quarta-feira, 23 de abril de 2025

Sem medo e sem acomodação

Por quê ainda duvidamos e continuamos com medo? | 692 | 24.04.2025 | Lucas 24,35-48

Esta cena ocorre depois do testemunho das mulheres e da comprovação, por parte de Pedro, que a sepultura estava vazia; depois da manifestação de Jesus aos dois discípulos na estrada e depois da partilha do pão; e, finalmente, após a aparição do ressuscitado a Pedro. Apesar disso, a presença de Jesus os espanta, e eles têm dificuldade de acreditar.

A ressurreição de Jesus não é uma espécie de prêmio que o Pai dá ao Filho obediente e generoso. O que a Igreja afirma com a ressurreição de Jesus é algo bem mais sério que a simples volta de um cadáver à vida. O ressuscitado por Deus não é alguém que morreu com idade avançada, rodeado de familiares e amigos, mas aquele que resgatou a dignidade dos excluídos e foi condenado por um conluio de autoridades.

Diante do espanto e da perturbação dos discípulos com a sua presença inesperada, Jesus mostra as chagas nas mãos e nos pés, e pede que eles as toquem. Com isso, sublinha a continuidade do amor que o levou a abraçar a cruz, a continuidade entre o profeta de Nazaré e o ressuscitado. As feridas nas mãos e nos pés são o sinal eloquente de que Jesus é fiel, e se tornou nosso advogado de defesa.

A ressurreição de Jesus não é fruto da imaginação dos discípulos. Nela Deus confirma a validade e a justeza da causa que atraiu a ira e a morte. E, na sua manifestação aos discípulos, Jesus lhes abre a inteligência para que eles compreendam as escrituras. Jesus não faz uma longa e completa catequese bíblica, mas esclarece a imagem de Messias: seu caminho se desvia do poder e da impassibilidade, passa pela aceitação do sofrimento.

Em seu nome, somos convocados anunciar a conversão e ao perdão dos pecados, sem excluir ninguém. Não é possível adentrar no sentido da ressurreição de Jesus e nossa se não nos movemos num horizonte de esperança, se não aceitamos a possibilidade de uma transformação profunda de todas as coisas, uma mudança radical e integral, que já está em curso, e que só será concreta se começar por nós.

 

Sugestões para meditar

§ Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto este episódio situado depois manifestação de Jesus no caminho

§ Quais são as razões e as consequências da não aceitação da cruz e da ressurreição como núcleo essencial da vida e missão de Jesus?

§ Qual é a perspectiva da nossa leitura das escrituras: buscamos milagres e sinais do poder, ou de compaixão e misericórdia?

§ Como podemos testemunhar hoje que Jesus ressuscitou, que sua vida foi validada por Deus, e seu sonho de vida continua vivo?

terça-feira, 22 de abril de 2025

No caminho de Emaús

Que o nosso coração arda enquanto caminhamos | 691 | 23.04.2025 | Lucas 24,13-35

Os evangelhos não escondem as dificuldades e a lentidão com que os discípulos vão fazendo a experiência da ressurreição de Jesus Cristo e assumindo-a como caminho de vida. O episódio de hoje é paradigmático: os discípulos estão desolados, e caminham como cegos; para eles, o fracasso de Jesus fora completo e arrasador; eles não conseguem conciliar a esperança suscitada por Jesus com ele pregado na cruz.

Mas o próprio Jesus se aproxima deles, discretamente, e toma a iniciativa na conversa. Começa perguntando pelo assunto sobre o qual falam e pelo motivo da tristeza estampada no rosto. Com sabedoria de mestre, Jesus conduz os discípulos ao coração da própria dor e ao aspecto central dos acontecimentos. E faz isso caminhando, voltando ao passado, ao secreto e misterioso lugar onde dormiam as esperanças deles.

Caminhando e dialogando com os discípulos, Jesus provoca neles a abertura a um Deus despojado. E sua catequese paciente acaba abrindo algumas pequenas brechas na terra seca dos pensamentos e sentimentos deles. Então, eles percebem que é tarde, e que um caminho sem esperanças não leva a lugar nenhum. E convidam o inesperado companheiro a desfrutar da hospitalidade e a dividir com eles o pão seco da dor.

A sede de companhia, somada ao desejo de partilhar o pouco que lhes resta, acaba abrindo-lhes portas e acendendo luzes. Acolhendo o forasteiro na própria casa e partilhando com ele a vida e o pão, os discípulos passam da cegueira à visão, da frustração à alegria, da escuridão à luz. E isso ocorre no mesmo momento em que Jesus escapa aos olhos deles. Quando a luz da fé começa a brilhar, algumas experiências sensíveis são dispensáveis.

A hospitalidade e a partilha abre aos discípulos a possibilidade de uma releitura daquilo que viveram, à compreensão daquilo que sentem e à descoberta do significado do que acontecera. Só então eles dão atenção ao que ocorreu na estrada: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho?” Que o Evangelho de Jesus aqueça nosso coração!

 

Sugestões para meditar

§ Preste atenção nas palavras de envio de Maria aos discípulos. Com que palavra Jesus se refere àqueles que o abandonaram?

§ Como entender a aparente cegueira e falta de discernimento de Maria, incapaz de reconhecer Jesus que está vivo e lhe fala?

§ O que faz com que tantos cristãos não vivam a fé na ressurreição de Jesus como imperativo para continuar sua missão libertadora?

§ O testemunho que damos com nossa vida é ajuda ou empecilho para que as pessoas de hoje acreditem na ressurreição de Jesus?

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Ele está no meio de nós!

Anunciemos e testemunhemos aos irmãos que Jesus vive | 690 | 22.04.2025 | João 20,11-18

Junto à sepultura de Jesus, Maria Madalena chora sua desesperança, sua pena e sua desorientação. Para ela, a única coisa certa e palpável é a morte de Jesus. Está disposta a levá-lo consigo, mesmo morto. Vê anjos que a interrogam sobre a dor. Não pronuncia ao Jardineiro o nome de Jesus, e o chama de Senhor. Não reconhece Jesus pela voz, nem pela aparência. A tumba vazia é insuficiente para sustentar a fé na ressurreição de Jesus.

As vestes brancas e a pergunta dos anjos insinuam que não há motivo para o luto. Mas é somente quando Jesus chama Madalena pelo nome, quando ela se volta a ele e deixa de olhar para a tumba ou para o passado que seus olhos se abrem. É a voz do Pastor que caminha à frente e é reconhecido pelas ovelhas, a voz que chama pelo nome a acolhe cada pessoa, nas suas dores e nos seus sonhos. Madalena se descobre esposa da nova aliança.

Esta experiência de Maria de Magdala ainda não é a meta, mas apenas o começo da missão, do testemunho aos irmãos, à comunidade dos iguais instituída na ceia e no lava-pés. Depois de tê-lo desejado, buscado, conhecido, seguido e amado em vida, ela precisa se inclinar para dentro de si mesma, para a profundidade do próprio desejo, para reconhecê-lo e amá-lo sem retê-lo. Sem isso, seus olhos continuariam fechados à novidade.

É no movimento de voltar-nos para nossa interioridade mais profunda, de superar um certo realismo, que não passa de cinismo desmobilizador, que identificamos os sinais de vida e encontramos Jesus ressuscitado chamando-nos pelo nome. Crer em Jesus crucificado e ressuscitado é mais que constatar que a sepultura está vazia. Significa encontrá-lo, reconhece-lo, escutá-lo e segui-lo de modo pessoal e renovado na missão.

Que o Espírito Santo abra nossos olhos e nos ajude a ver a presença escondida, solidária e transformadora de Jesus neste mundo tão contraditório. E possamos reconhecer, com os olhos da fé, que ele está em comunhão conosco, com o amado Papa Francisco e todos os que partiram, com todos os sofredores e vítimas, dialogando, chamando e enviando.

 

Sugestões para meditar

§ Preste atenção nas palavras de envio de Maria aos discípulos. Com que palavra Jesus se refere àqueles que o abandonaram?

§ Como entender a aparente cegueira e falta de discernimento de Maria, incapaz de reconhecer Jesus que está vivo e lhe fala?

§ O que faz com que tantos cristãos não vivam a fé na ressurreição de Jesus como imperativo para continuar sua missão libertadora?

§ O testemunho que damos com nossa vida é ajuda ou empecilho para que as pessoas de hoje acreditem na ressurreição de Jesus?

O Papa que renunciou

Tu me encherás de alegria na tua presença

Esta declaração confiante que lemos na manhã desta segunda-feira brota dos lábios de Pedro na manhã de pentecostes. Pedro coloca estas palavras do Salmo 16 (15) na boca de Jesus, como se fosse o sentimento de Jesus frente à sua paixão e morte. “Meu coração se alegra e minhas entranhas exultam, e minha carne repousa em segurança. Porque não me abandonas no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura. Tu me ensinarás o caminho da vida, cheio de alegria em tua presença” (v. 9-11).

No início de hoje, quando escutávamos Jesus ressuscitado pedindo que não tenhamos medo e anunciemos com alegria que Ele vive e nos espera nos caminhos periféricos da Galileia, ficamos sabendo que o nosso querido Papa Francisco havia feito sua Páscoa definitiva quando no Brasil ainda era madrugada. Depois de expressar ainda ontem seus votos de uma páscoa feliz, seu corpo e seu espírito repousaram tranquilos, porque aquele que o olhou com misericórdia e o chamou, não deixaria seu corpo entregue à morte.

A notícia não nos surpreende, pois Francisco já completara 88 anos, e, embora fosse vitalício no ministério petrino, não era imortal, como nenhum ser humano o é. A notícia também não nos entristece, porque uma vida tão honrada, tão bela, tão corajosa, tão sinodalmente cristã não deve deixar tristeza, mas gratidão. A notícia nos estimula a viver confiando-nos uns aos outros, sonhando e construindo uma Igreja em saída, sinodal e samaritana, com as marcas do Irmão e Peregrino, Crucificado e Ressuscitado.

Tenho ainda viva na lembrança aquela tarde fria chuvosa de março de 2013, quando a tradicional fumaça branca anunciava que a assembleia dos cardeais havia escolhido o Bispo de Roma, aquele que presidiria a Igreja na Caridade. Tremi de receio quando anunciaram o nome de Jorge Mário Bergólio, mas chorei de alegria quando deram a conhecer o nome que ele escolhera. Ninguém ousaria ostentar o nome de Francisco, o profeta revolucionário pela força da pobreza, sem assumir a sua preciosa herança.

E, desde então, foram treze anos de comoventes e sucessivas surpresas de Deus. A liberdade, a alegria e a ousadia profética, todas recheadas de gestos profundos e eloquentes que só podem nascer de uma existência radicalmente livre, marcaram e provocaram a Igreja. Seus pronunciamentos corajosos e as atitudes com as quais demonstrou que, diante da opressão, do sofrimento e das injustiças o Papa “tem lado” causaram calafrios em alguns cristãos e cidadãos, mas esperança em muitos outros.

É possível que sua páscoa traga um alívio pouco evangélico a quem desejou que o Papa renunciasse e torceu morbidamente pela sua morte. E eu digo que, de fato, Francisco renunciou! Renunciou à ostentação mundana, ao cômodo isolamento palaciano, ao farisaico distanciamento da vida concreta, à cínica indiferença frente aos dramas humanos e sociais, à estéril pureza das mãos que fogem ao serviço solidário, ao encastelamento em doutrinas abstratas e genéricas... Mas o Papa não renunciou a um ministério vazado no Evangelho de Jesus, a uma vida honradamente humana, capaz de mergulhar na vulnerabilidade e exercitar a solidariedade e a acolhida.

Peçamos ao Senhor que este breve tempo que se abre entre a páscoa do Papa e a escolha do novo sucessor de Pedro seja um tempo de discernimento, um conclave orante e confiante. Mas que seja também um tempo sem chaves nem muros, sem competições e sem medo de escutar o que o Espírito à Igreja, em vista de escolher um homem que, acolhendo a herança de Francisco e dos últimos papas, nos mantenha criativamente fiéis ao Evangelho da alegria e do serviço.

+ Itacir Brassiani msf

Bispo de Santa Cruz do Sul

domingo, 20 de abril de 2025

Encontrá-lo na Galileia

Alegrem-se, não tenham medo, e procurem-me na Galileia! | 689 | 21.04.2025 | Mateus 28,8-15

Crer na ressurreição de Cristo é mais uma tarefa que um ato de submissão ou concessão intelectual. Crer é caminhar, e crer em Jesus crucificado e ressuscitado significa percorrer com ele os caminhos do Reino de Deus, tornando-se semente que não teme desfazer-se no ventre da terra, em gestos e sinais sempre frágeis mais infinitamente potentes e eloquentes.

Maria Madalena e “as outras marias” não viram um anjo rolando a pedra que lacrava a sepultura de Jesus, em meio a um terremoto que derrubou os guardas, mas souberem que a sepultura não reteve Jesus e que ele ia à frente delas para a Galileia.  Mas já antes de iniciarem a volta para o lugar começaram a seguir Jesus, ele se manifesta e confere a elas um mandato: “Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão”.

Em clara oposição a esta alvissareira notícia e percurso do centro à periferia, os guardas vão à chefia do templo. E lá selam a mentira que acompanhou o processo movido contra Jesus: a elite subornou os guardas para que divulgassem a falsa notícia de que Jesus continuava morto, mas seu corpo havia sido roubado pelos discípulos. Mas a memória viva de Jesus havia “tomado corpo” no testemunho corajoso dos discípulos.

Aquelas duas mulheres madrugadoras haviam intuído os dois pilares fundamentais da fé em Jesus Cristo: ele não faz parte do clube dos mortos, eliminados e anulados pelos poderosos; ele se deixa encontrar nas periferias e nas fronteiras, onde a dominação assume mil formas e os sinais do Reino de Deus avançam de forma discreta e irreversível.

Os discípulos e discípulas de Jesus não se deixam intimidar nem derrotar pela execução patrocinada pelos poderes estabelecidos, enquanto estes tremem, mentem e subornam para não aceitar a reviravolta. Contra tudo e contra todos, estas mulheres, sustentadas pelos sutis fios da esperança, confiam plenamente naquilo que ouvem, e se tornam peregrinas e alegres testemunhas, reúnem os discípulos e “refundam” a Igreja dispersa.

 

Para meditar

§ Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena protagonizada pelas discípulas

§ Por que elas, os fios mais frágeis do tecido social e eclesial, são as primeiras a saber, a ver e a anunciar a ressurreição?

§ Terá o corpo masculino da Igreja caído sob a influência dos “podres poderes”, esquecido a força criadora e desconfiado delas?

§ Como podemos resgatar hoje o papel essencial das mulheres no testemunho da ressurreição e na reconstrução da Igreja?

§ O que significa hoje afirmar que Jesus “vai à nossa frente” e poderemos vê-lo na Galileia, onde iniciara sua missão?

sábado, 19 de abril de 2025

Eles viram e acreditaram

O amor é mais forte que a morte, e jamais será estéril! | 688 | 20.04.2025 | João 20,1-9

A cena da paixão e morte de Jesus que meditamos ontem terminou laconicamente: ele morre abandonado pelos discípulos, e acompanhado somente por dois outros executados com ele; José de Arimatéia, numa ação ambígua, compra um lençol, enrola nele e corpo sem vida de Jesus, deposita-o num túmulo e fecha o túmulo com uma grande pedra, como que dizendo que tudo estava terminado.

Na cena de hoje, Maria Madalena faz algo diferente de José de Arimatéia: sai de casa de madrugada e vai ao túmulo, movida pela inconformidade com o destino imposto pelos dirigentes do judaísmo a Jesus de Nazaré, com a conivência criminosa de Pilatos. Caminhando com essa dor, acaba dando-se conta de que a pedra fora rolada e que a sepultura estava aberta. Assustada com o fato inesperado, dá meia-volta e vai correndo ao encontro de Pedro e de João, dizendo que alguém havia tirado Jesus do túmulo.

Eles dão crédito ao anúncio de Madalena. Também eles partem correndo em direção à sepultura, mas não chegam juntos. João olha para dentro daquela que deveria ser a “última morada” de Jesus e vê os panos da mortalha no chão, mas não entra. Pedro chega depois, entra na sepultura e vê o pano que cobrira o rosto de Jesus cuidadosamente dobrado. Os sinais apontam para algo inusitado, e não para uma fuga ou um roubo do corpo.

Mais tarde, João também entrou na sepultura, “viu e acreditou”. Viu o quê, e a creditou em que? Viu o vazio da sepultura, a impotência das autoridades que se impõem pela força e pela violência, a invencibilidade das causas mais nobres e mobilizadoras. E acreditou na Palavra de Jesus, acreditou que o amor é mais forte que as águas impetuosas, não pode ser limitado ou derrotado pela morte, não pode ser comprado ou vendido, mas oferecido incondicionalmente (cf. Ct 8,6-7).

A cena termina com uma nota no mínimo estranha: “Então, os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Como assim? Acreditaram na ressurreição e seguiram como se nada relevante tivesse acontecido? É a mesma Maria Madalena, aquela que fora ao encontro dos discípulos desolados, que permanece teimosamente próximo ao sepulcro. Ela suspeita que um amor tão generoso e uma dor tão pungente não podem terminar assim.

 

Para meditar

§ Observe a teimosa inconformidade de Maria Madalena, suas buscas, suas intuições, mas também sua dependência do passado

§ Observe com atenção os movimentos, gestos e atitudes de João e de Pedro, e procure entender o que eles dizem

§ Que forças e atitudes a ressurreição de Jesus desperta em você hoje?

Este velho mundo passará

AS CICATRIZES DO RESSUSCITADO

«Vós o matastes, mas Deus o ressuscitou». Isto é o que os discípulos de Jesus pregam com fé nas ruas de Jerusalém alguns dias após a sua execução. Para eles, a ressurreição é a resposta de Deus à ação injusta e criminosa daqueles que quiseram silenciar para sempre a sua voz e anular de raiz o seu projeto de um mundo mais justo.

Não devemos esquecer isso. No coração da nossa fé está um Crucificado a quem Deus deu razão. No centro mesmo da Igreja há uma vítima a quem Deus fez justiça. Uma vida «crucificada», mas vivida com o espírito de Jesus, não terminará em fracasso, mas em ressurreição.

Isso muda totalmente o significado de nossos esforços, penas, trabalhos e sofrimentos por um mundo mais humano e uma vida mais feliz para todos. Viver pensando nos que sofrem, estar perto dos mais desamparados, dar uma mão aos indefesos, seguir os passos de Jesus, não é uma coisa absurda ou uma opção sem sentido. É caminhar para o Mistério de um Deus, que ressuscitará para sempre as nossas vidas.

Os pequenos abusos que podemos sofrer, as injustiças, rejeições ou incompreensões que podemos experimentar, são feridas que um dia curarão para sempre. Devemos aprender a olhar com mais fé para as cicatrizes do Ressuscitado. Assim serão um dia as nossas feridas de hoje: cicatrizes curadas por Deus para sempre.

Esta fé sustenta-nos por dentro e torna-nos mais fortes para continuarmos a correr riscos. Pouco a pouco devemos aprender a não nos queixarmos tanto, a não viver sempre lamentando-nos do mal que existe no mundo e na Igreja, a não nos sentirmos sempre vítimas dos outros. Por que não podemos viver como Jesus, dizendo: «Ninguém me tira a vida, mas sou eu que a dou»?

Seguir o Crucificado até partilhar com Ele a ressurreição é, em suma, aprender a dar a vida, o tempo, a força e, talvez, a nossa saúde por amor. Não nos faltarão feridas, cansaços e fadigas. Mas, em meio a tudo isso, uma esperança nos sustenta: um dia, «Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos, e não haverá já morte, nem choro, nem gritos, nem fadigas, porque todo este mundo velho terá passado».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Páscoa, a reviravolta de Deus

Páscoa: a pedra rejeitada se tornou a pedra principal!

No Brasil, o primeiro trimestre do ano civil é marcado pelo Carnaval, um evento reconhecido no Brasil e no mundo pela sua relevância cultural, pelo seu apelo popular e, não menos, pelos seus frutos econômicos. Nele convergem as mentes e as mãos criativas de artistas e o protagonismo de sujeitos sociais que sofrem desprezo e marginalização durante a maior parte do ano. A beleza e grandiosidade dessa festa esconde meses de empenho disciplinado e generoso de gente que não encontra espaço na avenida.

Tal como o Carnaval brasileiro, a festa da Páscoa marca o calendário da fé cristã, e tem tal força que demarca um antes e um depois. Os dias esplendorosos e eloquentes do Tríduo Pascal reverberam em tons e cores diversas e complementares durante cinquenta dias (tempo pascal). Mas também são preparados diligentemente durante cinco semanas (tempo quaresmal), inauguradas com um contundente apelo à conversão e adesão ao Evangelho (quarta-feira de cinzas) e concluídas com o anúncio de que o tempo da graça e de boas notícias para os pobres chegou, e é agora (missa dos santos óleos).

O que faz da Páscoa um evento que mereça tão exigente preparação e tão estendida celebração? Qual é o tesouro precioso que ela esconde e entrega? Qual é a relação entre a Páscoa de Jesus e a doce-amarga vida de pessoas e povos que vivem no século XXI, confinados por medos e guerras que se imaginavam extintas, limitados por barreiras tarifárias nada recíprocas, separados por uma crescente e criminosa desigualdade social? Há algo mais a ser lembrado que uma história com trágico desfecho (condenação e execução de Jesus de Nazaré)? Há frutos mais saborosos e universais que lucros que se superam a cada ano (comércio de chocolates e outras mercadorias sazonais)?

A apoteose da Páscoa cristã não começa na avenida, mas no ambiente cálido de um espaço de encontro fraterno. Durante uma ceia de despedida e, por isso, carregada de caráter testamentário e vinculante, depois de repartir pão e vinho como expressão de plena e incondicional doação de si mesmo, Jesus se reveste de escravo e lava os pés dos seus amigos e discípulos mais próximos e fiéis. Com isso, Jesus escreve em caracteres vivos, que não há maior amor que dar a vida pelos amigos, e adverte quem se coloca acima dos outros, pois se acham superiores a Deus, pois Ele se inclina para lavar nossos pés.

Esta lição magistral coroa sua extensa e variada prática de acolher e reestabelecer a dignidade de pecadores mal vistos, de curar e emancipar doentes de todas as espécies, de premiar os últimos da sociedade com os lugares de honra, de atender prioritariamente às necessidades dos estrangeiros e não cidadãos, de denunciar a falsidade hipócrita dos separatistas e supremacistas fariseus, de desmascarar a violência e a rapina escondida por detrás da placidez da pax romana imposta pelo Império. E mostra-se tão revolucionária que pareceu inaceitável. Assim, no corpo de Jesus suspenso na cruz depois de ser torturado, foram pregadas todas as Utopias que mobilizam os humanos e os põem a caminho, e algemados e amordaçados todos aqueles que por elas vivem.

Mas – eis a alvissareira e provocativa surpresa que Deus nos brinda! – “a pedra rejeitada pelos construtores” se tornou a principal viga da construção de uma Nova ordem social, semente geradora de uma Nova postura religiosa, espírito criador de uma Nova humanidade, luz que revela o rosto e o coração de um Deus absolutamente diferente, essencialmente Santo (cf. Sl 118,22; Mt 21,42; At 4,11;1Pd 2,6). Um Deus Santo porque não se separa da humanidade, mas “desce aos infernos” para, na força da encarnação e da paixão, estender a mão e levar para fora e para cima os seres humanos criados à sua imagem e todas as suas amadas criaturas.

Por isso, como canta Elis Regina, mesmo que a esperança da qual somos peregrinos seja como uma equilibrista circense que dança na corda bamba amparada apenas pela fragilidade de uma sombrinha, nenhuma humana “dor assim pungente será inutilmente”. É Deus mesmo quem no-lo diz e confirma no mistério pascal Jesus de Nazaré! E uma Promessa assim potente, mobilizadora e revolucionária merece ser preparada e celebrada nas casas, nas avenidas, nas praças e nos templos, com a criatividade e fantasia próprias do amor.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Não é apenas a sepultura vazia

Não confinemos Jesus ao passado, pois ele vive entre nós! | 687 | 18.04.2025 | Lucas 24,1-12

O vazio da sepultura não é prova da ressurreição, mas ajuda a perceber que as marcas dos pregos e o corpo torturado não são a última palavra de Deus sobre a história. Na tumba vazia, anjos e mulheres estão anunciando que o caos do lixo pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que os crucificados caminham à nossa frente.

Aquelas mulheres madrugadoras estão a nos dizer que, para entender o mistério da vida e da morte, precisamos retomar a Palavra de Jesus, o dinamismo da sua compaixão. Como discípulos seus, não podemos insistir em buscar entre os mortos aquele que está vivo, em enclausurar no passado aquele que é presente e futuro. A admiração diante do túmulo vazio é apenas o começo, e não pode ser um convite a ‘voltar para casa’.

A ressurreição se multiplica no testemunho e nas iniciativas de discípulos e discípulas, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos. Como na ressurreição de Jesus, os sinais pequenos e desprezíveis passam a ser reais e promissores. O batismo, recordado e celebrado comunitariamente na vigília pascal, expressa este dinamismo na vida de cada um de nós e da comunidade eclesial. Morreu o velho homem, nasceu uma nova criatura!

Já vivemos o bastante para saber que esta passagem não é nem automática, nem evidente. Trata-se de um projeto de vida que, para ser realizado, exige disciplina e empenho. A luta não é apenas contra inimigos externos, mas pede vigilância sobre a permanente tentação de estar acima dos outros. Mas esta não é uma luta inglória, pois Jesus Cristo, nosso irmão maior, já venceu a batalha, removeu as pedras e derramou sobre nós seu Espírito.

Jesus é como uma pedra que os construtores jogaram na caçamba de entulhos e que Deus recuperou e transformou em pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais descartados como desnecessários ou eliminados como incômodos, e que cuidemos dos sutis fios da vida.

 

Meditação:

§ O que significa que, diante da sepultura vazia, as mulheres ficaram sem saber o que fazer? Por que elas sentiram medo?

§ Para você e para nós, comunidade de discípulos, Jesus continua entre os mortos, é um personagem do passado?

§ Como testemunhamos hoje a ressurreição de Jesus, de forma que nossa geração possa crer e aderir a Jesus e seu Evangelho?

§ Quais são os anúncios e esperanças que costumamos classificar como absurdos e sem sentido nos dias de hoje?

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Eis o Homem!

Eis o Homem: liberto, fraterno, sonhador e despojado | 686 | 18.04.2025 | João 18,1-19,42

Conhecemos bem as tramas que levaram à prisão e condenação de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério da iniquidade e sua força nas pessoas e estruturas sociais, políticas e religiosas. É um processo que assume feições de cinismo, como quando as autoridades, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio para não se tornarem impuras.

Jesus não faz nada para se defender. Ele tem consciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas. Fixemos o olhar neste personagem que realiza em grau pleno a vocação de todo ser humano. Nele descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida, quando se faz solidário com todos os humanos.

O ser humano maduro e liberto não é o ‘amigo de César’, nem a autoridade religiosa indiferente ao sofrimento das pessoas, mas Aquele que transcende os interesses individuais e se põe a serviço de Deus e do seu projeto. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que, no seu corpo feito dom, a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado”. Nele Deus se supera no esvaziamento e o ser humano se faz semente fecunda nas mãos de Deus.

Em Jesus crucificado por amor buscamos forças para peregrinar na esperança e seguir Cristo servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Ali nasce uma nova família, cuidadora e servidora de todos os humanos seres, para além dos vínculos de sangue.

É por isso que nesta santa sexta-feira a nossa oração se abre numa universalidade que deveria estar presente em toda celebração autenticamente cristã. Diante de Jesus crucificado, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido e virarão ruínas. Pertencemos à humanidade, e temos um destino comum que compartilhamos com todas as criaturas.

 

Meditação:

§ Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, o caminho da cruz percorrido por Jesus

§ Não ceda à tentação de ficar refém da compaixão por Jesus ou na revolta contra seus acusadores e torturadores

§ Observe as dificuldades dos discípulos em reconhecer Jesus e permanecer com ele, especialmente Pedro e Judas

§ Siga com atenção a atitude do Discípulo Amado e de um pequeno grupo de discípulas, que permanecem fielmente próximos de Jesus

§ Procure visualizar em Jesus o rosto de todas as pessoas que sofrem, que são excluídas