segunda-feira, 5 de maio de 2025

Você tem fome de quê?

Jesus é o pão vivo que sacia nossa fome de Justiça | 704 | 06.05.2025 | João 6,30-35

Na segunda parte da catequese sobre o pão, que tem as marcas do debate e da controvérsia, a multidão exige de Jesus um sinal da sua divindade, como o sinal do maná. Jesus diz que ele mesmo é este sinal, e que maná seria apenas um símbolo que remete a ele, que é o dom superior e definitivo de Deus. Nele, o Deus poderoso se apresenta vulnerável e frágil, acessível e próximo. Mas este ensino de Jesus resolve pouco, e a multidão murmura.

“Que sinal fazes para que possamos crer em ti? Que obra fazes?”, questiona a multidão. Aquela gente não entende o sinal do pão, e acrescenta, quase como uma acusação a Jesus: “Nossos pais comeram o maná no deserto”. Esperam de Jesus obras mais espetaculares, que impressionem e resolvam suas necessidades sem deles exigir compromisso.

Jesus responde destacando que a crença e a expectativa deles estão baseadas numa falsa compreensão do passado. Eles precisam olhar para o presente e reconhecer os sinais que Deus está realizando agora, e em favor do seu povo hoje. “Não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos o verdadeiro pão do céu”! Jesus põe a ênfase no presente, e nos interlocutores que o questionam.

Jesus passa, então, a falar claramente de si mesmo como sendo o pão verdadeiro. “Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e vida ao mundo”. Descendo sempre, fazendo-se carne, colocando-se no lugar do ser humano necessitado, superando a indiferença e respondendo com compaixão às suas necessidades, Jesus abre caminho à abundância.

Diante dessa afirmação de Jesus, a multidão parece finalmente entender, mas sua compreensão ainda é superficial. O pedido “Senhor, dá-nos sempre desse pão” denota, de novo, a busca de uma solução fácil e sem compromisso. E Jesus avança, de modo mais claro ainda: “Eu sou o pão da vida! Quem vem a mim não terá mais fome”. Ele não poderia ser mais claro. Que ninguém espere coisas, mas acolha e sua proposta, e a vida deixará de ser carência e se fará farta.

 

Sugestões para meditar

§ Jesus questiona o que move as multidões ao seu encontro: o que motiva você a procurar e escutar Jesus Cristo hoje?

§ Qual é o sinal que você espera para poder crer nele? Um milagre retumbante, uma cura, a solução das aflições da humanidade?

§ Sua fé se baseia mais nos sinais que Deus realizou no passado, ou naquilo que ele manifesta no tempo presente?

§ Em que medida Jesus Cristo e seu Evangelho alimentam suas utopias e iluminam suas buscas?

domingo, 4 de maio de 2025

Nada sem Ele, nada sem nós

Sem Jesus, nada podemos, mas ele nada faz sem nós! | 703 | 05.05.2025 | João 6,22-29

Depois de saciar a fome da multidão e de ir ao encontro dos discípulos que remavam angustiados no meio da noite, Jesus volta a Cafarnaum e faz uma longa catequese sobre sua identidade e sua missão. É uma espécie de comentário sobre as leituras feitas pelos judeus durante a liturgia pascal. O episódio do maná era um dos textos refletidos nesta festa, e Jesus o toma como ponte para apresentar a si mesmo como verdadeiro pão da vida.

Meditaremos o episódio em partes, ao longo desta semana. Hoje ficamos apenas com a primeira parte desta catequese, centrada no debate entre Jesus e a multidão. O povo chegara entusiasmado, porque presenciara o “sinal” da multiplicação dos pães e dos peixes. Não procura Jesus movido pela fé nos sinais do Reino de Deus, mas pelo alimento abundante e fácil. E Jesus convoca a multidão a fazer uma passagem à realidade, do interesse imediato aos verdadeiros valores: crer nele e aderir a ele, o enviado do Pai.

Presa às tradições e habituada a buscar as migalhas que lhe sobravam, a multidão insiste em pedir a Jesus um sinal poderoso, nos moldes do sinal do maná. Doutrinadas pela Lei ensinada pelos doutores e fariseus, as pessoas não sabem o que fazer para viver mais plenamente. Parece-lhes que basta a Lei, e o amargo e parco pão de cada dia. E se perguntam: se a prática da Lei não basta, “o que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” E Jesus responde: “Acreditar naquele que ele enviou”.

Acreditar no Enviado do Pai parece pouco, mas se trata de reconhecer Jesus como o Messias esperado, compreender seus sinais e aderir a ele com fé. O sinal do alimento abundante, fruto da compaixão e da partilha, traz consigo o compromisso de doação generosa de si mesmo. Por mais que esteja atento às pessoas concretas e suas necessidades, Jesus não é uma solução mágica para toda indigência humana! Ele realiza e prolonga a ação de Deus no mundo, e se propõe como caminho para que façamos o mesmo.

É assim, contando com o engajamento generoso de quem acredita nele, que Jesus, o Filho do Homem marcado e enviado pelo Pai com seu selo, sacia todas as fomes da humanidade peregrina, mas sempre contando com sua própria participação. Nada podemos sem ele, mas ele nada faz sem nós!

 

Sugestões para meditar

§   O que move você ao encontro de Jesus Cristo? Qual é o sinal realizado por ele que ilumina suas buscas?

§   Em que consiste hoje o alimento que não se perde, que permanece e conduz a uma vida mais plena?

§   O que significa acreditar no deus que enviou Jesus Cristo, e que consequências essa fé tem para sua vida

Alma, sim; armas, não!

Por uma economia com alma e uma humanidade sem armas

As intervenções lúcidas e corajosas do Papa Francisco suscitaram um movimento global de reflexão e engajamento chamado Economia de Francisco e Clara.  O que une esta imensa gama de reflexões teóricas e iniciativas práticas é a aplicação de alguns princípios éticos e humanísticos à reflexão e à prática econômica: solidariedade, cuidado e dignidade humana. O objetivo é pensar uma economia que não se submeta à ditadura do lucro e priorize o bem comum, a justiça social e a justiça ambiental.

A reflexão parte da constatação de que o modelo econômico predominante no mundo de hoje se caracteriza como “uma economia sem alma”. Por isso, nas palavras do Papa Francisco, “a política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. É preciso pensar no bem comum, e buscar meios para que “a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana” (Fratelli Tutti, § 189).

Uma “economia sem alma” não aceita outra meta que não seja o maior lucro no menor tempo e com a maior concentração possível. Se essa meta ameaça o futuro do planeta, gera uma crescente e criminosa desigualdade social e exclui milhões de seres humanos, isso não passa de danos colaterais ou preço do progresso. A sobrevivência da humanidade e a integridade da criação interessam apenas à medida em que podem gerar lucros.

Nesse horizonte, a fabricação e o comércio de armas ocupa um lugar importante. Como esse também é um negócio lucrativo, importa turbinar o sentimento de insegurança, a polarização, o ódio e a agressividade. Então, cresce o número de condomínios fechados e as empresas de segurança privada. Apela-se até ao direito natural de armar-se, uma cínica releitura do direito humano à segurança: “Faturar é preciso, viver não...”

Francisco dizia que a vida não é passatempo ou tempo que passa, nem um confronto permanente e belicoso. “O que conta é gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de recolher as diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro!” (Idem, § 218). E isso não se faz traçando fronteiras e erguendo muros, mas construindo pontes.

Entre as propostas globais para criar uma fraternidade sem fronteiras, Francisco propunha aplicar o dinheiro hoje usado em armamentos e outras despesas militares num fundo mundial para acabar com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres. Isso ajudaria seus cidadãos a não serem atraídos por soluções violentas, ou vítimas indefesas das frequentes tragédias que se abatem sobre os migrantes (cf. Idem, § 262).

Para que isso não permaneça um delírio, precisamos engajar-nos na mudança do modelo de desenvolvimento global, no debate sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, na correção das suas disfunções e deturpações e na redefinição da ideia de progresso. “Um desenvolvimento tecnológico e econômico que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se é progresso” (Idem, § 194). Em outras palavras: precisamos realmar a economia e globalizar a solidariedade.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

sábado, 3 de maio de 2025

Cuida dos meus cordeirinhos!

Nosso amor a Jesus se mostra no amor aos irmãos | 702 | 04.05.2025 | João 21,1-19

Pedro e outros seis discípulos estão em plena missão. A frustração enche o barco, e faz pesar o coração. Não estaria faltando-lhes um vínculo mais profundo com o próprio Jesus Cristo? Ou será que faltava colocar em prática a lição do despojamento radical? “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só...” (Jo 12,24).

Cegos pela catarata do fracasso, aqueles sete discípulos – entre os quais estamos todos nós! – não conseguem ver a presença viva do Senhor. Mesmo assim, Jesus Cristo continuava sendo uma presença discreta e fecunda nas idas e vindas dos discípulos. E continuava tratando-os com amizade e afeto: “Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?” Jesus os convida a mergulhar na dura realidade das próprias carências.

Acolhendo a palavra de Jesus, os discípulos recomeçam o trabalho. Será que não era exatamente ali, no lado direito do barco, que estava a ‘multidão’ de doentes, cegos, coxos e paralíticos que não conseguiam caminhar por si mesmos? O segredo do êxito da missão da Igreja não estaria exatamente no voltar-se para os oprimidos?

Obedecer à ordem de Jesus significa relativizar os próprios conceitos e desobedecer às ordens dos sistemas de coerção. E os frutos do trabalho abrem os olhos deles à presença de Jesus, embora só o discípulo amigo seja capaz de reconhecê-lo e passar a notícia adiante. Então Pedro, fazendo as vezes de líder, ‘amarra a túnica na cintura’ e se lança, no mar, no serviço. Sem a disposição de dar a vida, não há autoridade evangélica e legítima.

Jesus se dirige a Pedro, o líder do grupo, e questiona se eles não estão projetando nele a imagem de um Messias poderoso. No fundo, Jesus quer fazer Pedro revelar se a sua liderança tem motivação e horizonte evangélicos ou se é permeada de ambições inconfessáveis. Pedro responde a cada uma das perguntas de Jesus afirmando sua amizade por ele. E escuta dele duas advertências: amá-lo significa dedicar-se ao seu rebanho; não há autêntica missão ou autoridade sem amor a Jesus.

 

Sugestões para meditar

§ Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena depois da manifestação de Jesus a Tomé e aos demais apóstolos

§ Preste atenção nos gestos de Jesus e naquilo que ele diz: pergunta se eles têm pão; manda lançar as redes de novo; oferece peixe e pão

§ O que significa a decisão de voltar à pesca, o insucesso que experimentam e uma nova tentativa à ordem de Jesus?

§ O que esse terceiro encontro de Jesus crucificado e ressuscitado com seus discípulos significa para nós hoje?

A centralidade do amor

NÃO SERVE QUALQUER UM

(Tempo Pascal | Terceiro domingo | 04.05.2025)

 

Depois de comer com os seus discípulos na margem do lago, Jesus inicia uma conversa com Pedro. O diálogo foi cuidadosamente trabalhado, pois tem como objetivo recordar algo de grande importância para a comunidade cristã: entre os seguidores de Jesus, só aqueles que se distinguem pelo seu amor a Ele são qualificados para serem guias e pastores.

Não houve nenhuma uma ocasião em que Simão Pedro não tenha manifestado a sua adesão absoluta a Jesus acima dos outros. No entanto, no momento da verdade, ele é o primeiro a negá-lo. O que há de verdade na sua adesão? Ele está em condições de ser guia e pastor dos seguidores de Jesus?

Antes de lhe confiar o seu «rebanho», Jesus coloca-lhe a pergunta fundamental: «Tu me amas mais do que estes?» Ele não pergunta: «Tu tens as forças necessárias? Tu conheces bem a minha doutrina? Tu te consideras capacitado para governar os meus?» Não! É o amor a Jesus que o capacita para animar, orientar e alimentar os seus seguidores, como ele mesmo fazia.

Pedro responde a Jesus com humildade e sem se comparar a ninguém: «Tu sabes que eu te amo». Mas Jesus repete a pergunta mais duas vezes, de modo cada vez mais incisivo: «Tu me amas? Tu me amas de verdade?" A insegurança de Pedro vai crescendo. Cada vez se atreve menos a proclamar a sua adesão. No final, se enche de tristeza. Já não sabe o que responder: «Tu sabes tudo».

À medida que Pedro vai tomando consciência da importância do amor, Jesus vai confiando-lhe o seu rebanho para que o cuide, alimente e transmita vida aos seus seguidores, a começar pelos mais pequenos e necessitados: os «cordeiros».

Hierarcas e pastores são frequentemente associados à capacidade de governar com autoridade ou de pregar a verdade com segurança. No entanto, há adesões firmes, seguras e absolutas a Cristo que, vazias de amor, não nos capacitam para cuidar e guiar os seus seguidores.

Poucos fatores são mais decisivos para a conversão da Igreja do que a conversão de hierarcas, bispos, sacerdotes e líderes religiosos ao amor a Jesus. Somos os primeiros que devemos ouvir a sua pergunta: «Tu me amas mais do que estes? Amas os meus cordeiros e as minhas ovelhas?»

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Filipe e Tiago

Jesus está conosco, mas será que nós o conhecemos? | 701 | 03.05.2025 | João 14,6-14

Esta passagem faz parte da catequese que Jesus desenvolve logo depois da ceia e do lava-pés, e ilumina a festa dos apóstolos São Filipe e São Tiago. Filipe pede que Jesus lhes mostre o Pai. “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”! É um pedido quase desesperado diante do desconcerto de um Messias que se inclina diante do Homem para lavar seus pés e dar sua vida.

Jesus já havia deixado claro que é nele que temos acesso ao Pai, pois ele é o caminho, a verdade e a vida. Por isso, Jesus responde lamentando a dificuldade dos discípulos em ver nele o rosto do Pai: “Se me conheceis, conhecereis também o meu Pai. Há tanto tempo estou convosco e não me conheces? Quem me vê, vê o Pai. Crede, ao menos, por causa destas obras...”

O problema de Filipe é o nosso problema. Custa-nos aceitar que o Deus que revestimos de onipotência e colocamos no altíssimo nos é dado a conhecer nas ações concretas de Jesus de Nazaré. Não é que queiramos ver mais; queremos ver outras coisas, menos concretas, mais abstratas e passíveis de manipulação; coisas mais doutrinais e menos interpeladoras, como é lavar é os pés dos irmãos, alimentar os famintos, resgatar a cidadania de quem está à margem e dar a vida sem reservas.

O problema continua, e se torna ainda mais sério, quando e na medida em que queremos dar a impressão de que conhecemos Jesus, e fazemos o possível para impor a imagem que temos dele a quem crê diversamente. A tentação da qual não nos livramos é fazer Jesus vestir o figurino que de antemão preparamos para ele, de obrigá-lo a fazer aquilo que decidimos em nossas faculdades de teologia e gabinetes doutrinais.

Imagino Jesus dirigindo-se hoje a nós, e dizendo em tom de advertência: “Há tanto tempo estou com vocês e vocês não me conhecem!” Crer nele é fazer aquilo que ele faz, prosseguir sua ação libertadora, entrar no caminho da compaixão, armar a tenda dos nossos sonhos e projetos no chão da humanidade ferida e sedenta de vida. O resto é culto às vaidades que passam, serviço aos poderes que oprimem, fuga das responsabilidades.

 

Sugestões para meditar

§ Recomponha na memória os gestos as palavras desse diálogo de Jesus com os seus discípulos

§ Será que também nós partilhamos da cegueira de Filipe, e não conseguimos reconhecer Deus naquilo que Jesus faz e pede?

§ O que o processo de crescimento e renovação do apóstolo Filipe e do discípulo tardio Tiago nos ensinam hoje?

§ Como podemos nós, em nosso tempo, recriar esta ação de Jesus, inclusive com maior alcance e eficácia?

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Apenas cinco pães e dois peixes

Onde encontraremos alimento para tantos famintos? | 700 | 02.05.2025 | João 6,1-15

No capítulo 6 do seu evangelho, João nos apresenta o primeiro encontro de Jesus com a multidão. O episódio é situado próximo à festa da páscoa judaica, e, na ocasião, Jesus realiza dois sinais muito importantes: a multiplicação dos pães, às margens do lago, diante de uma multidão e a serviço dela; a caminhada sobre as águas, um sinal mais discreto, na presença apenas dos discípulos.

Jesus está no apogeu da sua missão. O povo acolhe seu ensinamento e acredita nele, graças aos sinais que realiza. Mas a sua fama e a crescente multidão que se reúne acaba provocando uma crise: onde encontrar alimento para tanta gente? Os discípulos já haviam discutido sobre isso, como aparece na resposta de Filipe. Eles haviam calculado que dar uma refeição ao povo teria um custo equivalente a 100 dias de trabalho!

Jesus convoca os discípulos a cooperar com ele, mas Filipe não vislumbra solução fora do sistema de mercado. André visualiza um começo de solução: informa a Jesus o que a comunidade dispõe para si mesma. O menino (“criadinho”), símbolo do discípulo, entrega o pouco que tem, e Jesus faz pelo povo aquilo que se recusara a fazer para si mesmo.

Jesus toma os pães de cevada e os peixes e dá graças a Deus. Com isso, liberta estes bens da apropriação privada e exclusiva, e proclama que eles pertencem a Deus. É quando devolvemos o que temos a quem lhe pertence de verdade que brota a abundância na mesa de todos. Mas os bens só produzem vida abundante quando os discípulos servem.

A resposta da multidão é o reconhecimento de que ele é o Profeta que esperavam. Mas esse entusiasmo esconde uma tentação: fazer de Jesus um rei, um chefe político. Este é o risco que ronda os líderes, tanto políticos como religiosos, quando fascinam o povo. Jesus se retira sozinho, em busca de integridade e serenidade. Ele se afasta dos discípulos (também tentados pelo poder e pela passividade) e da multidão para se manter fiel à vontade do Pai: confiar às pessoas e solução dos problemas sociais concretos.

 

Sugestões para meditar

§ Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto este episódio ambientado no deserto, pouco antes da páscoa dos judeus

§ Você se percebe no meio da multidão faminta, que espera alimento, ou entre os discípulos que são chamados a colaborar com Jesus?

§ Qual é sua reação diante dos problemas que afligem o povo hoje: indiferença? Busca de culpados? Busca de soluções?

§ O que você está disposto a colocar hoje nas mãos de Jesus para que ele ajude a diminuir o sofrimento do seu povo?

José foi operário?

São José de Nazaré, um operário

 A festa de são José Operário fui instituída pelo Papa Pio XII, em 1955, com a intenção de reafirmar a dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras e, ao mesmo tempo, dar uma marca católica à celebração civil e classista do dia 1° de maio.

O próprio Pio XII havia dito, por ocasião do Natal de 1942: “Todo trabalho possui uma dignidade inalienável e, ao mesmo tempo, uma íntima ligação com a pessoa em seu aperfeiçoamento: nobre dignidade e prerrogativa que não são de modo algum aviltadas pela fadiga e pelo peso que devem ser suportados como efeito do pecado original em obediência e submissão à vontade de Deus”.

Antes dele, Leão XIII havia escrito “Os proletários e operários têm como direito especial o de recorrer a são José e de procurar imitá-lo. José, de fato de família real, unido em matrimônio com a mais santa e a maior entre todos as mulheres, considerado como o pai do Filho de Deus, não obstante tudo passou a vida toda a trabalhar e tirar do seu trabalho de artesão tudo o que era necessário ao sustento da família”. Introduzindo o nome de São José no cânon da missa, o Papa João XXIII quis homenageá-lo como exemplo de vida cristã, homem trabalhador e honesto, fiel e obediente à palavra de Deus.

 

O pai de Jesus era carpinteiro!

Em geral essa afirmação não causa hoje nenhum problema para os cristãos, se bem que muitos parecem lamentar secretamente que Jesus não tenha sido descendente da família nobre ou da dinastia sacerdotal... Mas no contexto das primeiras comunidades cristãs, especialmente no ambiente do judaísmo e do império romano, a origem social de Jesus atraía suspeita e desprezo sobre seu ensino e suas ações.

Ouvindo o ensino de Jesus na sinagoga, seus conterrâneos se perguntavam perplexos: “De onde vem essa sabedoria e esses milagres? Esse homem não é o filho do carpinteiro?” Nomeando de cor os membros de sua humilde família, não conseguiam entender e ficaram escandalizados (cf. Mt 13,53-58). A condição de vida de José e a profissão que exercia eram causa de menosprezo e dificultavam a aceitação da mensagem de Jesus por parte do seu próprio povo.

Mas este é um dado que não podemos esquecer ou diminuir: José é um homem que viveu do próprio trabalho. No século XIX, o Pe. Berthier, fundador dos Missionários da Sagrada Família, escrevia: “José era um pobre artesão: ele não recebeu outra herança senão as mãos, outro capital senão a carpintaria, outros recursos senão o próprio trabalho”. E esse trabalho foi o caminho que o levou à integridade nas suas relações com Maria, com Jesus, com seu povo e com Deus.

 

Um trabalhador pode alcançar a sabedoria?

A expressão grega ‘tektôn’, que normalmente é traduzida por carpinteiro, expressa também o ofício do pedreiro e do ferreiro. De qualquer maneira, sempre trabalhos artesanais. Assim, podemos supor com bastante fundamento histórico e literário que José e Jesus foram artesãos experimentados no ofício da carpintaria e muito conhecidos nas vilas da região.

Podemos presumir também que, seguindo o costume segundo o qual o pai devia ensinar sua profissão aos filhos, José ensinou Jesus a distinguir os diversos tipos de madeira e suas qualidades específicas: plátano, terebinto, cipreste, sicômoro, acácia, oliveira, zimbro, pinheiro, etc. Ensinou-o também a usar adequadamente as ferramentas de trabalho: machado, martelo, serra, plaina, cinzel, etc. E observando o jeito de José trabalhar, Jesus aprendeu o valor de um trabalho bem feito.

O livro do Eclesiástico registra reserva e até um certo menosprezo pelos trabalhadores manuais. “Aquele que está livre de atividades torna-se sábio. Como poderá tornar-se sábio aquele que maneja o arado e cuja glória consiste em manejar o ferrão? Como pode tornar-se sábio aquele que guia bois, não abandona o trabalho e só sabe falar de crias de vacas? O mesmo acontece com todo carpinteiro e construtor, e com qualquer pessoa que trabalha dia e noite...” (Eclo 38,24-27)

Com base nisso, podemos concluir que, como os demais trabalhadores manuais, José e Jesus “não são requisitados no conselho do povo, não têm lugar especial na assembleia, não se assentam na cadeira do juiz, nem conhecem as disposições legais. Eles não brilham pela cultura nem pelo julgamento, e não entendem de provérbios. Entretanto, são eles que sustentam as necessidades básicas, e a oração deles consiste em realizar o próprio trabalho” (Eclo 38,34).

 

A dignidade dos trabalhadores

A festa de São José Operário tem como objetivo celebrar o valor do trabalho humano e proclamar a dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras. São José nos ajuda a voltar nosso olhar àqueles/as que hoje necessitam do próprio trabalho para sobreviver e, ao mesmo tempo, realizam através dele sua vocação de construir o bem comum.

Nossa fé sublinha que Deus assumiu a condição humana, inclusive a de trabalhador. “Pela sua encarnação, o Filho de Deus, de certo modo, uniu-se a todos os seres humanos. Trabalhou com mãos humanas, pensou e agiu como qualquer ser humano, amando com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, foi realmente um dos nossos em tudo, exceto no pecado” (Gaudium et Spes 22).

O mesmo documento conciliar recomenda engajamento e alegria aos cristãos que “seguindo o exemplo de Cristo, que trabalhou como operário, exercem todas as suas atividades unificando os esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos e técnicos numa síntese vital com os bens religiosos, sob cuja direção tudo se orienta para a glória de Deus” (GS 43). Assumindo trabalhos manuais humildes em Nazaré, Jesus conferiu uma dignidade especial ao trabalho e aos trabalhadores/as (cf. GS 67).

 

Mudar os sistemas iníquos

Em tempos de crise estrutural como esta que estamos atravessando, as saídas apresentadas como mais razoáveis e urgentes normalmente trazem prejuízos aos trabalhadores/as. Fala-se sempre mais em flexibilizar os direitos trabalhistas, mas pouco se fala em flexibilizar os índices de lucro dos empresários e dos banqueiros. Enquanto isso, a Igreja afirma sem rodeios que “é iníquo e desumano” organizar a produção “em detrimento dos trabalhadores”.  “Nenhuma lei econômica o justifica” e, nesses casos, “a greve deve ser reconhecida como um direito de defesa dos trabalhadores” (GS 68).

Muitos cristãos ainda preferem imaginar São José trazendo nas mãos lírio da pureza e não as ferramentas de trabalho. E gostam de contemplar Jesus ostentando na cabeça uma coroa real e portando nas mãos o pergaminho ou o cajado, a patena e o cálice, mas jamais uma foice ou uma enxada! E o mundo viria abaixo se alguém ousasse representar José e Jesus numa manifestação pela redução da jornada de trabalho, contra a flexibilização das leis trabalhistas ou por uma nova ordem internacional...

 

Que o trabalho não seja em vão

Paulo Coelho confessou que gosta de imaginar Jesus celebrando sua última ceia numa mesa fabricada na marcenaria de José. Mesmo que isso não seja historicamente provável, é importante sublinhar os laços que unem José e Jesus, sejam eles de trabalho ou de missão. Jesus será sempre o filho e o herdeiro do carpinteiro de Nazaré, e dele aprendeu a relevância da utopia religiosa, o valor do trabalho e a dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras.

De minha parte, concedo-me o direito de imaginar José e Jesus envolvidos no trabalho em mutirão para construção de casas no povoado de Nazaré. À noite, em casa, depois da modesta janta, vejo José puxando de memória o Salmo 127: “Se Javé não constrói a casa, em vão labutam os construtores. Se Javé não guarda a cidade, em vão vigiam os guardas. É inútil que vocês madruguem e se atrasem para deitar, para comer o pão com duros trabalhos: aos seus amigos ele o dá enquanto dormem”.

Interrompendo a prece, fixa demoradamente o olhar terno no rosto de Jesus, e depois continua: “A herança que Javé concede são os filhos, seu salário é o fruto do ventre: os filhos da juventude são flechas na mão do guerreiro”. E Maria, envolvendo José com um abraço carinhoso, completa: “Feliz o homem que enche sua aljava com elas; não será derrotado na porta da cidade quando litigar com seus inimigos”. Ela sabia que seu marido não brilhava pela cultura e não entendia de provérbios, mas das mãos dele vinha boa parte do sustento da família, e seu trabalho subia ao céu como oração.

+ Itacir Brassiani msf