domingo, 24 de março de 2013

Quinta-feira Santa


Deus se abaixa para lavar os pés da humanidade e servi-la.
(Ex 12,1-8.11-14; Sl 115/116; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15)
Hoje nos reunimos para celebrar a Aliança nova e terna que Deus renova conosco, seu povo amado, filhas e filhos queridos, família na qual seu Filho se faz irmão. A mesa está pronta, a toalha está linda e as flores estão coloridas. O alimento é simples e saboroso, e há lugar para todos/as, inclusive para pecadores/as como nós. O próprio Jesus de Nazaré nos diz que preparou e desejou ardentemente celebrar esta ceia conosco (cf. Lc 22,15). E a ela acorremos porque intuímos que não temos honra ou glória maior que esta de trazer em nossos sonhos, projetos, ações e relacionamentos as marcas da cruz de Cristo, do seu amor sem fronteiras. Sentados ao redor da mesa, ouviremos de novo as palavras do testamento do nosso irmão e filho de Deus. Experimentaremos mais uma vez como ele nos ama com amor intenso e eterno. E da mesa e dos templos, airemos às ruas e cidades para continuar o dinamismo da sua missão no mundo. Efetivamente, ele não abaixa a cabeça diante de nenhum poder, mas se inclina diante de todo ser humano para servi-lo.
“Este dia será para vós uma festa memorável.”
Na mesa que reúne as pessoas que desejam ardentemente viver a fraternidade, fazemos memória, recordamos. Com o povo de Israel e todos os povos, trazemos de novo ao coração as inúmeras travessias já realizadas ou ainda em processo. Travessias com avanços e retrocessos, quedas e recomeços, sonhos e traições; travessias marcadas por uma Presença que se mostra, ao mesmo tempo, como nuvem luminosa e como sombra acolhedora.
Esta celebração é também um memorial dos êxodos e travessias que somos convidados/as a empreender como indivíduos: travessias de um eu fechado em si mesmo a uma comunidade aberta e solidária; de uma mesa grande e vazia a uma mesa farta e partilhada; de projetos estreitos e ancorados no sucesso pessoal a utopias coletivas; da sedução indisfarçável que a riqueza exerce sobre nós ao despojamento livre e generoso em favor dos outros; de lutas empreendidas contando apenas conosco mesmos/as a alianças bem mais que estratégicas.
A ceia eucarística é a memória de Jesus e dos discípulos e discípulas que, tendo atrás as memoráveis experiências das refeições partilhadas com toda sorte de pecadores/as e à frente a ameaça dos poderes que não toleram mudanças, compartilham suor e sangue, vinho e pão, sonhos e esperanças. Memória de incompreensões, medos e distanciamentos. Memória daquele que tendo nos amado, ama-nos até o fim e se oferece como perene alimento para a caminhada.
“Isto é meu corpo entregue por vós!”
A eucaristia é alimento para quem está a caminho. Celebramos esta ceia e aceitamos a aliança que Deus nos oferece ainda “na terra do Egito”. Faz escuro, mas cantamos para despertar a aurora que não demora. Celebramos esta refeição de comunhão prontos/as a realizar uma travessia urgente: com cintos que diminuem os embaraços; com sandálias que agilizam os passos; com cajados que nos sustentam nos vales escuros. “Quem comeu de pé a páscoa não tem lucros, nem tem medo”, poetiza o velho e lúcido Dom Casaldáliga.
O alimento não é um cordeiro, mas um corpo feito inteiramente dom. Corpo não é apenas uma carcaça, a metade exterior e mais desprezível da pessoa: é a totalidade concreta, é diferença e relação. Jesus Cristo oferece a concretude de sua vida como dom e partilha. É sua vida inteira – sonhos, ações, corpo e sangue – que ele nos dá sem reservas e sem impor condições. E o faz numa ceia ordinária, numa refeição marcada pelo afeto fraterno, num contexto de ameaça de morte, pedindo insistentemente que façamos o mesmo para manter viva sua memória.
A Eucaristia faz da Igreja uma comunidade aberta em dom àqueles/as que estão fora ou estão longe. O corpo de Cristo é a comunidade viva dos fiéis, o povo de Deus que ultrapassa as fronteiras eclesiásticas, o corpo dos pobres e marginalizados que ostentam suas chagas vivas. O corpo-Igreja é dado por nós, para que sejamos homens e mulheres emancipados, maiores, maduros e livres como Cristo. E isso significa encarnar a mesma atitude fundamental de amor e de serviço vivida por Jesus Cristo.
“Tu vais lavar-me os pés?”
Jesus explicita sua oferta sem reservas no gesto de lavar os pés dos discípulos. Ele havia dito e repetido que viera para servir e não para ser servido, como Servo e não como Senhor, e demonstrara isso numa dedicação sem cansaço aos últimos. Depois de repartir pão e vinho, Jesus deixa a mesa e assume o serviço próprio das mulheres e crianças, lavando os pés dos que estavam à mesa. É o próprio Deus que se inclina diante da humanidade e, de joelhos, lava nossos pés. E não o faz simplesmente para demonstrar humildade, mas para desfazer as hierarquias e afirmar a absoluta igualdade de todos/as. Deus não se identifica com o soberano mas com o servo.
Entre os convivas estão Pedro e Judas. Pedro reage diante da lição de Jesus. Não lhe parece bem mudar as coisas de modo tão radical. Para ele, senhores e superiores devem ser honrados, e servos e inferiores devem ser desfrutados. E sta é a ordem e nada deve ser mudado. Parece-lhe inaceitável que esta não seja a ordem querida por Deus, que participar da Eucaristia implica em fazer-se memória viva da vida de Jesus Servo. Como custa à Igreja e a cada um/a de nós assimilar esta lição! Mas Jesus não ensaia uma cena teatral: ele é o Servo, e a missão que compartilha conosco é servir, na amizade e na solidariedade.
O evangelista não diz quem foi o primeiro e quem foi o último, e Jesus lava os pés também de Judas. Nossa tradição cultural propõe a prática de ‘malhar o Judas’, mas Jesus nos ensina a acolher também àqueles/as nos quais se condensa a resistência e o mistério da iniquidade. Não se trata de absolver os algozes e ignorar seus crimes, mas de ser capaz de ver mesmo nas pessoas contraditórias, resistentes e errantes um ser humano. E mais: precisamos acolher a possibilidade de resitência, fechamento e traição que está em de nós mesmos/as. E vencê-la!
A lição é difícil e nada óbvia. É por isso que depois de cear e de lavar os pés dos discípulos, Jesus os interroga: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer?” E para não deixar dúvidas, explica: “Eu lhes dei um exemplo... E vocês serão felizes se o puserem em prática...” Deus coloca tudo em suas mãos, e este tudo se mostra nas mãos que lavam os pés, nas mãos que serão pregadas na cruz, no serviço cordial e fraterno, na recusa das hierarquizações. Ele, sendo mestre e senhor, se põe a serviço dos discípulos e das multidões necessitadas. Como poderia a Igreja pretender seguir outro caminho?
“Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor...”
O mandamento final é que passemos da memória verbal e ritual à realização histórica e vivencial: “Fazei isso em memória de mim”; “Se puserdes em prática, sereis felizes.” A Eucaristia é memorial da solidariedade de Jesus realizada efetivamente nos caminhos da Galiléia e no martírio da cruz. Sem isso a santa ceia seria um rito vazio. Precisamos dar conteúdo e concretude à Eucaristia no dom cotidiano pelos outros, no serviço despojado a todos/as, mesmo àqueles/as que aparentemente não o merecem, mas carecem.
Jesus de Nazaré nos convida à Ceia que preparou com cuidado sincero e amigo e nos acolhe à sua mesa. Participemos dignamente desta ceia-aliança para alcançarmos um amor maduro e concreto. Sentados/as, como pessoas reconhecidas e dignas, ou em pé, como militantes prontos/as para a luta, descubramos que a vida de cada pessoa humana é muito preciosa aos olhos de Deus. Por isso, seguros/as do seu amor, tomemos a toalha e o avental e lavemos os pés uns dos outros, no interior do templo e nos caminhos da história.
Jesus de Nazaré, servidor da humanidade e pão partido para a vida do mundo! Reunidos em torno da tua mesa e aprendendo a lição do lava-pés te pedimos: não permitas que caiamos na tentação de deixar a bacia e o avental guardados na sacristia para a próxima encenação!  Ajuda-nos a viver o dom do pão e do vinho e a lição do serviço fraterno nas nossas famílias, grupos, associações, paróquias, e no coração de uma sociedade habituada a bajular os que detém o poder e a pisar violentamente sobre os empobrecidos. Tu não nos ensinas um rito religioso a ser repetido eternamente, mas uma ética a ser encarnada radicalmente. Ajuda-nos a conquistar a verdadeira liberdade, que é a superação das honras e das hierarquias vazias e excludentes. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

sábado, 23 de março de 2013

Fatos & Personagens: Dom Oscar Romero


Oscar Arnulfo Romero

São Salvador, 24 de março de 1980. Às 18:30, enquanto celebrava a eucaristia, cai assassinado Oscar Arnulfo Romero, arcebispo da capital.

Oscar Romero nasceu na cidade Barrios, de uma família mestiça, e havia amadurecido a vocação presbiteral depois de ter sido carpinteiro na vila onde havia crescido. Terminou seus estudos em Roma, durante a segunda guerra mundial. Voltou à sua pátria, onde recebeu responsabilidades cada vez maiores na Igreja salvadorenha.

Quando morreu o arcebispo Luis Cháver y Gozalez, grande defensor dos pobres e oprimidos, a arquidiocese de San Salvador estava dividida. Romero foi nomeado como sucessor de Cháver y Gozalez, motivo de grande satisfação dos setores conservadores da sociedade, que o consideravam homem de uma espiritualidade inócua e desencarnada.

Mas no contexto da dramática situação política e social do seu país, Dom Romero começou a denunciar corajosamente as injustiças e violências padecidas pelos agricultores e demais pobres de El Salvador, confrontando a realidade quotidiana com o Evangelho e suas exigências.

Promotor do diálogo e da reconciliação na Igreja e no país, sua popularidade cresceu muito nos três anos de pastoreio frente à arquidiocese. Mas, ao mesmo tempo, atraiu a hostilidade dos poderosos e inclusive de parte da hierarquia católica do seu país.

Fiel ao seu lema episcopal (‘sentir com a Igreja’), Romero se empenhou até o dom da própria vida para promover uma profunda conversão do corpo eclesial, único caminho que pode habilitar a Igreja a denunciar as injustiças do mundo.

Eis alguns trechos das suas homilias: "Peço ao Senhor, durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tanto crime, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento. Eu denuncio, sobretudo, a absolutização da riqueza. Este é o grande mal de El Salvador: a riqueza, a propriedade privada como um absoluto intocável. E ai daquele que toque nessa cerca de alta tensão! Se queima! Vivemos em uma falsa ordem baseada na repressão e no medo. Roubar tornou-se comum. E aquele que não rouba é chamado de tonto. Brinca-se com o povo; brinca-se com as votações; brinca-se com a dignidade das pessoas. Estamos em um mundo de mentiras, onde ninguém acredita em nada".

(Comunità de Bose, Il libro dei testimoni, San Paolo, Milano, 2002, p. 165-166)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Fatos & Personagens: Efraín Ríos Montt


Efraín Ríos Montt
Por que massacramos os índios

No dia 23 de março de 1982 o general Efraín Ríos Montt derrubou outro general, através de rasteira certeira, e se proclamou presidente da Guatemala.

Um ano e meio depois, o presidente, pastor da Igreja do Verbo, com sede na Califórnia, se atribuiu a vitória na guerra-santa que exterminou quatrocentas e quarenta comunidades indígenas.

De acordo com o que ele disse, essa façanha não teria sido possível sem a ajuda do Espírito Santo, que dirigia seus serviços de inteligência.

Outro importante colaborador, seu assessor espiritual Francisco Bianchi, explicou a um correspondente do The New York Times: “A guerrilha tem muitos colaboradores entre os índios. Esses índios são subversivos, não é mesmo? E como acabar com a subversão? É evidente que é preciso matar esses índios. Depois vão dizer por aí que estamos massacrando inocentes. Mas não são inocentes.”

(Eduardo Galeano, Os Filhos dos Dias, L&PM, 2012, p. 103)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Fatos & Personagens: Dia da água


Dia da água

De água somos. Da água brotou a vida. Os rios são o sangue que nutre a terra, e são feitas de água as células que nos pensam, as lágrimas que nos choram e a memória que nos recorda.

A memória nos conta que os desertos de hoje foram os bosques de ontem, e que o mundo seco foi o mundo molhado, naqueles remotos tempos em que a água e a terra eram de ninguém e eram de todos.

Quem ficou com a água? O macaco que tinha o garrote. O macaco desarmado morreu de uma garrotada. Se não me engano, assim começava o filme 2001, uma odisséia no espaço.

Algum tempo depois, no ano de 2009, uma nave espacial descobriu que há água na lua. A notícia apressou os planos de conquista. Pobre lua!...

(Eduardo Galeano, Os Filhos dos Dias, L&PM, 2012, p. 102)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Domingo de Ramos


Jesus nos dá vida, da sua vida, a própria vida!
(Is 50,4-7; Sl 21/22; Fil 2,6-11; Lc 19,28-40; Lc 22,14-23,56)
Depois de 40 dias de preparação, eis que se abrem as portas para nós de uma semana que vale uma vida. Com ramos e flores, faixas e bandeiras, cânticos e palavras de ordem, reunimo-nos nas ruas e templos para aclamar nosso líder manso e humilde. “Bendito aquele que vem em nome do Senhor!” Só alguém infinitamente grande é capaz de fazer-se tão pequeno e próximo. Na celebração que abre a Semana-Santa somos convidados/as acompanhar Jesus no seu caminho de fidelidade, de oferta generosa da sua vida e bebendo o cálice num só golpe e realizando plenamente a vontade do Pai. Deus se recusa a dar uma esmola à humanidade: ele se dà a si mesmo e, no seu jovem corpo e sangue, assina uma parceria com prazo indeterminado. Como ensinou seu discípulo Dom Oscar Romero (+24.03.1980), para que todos tenhamos vida, ele nos dá da sua vida e, finalmente, sua própria vida.
“Aparecendo como qualquer homem...”
Para entender o relato da entrada de Jesus em Jerusalém temos que abandonar todas as fantasias de poder e de sucesso. Ele não tem nada de triunfal. Jesus vem da Galiléia e entra na capital do seu país, economicamente e politicamente dominado por Roma, montado num jumento. Nada de cortejos de honra nem de generais e cavalos vistosos e gestos de cortesia a grandes senhores. Como diz o hino de Paulo, Jesus chega a Jerusalém como sempre foi: um servidor, um simples homem esvaziado de interesses egoístas e radicalmente obediente às necessidades dos outros.
Depois de uma longa caminhada o jovem profeta galilei chega à capital do seu país, caminhando à frente de um numeroso, entusiasmado e, às vezes, desconcertado grupo de discípulos e discípulas. O povo do campo o aclama como filho e herdeiro de Davi. “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor!” Era um coro de pessoas que, como o velho Simeão, sabiam reconhecer naquele indignado e revolucionário Aquele que vem em nome de Deus e atualiza sua ação libertadora. Mas isso contrasta com a fria acolhida por parte do povo de Jerusalém e com o medo indisferçável dos próprios discípulos.
O grupo que acolhe e acompanha Jesus na entrada nada triunfal em Jerusalém saúda o despontar do reino messiânico inspirado em Davi e a chegada do líder enviado por Deus. Ele, porém, não realiza as ações impressionantes que muitos esperavam. Chegando perto da capital amada e cantada em prosa e verso, Jesus a contempla de longe e chora, lamentando o fechamento à profecia e o apego às leis e demais instituições. Ele é o servo paciente e o ouvinte atento da Palavra do qual fala Isaías. E é dessa escuta que brota uma palavra que desperta os adormecidos e encoraja os acorrentados pelo medo.
“Orei por ti, para que tua fé não desfaleça...”
Mais uma vez, frente ao caminho seguido por Jesus Cristo, não é possível alimentar os mitos de sucesso fácil e irresponsável que costumamos projetar nele. Não nos deixemos impresionar pela acolhida que ele teve ao entrar em Jerusalém. O evangelista sublinha a escolha da montaria! A entrada de Jesus montado num jumento é uma poderosa sátira aos libertadores militares, conhecidos no passado, temidos no presente ou esperados para o futuro. Dizendo que o Senhor precisa do jumento, o Evangelho lembra que Jesus precisa de cada um de nós para cumprir sua missão.
Ademais, o entusiasmo suscitado naquele pequeno grupo de gente que vinha do interior não durará muito tempo. Os gritos de ‘hosana’ – Deus salva agora! – logo serão substituídos pelo insolente  ‘crucifica-o’, fruto da frustração do povo e da manipulação interesseira das autoridades. O grupo mais exaltado dos discípulos solta a voz e o proclama o Messias esperado, mas Jesus faz questão de demonstrar seu messianismo pobre e manso e entra montado muito a gosto num jumento. Nesta condição, parece até aceitar a aclamação, tanto que reage diante daqueles que queriam calar a boca dos discípulos. “Se eles se calarem, as pedras gritarão!”
“Levantai-vos e orai, para não cairdes em tentação.”
A divisão entre os próprios discípulos e a possibilidade concreta de traição não fazem Jesus mudar de plano. É verdade que ele se sente abatido e chega a se perguntar sobre o rumo a seguir. No momento crucial, depois da festa de acolhida e da ceia de despedida, enfrenta um discernimento difícil. Pede aos discípulos que fiquem com ele e vigiem. “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice... ” Esta experiência crucial fica como um alerta para os discípulos e discípulas que sonham com sucesso e facilidades.
A oração é para Jesus um exercício de confronto profundo com a vontade do Pai, com a missão escrita em caracteres confusos e exigentes. Para os/as discípulos/as de todos os tempos a oração continua sendo um espaço para discernir com retidão e coerência os caminhos que levam à vida em abundância. Muitas vezes temos a impressão de que é mais cômodo deixar a oração de lado e seguir o róseo caminho do menor esforço, do “cada um para si e Deus para todos”. “Vigiem e rezem para não caírem em tentação.” E quais são as tentações que nos rondam no tempo que se chama hoje?
Pilatos cinicamente escolhe o caminho mais fácil de lavar as mãos, de fazer a vontade da maioria e assim receber o apoio popular que faltava ao seu poder despótico. É o fácil caminho da indiferença diante da dor dos outros, da rápida incriminação dos lutadores, da alegre bajulação dos poderosos de plantão, da arrogante pretensão de ser o único artífice do próprio bem-estar. Ele não se dá ao tempo e ao trabalho de analisar a vida do jovem que é acusado diante dele. É preciso vigiar para não cair em tentação...
“Realmente! Este homem era um justo.”
Aquele que o povo simples havia saudado na entrada da cidade como quem vinha e agia em nome de Deus permanece fiel e acaba preso, abandonado pelos próprios discípulos, condenado e pregado na cruz. Como sabemos, a cruz era considerado um lugar absolutamente vazio da presença Deus, a negação mais absoluta da realeza ou de qualquer forma de liderança, sinônimo de horror, de fracasso, de culpa, de impotência, de abandono. O último degrau de uma longa escada de negação e exclusão. “Salva-te a si mesmo se, de fato, é o Cristo de Deus, o Eleito”, provocavam muitos, entendendo que a divindade se mostra no poder, no cuidar de si mesmo, no salvar a própria pele.
Tanto para os judeus como para os romanos, a crucifixão representava a completa negação do ser humano, o redundante fracasso da peretensão de liderança, a absoluta ausência de Deus, a mais radical falta de sentido. O próprio Jesus parece mergulhar neste escuro turbilhão. “Já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu toda a terra, pois o sol parou de brilhar.” Mmas acaba vislumbrando a suprema consolação na radicalização do dom de si mesmo: “O véu do Santuário rasgou-se pelo meio, e Jesus deu um forte grito: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.”
É da boca de um soldado pagão vem a palavra que faz brilhar uma pequena luz na escuridão que fazia em plena tarde. “De fato, esse homem era mesmo o Filho de Deus.” O que viu aquele soldado pagão que os outros não viram? Viu o mesmo que Simeão reconhecera 30 anos antes: que Deus se revela na pequenez e na fidelidade daqueles que morrem defendendo a vida. Naquele homem esvaziado, anulado e descartado, mas, ao mesmo tempo, absolutamente fiel ao seu amor pelos últimos e senhor de si mesmo, o soldado viu a exaltação da humanidade e o brilho da glória de Deus, diante da qual todo corpo se inclina e todo poder despótico treme.
“Anunciarei teu nome aos meus irmãos...”
Aclamemos com jovial alegria e convincente esperança o mestre e profeta Jesus de Nazaré. Acompanhemos de perto seus passos, acolhamos seus gestos, escutemos suas palavras. Superemos a tentação de segui-lo de longe e evitar maiores riscos, como fizeram Pedro e os outros. Não esqueçamos que tantos discípulos e discípulas pelos séculos a fora permaneceram com ele, comungaram seu destino e se tornaram semente. Entre estes está o nosso querido  e incompreendido Dom Oscar Romero, cujo martírio recordamos exatamente neste domingo e cuja santidade o povo já reconheceu.
Jesus de Nazaré, filho e herdeiro de Davi, messias jovem, servidor e humilde: diante de ti dobrampos os joelhos e estendemos nossas vestes e ramos. Te oferecemos nosso corpo para que entres hoje em nossas praças e cidades, para anunciar com timbre de sino a dignidade daqueles/as que não a têm reconhecida e assegurada. Não deixes que a aclamação que te damos na liturgia seja negada na pela nossa concreta. Ensina-nos de novo a sagrada lição da Ceia e da Paixão: que não existe maior prova de amor que doar a vida por quem amamos. E dai-nos a graça da vigilância e da perseverança. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

terça-feira, 19 de março de 2013

Fatos & Personagens: A invasão do Iraque


O mundo que poderia ter sido

No dia 20 de março de 2003 os aviões do Iraque bombardearam os Estados Unidos. Atrás das bombas, as tropas iraquianas invadiram o território norte-americano.

Houve numerosos danos colaterais. Muitos civis norte-americanos, em sua maioria mulheres e crianças, perderam a vida ou foram muitilados. Desconhece-se a cifra exata, porque a tradição manda contar as vítimas das tropas invasoras e proíbe contar as vítimas da população invadida.

A guerra foi inevitável. A segurança do Iraque, e da humanidade inteira, estava ameaçada pelas armas de destruição massiva acumuladas nos arsenais dos Estados Unidos.

Nenhum fundamento tinham, porém, os rumores insidiosos que atribuíam ao Iraque a intenção de ficar com o petróleo do Alasca.

(Eduardo Galeano, Os Filhos dos Dias, L&PM, 2012, p. 100)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Festa de S. José, esposo de Maria


José, o amado esposo de Maria

Certamente José conhecia Maria e se havia encontrado muitas vezes com ela nas poucas ruas de Nazaré, na praça ou no mercado público, à beira dos poços, à sombra das figueiras. Podemos imaginar que a atração de um pelo outro se desenvolveu ao longo tempo. Ele, um homem justo, e ela, uma jovem cheia de graça. Dois jovens envolvidos por um mistério de profundidade sobre o qual pouco sabiam. Sentiam a mesma presença, o mesmo profundo desejo, o mesmo apelo, a mesma força.

Como o seu homônimo do Egito, podemos imaginar que “José tinha um belo porte e era bonito de rosto” (Gn 39,6). Aquela que era cheia de graça certamente não escolheria um namorado desprovido de beleza. O apreço dos amigos e a admiração dos aprendizes reconheciam a doçura e a humildade que conferiam a José uma discreta grandeza, uma secreta mejestade. Deus deu um jeito de aproximá-lo de Maria. E quando um olhou o outro, o rosto de ambos brilhou, como se fossem duas faces de um mesmo ostensório.

Com o casamento já previsto, José se empenhou em cortar e aplainar madeira e montar móveis,  coisa que sabia e gostava de fazer. E Maria subiu apressadamente a montanha para ajudar sua prima Isabel nos últimos dias de uma misteriosa gravidez. Ambos, de diferentes modos, realizavam discretamente a vontade de Deus. E pouco a pouco pressentiram e descobriram, não sem espanto, que Deus havia decidido fazer-se humana carne, e para isso precisava do empenho de Maria e da colaboração de José.

Mas essa descoberta ameaçava desmantelar o amor que se fazia aliança conjugal entre José e Maria. O menino que nasceria fora do amor carnal parece separá-los, pois prescinde de José. Maria sabe, e seu amado acabará sabendo também, que José não seria seu pai. Diante disso, que sentido teria a união matrimonial que estava para se realizar? Depois de esvaziada por Deus, esta relação não seria, cedo ou tarde, criticada e refutada pelos homens? Como José poderia compreender isso, e o que poderia fazer? Como ajustaria sua alma a algo que parecia um absurdo?

Maria havia dito ao mensageiro de Deus que seu estado era absolutamente incompatível com o chamado a ser mãe do filho de Deus (cf. Lc 1,34). Ela era prometida em casamento e o esperava. Na anunciação, o nome do seu marido aparece antes que o seu, como que sublinhando esta sua condição. Na imaginação de Maria, o modo normal pelo qual o anúncio se realizaria seria a plena conjugalidade com José. “Como acontecerá isso, já que eu não convivo com um homem?” (Lc 1,34). O anjo começa reconhecendo respeitosamente a legitimidade da objeção de Maria, mas lhe propõe outro caminho, misteriosamente expresso como ‘poder do Altíssimo’. Estas palavras, que para nós são muito confusas, deram a Maria uma grande serenidade. Mas isso não tira ao anúncio seu caráter paradoxal e espantoso.

Uma concepção virginal era e é algo espantoso, uma realidade diante da qual não podemos passar ao largo e cuja compreensão podemos dar por descontada. E devemos começar recordando que a virgindade consagrada era desconhecida entre as mulheres e  muito rara entre os homens judeus. E isso não por falta de amor e de fé, mas exatamente por causa da adesão pessoal à vontade de Deus. Considerar a virgindade consagrada de Maria como sinal e fruto da sua união imaculada com Deus é uma leitura estranha tanto a Maria como aos evangelistas. Ela diz que Deus fez grandes coisas nela ao torná-la mãe, e não por conservá-la virgem! Deus pediu e concedeu a ela a virgindade e não a fecundidade!

E como fica José em tudo isso? O nascimento do Messias não pode ter prescindido da sua união conjugal com Maria; antes, participiou profundamente dela. A encarnação do Filho de Deus tem uma clara dimensão conjugal! O casamento entre Maria e José não foi um simulacro! Como consequência do matrimônio, Maria pertencia inteiramente a José, e José pertencia plenamente a Maria. E, em coerência com o pensamento e a ação de Deus assim como era vista no judaísmo, devemos levar a sério que José desejava ardentemente um matrimônio fecundo. E isso de fato aconteceu, mas através de uma espécie de esvaziamento e despojamento da sua paternidade (como Abraão em relação a Isaque!).

O dom que Maria ofereceu a Deus não é propriamente seu corpo virgem, mas o corpo de José, que lhe pertencia por direito matrimonial. O corpo de Maria não pertencia a si mesma mas a José, de modo que ela não poderia oferecer a Deus aquilo que não era seu. E a recompensa ou bênção que ela recebe de Deus é pela oferta do corpo de José! O milagre é que o filho que foi gerado nesta oferenda será herdeiro das promessas feitas a Davi, e seu pai legítimo será José, descendente de Davi e esposo de Maria. José é aquele que, por sua conjugalidade com Maria, garante a ligação de Jesus com as promessas messiânicas.

A pergunta que Maria dirige ao anjo sobre ‘como acontecerá isso?’ não está relacionada a si mesma e à sua condição virginal, mas relacionada a José, à sua natural e legítima participação na sua fecundidade. Ou melhor: Maria não interroga ao anjo sobre o conteúdo do mistério anunciado (sobre aquele que vai nascer, que será o Messias, ou sobre seu pai, que será José) mas sobre o específico comportamento conjugal que Deus espera de José: como ele deverá cooperar neste projeto, mantendo-se, ao mesmo tempo, fiel às promessas matrimoniais?

E é exatamente a esta questão que o anjo responde. É somente mediante o abandono ao ‘poder do Altíssimo’ que esta gravidez acontecerá. E é para ilustrar isso que o anjo acena à fecundidade conhecida por Isabel e Zacarias: o mesmo poder do Altíssimo operou, de forma ainda incompleta e imperfeita mas não menos precursora, neste casal prefigurativo. É diante desta referência que Maria acolhe o convite: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). E será ainda no ventre de sua mãe que o precursor confirmará a Maria a verdade do anúncio, o que a fará exultar de alegria no Senhor.

Itacir Brassiani msf
(Tradução resumida do livro Joseph, le géant du silence, de François Bourguignon. Edit. Parole et Silence, Paris, 2011, p. 29-48)