sábado, 9 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (192)

192 | Ano B | 2ª Semana do Advento | Domingo | Marcos 1,1-8

10/12/2023

O segundo domingo do Advento nos chama à conversão e ao engajamento: ações que tragam consolação aos desolados; abertura de estradas onde a vida é difícil e o distanciamento social se impôs implacavelmente; perseverança quando os novos céus e a nova terra demoram a aparecer; ternura, como a do pastor que carrega no colo os cordeirinhos e guia as ovelhas que amamentam.

Os caminhos da justiça e da paz ainda são tortuosos e esburacados, especialmente para os países e as pessoas pobres. O obstáculo está também no cassino da Wall Street, onde se compra, vende e especula a vida e a morte dos povos. O Evangelho diz que o povo que vivia no ‘centro do mundo’ (Jerusalém) se deslocou à periferia (deserto) para escutar o profeta João. E este é o rumo que precisamos seguir também nós.

A Palavra de Deus insiste que é do deserto e da periferia que vêm as notícias que anunciam que o Humano está nascendo e que um Outro Mundo está sendo gerado. Mas isso pede inversão de perspectivas e conversão da mentalidade. A novidade que vem do deserto é peregrina e vulnerável, não se realiza nas ações potentes, nem chama a atenção. O agente de Deus (Messias) nasce migrante e se hospeda na estrebaria.

João Batista tem consciência de que é apenas o precursor, de que o chamado à conversão será seguido pelo anúncio de uma boa notícia, e que o retiro no deserto será substituído pela estrada que leva aos povoados. Sandálias lembram caminho, e caminho sugere discipulado. A estrada a ser aberta no deserto é a estrada do seguimento de Jesus na pobreza, no dom de si e na solidariedade. É a estrada que leva a Belém e a Nazaré, e desemboca no calvário. É a estrada que nos faz todas/os irmã/os.

Que ninguém queira substituir as sandálias do carpinteiro pelas botas dos soldados arrogantes, ou trocar a Boa Notícia pelas ameaças dos idiotas de plantão! Seguimento de Jesus não rima com intolerância. Conservar as sandálias e abrir caminhos é preciso! Mas, até quando conseguiremos manter viva essa convicção e essa esperança? A realidade parece desmentir o que acreditamos, e a história parece não considerar nossas utopias.

 

Meditação:

§  O evangelho de hoje nos pede atenção à pregação de Isaías e às palavras e ao testemunho de João Batista

§  Qual é o caminho do Senhor que nós e nossas Igrejas estamos torcendo e precisam ser endireitado?

§  Diante de Jesus e seu Evangelho nos prostramos obedientes, ou fazemos de menos e até temos a pretensão de corrigi-lo?

§  Quais seriam os elementos mais relevantes do evangelho e da vida de Jesus para os homens e mulheres, as Igrejas e o mundo de hoje?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (191)

191 | Ano B | 1ª Semana do Advento | Sábado | Mateus 9,35-10,8

09/12/2023

Jesus está em peregrinação ao santuário das dores e esperanças humanas, anunciando o Reino de Deus, ensinando como acolhê-lo e curando os enfermos. Através do que faz e das relações que estabelece, Ele é sinal inequívoco da “visita de Deus” que estamos preparando no Advento e celebraremos no Natal. Não é uma visita passageira, pois ele veio para ficar!

Jesus se deixa tocar pelo sofrimento dos pobres e marginalizados, mas não fica no simples sentimento. Diante de um povo abandonado à própria sorte pelas autoridades, cansado e abatido, espoliado e abandonado, Jesus é tomado de profunda compaixão e toma iniciativas concretas para devolver a cidadania às pessoas. A compaixão, essa capacidade de se importar profundamente com a dor dos outros, é o segredo dinâmico da sua missão.

Mas Jesus percebe claramente que esta missão ultrapassa suas forças e possibilidades. Ele não dará conta de fazer tudo sozinho, e precisa contar com muito mais gente nesse ministério da compaixão, que vence a indiferença e reconstrói a vida. Diante da exiguidade de recursos e da pequenez da comunidade dedicada a esta missão, Jesus não desiste nem se desespera: antes, ele nos estimula e ensina a pedir a Deus Pai com insistência e a buscar e preparar gente que colabore generosamente nela.

Mas pedir ao Pai que suscite e sustente pessoas generosas que se dediquem à imensa e urgente tarefa de tornar esse mundo melhor e anunciar esta possibilidade não é algo a ser feito sem empenho pessoal. Antes de tudo, ele mesmo nos ensina a compaixão, nos chama e nos envia como discípulos/as missionários/as para fazer exatamente o que ele veio fazer: anunciar, ensinar, libertar. E tudo de graça, como de graça é o que dele recebemos.

É desde uma humilde casa de família em Nazaré e do estábulo de Belém que ele nos envia com uma prioridade: as ovelhas perdidas, as pessoas vulneráveis, os povos ameaçados. São eles que precisam e esperam o anúncio jubiloso: “O reino de Deus está próximo! O Deus está conosco e armou sua tenda entre nós!” E esperam de nós sinais concretos daquilo que anunciamos.

 

Meditação:

§  Também hoje, o trabalho de construir uma humanidade única e fraterna é imenso e precisa de muita gente generosa

§  Sozinhos/as, nós, nossas comunidades e nossas Igrejas não dão conta e podem ceder ao cansaço e ao desânimo

§  Quem compartilha a visceral compaixão de Jesus sabe reconhecer e congregar gente de fora das nossas igrejas nesse caminho

§  Muitos/as são os/as chamados/as e enviados/as e trabalhar com generosidade e gratuidade em favor das “ovelhas perdidas”

O Evangelho dominical (Pagola) - 10.12.2023

RENOVAÇÃO INTERIOR

Para sermos humanos, a nossa vida precisa de uma dimensão essencial: a interioridade. Somos obrigados a viver rápido, sem nos determos por nada nem por ninguém, e a felicidade não tem tempo de penetrar em nossos corações. Passamos rapidamente por tudo, e quase sempre ficamos pela superfície. Estamos a esquecer de escutar a vida com um pouco de intensidade e profundidade.

O silêncio poderia nos curar, mas já não somos capazes de encontrá-lo no meio das nossas mil ocupações. Cada vez há menos espaço para o espírito na nossa vida diária. Por outro lado, quem se vai ocupar de coisas tão pouco apreciadas hoje como a vida interior, a meditação ou a busca de Deus?

Privados de alimento interior, sobrevivemos fechando os olhos, esquecendo a nossa alma, cobrindo-nos com camadas e mais camadas de projetos, ocupações e ilusões. Já aprendemos a viver como coisas no meio das coisas. Mas o triste é observar que, com demasiada frequência, tampouco a religião é capaz de dar calor e vida interior às pessoas. Num mundo que optou pelo «exterior», Deus é um «objeto» demasiado distante e, para dizer a verdade, de pouco interesse para a vida quotidiana.

Por isso, não é estranho ver que muitos homens e mulheres «passam ao lado de Deus», ignoram-no, não sabem do que se trata, conseguem viver sem ter necessidade Dele. Talvez exista, mas a verdade é que não lhes serve para as suas vidas.

Os evangelistas apresentam Jesus como aquele que vem «batizar com o Espírito Santo», isto é, como alguém que pode limpar a nossa existência e curá-la com o poder do Espírito. E talvez a primeira tarefa da Igreja atual seja precisamente a de oferecer aquele «batismo do Espírito Santo» aos homens e às mulheres dos nossos dias.

Precisamos desse Espírito para nos ensinar a passar do puramente externo ao que há de mais íntimo no ser humano, no mundo e na vida. Um Espírito que nos ensine a acolher esse Deus que vive no interior das nossas vidas e no centro da nossa existência. Não basta que o evangelho seja pregado. Os nossos ouvidos estão demasiado habituados e não escutam já mensagem das palavras. Só nos pode convencer a experiência real, viva e concreta de uma alegria interior nova e diferente.

Homens e mulheres convertidos em molhos de nervos excitados, seres movidos por uma agitação exterior e vazia, já cansados de quase tudo e quase sem alegria interior, será que podemos fazer algo melhor do que parar um pouco a nossa vida, invocando humildemente um Deus em que ainda acreditamos, e abrir-nos confiadamente ao Espírito que pode transformar a nossa existência? Poderiam ser as nossas comunidades cristãs um espaço onde vivamos acolhendo o Espírito de Deus encarnado em Jesus?

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (190)

190 | Ano B | Imaculada Conceição de Maria | Lucas 1,26-38

08/12/2023

Faltando 15 dias para o Natal do Senhor, celebramos a solenidade da imaculada concepção de Maria. E o texto do evangelho segundo Lucas ilumina esta solenidade mariana. Minha amiga Inez chama Maria de “Graciosa”, e isso é correto, mas essa graça ela a recebe do Filho e compartilha conosco.

Nesta cena, o papel central é reservado ao enviado de Deus e o clima é de intenso júbilo. O Mensageiro saúda Maria com uma expressão que significa “Esteja bem! Tudo de bom!” E diz que o “charme” dela encantou o próprio Deus. É claro que essa é uma boa notícia, mas isso terá consequências, pois Maria terá que mudar os planos e participar da dor e da glória do seu filho.

É bastante evidente que, ao dizer que Maria é cheia de graça, o anjo Gabriel não está se referindo apenas à eventual formosura física de Maria de Nazaré. Ele fala da sua humanidade, original e sem pecado, como a criação sonhada e saída perfeita das mãos de Deus. Ela é a imagem da humanidade como Deus a imaginou, a pessoa humana na qual brilha a imagem de Deus.

Acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é uma mulher passiva, sem personalidade. Antes, mostra-se atenta e reflexiva. Muito longe de se calar e retirar, ela pede explicações ao próprio Anjo, quer compreender, interroga. E descobrirá lentamente a bela ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade e grandeza aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá – o fruto bendito do seu ventre – abrirá o caminho de um novo êxodo.

E o próprio anjo antecipa traços do filho de Maria: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, santo, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi. No nome que lhe será dado, está sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador dos oprimidos.

 

Meditação:

·    Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado a Maria, razão de ser da nossa espera e da nossa alegria

·    Tome como dirigidas a você as palavras do Mensageiro de Deus: “Alegra-te, cheia/o de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

·    Acolha estas palavras como horizonte da sua vocação de ser íntegro/as e irrepreensível e da missão na Igreja e no mundo

·     Procure inserir seu projeto de vida no projeto que Deus tem para a humanidade e para você

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (188)

188 | Ano B | 1ª Semana do Advento | Quarta-feira | Mateus 15,29-37

06/12/2023

A espiritualidade do advento é a lente que devemos usar para ler e meditar os textos bíblicos indicados para as celebrações deste tempo litúrgico. É o advento que ajusta nosso ouvido e nosso olhar para reconhecermos a “visita” de Deus em trajes humanos de pobreza, de simplicidade, de proximidade. E nos sensibiliza ao sonho, à esperança, à generosidade.

No trecho que meditamos hoje, o evangelista nos apresenta Jesus em plena ação missionária, antecipando a festa dos pequenos, a festa que celebra a preciosidade da vida dos pobres. Na montanha, lugar de reunião e de encontro, de revelação e de aliança, Jesus cura as pessoas machucadas pela sociedade e pela vida, e alimenta os famintos. Ali se concretiza a “filantropia” de Deus, sinalizada e antecipada no Natal de Jesus.

Nesta cena, o evangelista nos mostra que a festa da vida, sonhada e esperada, não se realiza no templo, como esperavam e apregoavam os sacerdotes, mas no encontro com Jesus. E os protagonistas não são as pessoas piedosas ou poderosas, mas aquelas que são jogadas nas margens da convivência social e do espaço religioso. O objetivo de Jesus é ajustar nosso olhar para que sejamos capazes de ver as necessidades dos outros e ser compassivos.

De fato, o que move Jesus em seu falar e em seu agir é a compaixão. E a compaixão não é um sentimento ocasional, mas uma força que coloca a dor e a vida dos outros acima e antes de tudo. É esta compaixão vivida por Jesus em todas as relações que atrai a ele as pessoas pobres e “estropiadas”. É esta compaixão que ele quer despertar em todos os seus discípulos/as e enviados/as, pois é ela que nos ajuda a encontrar soluções para os problemas.

O pão que alimenta a multidão é fruto direto da compaixão e resultado da superação do egoísmo dos discípulos e discípulas. Aqueles/as que o possuem, mesmo em pouca quantidade, cedem a prioridade a quem mais necessita. É esse o sentido profundo do Natal: Deus vê a angústia dos sofredores, assume suas dores e suscita soluções para suas dificuldades. Seja esse o Natal que preparamos. Que a montanha do egoísmo seja rebaixada.

 

Meditação:

§  Faça um esforço para recriar a cena, colocando-se entre os personagens, contracenando e dialogando com eles

§  Como repercute em você a declaração de Jesus “Tenho compaixão desse povo que não tem nada para comer”?

§  Participe das ações de Jesus e da alegria incontida e do louvor a Deus que brota da boca das pessoas curadas e alimentadas

§  O que isso tem a ver conosco, com a preparação e a celebração do Natal que se aproxima?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (187)

187 | Ano B | 1ª Semana do Advento | Terça-feira | Lucas 10,21-24

05/12/2023

A espiritualidade do advento são os óculos que devemos usar para ler e entender os textos bíblicos sugeridos à nossa meditação e oração. E estes óculos dirigem nosso olhar para os pequenos sinais, para os grandes sonhos, para a preparação e a acolhida de algo novo e determinante para nossa vida e para a história, que está acontecendo sutilmente no mundo.

Este pequeno trecho do evangelho de Lucas é o coração da sua obra: a reação jubilosa e calorosa de Jesus à breve ação missionária dos setenta e dois discípulos/as. Neles, Jesus vê a abertura e a disponibilidade à novidade libertadora de Deus. Com isso, Jesus nos chama à simplicidade e à abertura para reconhecer e acolher o “Deus Pequeno” que nos vem libertar.

Jesus defrontou-se com a arrogância e a autossuficiência dos líderes religiosos e das elites culturais, sociais e econômicas do seu tempo. Elas tendiam a manipular o nome a imagem de Deus em benefício deles e contra as pessoas simples. Por isso, Jesus diz que o Deus verdadeiro, o Pai de Jesus e nosso, decidiu conscientemente não se revelar aos membros dessas elites, que ele esconde a eles seu rosto.

Jesus conhecia também a profundidade e a sinceridade da fé das pessoas simples e humildes. Elas não são eticamente superiores a ninguém, mas estão em condições de reconhecer e acolher com alegria a revelação de Deus, porque essa revelação não é um saber, mas uma capacidade de amar e servir. Essa revelação não nos faz mais sabidos, mas mais dóceis e generosos. E se a docilidade e a generosidade vêm de Deus, não são mérito de ninguém.

Jesus exulta profundamente diante desse duplo movimento conscientemente desejado por Deus: revelar seu rosto e o mistério da sua vontade aos pequenos e humildes e escondê-los aos sábios e arrogantes. E associa seus discípulos/as a essa revelação, pois eles o seguem e nele acreditam. Ele sabe tudo dos mistérios do Pai, e o Pai ama-o e confia nele. E é no encontro vivo e missionário com Jesus, e não com a lei ou com o templo, que alcançamos a salvação, chegamos a ser pessoas plenamente livres e realizadas.


Meditação:

§  Leia atentamente esta cena e estas palavras de Jesus, relacionando-as com o conjunto do seu ensinamento

§  A espiritualidade do advento nos oferece uma perspectiva muito própria para a escuta e a compreensão do Evangelho

§  Este tempo nos convida à vigilância do porteiro, à escuta despojada, à atenção aos pequenos sinais

§  Quem conhece suas atitudes, dirá que você está entre os sábios e doutores ou entre os simples e humildes?


domingo, 3 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (186)

186 | Ano B | 1ª Semana do Advento | Segunda-feira | Mateus 8,5-11

03/12/2023

Depois da primeira etapa do processo de formação que dos seus discípulos, Mateus inicia a fase narrativa de seu evangelho, descrevendo o Reino de Deus em ação. Também nisso Jesus forma e educa e orienta seus discípulos/as missionários/as. Ontem, iniciando o advento, ouvíamos Jesus sublinhar que a figura desse mundo injusto passa, e há sinais de novidade no ar.

Mateus nos mostra como Jesus derruba os muros e atravessa as fronteiras nacionais, étnicas, religiosas e sociais. E faz isso evitando os centros de poder e deslocando-se para as margens. Usa os meios da Palavra e do toque, da compaixão e da misericórdia, sem recorrer a ações capazes de impressionar. São ações que beneficiam os necessitados, e não subjugam ninguém.

Na cena de hoje se confrontam dois reinos (o romano e o de Deus) e duas etnias (os judeus e os pagãos). Nos versículos subsequentes, também são colocadas frente a frente duas classes (um chefe militar e uma mulher sem nome). O escravo do oficial romano não tem voz, não conta para nada, e Jesus faz o que império romano não faz, e corrige aquilo que a dominação provoca.

A figura do oficial romano é ambivalente, pois ele faz parte da estrutura de violência do império romano, mas, ao mesmo tempo, é um pagão, e, como tal, é desprezado pelos judeus. Pela confiança radical na força libertadora da pessoa e da Palavra de Jesus para curar alguém tratado por ele como simples propriedade, este oficial chama a atenção e suscita o elogio de Jesus.

A atitude e as palavras desse pagão inspiram a vida cristã. Sua fé é exemplo até para os judeus mais piedosos, e para os cristãos mais engajados. Em cada missa repetimos suas palavras, e queremos assimilar sua atitude. “Senhor, eu não sou digno que entres em minha casa, mas uma palavra tua basta para curar-me”. Iniciando a caminhada de preparação para a celebração litúrgica do nascimento de Jesus, somos convidados a acolher essa Palavra que ilumina, forma, guia e cura. Ela é que nos trará vida e felicidade. Não a substituamos pelo bom velhinho com seu saco de presentes!

 

Meditação:

§  Preste atenção na atitude, nos gestos e nas palavras do oficial romano: ele pede em favor de um escravo, uma das suas propriedades, que talvez ele mesmo tivesse torturado

§  O oficial expressa sua fé na força da Palavra e da compaixão de Jesus por aqueles que não tem voz nem vez

§  Jesus se interessa pela sogra de Pedro, vai ao encontro dela, ajuda-a a superar a enfermidade e recoloca-a de pé

§  Você deseja que Jesus entre na sua casa e faça as mudanças que o Evangelho pede, tome você pela mão e o faça um servidor/a?

sábado, 2 de dezembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (185)

185 | Ano B | 1ª Semana do Advento | Domingo | Marcos 13,31-37

03/12/2023

Para sublinhar a vigilância, atitude central no advento, Jesus conta uma parábola na qual chama a atenção para a figura do porteiro. O porteiro atua no limite entre a área interior e exterior da casa; pertence ao pessoal da casa, mas precisa estar atento aos que estão para chegar; conhece os segredos da casa, mas deve saber reconhecer e acolher as visitas que estão sendo esperadas. Ele não é propriamente um vigia, e, mais que proteger o patrimônio, deve acolher as pessoas que chegam.

Jesus nos convida a viver vigilantes, pois algo novo está para chegar, uma grande mudança está para acontecer. Para falar disso, ele usa uma linguagem apocalíptica, dizendo que as estrelas caem, os poderes são abalados e as estruturas basilares da ordem social e política sofrem um eclipse. Os sinais cósmicos e históricos anunciam que uma nova ordem social, que uma nova humanidade está sendo gerada. E tudo o que é histórico é transitório, só a Palavra viva de Deus permanece. Como o porteiro, precisamos identificar e dar passagem a aos sinais dessa novidade que está batendo à nossa porta.

Jesus ressalta que o Reino de Deus e o ser humano renovado vêm de baixo, lançam raízes na família humana, que experimenta a noite escura da fragilidade e da injustiça. Ou, dizendo de outro modo, a nova humanidade vem de cima, do alto da cruz, da doação generosa e solidária de nós mesmos e de tudo o que possuímos em favor da vida dos últimos. A Palavra que não passa é aquela que Jesus pronunciou silenciosamente no alto da cruz!

“O que eu digo a vocês, digo a todos: fiquem vigiando!” Aqui Jesus antecipa o que dirá mais adiante, pouco antes de ser preso: “Minha alma está numa tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem” (Mc 14,34). Essa vigília deveria se estender pelos momentos seguintes: a prisão, a negação, a espera e o amanhecer. Mas os discípulos não conseguiram vigiar nem uma hora, pois resistiam à fragilidade e à vulnerabilidade de Deus, que se revela na cruz.

Hoje muitos cristãos não alimentam mais nenhuma esperança. Não esperam o advento de uma nova humanidade. Não creem na possibilidade de um mundo mais justo. Não querem ser perturbados no seu sono tranquilo e indiferente à sorte dos irmãos. Se mantêm uma certa esperança, mas continuam confiando nos meios potentes. Não acreditam numa Igreja dos pobres e para os pobres. Preferem dormir sob a proteção dos impérios que transformá-los.

 

Meditação:

§  Leia atentamente esta cena e as palavras de Jesus, relacionando-as com o conjunto do seu ensinamento

§  O que hoje provoca em nós mais insensibilidade, embriaguez e preocupações que mudam nosso foco e nos dispersam?

§  Você cultiva a esperança de que “um outro mundo é possível”, ou não acredita em mais nada?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O Evangelho dominical (Pagola) - 03.12.2023

QUANDO O HORIZONTE SE FAZ SOMBRIO

A falta de esperança está gerando entre nós mudanças profundas que nem sempre sabemos compreender. Quase sem nos darmos de conta, vão desaparecendo do horizonte as políticas orientadas para uma vida mais humana. Cada vez se fala menos de programas de libertação ou de projetos que procurem maior justiça e mais solidariedade entre os povos.

Quando o futuro se torna sombrio, todos procuramos segurança. Desejamos que nada mude. Que ninguém coloque em perigo o nosso bem-estar. Não é o momento de pensar em grandes ideais de justiça para todos, mas de defender a ordem e a tranquilidade.

Ao que parece não sabemos ir mais além desta reação quase instintiva. Os especialistas dizem-nos que os graves problemas ambientais, o fenômeno do terrorismo desesperado ou o acosso crescente dos famintos que penetram nas sociedades do bem-estar não estão aparentemente causando quaisquer mudanças profundas na vida pessoal dos indivíduos. Apenas medo e busca de segurança. Cada um procura desfrutar ao máximo do seu pequeno bem-estar.

Sem dúvida, muitos de nós sentimos uma estranha sensação de culpa, vergonha e tristeza. Sentimos também, uma espécie de cumplicidade pela nossa indiferença e pela nossa incapacidade de reagir. No fundo não queremos saber nada de um mundo novo, só pensamos na nossa própria segurança.

As fontes cristãs preservaram uma chamada de Jesus para momentos catastróficos: «Despertai, vivei vigilantes». O que significam hoje essas palavras? Despertar de uma vida que corre tranquilamente no egoísmo? Despertar da frivolidade que nos rodeia em todos os momentos, impedindo-nos de escutar a voz da consciência? Libertar-nos da indiferença e da resignação?

Não deveriam as comunidades cristãs ser um lugar privilegiado para aprender a viver despertos, sem fechar os olhos, sem fugir do mundo, sem pretender amar a Deus de costas para quem sofre? Eis o apelo do Evangelho nesse primeiro domingo do Advento.

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

O Evangelho na vida de cada dia (184)

184 | Ano A | 34ª Semana Comum | Sábado | Lucas 21,34-36

02/12/2023

Fim do ano litúrgico, fim do “discurso escatológico” de Jesus. Amanhã, inauguraremos um tempo novo, e esperamos que não seja apenas no calendário da Igreja. Isso depende de nós, ao menos em parte. Mas Jesus nos adverte: tomemos cuidado para que as coisas não nos surpreendam muito ocupados em não fazer nada, ou ocupados apenas em “fazer shopping” e organizar festas e férias.

Quando Jesus fala de “preocupações” não se refere a coisas necessariamente ruins, mas às “pequenas causas” ou interesses que nos distraem daquilo que é essencial: esperar e preparar o Reino de Deus mediante uma vida alicerçada no amor, na justiça, na solidariedade e na gratuidade. Trata-se de ocuparmo-nos com a construção de outro mundo possível, e não apenas com o consumo enlouquecido. É isso que significa permanecer de pé diante do Filho do Homem, como o evangelista Lucas coloca na boca de Jesus.

Jesus fala que os desfechos mais importantes da vida chegam subitamente, e de modo imprevisível: como um laço, ou como uma armadilha que despenca repentinamente sobre todas as pessoas. A oração e a capacidade de análise e discernimento do sentido dos acontecimentos são os dois trilhos que nos mantêm no rumo certo e nos dão força e ânimo para enfrentar as dificuldades e gerar a novidade alternativa requerida pelo Evangelho.

Com esse ensinamento, Jesus termina a primeira parte das “lições” para a formação dos/as discípulos/as. Ele iniciou seu ministério de mestre no templo, aos doze anos, e, no mesmo templo, conclui esta parte. A lição decisiva ele a dará logo em seguida, quando será preso, julgado e eliminado do templo e do meio dos viventes. Será a sua “prova dos nove”, como será também a nossa.

O caminho do tempo comum termina no exato momento em que Jesus é julgado em Jerusalém, epopeia que já meditamos e revivemos na semana santa. Amanhã começaremos a ouvir a Palavra que nos pede olhar para as fronteiras, os porões, os desertos e as estrebarias, porque lá está sendo gerada a grande novidade, que não é aquela do campeão mundial de futebol.

 

Meditação:

§  Leia atentamente esta cena e as palavras de Jesus, relacionando-as com o conjunto do seu ensinamento

§  O que hoje provoca em nós mais insensibilidade, embriaguez e preocupações que mudam nosso foco e nos dispersam?

§  Você cultiva a esperança de que “um outro mundo é possível”, ou não acredita em mais nada?

§  O que significa para você, hoje, no meio de tantas incertezas e dificuldades, ficar atento/a e rezar?