quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Jornada Mundial pela Paz

No presépio, Deus oferece uma paz desarmante

946 | 1º de janeiro de 2026 | Lucas 2,16-21

Na celebração de hoje se entrelaçam três eventos: o começo do ano civil; a festa da maternidade de Maria; a Jornada Mundial pela Paz. Nascendo de Maria, o Filho de Deus se igualou a nós, resgatou-nos do domínio dos poderes e instituições, e nos presenteou com liberdade. O Espírito Santo nos deu a possibilidade de clamar a Deus em nossas aflições e de nos relacionarmos com ele como filhos e filhos.

Contemplemos a chegada dos pastores ao estábulo de Belém. Eles ficam impressionados com o que veem, e comparam com aquilo que tinham ouvido. Eles compreendem o mistério de um Deus a quem não apraz o poder, a grandeza, os cortejos de acólitos. Deus se alegra com a solidariedade de quem se faz próximo dos deslocados. Eles louvam, glorificando a Deus, por tudo o que veem e ouvem.

Acolhido por nós e no meio de nós, Jesus de Nazaré pacifica o mundo criando relações novas, baseadas na justiça e na fraternidade. Ele cumpre a promessa de Deus Pai e realiza a esperança da humanidade através dos homens e mulheres de boa vontade, daqueles que não se resignam à paz aparente. Ele dirige nossos passos no caminho da paz, graças ao seu coração misericordioso.

Na sua mensagem para o dia de hoje, o Papa Leão XIV pede: Abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, não a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam”.

A lógica de oposição que marca nosso tempo “é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível”. Os apelos para aumentar as despesas militares “são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia”. Essa mentalidade estimula uma relação baseada no medo e no domínio da força, e não no direito e na confiança.

“A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta. Os cristãos devem tornar-se testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices”. Sendo misericordiosos, encontraremos ao nosso lado “irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, “’souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram do engano da violência”.

 

Sugestões para a meditação

Observe os pastores, e aprenda com eles a reconhecer e louvar a Deus pelos sinais da sua presença

O que poderíamos fazer para promover e enraizar a paz em nossa convivência na primeira semana do ano 2026?

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Terminando mais um ano

A glória de Deus se manifesta no homem vivente

945 | 31 de dezembro de 2025 | João 1,1-18

Os conceitos que aparecem neste trecho do evangelho de João são vários: Palavra, Vida, Graça e Glória. No contexto original, não são palavras abstratas, têm conteúdo claro. E eles podem iluminar a experiência de travessia ou passagem que vivemos no último dia do ano. Jesus, o filho de Maria e de José, é Palavra no sentido de exteriorização da interioridade de Deus. A Palavra de Deus assume a carne humana como lugar no qual podemos encontrar, tocar e acolher o próprio mistério de Deus.

Jesus, que nasceu em Belém, viveu como carpinteiro em Nazaré, profetizou na Galileia dos gentios e foi morto pelo poder do templo é portador da Vida plena, do “bem viver” que todos os povos buscam sem descanso. Nele, a vida é revelada e doada como comunhão profunda com o mistério de Deus, comunhão solidária com todas os pobres e vítimas, e comunhão graciosa com todas as criaturas, comunhão generosa entre as gerações e povos.

Na pessoa de Jesus de Nazaré, vemos também a Graça de Deus. Deus não é um cobrador de dívidas, um policial ou um juiz, mas um irmão e hóspede no qual se mostram de modo inequívoco a gratuidade e a solidariedade. A lei e a cobrança vêm das velhas instituições, mas a Graça e a Verdade nós as recebemos por Jesus Cristo. Ele é a gratuidade de Deus em pessoa! Gratuidade gera gratuidade, e é isso que nos salva de uma vida medíocre, controlada, calculada. E é esse dinamismo que pode construir, tijolo a tijolo, um ano Novo.

A palavra Glória significa “peso”, importância, valor interior de uma pessoa, e isso se revela nas suas ações. Por isso, manifestar a glória de Deus não significa soltar fogos, cantá-lo em alto e bom tom ou louvá-lo juntando as mãos, mas testemunhar sua ação libertadora, prosseguir sua ação humanizadora, reconhecer sua santidade nos acontecimentos históricos.  As metáforas da luz e da glória são usadas para ilustrar o esplendor e a vitória final de Deus. 

A glória de Deus se manifesta de modo insuperável em Jesus crucificado, na sua radical fidelidade à humanidade. Na humanidade de Jesus feita dom aos pequenos vemos a glória de Deus. Ele não recebe essa glória ou peso por milagre ou presente dos céus, mas a cultiva na compaixão. Os discípulos de Jesus são glorificados na medida em que participam do dinamismo do seu amor ou paixão pelo mundo. Façamos valer esta verdade, e então teremos um ano novo, pois a glória de Deus é o ser humano vivo e liberto.

 

Sugestões para a meditação

§  Releia o texto lentamente, sublinhando e detendo-se nas imagens que João utiliza para falar de Jesus, nascido em Belém

§  Procure intuir como aquela cena da estrabaria, em meio a ovelhas e pastores, transparece nessas palavras usadas por João

§  Que palavras mais atuais e próximas de nossa experiência poderíamos buscar para apresentar Jesus às pessoas de hoje?

§  Detenha-se no versículo 14 (“A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós”) e o contemple na cena do presépio

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O testemunho de Ana

O olhar puro vê Deus presente nos pequeno sinais

944 | 30 de dezembro de 2025 | Lucas 2,36-40

O texto do evangelho de hoje á parte de um relato natalino mais amplo. Ontem meditamos o texto que antecede o trecho de hoje, e vimos como Jesus, nascido num ambiente familiar e educado nas tradições religiosas e culturais do seu povo, não fica refém desses círculos, nem mesmo do povo de Israel. Simeão proclama solenemente que ele é luz benfazeja de Deus para todas as nações. Inicialmente, José e Maria não conseguem entender isto, mas o farão lentamente. E é assim também para todos os discípulos e discípulas do Reino.

Hoje, é-nos oferecida à meditação a bela cena do encontro da Família de Nazaré (ainda no templo, onde fora apresentar Jesus e inseri-lo no povo de Deus) com uma mulher idosa e profetiza chamada Ana. Ela é uma viúva e piedosa, dedicada a Deus e à conservação e anúncio das suas promessas. O testemunho de Ana completa e confirma o testemunho do velho Simeão: ela proclama que Jesus representa a redenção do povo de Deus. Não é uma conclusão lógica diante de um menino, mas uma visão profética suscitada pelo Espírito.

Ana é a única profetiza nomeada como tal no Novo Testamento. No Antigo Testamento aparecem apenas duas profetizas: Hulda e uma profetiza anônima, apresentada como a mulher de Isaías. Notemos também que, nas tradições do povo de Israel, a vida longa de uma pessoa era considerada sinal de maturidade e de sabedoria. E Ana havia alcançado 84 anos de vida, a maioria deles dedicados à oração e ao jejum, expressões típicas da piedade sincera e exemplar. Portanto, Ana é um personagem importante e referencial para os primeiros cristãos.

Em Ana aparece o perfil da viúva cristã. Sua comunhão com Deus desenvolve a sensibilidade e o discernimento que a fazem capaz de identificar a realização das mais nobres promessas de Deus naquele bebê frágil, filho de um casal de galileus, olhados com suspeita pelos judeus que viviam em Jerusalém e falavam em nome do templo. Sua convicção e sua fé a movem a louvar a Deus pelo cumprimento de suas promessas de um modo tão inesperado.

Simeão e Ana, cada um a seu modo e com palavras diversas, nos convidam a ver um novo sentido por trás dos ritos tradicionais e uma força inaudita nas criaturas mais frágeis. A pertença a Israel e ao templo, assim como a adesão fiel aos seus ritos, não asseguram a presença salvadora de Deus. Em Jesus, a salvação de Deus chega a todos os povos e passa pela concretude dos gestos de amor e compaixão e pela vida frágil e sofredora. Com ele, precisamos “descer a Nazaré” e crescer em todos os sentidos. O templo, com suas leis e ritos, não é espaço propício de crescimento...

 

Sugestões para a meditação

§   Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens, nos gestos, nas atitudes e nas palavras deles

§   Perceba nas palavras e atitudes de Ana sinais da vida e da missão do Jesus adulto e dos cristãos

§   Com que palavras, atitudes e sentimentos falamos do nosso encontro com Jesus aos homens e mulheres de hoje?


Encerramento do Ano Jubilar

Felizes os que trilham os caminhos do Senhor!

 

Estamos reunidos como família diocesana para celebrar o encerramento do Jubileu da Esperança. E, por vontade e decisão do Papa Francisco, o fazemos no tempo natalino, concretamente, na festa da Sagrada Família de Nazaré.

 

Nas trilhas do Senhor

Meditando o salmo da liturgia de hoje (Sl 127) proclamamos: “Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos!”

Nos últimos 365 dias retomamos, de diversos modos, o chamado a ser peregrinos de esperança. Trilhar os caminhos do Senhor significa viver guiados pela fé.

Como família e como comunidade de discípulos procuramos resgatar a serena força chamada Esperança. É um horizonte que não engana, porque está segura em Jesus Cristo, aquele que assumiu nossa condição humana.

Ninguém disse que trilhar os caminhos do Senhor ou ser peregrinos de esperança fosse coisa fácil. José e Maria que o digam! O evangelho de hoje nos mostra que, para assegurar a integridade do filho, esse casal teve que arrumar seus pertences em meio à noite e sair em fuga.

A família de Nazaré precisou discernir os caminhos do Senhor em meio a ameaças e incertezas, e decidiu inserir Jesus no ambiente simples e inquieto da Galileia.

 

Revistam-se de Cristo

A esperança que guia São Paulo se baseia na certeza de que somos amados por Deus, de que somos santos e escolhidos por ele. Com base nessa experiência, ele nos exorta: “Revistam-se de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência. Acima de tudo, amem-se uns aos outros, porque o amor é o vínculo da perfeição”.

Essa é a roupa que revestiu Jesus a partir do momento em que armou sua tenda entre nós. E é também a roupa especial com a qual fomos chamados a viver o Ano Jubilar, e que usaremos todos os dias para que 2026 seja um Ano Novo. E o amor é como a costura ou o acabamento que faz com que essas vestes sejam perfeitas e belas.

 

Revistam-se de paciência!

Permitam que eu me detenha nessa veste rara chamada paciência. Esta palavra deriva de pati, que significa sofrer, suportar, aguentar.

Paciência é uma palavra que indica a capacidade de suportar adversidades, dores ou demoras com calma e firmeza. Dizendo de outra forma, paciência significa resistência, indulgência e perseverança. 

Estimadas irmãs e irmãos! Quem não percebe que a paciência é hoje um artigo muito raro numa cultura dominada pela pressa e pela velocidade?

Por mais que a procuremos nos shoppings e no comércio eletrônico, não a paciência não está disponível. E não é porque a procura foi grande. Haja paciência!

Os apressados que me desculpem, mas exercitar a paciência é fundamental: paciência com Deus; paciência conosco mesmos; paciência com os outros.

 

Fé, Esperança e Caridade

A paciência com Deus significa substancialmente esperar nele, confiar nele, viver pela fé. E o que é a fé senão suportar adversidades e esperar a hora de Deus sem perder a calma e a firmeza?

Olhemos para a família de Nazaré! Quanta busca no claro-escuro da fé! Quanta paciência com o lento crescimento de Jesus! Quanta abertura diante do caminho que Jesus escolheu e do seu corpo pregado na cruz!

Em relação a nós mesmos, a paciência assume as feições da esperança. Peregrinar na esperança significa perseverar no profundo desejo de ser bom, amável, indulgente, solidário. Significa não se escandalizar com os próprios limites e fracassos, recomeçar a cada dia de novo.

Na relação com os outros, a paciência se chama amor. Paulo nos diz que hoje que “o amor é o vínculo” ou a costura que faz com que as vestes dos cristãos sejam adequadas e perfeitas no caimento, na harmonia, nas medidas.

“O amor é paciente e prestativo; não é invejoso, não se vangloria, não se incha de orgulho. Não falta com o respeito, não é interesseiro, não se irrita, não planeja o mal. Não se alegra com a injustiça, se alegra com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...” (1Cor 1,4-7).

 

Peregrinos de Esperança

O Ano Jubilar a consciência de que somos peregrinos. Estar a caminho não é sinal de fraqueza ou de fracasso, mas de perseverança e de fidelidade.

Estamos a caminho, mas não estamos sem orientação. Estamos a caminho porque não estamos parados. Estamos a caminho porque buscamos a melhor versão de nós mesmos e da nossa sociedade.

Olhemos de novo para a família de Nazaré. Jesus, Maria e José peregrinam para sobreviver, mas também para que Jesus possa crescer em idade, sabedoria e graça.

É peregrinando na fé que José e Maria reconhecem e protegem aquele em quem amarramos nossa esperança. Eles não têm nada da chamada família tradicional...

Além de renovar nossa condição de peregrinos de esperança, o Ano Jubilar também nos desafiou a semear sinais de esperança, mesmo que pequenos.

Como fiéis e como comunidades, estabelecemos laços e abrimos espaço para os jovens, os idosos, os doentes, os pobres, os encarcerados, os migrantes.

Estes sinais devem continuar e se multiplicar, pois a indulgência de Deus conosco é perceptível quando nos torna indulgentes. E indulgência significa bondade, complacência com as fraquezas dos outros.

 

A família cristã

Por fim, uma palavra sobre a família. O Concílio Vaticano II nos ensina que a família é a escola na qual aprendemos a ser humanos, e, por isso, é o fundamento da sociedade. O vínculo que une a família não é o sangue, mas a comunhão em Cristo.

Tanto a família de Jesus como a nossa é uma realidade preciosa e complexa, um ninho de alegrias e de provações, de cuidados e de feridas, uma peregrinação com avanços e recuos. Enfim, uma escola de humanidade e de paciência.

Com Jesus, Deus assume a família humana como ela. Mas Jesus nos ensina que a família ultrapassa os vínculos de sangue e de afeto.

“Quem fizer a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35). A família cristã não levanta muros, mas abre portas.

 

O Deus da Esperança

O Deus da Esperança, que nos enche de paz e alegria em nossa fé pela ação do Espírito Santo armou sua tenda entre nós e se fez peregrino conosco: eis o mistério do Natal!

Felizes os que temem o Senhor e trilham os seus caminhos!

Felizes os que vivem a fé como paciência com as demoras e abertura às surpresas de Deus!

Felizes os vivem a esperança como paciência consigo mesmos e com seu próprio caminho de amadurecimento!

Felizes os que vivem o amor como paciência, bondade, indulgência e solidariedade com os outros!

Felizes os que perseveram como peregrinos de esperança, que lançam sementes de novos céus e nova terra!

+Itacir Brassiani msf

Bispo de Santa Cruz do Sul

domingo, 28 de dezembro de 2025

O testemunho de Simeão e Ana

Jesus é a glória do humano e a luz das nações

943 | 29 de dezembro de 2025 | Lucas 2,22-35

O momento alto desta cena não é, como muita gente enfatiza, o exemplo de cumprimento estrito das leis por Maria e José, mas o encontro da família de Nazaré, à margem dos dirigentes do templo, com Simeão e Ana, e aquilo que eles anunciam a todas as pessoas que encontram por perto. Na cena “pintada” por Lucas, tudo chama a atenção para o significado da vida do filho que Maria e José apresentam ao povo e ao templo.

Simeão toma o Menino nos braços e, com seu olhar penetrante, é capaz de discernir a presença de Deus na fragilidade humana. Segundo Simeão, a presença de Deus no filho de José e Maria traz consigo uma salvação que desborda as fronteiras étnicas e religiosas, e se destina a todos os povos e a todas as categorias humanas. Jesus é luz que ilumina todos os povos. Ana também fala do Menino a todas as pessoas que viviam de esperança. Como os pastores representam a acolhida de Jesus pelos excluídos, Simeão e Ana expressam a acolhida do filho de Deus pelo resto piedoso e fiel.

No templo, Maria e José guardam um silêncio profundo e atento, e observam a alegria consoladora de quem esperou longamente pela visita do “Sol Nascente”. Poucas coisas estão claras para eles, porém cresce a percepção de que o filho que lhes foi confiado é especial para todos os povos. Essa consciência não chega a gerar entusiasmo, pois logo é ofuscada pelas palavras misteriosas que Simeão diz sobre o menino e dirige a Maria. Jesus vai incomodar, pois veio para desmascarar o colocar pedras no caminho dos exploradores.

José e Maria percebem, pouco a pouco, que precisam avançar e crescer no escuro da fé. Como Abraão, eles se lançam na estrada sem saber onde chegarão. Ousam acreditar, e isso lhes é creditado como justiça. Tomam consciência de que no chamado ao qual respondem estão inseridos sofrimentos. Mesmo assim, abrem-se, pouco a pouco, à novidade que Deus manifestava através do nascimento daquele inesperado filho. Eis o caminho dos discípulos missionários.

O breve cântico de Simeão é uma síntese do credo dos primeiros cristãos: Jesus é Boa Notícia e caminho de libertação para todos os povos; ele é também o paradigma da missionariedade da Igreja, permanentemente chamada sair do estreito âmbito dos seus interesses e da cultura predominante para ser presença consoladora e libertadora para todas as pessoas e povos. Ela recebe uma luz que não pode possuir e deve fazer brilhar para todos os povos

 

Sugestões para a meditação

§  Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens, nos gestos, nas atitudes e nas palavras deles

§  Procure perceber como, nas palavras de Simeão e de Ana, transparece a vida e a missão do Jesus adulto e dos cristãos

§  Você percebe nas Igrejas e pessoas sinais da tentação de fazer de Jesus um “personagem” exclusivo da sua Igreja ou seu grupo?

§  Com que palavras e atitudes precisamos hoje apresentar Jesus às pessoas? Em que medida nossa adesão a ele é consequente?

sábado, 27 de dezembro de 2025

Festa da Família de Jesus

A família de Nazaré peregrina num mundo desigual

942 | 28 de dezembro de 2025 | Mateus 2,13-23

No evangelho escalado para iluminar a festa de hoje, encontramos uma família às voltas com ameaças, perseguições, deslocamento e discernimento. Depois do encontro com os pastores e da visita surpreendente e agradável dos magos, a realidade tensa do dia reaparece nos sonhos noturnos de José. O filho que Deus lhe confiou e Maria lhe deu corre perigo, e, mesmo no escuro incerto da noite, ele se levanta, acorda Maria e parte para um país no qual não era cidadão e que trazia memórias nada alentadoras.

As coisas não estão claras, e José precisa discernir o caminho da vida fixando a atenção nos acontecimentos, sem perder o horizonte da fé. É apenas esta que lhe atesta que Deus não é indiferente à sorte dos seus amados. Nos sonhos povoados por anjos e nas vozes que neles ressoam, ecoam os sonhos humanos de um homem apaixonado e crente: ele sonha com o melhor para o filho que Deus lhe deu e para amada companheira que ele colocou no seu caminho. Por isso, a seu modo, José se faz peregrino de esperança.

O Egito que acolhe esta família deslocada pelo fraco e violento Rei Herodes não se torna pátria. Em espírito e memória, a Sagrada Família faz a experiência de ser estrangeira e exilada, de ser chamada a peregrinar sem cansar e lutar sem desistir pela liberdade e pela vida. “Levanta-te, pega o menino e a mãe, e caminha” é a voz que ressoa constantemente e leva José adiante. E ele não pestaneja diante de cada novo aviso, por mais obscuro que seja.

Quando José percebe, iluminado pela fé, que é tempo de voltar, mostra-se lúcido, prudente e fiel: escolhe dirigir-se com Maria e Jesus a Nazaré e assumir como domicílio aquele território periférico e como seu aquele povo inquieto. Para a Sagrada Família, morar em Nazaré significou assimilar a esperança cultivada pelo “resto de Israel”, pelo “broto das raízes de Jessé”. E essa esperança messiânica não passava por Jerusalém e seus falsos pastores.

Para a Sagrada Família, morar em Nazaré significou manter-se ligada às raízes populares da esperança vinculada os pobres, assumir de modo resoluto o caminho que leva à periferia, àqueles que estão longe. E pediu que privilegiassem a encarnação no cotidiano que tece a vida normal de todas as pessoas. Jesus afunda raízes e absorve a seiva das esperanças do seu povo a partir da periferia social e religiosa. Eis aqui uma perspectiva que os missionários jamais devem abandonar!

 

Sugestões para a meditação

·     Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens, nos gestos, nas atitudes e nas palavras deles

·     Procure perceber como são as relações entre José, Maria, Jesus e o difícil contexto que partilham com as demais famílias judias

·     Quem importância e que lugar nossas comunidades asseguram para a acolhida e o acompanhamento das famílias de migrantes?

·     Em que precisamos fixar nossa atenção para discernir os caminhos de Deus, como o fez José, mediante os sonhos? 

Famílias a caminho

SEGUIR JESUS COMO FAMÍLIA

Será possível tomar juntos a decisão de seguir Jesus em família? Não é fácil. É uma decisão que precisa ser preparada e amadurecida com calma, respeitando todos, pois trata-se de uma escolha pessoal de cada um. São os pais crentes os primeiros responsáveis por criar um ambiente apropriado.

Desde o início deve ficar claro que seguir Jesus não é copiar um modelo reproduzindo os traços de um Mestre do passado de forma passiva, infantil e sem criatividade alguma. É uma aventura muito mais apaixonante. Os evangelhos nunca falam de imitar Jesus, mas de segui-lo. Jesus não é um espelho, mas um caminho.

Jesus ressuscitado está vivo no meio de nós, no centro da família. Mais ainda, o seu Espírito está dentro de cada um de nós, sustentando, encorajando e inspirando as nossas vidas. Devemos escutar o seu chamado para segui-lo hoje de forma criativa, confiando sempre na sua força.

«Seguir Jesus» é uma metáfora tirada do costume que ele tinha de caminhar alguns passos à frente dos seus discípulos. Por isso nos lembra que o seguimento de Jesus exige «dar passos»: tomar uma primeira decisão, pôr-se a caminho, deixar-se guiar pelo Evangelho, levantar-se quando se cai, voltar a orientar-se quando nos perdemos...

Para impulsionar o seguimento de Jesus com realismo, creio que devemos recuperar a leitura do evangelho em família, primeiro entre os pais, depois, se possível, com os filhos.

Os evangelhos não são livros didáticos que expõem doutrina sobre Jesus. Não são catecismos. A primeira coisa que se aprende nos evangelhos é o estilo de vida de Jesus: a sua maneira de estar no mundo, a sua forma de tornar a vida mais humana, o seu modo de pensar, de sentir, de amar, de sofrer.

Os evangelhos foram escritos para suscitar novos discípulos e seguidores. São relatos que convidam à mudança, a seguir de perto Jesus, a identificar-se com a sua causa, a colaborar com ele abrindo caminhos para o reino de Deus. Por isso devem ser lidos, meditados e partilhados escutando o seu chamado a entrar num processo de mudança e conversão.

Não pensemos em algo muito complicado. Trata-se de ler os relatos com muita calma, detendo-nos na pessoa de Jesus; prestando atenção ao que ele diz e faz. Depois, todos juntos, podemos ajudar-nos a fazer algumas perguntas: que verdade nos ensina ou nos recorda Jesus com a sua atuação? A que nos chama? Como nos anima e encoraja com as suas palavras?

Uma família começa a seguir verdadeiramente Jesus quando começa a introduzir em casa a verdade do Evangelho. Não devemos ter medo de dar nome às coisas. Devemos atrever-nos a discernir o que há de verdade evangélica e o que há de antievangélico nos costumes da família, na convivência, nos gestos, na maneira de viver. Não para culpar uns aos outros, mas para nos animarmos a viver ao estilo de Jesus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Evangelista João

Os sinais acendem a fé que brilha no testemunho

941 | 27 de dezembro de 2025 | João 20,2-8

Segundo o evangelista João, o primeiro indício da ressurreição de Jesus ocorre na visita de Maria Madalena à sepultura. Vendo a pedra afastada, Maria vai avisar os discípulos. O amigo de Jesus, que identificamos com o apóstolo e evangelista João, é o primeiro a chegar. Vê a sepultura vazia e as vestes, mas não entra. Pedro chega depois, entra na sepultura e vê o sudário dobrado, em separado, “à parte”. Hoje, dada a celebração da festa do Apóstolo João, o texto sublinha o papel de João nesta cena da manhã da ressurreição.

A tumba vazia não é o fundamento da fé na ressurreição, mas é seu primeiro sinal. Parece que João conhecia a liturgia do templo, e, por isso resiste a entrar na sepultura. Para ele, os panos “enrolados” e colocados no “lugar” à parte são a Lei de Moisés, e a Palavra que se fez carne em Jesus de Nazaré substitui o Templo. Mas a tumba vazia é um indicativo insuficiente para sustentar a fé na ressurreição de Jesus. Na verdade, a base desta “cláusula pétrea” de nossa fé é a experiência pessoal que discípulo faz do encontro com Jesus ressuscitado.

Mais tarde, Madalena veremos Maria Madalena chorando diante da sepultura e “se inclinando” para olhar. Verá anjos que a interrogam sobre sua dor, e só reconhecerá Jesus quando ele a chama pelo nome. Depois de tê-lo desejado, buscado, conhecido e amado em vida, Maria precisará se inclinar para dentro de si mesma, na profundidade do seu desejo, para reconhecê-lo e amá-lo sem retê-lo. É ao voltar-nos para nossa interioridade que encontraremos o ressuscitado que nos ama, chama e envia.

O texto que descreve a cena de hoje termina com reticências, como que nos convocando a entrar na história como protagonistas, e a darmos um final adequado àquela manhã misteriosa. João, discípulo, apóstolo e escritor, cuja festa hoje celebramos, viu e acreditou. Inicialmente, voltou para casa. Mas, depois, nos deixou seu testemunho inscrito na vida e registrado no quarto evangelho. Aquilo que ele viu, experimentou e toucou, isso ele testemunhou.

E nós, acreditaremos e viveremos em nome de Jesus e do seu Evangelho? Estaremos dispostos a ser sementes que, caindo na terra e morrendo, não ficam só, e se multiplicam incrivelmente? É isso que queremos e decidimos? Daremos essa boa notícia a toda a humanidade? Será que entendemos e seremos capazes de testemunhar o mistério do Natal, dinamismo de proximidade, de pobreza e de concretude de um amor divino e sem limites?

 

Sugestões para a meditação

§  Observe a teimosa inconformidade de Maria Madalena, suas buscas, suas intuições, mas também sua dependência do passado

§  Esta cena deixa o desfecho em aberto, como que nos convidando a assumir o protagonismo e dar-lhe um final adequado

§  Acreditaremos num fato ocorrido apenas no passado, ou daremos crédito à vida e à proposta de Jesus, fazendo-a nossa?

§  O que o testemunho de João sobre a ressurreição de Jesus significa para as famílias envolvidas nas guerras e doenças, ou enlutadas pelas mortes?