Felizes
os que trilham os caminhos do Senhor!
Estamos
reunidos como família diocesana para celebrar o encerramento do Jubileu da
Esperança. E, por vontade e decisão do Papa Francisco, o fazemos no tempo
natalino, concretamente, na festa da Sagrada Família de Nazaré.
Nas trilhas do Senhor
Meditando o salmo da
liturgia de hoje (Sl 127) proclamamos: “Felizes os que temem o Senhor e trilham
seus caminhos!”
Nos últimos 365 dias retomamos,
de diversos modos, o chamado a ser peregrinos de esperança. Trilhar os caminhos
do Senhor significa viver guiados pela fé.
Como família e como
comunidade de discípulos procuramos resgatar a serena força chamada Esperança. É
um horizonte que não engana, porque está segura em Jesus Cristo, aquele que
assumiu nossa condição humana.
Ninguém disse que trilhar
os caminhos do Senhor ou ser peregrinos de esperança fosse coisa fácil. José e
Maria que o digam! O evangelho de hoje nos mostra que, para assegurar a
integridade do filho, esse casal teve que arrumar seus pertences em meio à
noite e sair em fuga.
A
família de Nazaré precisou discernir os caminhos do Senhor em meio a ameaças e
incertezas, e decidiu inserir Jesus no ambiente simples e inquieto da Galileia.
Revistam-se de Cristo
A esperança que guia São
Paulo se baseia na certeza de que somos amados por Deus, de que somos santos e
escolhidos por ele. Com base nessa experiência, ele nos exorta: “Revistam-se de
misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência. Acima de tudo, amem-se
uns aos outros, porque o amor é o vínculo da perfeição”.
Essa
é a roupa que revestiu Jesus a partir do momento em que armou sua tenda entre
nós. E é também a roupa especial com a qual fomos chamados a viver o Ano
Jubilar, e que usaremos todos os dias para que 2026 seja um Ano Novo. E o amor
é como a costura ou o acabamento que faz com que essas vestes sejam perfeitas e
belas.
Revistam-se de paciência!
Permitam que eu me detenha
nessa veste rara chamada paciência. Esta palavra deriva de pati, que significa sofrer, suportar, aguentar.
Paciência é uma palavra que
indica a capacidade de suportar adversidades, dores ou demoras com calma e firmeza.
Dizendo de outra forma, paciência significa resistência, indulgência e
perseverança.
Estimadas irmãs e irmãos! Quem não percebe que a paciência é hoje
um artigo muito raro numa cultura dominada pela pressa e pela velocidade?
Por mais que a procuremos nos shoppings e no comércio
eletrônico, não a paciência não está disponível. E não é porque a procura foi
grande. Haja paciência!
Os
apressados que me desculpem, mas exercitar a paciência é fundamental: paciência
com Deus; paciência conosco mesmos; paciência com os outros.
Fé, Esperança e Caridade
A paciência com Deus
significa substancialmente esperar nele, confiar nele, viver pela fé. E o que é
a fé senão suportar adversidades e esperar a hora de Deus sem perder a calma e a firmeza?
Olhemos para a família de Nazaré! Quanta busca no claro-escuro
da fé! Quanta paciência com o lento crescimento de Jesus! Quanta abertura
diante do caminho que Jesus escolheu e do seu corpo pregado na cruz!
Em relação a nós mesmos, a paciência assume as feições da
esperança. Peregrinar na esperança significa perseverar no profundo desejo de
ser bom, amável, indulgente, solidário. Significa não se escandalizar com os próprios
limites e fracassos, recomeçar a cada dia de novo.
Na relação com os outros, a paciência se chama amor. Paulo nos
diz que hoje que “o amor é o vínculo” ou a costura que faz com que as vestes
dos cristãos sejam adequadas e perfeitas no caimento, na harmonia, nas medidas.
“O amor é paciente e prestativo; não
é invejoso, não se vangloria, não se incha de orgulho. Não falta com o
respeito, não é interesseiro, não se irrita, não planeja o mal. Não se alegra
com a injustiça, se alegra com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta...” (1Cor 1,4-7).
Peregrinos de Esperança
O Ano Jubilar a consciência
de que somos peregrinos. Estar a caminho não é sinal de fraqueza ou de
fracasso, mas de perseverança e de fidelidade.
Estamos a caminho, mas não
estamos sem orientação. Estamos a caminho porque não estamos parados. Estamos a
caminho porque buscamos a melhor versão de nós mesmos e da nossa sociedade.
Olhemos de novo para a
família de Nazaré. Jesus, Maria e José peregrinam para sobreviver, mas também
para que Jesus possa crescer em idade, sabedoria e graça.
É peregrinando na fé que
José e Maria reconhecem e protegem aquele em quem amarramos nossa esperança.
Eles não têm nada da chamada família tradicional...
Além de renovar nossa
condição de peregrinos de esperança, o Ano Jubilar também nos desafiou a semear
sinais de esperança, mesmo que pequenos.
Como fiéis e como
comunidades, estabelecemos laços e abrimos espaço para os jovens, os idosos, os
doentes, os pobres, os encarcerados, os migrantes.
Estes
sinais devem continuar e se multiplicar, pois a indulgência de Deus conosco é
perceptível quando nos torna indulgentes. E indulgência significa bondade, complacência com as
fraquezas dos outros.
A família cristã
Por fim, uma palavra sobre
a família. O Concílio Vaticano II nos ensina que a
família é a escola na qual aprendemos a ser humanos, e, por isso, é o
fundamento da sociedade. O vínculo que une a família não é o
sangue, mas a comunhão em Cristo.
Tanto a família
de Jesus como a nossa é uma realidade preciosa e complexa,
um ninho de alegrias e de
provações, de cuidados e de feridas, uma
peregrinação com avanços e recuos. Enfim, uma escola de humanidade e de
paciência.
Com Jesus, Deus
assume a família humana como ela. Mas Jesus nos ensina que a família ultrapassa
os
vínculos de sangue e de afeto.
“Quem
fizer a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35). A
família cristã não levanta muros, mas abre portas.
O Deus da Esperança
O Deus da Esperança, que
nos enche de paz e alegria em nossa fé pela ação do Espírito Santo armou sua
tenda entre nós e se fez peregrino conosco: eis o mistério do Natal!
Felizes os que temem o
Senhor e trilham os seus caminhos!
Felizes os que vivem a fé
como paciência com as demoras e abertura às surpresas de Deus!
Felizes os vivem a
esperança como paciência consigo mesmos e com seu próprio caminho de
amadurecimento!
Felizes os que vivem o amor
como paciência, bondade, indulgência e solidariedade com os outros!
Felizes os que perseveram
como peregrinos de esperança, que lançam sementes de novos céus e nova terra!
+Itacir
Brassiani msf
Bispo
de Santa Cruz do Sul
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