos nossos insuperáveis limites, traições e deserções. Mas a alegria e a paz radiante da Páscoa podem esconder um risco: podemos ficar de tal modo extasiados com as imagens de anjos e com as palavras de paz, pela visão de um Cristo exaltado e sentado à direita do Pai, que podemos esquecer que nossa missão de discípulos está apenas começando.
Por isso, depois de afirmar que vem trazer a paz, Jesus confere claramente uma missão aos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”. Trata-se de continuar seu próprio trabalho de carregar nas costas a dor e o peso provocados pelo pecado do mundo. É como se ele nos confiasse a tarefa de lixeiros, de passar pelas estradas e campos recolhendo as imundícies produzidas pela cultura consumista e egoísta. É a missão de sermos os cordeiros de Deus nque tiram o pecado do mundo. E esta missão urge, não pode ser postergada para um hipotético amanhã, para quando tivermos tempo.
Esta missão também não pode ser terceirizada ou deixada à responsabilidade dos outros. Jesus Cristo diz claramente que o pecado que não eliminarmos permanecerá aqui, diminuindo e ferindo a vida de muita gente e garantindo o privilégio de poucos. Pois o pecado é a cumplicidade com a injustiça que fere as crituras, e perdoar significa dissolver os laços que vinculam as pessoas a essa cumplicidade, torná-las livres frente à necessidade de cada um cuidar de si e deixar a Deus o cuidado dos mais fracos. Jesus pede que as comunidades cristãs sejam espaços de amor mútuo e de luta pela justiça.
Tendo recebido o Espírito Santo,  os discípulos, antes desanimados e medrosos, tiveram a coragem de inovar e a força para perseverar no ensinamento dos apóstolos a respeito da vida e da ação de Jesus de Nazaré; na união fraterna, para além de todas as fronteiras; na partilha do pão e de todos os bens; na oração e na liturgia. É assim eles dão testemunho da ressurreição de Jesus Cristo. Abraçar a fé em Jesus Cristo ressuscitado nos vincula aos irmãos e irmãs, à partilha dos bens “conforme a necessidade de cada um”, à alegria radiante frente a cada acontecimento, à simplicidade profunda e cordial.
Aqui viemos, Jesus de Nazaré, Cordeiro de Deus, para encontrar aqueles que acreditam em ti, para tocar tuas chagas e acolher de novo teu mandato missionário. Dá-nos tua paz, e envia sobre nós teu Espírito, a fim de que não nos cansemos de carregar o pecado do mundo e que experimentemos a felicidade de crer para ver, de acreditar apoiados no testemunho de vida dos outros, de fazer da nossa vida um serviço os irmãos e irmãs. Vem em nosso auxílio para que não demos as costas à comunidade dos homens e mulheres de boa vontade, pois sem ela não conseguimos te reconhecer. Amém! Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Atos dos Apóstolos 4,32-35 * Salmo 117 (118) * 1ª Carta de João 5,1-6 * Evangelho de João 20,19-31)

sábado, 4 de abril de 2015

Cristianismo que vem de baixo

Cristianismo marginal


“O retorno para as raízes caminha para o marginal. A raiz é marginal em si, vive por baixo, mas sem ela a Vida não brotaria.”

E se Roma fosse destruída, se o ouro virasse pó,
E se tudo o que conhecemos passasse a não existir mais?...
Quantos restariam?

E se a hierarquia, o poder, o olhar de cima para baixo,
As belas vestimentas reluzentes, o carreirismo e o espírito monárquico de soberania não encontrassem  mais espaço, e se eles fossem apagados da história que está por começar?
Quantos ainda insistiriam?
Os homens, desnudos de dogmas, carentes de vestes, mendigando
Poder, gritando por um pouco de atenção. Isso soaria como música!

E se voltássemos para baixo da terra, e se novamente fôssemos marginais?
Será que se ouviria o topo da pirâmide berrar que  viver é Cristo?
E se todas as paredes fossem destruídas?
E se um dia - quem sabe? -  todos pudéssemos comer em uma só mesa,
Repartindo um único pão e bebendo em um único mísero cálice de barro?
Quantos iriam querer juntar-se à plebe, se o cristianismo fosse novamente plebe?
Se os sacrários fossem instalados nos corações, se os altares fossem os corpos  sofridos de um povo sem esperança?

Enquanto o homem não se descobrir Deus,
Enquanto não se der conta de que há muito do Cristo , pulsando vivo nas correntes do sangue de todo homem,
Enquanto houver detentores da verdade...
Enquanto houverem pirâmides,
Cristianismo não haverá!
Que voltemos às tumbas,
Que sejamos tal qual raiz tímida por baixo da terra, mas que sejamos motivo de vida.
Prefiro um Cristianismo marginal,
Que a imagem de um Cristo soberano.

Nov. Paulo Henrique

Para reconhecer o Ressuscitado

“IDE À GALILEIA. ALI O VEREIS!”



O relato evangélico que se lê na noite pascoal é de uma importância excepcional. Não só se anuncia a grande notícia de que o crucificado foi ressuscitado por Deus. Indica-se-nos, também, o caminho que temos de recorrer para vê-Lo e encontrarmo-nos com Ele.
Marcos fala de três mulheres admiráveis que não se podem esquecer de Jesus. São Maria Madalena, Maria de Santiago e Salomé. Em seus corações despertou-se um projeto absurdo que só pode nascer do seu amor apaixonado: «comprar aromas para ir ao sepulcro para embalsamar o Seu cadáver».
O surpreendente é que, ao chegar ao sepulcro, observam que está aberto. Quando se aproximam mais, vêm um «jovem vestido de branco» que as tranquiliza do seu sobressalto e lhes anuncia algo que jamais teriam suspeitado.
«Procurais a Jesus de Nazaré, o crucificado?». É um erro procurá-lo no mundo dos mortos. «Não está aqui». Jesus não é um defunto mais. Não é o momento de chorá-lo e render-lhe homenagens. «Ressuscitado». Está vivo para sempre. Nunca poderá ser encontrado no mundo dos mortos, do extinto, do acabado.
Mas, se não está no sepulcro, onde se pode ver? Onde nos podemos encontrar com Ele? O jovem recorda às mulheres algo que já lhes havia dito Jesus: «Ele vai à vossa frente na Galileia. Ali O vereis». Para «ver» ao ressuscitado tem se voltar à Galileia. Por quê? Para quê?
Ao ressuscitado não se O pode «ver» sem fazer o seu próprio percurso. Para experimentá-lo cheio de vida no meio de nós, tem de se voltar ao ponto de partida e fazer a experiência do que foi essa vida que levou a Jesus à crucifixão e ressurreição. Se não é assim, a «Ressurreição» será para nós uma doutrina sublime, um dogma sagrado, mas não experimentaremos Jesus vivo em nós.
Galileia foi o cenário principal da Sua atuação. Ali O viram os seus discípulos curar, perdoar, libertar, acolher, despertar em todos uma esperança nova. Agora os Seus seguidores, temos de fazer o mesmo. Não estamos sós. O ressuscitado vai diante de nós. Iremos vê-Lo se caminhamos atrás dos Seus passos. O mais decisivo para experimentar o «ressuscitado» não é o estudo da teologia nem a celebração litúrgica mas o seguimento fiel a Jesus.

José Antônio Pagola

Pascoa: o protagonismo das mulheres

João 20, 1-9: Ele viu e acreditou
Os quatro Evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até hoje as consequências.
Lendo os relatos, um fato salta aos olhos - ninguém esperava a Ressurreição! Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem pensar!
No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!
Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada na fato de um túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!
Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vidasobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado!
Nós todos somos discípulos/as amados/as, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8); mas, será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).
Pe. Tomaz Hughes

http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=21&noticiaId=5549#

"Eu vim para servir..."

ALEGRIA DE SERVIR


Toda natureza é um serviço:
Serve a nuvem; serve o vento; serve a chuva.

Onde haja uma árvore para plantar: plante-a você.
Onde haja um erro para corrigir: corrija-o você.
Onde haja um trabalho e todos se esquivam: aceite-o você.

É mais belo fazer aquilo que os outros recusam.
Mas não caia no erro de que somente há méritos nos grandes trabalhos.
Há pequenos serviços que são bons serviços:
adornar uma mesa, arrumar seus livros, pentear uma criança.

Uns criticam, outros destroem.
Seja você o que serve.
Servir não é faina de seres inferiores.
Seja você o que remove a pedra do caminho,
o ódio entre corações e as dificuldades do problema.

Há alegria de ser puro e a de ser justo.
Mas há, sobretudo, a imensa alegria de servir.


(Gabriela Mistral, poetisa chilena, 1889-1957)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

TRÍDUO PSCAL: DOMINGO DA PÁSCOA (ANO B – 05.04.2015)

“Eu creio num mundo novo, pois Cristo ressuscitou!”


Chegamos à festa que preparamos com tanto empenho nas últimas seis semanas. Trazemos em nós a memória agradecida da aliança realizada na última ceia e nas muitas e solidárias ceias penúltimas. Trazemos nos olhos o sinal luminoso das mãos perfuradas e dos braços abertos em forma de cruz, prontos a abraçar a humanidade inteira. Partilhamos com Madalena o vazio de uma ausência querida. Trazemos na mente e no ventre o trabalho das mulheres e homens, comunidades e movimentos que, no escuro da noite, prepararam tecidos e perfumes para não permitir que a vida se perca.
A Páscoa celebra o reconhecimento de Jesus – o profeta perseguido e assassinado, o irmão e servidor da humanidade – como Filho de Deus. Proclama que nele Deus vence todas as formas de morte, desde a morte física até a morte progressiva e massiva que resulta das estruturas iníquas e dos poderes despóticos. Anuncia que Jesus, considerado uma pedra sem utilidade e problemática na manutenção do mundo, foi considerado por Deus como pedra fundamental da construção de um mundo novo. Afirma que nossa esperança dance na corda bamba, é teimosa e tem futuro.
A Páscoa de Jesus de Nazaré e dos cristãos celebra as milhares de possibilidades escondidas na vida de cada pessoa e na história da humanidade. Afirma que a última palavra não será sempre do discurso frio daqueles que impõem sua injusta ordem e mandam calar os profetas. Proclama que a ação realmente eficaz e grávida de futuro é aquela que estabelece a absoluta superioridade do outro necessitado. Evidencia que a direção certa e o sentido da vida está na atitude permanente de serviço,  no fazer-se semente de uma outra vida, tão possível quanto urgente.
E essa ressurreição não é algo que se manifesta apenas depois da morte. Paulo nos surpreende afirmando que os cristãos já foram ressuscitados! Ele se refere ao dinamismo pascal do nosso batismo, que possibilita e pede a passagem de uma vida individualista para uma vida plena e solidária. “Procurem as coisas do alto”, exorta Paulo. E isso significa assumir um estilo de vida centrado no amor, no serviço e na partilha, na busca de uma segurança que tenha a justiça como mãe.  Opecado ainda não perdeu totalmente sua influência, mas está mortalmente ferido, e não domina mais sobre nós.
A ressurreição de Jesus não é algo que se impõe com força de evidência, e não vem acompanhada de manifestações potentes. O dia já havia amanhecido, mas na cabeça de Maria Madalena e dos apóstolos a experiência do fracasso pairava como escuridão. Só muito lentamente eles foram percebendo que os lençóis estendidos não estavam lá para cobrir um morto mas para acolher as núpcias de uma nova aliança de Deus com a humanidade. O sudário sim, depois de cobrir a cabeça de Jesus, agora estava à parte e envolvia totalmente o templo, lugar onde a morte fora tramada e decidida.
Lembremos que a Páscoa de Jesus de Nazaré inaugura uma Nova Criação. Ressucitando e trazendo no corpo as marcas dos pregos e da lança, ele é o Homem Novo, o Novo Adão, o Irmão primogênito e solidário de todos os homens e mulheres. Os discípulos e discípulas se reúnem em torno de sua memória e organizam comunidades que continuam seu sonho e seu caminho. E as pessoas acolhidas nestas comunidades estabelecem vínculos que formam um Novo Povo de Deus, a comunhão dos grupos e movimentos de servidorees. De gente que luta por vida abundante para todos.
Na entusiasmada catequese que desenvolve na manhã de pentecostes, Pedro sublinha que Jesus andou por toda parte fazendo o bem e agindo sem medo, apesar da violência que havia levado João Batista à morte. Enfatiza que Deus estava com ele, inclusive no vazio e escuro da cruz, quando parecia havê-lo abandonado. Ensina que Deus o ressuscitou dos mortos, e transformou em juiz aquele que fora réu de morte. E lembra que os discípulos e discípulas, apesar da dificuldade de acreditar nele e da permanente tentação de abandoná-lo, são constituídos testemunhas e pregadores dessa Boa Notícia.
Jesus de Nazaré, filho amado de Deus, irmão querido da humanidade! Aqui estamos reunidos para festejar contigo, para celebrar a festa dos pequenos. É uma festa que não serve os bens roubados aos fracos e não ostenta a indiferença de quem esqueceu que a luta continua. É com alegria que descobrimos que o mistério da vida ressuscitada se dissemina em tantas pessoas e grupos, inclusive naqueles que não te reconhecem explicitamente. Por isso, celebramos nossa páscoa na tua páscoa, e saímos apressados para testemunhar que a vida é mais forte que a morte e que o amor é imortal. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Atos dos Apóstolos 10,34-43 * Salmo 117 (118) * Carta aos Colossenses 3,1-4 * Evangelho de João 20,1-9)

terça-feira, 31 de março de 2015

TRÍDUO PASCAL: VIGÍLIA DA RESSURREIÇÃO (ANO B – 04.04.2015)

A pedra rejeitada tornou-se princípio e fundamento.

Como quando falece uma pessoa querida, reunimo-nos hoje em vigília, marcados pela dor da perda, recapitulando a história da salvação, regando as frágeis sementes de esperança que restam. Acompanham-nos tantas testemunhas que nos antecederam nessa travessia. Mas a vigília sempre nos possibilita também assumir a herança espiritual de quem partiu, levantar o olhar, contemplar o horizonte e encontrar forças para continuar a caminhada. Aqui estamos, como Elis Regina, acariciando o pequeno fio de esperança: “Eu sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente...”
É uma ilusão inocente ou maldosa imaginar que a vida muda num golpe de mágica. A ação criadora de Deus é sempre lenta, e avança numa luta sem tréguas contra o vazio, o caos e o abismo. Como os hebreus fugindo do Egito, quem luta se vê frequentemente encurralado, com o mar intransponível à frente e as tropas ameaçadoras atrás. Nossa experiência ainda hoje é de que existem pessoas lutadoras e iniciativas promissoras, mas são frágeis e estão muito dispersas, como o povo de Israel no cativeiro da Babilônia. Como identificar os sinais de páscoa em tal situação?
O vazio da sepultura não é prova da ressurreição, mas convida a perceber que as marcas dos pregos e o corpo torturado não são a última palavra de Deus sobre a história. Na tumba vazia, anjos e mulheres ensinam que o caos do lixo pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que os crucificados caminham à nossa frente e vislumbram novidades em gestação. Precisamos abrirmo-nos às novas possibilidades escondidas no segredo do átomo, no íntimo das pessoas e nos caminhos da história...
Aquelas mulheres madrugadoras, as poucas conhecidas e as muitas anônimas, nos ensinam que os sinais palpáveis da ressurreição só podem ser tocados na periferia – “ele vai para a Galiléia na frente de vocês. Lá vocês o verão” – ou na missão – “agora vocês devem ir e dizer aos discípulos dele e a Pedro...” É neste caminho de saída que as três mulheres reconhecem o Ressuscitado que vem ao encontro delas, pedindo que se alegrem. que não tenham medo. O lugar onde ele estava deixa de ser importante. O que importa agora é ir para onde ele está, para a Galiléia daqueles que ‘não contam’.
Como cristãos, completamos em nossos corpos os sofrimentos de Jesus Cristo, ostentamos as marcas de quem vive para servir. A ressurreição se multiplica como semente no testemunho e nas iniciativas de discípulos e discípulas, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos. Como na ressurreição de Jesus, os sinais são pequenos, quase desprezíveis, mas igualmente reais e promissores. O batismo, recordado e celebrado comunitariamente na vigília pascal, expressa este dinamismo na vida de cada um de nós e da comunidade eclesial. Morreu o velho homem, nasceu uma nova criatura!
Já vivemos e sofremos o bastante para para saber que esta passagem não nem automática, nem evidente. Trata-se de um projeto de vida que, para ser realizado, exige disciplina e empenho sem tréguas. Porque não se trata apenas de lutar contra inimigos externos, mas de vigiar sobre nós mesmos e sobre a permanente tentação de ser sempre o primeiro, o superior, o mais digno, o merecedor. Mas esta não é uma luta inglória, pois Jesus de Nazaré, nosso irmão maior, já venceu a batalha, removeu muitas pedras, derramou sobre nós seu Espírito e nos tornou capazes de vencer com ele.
Os primeiros cristãos resgataram uma imagem preciosa para falar da ressurreição de Jesus: Ele é como uma pedra que os construtores jogaram no lixo e que Deus transformou em pedra de ângulo, pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais que são descartados como desnecessários ou eliminados como incômodos. Se não os tivermos no coração das nossas preocupações e projetos eclesiais, nossa fé poderá ser como casa construída sobre a areia, e nossa utopia pode se deteriorar em simples ideologia.
Senhoras da madrugada, mulheres-coragem: humildemente pedimos ajuda para caminhar na noite que nos envolve, para ver com nossos próprios olhos que o mestre de vocês e nosso nos precede na periferia e no deserto. Segurem nossas mãos cansadas e acompanhem nossos passos inseguros. Emprestem-nos um pouco do perfume que vocês souberam conservar, a fim de não chegarmos de mãos vazias ao encontro com Aquele que vive para sempre. E então anunciaremos de mil modos que a carne amada e amante de Jesus vivifica todos os sonhos e esperanças que habitam nossa humanidade. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Gênesis 1,1-2,2 * Salmo 103 * Êxodo 14,15-15,1 * Romanos 6,3-11 * Marcos 16,1-7)

segunda-feira, 30 de março de 2015

TRÍDUO PASCAL: PAIXÃO E MORTE DE JESUS (ANO B – 03.04.2015)

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!”

O comércio não sabe o que fazer com esta sexta-feira, e um clima estranho envolve pessoas e cidades. Até as pessoas mais indiferentes intuem que algo inexplicável aconteceu e acontece nesse dia. Uma multidão se reúne nos templos. É gente experimentada na dor, gente que percebe que neste dia se revela o que há de mais profundo no ser humano e que há de mais belo no coração de Deus. O mistério do mal atinge sua força mais terrível. A humanização de Deus atinge seu ponto mais luminoso. A entrega do ser humano a Deus se expressa em seu grau máximo.
Como todos os escravos e servos, Jesus não tem aparência e beleza que possa atrair os olhares. Ele é como uma raiz em terra seca, como um indivíduo do qual escondemos o rosto. “Não parecia gente, tinha perdido a aparência humana.” Mas sua vida é semente, tem futuro! O Servo fiel não perde sua vida, pois a dá livremente e, por isso, prolonga sua existência. Ele carrega nas costas a exclusão e o desprezo de muitos, e, por isso, a luz brilha em seu rosto e em todo seu corpo de servo. Ele confia seu destino nas mãos daquele que é o segredo da vida e assim vive naqueles que servem.
Nós conhecemos muito bem as tramas e traições que levaram à prisão e condenação de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério da iniquidade e sua força nas pessoas e nas estruturas sociais. É um mal nada abstrato, que se expressa nos costumes, nas leis, nos medos, em todas as formas de ambição. Um mal que assume feições de cinismo, como quando as autoridades religiosas, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio do governador para não se tornrarem impuras...  É este inexplicável mistério da iniquidade que faz com que seja noite às três horas da tarde...
Jesus não parece disposto a defender-se. Tem cosciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar palpável e digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas negadas em sua dignidade. Pilatos manda torturá-lo e, depois, o apresenta ao povo: “Eis o homem!” Fixemos o olhar neste personagem que realiza em grau pleno a vocação de todo ser humano. Nele descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida e de servir, quando não abre mão da solidariedade com as pessoas negadas em sua dignidade.
O ser humano maduro e liberto não é o ‘amigo de César’, a pessoa age sem autonomia, nem a autoridade religiosa, que ordena por medo, mas Aquele que transcende os interesses individuais e se põe a serviço de Deus e do seu projeto. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que, no seu corpo feito dom, a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado.” Nele Deus chega ao máximo de si mesmo e se supera no esvaziamento. Nele o ser humano vence todos os limites e se faz dom e semente fecunda nas mãos de Deus. Nada há de mais amável e desejável que isso! Bendito seja Deus!
 “O que é que vocês estão procurando?”, perguntou Jesus aos primeiros discípulos (Jo 1,38). E hoje, nesta sexta-feira da paixão, o que buscamos nós? Aqui só é licito buscar forças para caminhar na fé e perseverar no seguimento de Jesus, o amigo e servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho!” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Assim, aos pés da cruz  nasce uma nova família, não mais restrita aos laços de sangue ou de interesses mesquinhos, mas servidora de todos os humanos seres que querem viver e promover a vida.
É por isso que nesta santa sexta-feira nossa oração se abre numa universalidade que não deveria estar ausente de nenhuma celebração: rezamos pela Igreja, pelo papa e todos os ministros, mas também pela união das diferentes Igrejas cristãs, pelos judeus e pelos não cristãos, pelos que não acreditam em nada, pelas autoridades e pela humanidade sofredora. Diante do crucificado, filho da humanidade e filho de Deus, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido e virarão ruínas. Pertencemos à humanidade, temos um destino comum.
Diante de ti, Irmão da humanidade sofredora e servidora, prostramo-nos agradecidos e comprometidos. Nossas chagas e culpas pesam sobre teus ombros, mas o dom do teu amor sem fronteiras nos regenera. Tua mãe e teu amigo nos acolhem numa comunidade-semente de um mundo novo, e a água que brota do teu lado aberto nos livra de todos os medos. Beijamos enternecidos tuas chagas, pedindo que teu Espírito impeça que este beijo seja de traição. E assim seremos capazes de beijar, abraçar e acompanhar a imensa caravana dos sofredores e servidores que só podem esperar em ti. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 52,13-53,12 * Salmo 30 (31) * Carta aos Hebreus 4,14-15; 5,7-9 * Ev. de João 18,1-19,42)

domingo, 29 de março de 2015

TRÍDUO PASCAL: CEIA DE JESUS (ANO B – 02.04.2015)

“Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado!”

Hoje nos reunimos para celebrar a Aliança nova, terna e eterna de Deus conosco, filhas e filhos queridos, família na qual seu Filho se faz irmão. A mesa está pronta, a toalha está linda, há flores coloridas e o alimento é saboroso. E há lugar para todos, inclusive para pecadores como nós. O próprio Jesus de Nazaré nos diz que preparou e desejou ardentemente celebrar este momento conosco (cf. Lc 22,15). E não recusamos o convite porque intuímos que não temos outra honra senão trazer em nossos sonhos, projetos, ações e relacionamentos as marcas da cruz de Cristo, do seu amor sem fronteiras.
Na mesa que reúne as pessoas que desejam ardentemente viver uma fraternidade sem fronteiras, fazemos memória, recordamos. Esta celebração é um memorial dos êxodos e travessias que somos convidados a empreender: travessias de um eu fechado em si mesmo para uma comunidade aberta e solidária; de uma mesa grande e vazia para uma mesa farta e partilhada; de projetos estreitos e ancorados no sucesso pessoal para utopias coletivas; de lutas empreendidas contando apenas conosco mesmos para alianças muito mais que estratégicas.
A ceia eucarística é a memória de Jesus e dos discípulos que, tendo atrás as memoráveis experiências das refeições partilhadas com toda sorte de pecadores e à frente a ameaça dos poderes que não toleram mudanças, compartilham suor e sangue, vinho e pão. A eucaristia é o alimento de quem está na estrada. Celebramos esta ceia e aceitamos a aliança que Deus nos oferece ainda “na terra do Egito”. Celebramos esta refeição prontos para a travessia que urge: com cintos que diminuem os embaraços; com sandálias que agilizam os passos; com cajados que nos sustentam nos vales escuros.
No centro não está um cordeiro, mas um corpo feito inteiramente dom Jesus Cristo oferece a totalidade concreta da sua vida como dom e partilha. É sua vida inteira que ele nos dá sem reservas e sem impor condições. E o faz numa ceia ordinária, numa refeição marcada pelo afeto fraterno, num contexto de ameaça de morte, pedindo insistentemente que façamos o mesmo para manter viva sua memória. “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado...” A eucaristia faz da Igreja uma comunidade aberta em dom àqueles que estão fora ou estão “longe”.
Jesus ilustra o sentido da sua vida feita aliança no gesto de lavar os pés. Ele havia dito e repetido que viera para servir e não para ser servido, como Servo e não como Senhor. Demonstrara isso numa dedicação sem cansaço aos últimos. Pois agora, depois de repartir pão e vinho, deixa a mesa e assume o serviço próprio de mulheres e crianças, lavando os pés daqueles que estavam à mesa. É o próprio Deus que se inclina diante da humanidade e, de joelhos, lava nossos pés. E não o faz para demonstrar humildade, mas para desfazer as hierarquias e afirmar a absoluta igualdade de todos.
Pedro reage diante da lição de Jesus. Não lhe parece bem mudar as coisas assim tão radicalmente: para ele, senhores e superiores devem ser honrados; servos e inferiores devem ser desfrutados; esta é a ordem e nada deve ser mudado. Parece-lhe difícil aceitar que esta não é a ordem querida por Deus, que participar da eucaristia implica em fazer-se memória viva da vida de Jesus Servo... Como custa à Igreja e a cada um de nós assimilar esta lição: Deus não se identifica com o soberano, mas com o servo; somente quem hipoteca sua vida pelos outros a ganha verdadeiramente.
A lição é difícil e nada óbvia. É por isso que, depois de comer e de lavar os pés dos discípulos, Jesus nos interroga: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer?” E para não deixar dúvidas, explica: “Eu lhes dei um exemplo... E vocês serão felizes se o puserem em prática...” Precisamos passar da memória e do gesto teatral à vida: “fazei isso...”; “se puserem em prática...” É preciso dar conteúdo e concretude à eucaristia no dom cotidiano pelos outros, no serviço despojado a todos, mesmo àqueles que aparentemente não o merecem. “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado...”
Jesus, Filho de Deus e da Humanidade, peregrino nas estradas de um mundo desigual, arauto de um tempo novo e promissor. Ajuda-nos a não deixar no interior do templo o avental que nos dás como hábito e identidade. Abre nossa mente e nossas mãos para que o serviço aos irmãos e irmãs não se limite à intenção, mas se realize nas estradas e esquinas do mundo. Faz que superemos os ritos e transformemos teu gesto em prática cotidiana. Guia e sustenta a Igreja no caminho do esvaziamento que a faz livre e capaz de servir, sem outra parcialidade senão a preferência pelos últimos. Amém! Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Livro do Êxodo 12,1-14 * Salmo 115 (116) * 1ª Carta aos Críntios 11,23-26 * Evangelho de João 13,1-15)