ACOLHER DEUS NUM MENINO
O
Natal é muito mais do que todo esse ambiente superficial e manipulado que se
respira nesses dias nas nossas ruas. Uma festa muito mais profunda e jubilosa
do que os artifícios da nossa sociedade de consumo. Os crentes temos de
recuperar novamente o coração desta festa e descobrir, por trás de tanta
superficialidade e distração, o mistério que dá origem à nossa alegria.
Não
entenderemos o Natal se não soubermos fazer silêncio no nosso coração, abrir a
nossa alma ao mistério de um Deus que se aproxima, acolher a vida que nos
oferece e saborear a festa da chegada de um Deus Amigo.
No
meio do nosso viver diário, às vezes tão aborrecido, apagado e triste, somos
convidados à alegria. «Não pode haver tristeza quando nasce a vida». Não se
trata de uma alegria insossa e superficial. A alegria de quem está alegre sem
saber porquê. «Nós temos motivos para o júbilo radiante, para a alegria plena e
para a festa solene: Deus fez-se homem, e veio habitar entre nós».
Há
uma alegria que só pode ser desfrutada por quem se abre à proximidade de Deus e
se deixa atrair pela sua ternura. Uma alegria que nos liberta de medos e
desconfianças diante de Deus. Como temer um Deus que se aproxima como criança?
Como fugir de quem se oferece como um pequeno frágil e indefeso? Deus não veio
armado de poder para se impor aos homens. Aproximou-se na ternura de um menino
que podemos fazer sorrir ou chorar.
Deus
não é o Ser omnipotente e poderoso que às vezes imaginamos, encerrado na
seriedade e no mistério do seu mundo inacessível. Deus é este menino entregue
carinhosamente à humanidade, este pequeno que procura o nosso olhar para nos
alegrar com o seu sorriso. O facto de Deus se ter feito criança diz muito mais
sobre como é Deus do que todas as nossas reflexões e especulações sobre o seu
mistério.
Se soubéssemos deter-nos em silêncio
diante deste Menino e acolher, desde o fundo do nosso ser, toda a proximidade e
ternura de Deus, talvez entenderíamos por que o coração de um crente deve estar
transbordando de uma alegria diferente: simplesmente porque Deus está conosco.
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez
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