quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O Evangelho dominical - 21.10.2018


NADA DISSO ENTRE NÓS

Enquanto sobem a Jerusalém, Jesus vai anunciando aos Seus discípulos o destino doloroso que o espera na capital. Os discípulos não o entendem. Andam a disputar entre eles os primeiros lugares. Tiago e João, discípulos desde a primeira hora, aproximam-se Dele para Lhe pedirem diretamente para sentarem-se um dia um à Tua direita e o outro à Tua esquerda.
Vê-se Jesus desalentado: Não sabeis o que pedis. Ninguém no grupo parece entender que segui-Lo de perto no Seu projeto, sempre será um caminho não de poder e grandezas, mas de sacrifício e de cruz.
Entretanto, ao saberem do atrevimento de Santiago e João, os outros dez indignam-se. O grupo está mais agitado que nunca. A ambição está a dividi-los. Jesus reúne-os a todos para deixar claro o Seu pensamento.
Antes de mais nada expõem-lhes o que acontece aos povos do Império romano. Todos conhecem os abusos de Antipas e das famílias herodianas na Galileia. Jesus resume assim: os que são reconhecidos como chefes utilizam o seu poder para tiranizar os povos, e os grandes não fazem senão oprimir os seus súbditos. Jesus não pode ser mais categórico: Vós, nada disso”.
Jesus não quer ver entre os Seus nada parecido: O que queira ser grande entre vós que seja vosso servidor, e o que queira ser primeiro entre vós que seja escravo de todos. Na Sua comunidade não haverá lugar para o poder que oprime, só para o serviço que ajuda. Jesus não quer chefes sentados à Sua direita e esquerda, mas servidores como Ele que dão a sua vida pelos demais.
Jesus deixa as coisas claras. A Sua Igreja não se constrói a partir da imposição dos de cima, mas a partir do serviço dos que se colocam abaixo. Não cabe qualquer tipo de hierarquia em termos de honras ou de domínio. Tampouco métodos e estratégias de poder. É o serviço o que constrói a Igreja de Jesus.
Jesus dá tanta importância ao que está a dizer que se coloca a si mesmo como exemplo, pois não veio ao mundo para exigir que o sirvam, mas “para servir e dar a Sua vida em resgate por todos”. Jesus nos ensina que ninguém triunfe na Igreja, que não seja a servir o projeto do reino de Deus desgastando-nos pelos mais débeis e necessitados.
Os ensinamentos de Jesus não são só para os dirigentes. Desde tarefas e responsabilidades diferentes temos de comprometer-nos todos a viver com mais entrega ao serviço do Seu projeto. Não necessitamos na Igreja de imitadores de Santiago e João, mas de seguidores fiéis de Jesus. Os que querem ser importantes que se ponham a trabalhar e a colaborar.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

110 anos da morte do Pe. Berthier (3)


Amor terno, generoso e perseverante ao próximo
O Padre Berthier ensinava que o amor é “o sentimento mais perfeito, e é para produzi-lo em nós que Jesus Cristo doou sua vida”. Movido por essa convicção, o Fundador viveu um intenso, generoso e criativo amor ao próximo. Esse amor se tornou palpável especialmente no seu zelo apostólico, no seu relacionamento afável, na sua dedicação às vocações, no seu amor pelos pobres e na sua cuidadosa atenção aos doentes.
Em relação ao zelo pastoral, a meta prioritária de todo ação apostólica do Fundador era conduzir as pessoas à perfeição no amor, conduzir à santidade. Essa é uma das razões pelas quais ele jamais abandonou o serviço aos romeiros no Santuário, especialmente no confessionário, assim como o exigente ministério da direção espiritual. Segundo o bispo Dom Paulot, é isso que também transparece em todas as obras que escreveu. Segundo um colega Saletino, ele jamais se acomodou aos caminhos mais convencionais ou fáceis. Além de dedicar-se incansavelmente a esta finalidade, o Fundador estimulou fortemente seus discípulos a fazerem o mesmo. Para ele, o fundamento do zelo pastoral “é o amor de Nosso Senhor e o amor ao próximo em vista dele”, como escreveu.
O relacionamento afável com todas as pessoas causou profunda impressão em quem conheceu o Padre Berthier. Diz uma testemunha: “Seu amor se manifestava de modo extraordinário na sua afabilidade, na sua vida exemplar, nas suas palavras e ações. Quando eu saía com ela à cidade, percebia que as pessoas ficavam visivelmente impressionadas com sua amabilidade. Ele saudava amavelmente todas as pessoas, inclusive às crianças, para quem tirava o chapéu e dizia: ‘Bom dia, meu filho, bom dia meu pequeno!” Muitos vocacionados, posteriormente discípulos seus, testemunham que a precariedade da casa de Grave assustava, mas a amabilidade do Fundador os atraía e consolava. “A presença do Padre Fundador fazia-me esquecer todas as dificuldades.” Essa mesma afabilidade ele a manifestava no confessionário, e por isso atraía muita gente.
Outra manifestação do seu amor ao próximo é a dedicação do Padre Berthier à orientação vocacional. Durante toda a sua vida, o Fundador deu à pastoral das vocações um lugar prioritário, sobretudo às vocações apostólicas e àquelas para as quais as portas tradicionais estavam fechadas. E isso ainda como missionário Saletino, bem antes de fundar a Congregação dos Missionários da Sagrada Família. Era grande sua fama como diretor espiritual e orientador vocacional mediante a correspondência. Quem ama o próximo, leva a sério a tarefa de ajudá-lo a encontrar e desenvolver sua vocação.
Uma quarta expressão desse amor ao próximo é o amor aos pobres, entre os quais seus próprios vocacionados ocupavam o primeiro lugar. É para estes que o Padre Berthier pensou a Congregação. Ele não media esforços e trabalhava sem descanso para abrir uma vaga a uma vocação pobre. Como escrevera, ele nunca esqueceu que “as pessoas pobres, enfermas, surdas, com inteligência limitada ou aparência repugnante devem ser as mais importantes para o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo”. “Mesmo tendo pouco, ele não fechava a mão aos pobres”, diz uma testemunha. “Ele nunca despediu um pedinte sem nada”, atesta outra. Com esta fama, eram muitos os pobres que recorriam sempre a ele.
A atenção que o Padre Berthier dedicava aos doentes é uma outra expressão do seu amor pelos pobres. Ele os ajudava com visitas, donativos, orientações, inclusive com seus conhecimentos sobre ervas medicinais. Várias testemunhas afirmam que o Fundador conhecia muitos doentes pelo nome, e sempre buscava saber se estavam se recuperando. Quando os doentes eram seus formandos, esse cuidado era redobrado. Em vista dos doentes, o Fundador organizou uma enfermaria e um pequeno abrigo. Se a enfermidade era mais grave, remetia-os a algum médico conhecido seu. E quando os doentes estavam em fase terminal, Padre Berthier não media esforços para que recebessem os sacramentos e para permanecer o mais possível ao lado deles. E isso ele ensinou também aos seus discípulos.
Itacir Brassiani msf
                                                                                     

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

110 anos de morte do Pe. Berthier (2)

Amor a Deus, por ele mesmo e acima de tudo
Segundo o próprio Pe. Berthier, o amor é uma virtude que nos dispõe a amar a Deus por ele mesmo e acima de tudo, e ao próximo por amor a Deus. Em relação às demonstrações de amor a Deus deixados pelo Fundador, os testemunhos são muitos, e citaremos apenas alguns.
Algumas testemunhas afirmam que toda a vida do Fundador revela seu amor a Deus. “Ele falava frequentemente do amor a Deus, e toda sua vida revelava esse amor”, diz uma delas. “Todos os seus gestos e ações revelavam que ele estava impulsionado pelo amor de Deus”, diz outra. Este era o núcleo de onde partiam e para onde se dirigiam suas alocuções. O próprio livro “A arte de ser feliz” não é senão uma apologia do amor de Deus.
Segundo o Postulador, o Padre Berthier demonstrou seu amor a Deus na aversão ao pecado, na capacidade de renúncia, na complacência, na confiança e na comunicação expansiva. “Quanto maior é o horror ao pecado, mais cresce o amor a Deus”, ensinava Berthier.  Segundo uma testemunha, o Padre Berthier era “um inimigo declarado de toda imperfeição e pecado”.
Berthier ensinava que, sem esvaziamento e renúncia, não há lugar para o amor a Deus, e o ele viveu essa renúncia por amor especialmente ao assumir a condição de estrangeiro na Holanda e em todo o processo de fundação. “Ele não possuía nada e não se apegava a nada”, diz um coetâneo. “Era como um homem morto para o mundo, para ele o mundo não existia. Ele não tinha nada, e só podia contar com nossa companhia”, diz uma testemunha.
No caderno de retiro para os votos, o Padre Berthier escreveu: “Primeiro ato da minha jornada: Eu me ofereço a ti, Jesus, por amor, e te ofereço tudo o que disser, fizer ou pensar”. Mais tarde, gostava de repetir aos seus formandos: “Deus se agrada daqueles que agradam a Deus”. Esse amor complacente (amor prazeroso e participativo) é perfeito e nos faz amigos de Deus. “Querer agradar a Deus era o que marcava sua vida e seu trabalho”, testemunham seus discípulos. Seu único desejo era agradar a Deus, e, à luz disso, enfrentava serenamente todas as contrariedades, dificuldades e renúncias.
No mesmo caderno de retiro, o Fundador escrevia: “Eu não serei feliz e não darei glórias a Deus se não me despojar de tudo por amor a ele. Em minhas ações não buscarei outra coisa que cumprir sua vontade.” Aos formandos, ele repetirá que sem entrega à vontade de Deus não vamos a lugar nenhum. Para ele, amar a Deus significa aceitar e realizar sua vontade. Por isso, ele não hesitaria em abandonar a obra que ele tanto amou, desde que fosse convencido de que essa era a vontade de Deus. Sua divisa poderia ser: “Como Deus quiser!” Para o Padre Berthier, fazer nossa vontade coincidir com a vontade de Deus é o cume da perfeição.
Por fim, o amor do Fundador a Deus se mostra criativo e comunicativo. Em tudo o que ele fazia e dizia estava a marca desse amor. “Ele só falava de Deus. Ele via o bom Deus em cada criatura”, diz uma testemunha. Berthier escreve a um orientando: “Tenham um grande coração e não pensem demais em vocês mesmos! Nada mais importa, desde que Jesus seja glorificado por nossa vida...” É desse amor intenso e transbordante a Deus que emerge um amor generoso e terno para com todas as pessoas que o cercavam ou buscavam.
Itacir Brassiani msf

ANO B – VIGÉSIMO-NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 21.10.2018


Nossa missão é lutar para evitar a morte da democracia!
Os episódios narrados no capítulo 10 do evangelho de Marcos sublinham um aspecto fundamental da vida cristã: a missão de anunciar e testemunhar Jesus Cristo deve ser sempre precedida e permanentemente sustentada pela atitude de discípulo e aprendiz. O Evangelho não é uma espécie de produto que precisa de publicidade, e a missão não se identifica com a simples expansão da Igreja. Evangelizar é, antes de tudo, fazer do Evangelho a regra fundamental do nosso viver, pautar nossa vida pelas opções de Jesus Cristo, pela atitude de serviço. E esta lição precisa ser sempre retomada.
No trecho do Evangelho que meditamos neste domingo, Marcos continua narrando a subida de Jesus para Jerusalém. Apesar da catequese particular e paciente de Jesus, os discípulos continuam resistentes e espantados frente a um messias humano, pobre e servidor. Nem mesmo o tríplice anúncio da prisão, condenação, tortura e morte consegue abrir a mente deles. “Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo” (Mc 10,32). Um Deus despojado de poder não encontra lugar na ideologia deles. Eles não conseguem abandonar a ideia de que, apesar de tudo, Jesus seria vitorioso. A rejeição e o serviço seriam apenas uma etapa breve e passageira...
Mas o pior é que os discípulos alimentam a ambição de partilhar com Jesus as honras e benesses de uma esperada e fantasiosa vitória. “Quando estiveres na glória, deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda.” A indignação dos outros dez discípulos contra os irmãos Tiago e João revela que todos eles têm a mesma ambição. Eles não conseguem ver a caminhada a Jerusalém senão como uma marcha de subida ao poder. Não imaginam que à esquerda e à direita do mestre crucificado estariam dois ativistas rebeldes que sequer participavam do grupo dos discípulos...
O pedido explícito dos filhos de Zebedeu e a ambição oculta de todos os demais discípulos aborrecem Jesus. Ele tem a impressão de estar fracassando na missão de ensinar e educar. Por isso, Jesus fala com uma certa amargura: “Vocês não sabem o que estão pedindo. Por acaso vocês podem beber o cálice que eu vou beber? Podem ser batizados com o batismo que eu vou ser batizado?”  Mas nem mesmo este questionamento, que coloca os discípulos cara a cara com o martírio, é capaz de tirá-los do sonho de poder: eles respondem mentindo. E a Jesus só lhe resta falar com ironia...
Quando Jesus ensina que, em oposição ao que costumeiramente vemos e cremos, quem quiser ser grande deve tornar-se o servo, e quem quiser ser o primeiro deve ocupar o último lugar, não está falando de um certo sentimento de humildade, bem ao gosto dos prepotentes. O que ele pede é que nos situemos ao lado dos últimos e aceitemos ser considerados um nada, como as crianças e escravos, sem que isso nos cause qualquer perturbação. A autêntica humildade é o reconhecimento da verdade sobre nós mesmos, pois quem se considera superior ou inferior aos outros sem sê-lo tem uma falsa imagem de si...
Mas ser como criança e assumir a postura de servo não tem nada a ver com ingenuidade, imaturidade ou autodesprezo. O que Jesus propõe como valor é a sinceridade, a confiança radical, a liberdade frente às preocupações, a capacidade de maravilhar-se e alegrar-se com as surpresas da vida, a aceitação alegre da minoridade. A figura do Servo realizada radicalmente por Jesus tem pouco da passividade do cordeiro e muito de ativa profecia e de corajoso martírio. Ocupar o último lugar rima com a proclamação da dignidade dos pequenos e dos últimos e soa como incômoda profecia.
Fixemos nosso olhar em Jesus de Nazaré. Ele não desconhece nossos limites e a falência dos nossos intentos e, por isso, humano que é, se compadece das nossas fraquezas (cf. Hb 4,14-16). Sendo profeta do Reino e Servo dos últimos, Jesus não guarda sua própria vida como um bem precioso, mas a esbanja inteiramente para pagar nossa liberdade. E é aqui que se esconde o segredo da sua fecundidade: como diz o profeta Isaías, é porque entrega sua vida e carrega os crimes dos outros que ele prolonga sua existência, e seu rosto adquire o brilho glorioso de uma verdade que liberta.
Jesus de Nazaré, Servo perseguido, Irmão amado e amável! Que teu amor esteja sobre nós, como em ti está nossa esperança. Tu és digno de crédito, porque vens ao nosso encontro em nossa humana carne. Assim, podemos aproximarmo-nos de ti com plena confiança. Mesmo conhecendo o barro do qual somos feitos e os sonhos humanos que nos tiram o sono, envia-nos como teus missionários. Ajuda-nos a proclamar com a vida e com a palavra a dignidade de todo humano ser e a nobreza de quem se faz servidor. E que nada nem ninguém nos intimide e faça desistir da urgente e dura luta pela democracia. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 53,10-11 * Salmo 32 (33) * Carta aos Hebreus 4,14-16 * Evangelho de São Marcos 10,35-45)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

110 anos da morte do Pe. Berthier


Sinais de santidade do Padre João Berthier ms

Hoje recordamos os 110 anos da páscoa no Pe. João Berthier. Já por ocasião da morte do Fundador, falava-se abertamente da sua fama de santidade. “Nós o vimos sempre como um santo, um homem de Deus”, diziam muitos dos seus discípulos. A mesma convicção era expressa pelo povo de Grave e por alguns hierarcas da Igreja, entre os quais o Cardeal Rampolla, e Bispo de Bois-le-Duc (em cuja diocese pertencia Grave), o vigário apostólico na China, um bispo greco-católico na Líbia, e vários outros. No período que vai da sua morte à abertura do processo de beatificação (1908-1950) essa fama só fez crescer. Muita gente visitava sua tumba para pedir sua intercessão, novenas eram rezadas por ele, e diversas curas foram atribuídas à sua intercessão. Em 20 anos (1930-1950), o Governo Geral recebeu mais de 160 cartas testemunhando graças e milagres obtidos pela intercessão do Pe. Berthier: curas, conversões pessoais, reconciliação familiar, conversões, decisões vocacionais, etc.

Uma fé profunda e ativa
Tudo na vida do Pe. Berthier era iluminado e sustentado pela perspectiva da fé. Homem de Deus, ele vivia e trabalhava por Deus e sua glória. Sem uma fé robusta ele não teria ousado tanto. Segundo seus contemporâneos, ele demonstrava uma fé ardente e profunda, e isso era notável especialmente na convicção com que falava e pregava. Após participar de um momento de formação guiada pelo Pe. Berthier, um professo Saletino testemunhava: “Quando ele nos falava, eu sentia que o homem velho agonizava em mim...”
Esta fé profunda e ativa se manifestava também na sua adesão firme à fé e aos ensinamentos da Igreja. O ‘sentire cum ecclesia’ era o dinamismo intrínseco da sua vida. “Todos os dias ele repetia que nós deveríamos assimilar a doutrina da Igreja, da Escritura e dos Santos Padres”, testemunha um dos seus discípulos. E isso o nosso Fundador demonstrou tanto na sua pregação como nos inúmeros livros que escreveu, alguns com grande divulgação e penetração popular.
Essa fé jorrava da sua profunda união com Deus e sua vontade, de um espírito de oração e da permanente busca da conversão pessoal. “Quando ele rezava, era como se tivesse morrido para o mundo que o circundava”, testemunha um discípulo. Era como se estivesse preso pelo amor, e isso era visível nos seus gestos e em todo seu ser, testemunha outro. “Quando ele rezava na capela, era como se estivesse mergulhado em Deus, e isso nós não esqueceremos jamais.” Além disso, segundo vários testemunhos, ele via Deus na natureza, especialmente nas flores e ervas...

Uma esperança serena e inspiradora
Para o Padre Berthier, a virtude da esperança está estreitamente relacionada com a união mística com Deus, a comunhão plena com o Mistério trinitário, o céu. Este pensamento e esta convicção se mostram de modo assaz vivo quando ele falava, serenamente, da morte que se aproximava, e, mais ainda, na sua inabalável confiança na Providência de Deus. O Pároco de Grave chamava o Padre Berthier de “homem da Província”.
Sua aventura como Fundador, ao iniciar sua obra com mais de 50 anos e doente, é a prova mais contundente da sua confiança da Divina Providência. O bispo Dom Paulot não hesita em afirmar: “A coragem que ele demonstrou numa hora avançada da sua vida, sem o mínimo de recursos e num país estrangeiro, comprovam uma assistência extraordinária da Providência.” E isso sem falar no enfrentamento das diversas dificuldades que o esperavam nos primeiros anos da Fundação. Tudo era tão primitivo, limitado e difícil que ele não poderia ter feito nada sem a ajuda de Deus, testemunha um formando.
E o que dizer da dificuldade causada pela demora na aprovação do Instituto pela Santa Sé, consequência de falta de clareza e de várias incompreensões no interior da Igreja? “Se isso é coisa de Deus, dizia ele, Deus mesmo proverá...” “Contra toda esperança humana, ele tinha esperança de que sua iniciativa se desenvolveria”, diz uma testemunha. “Quanto maiores são as dificuldades que enfrentamos, mais devemos nos convencer de que esta Obra é inspirada por Deus”, repetia ele.
Dessa confiança inabalável em Deus brotava a calma e a serenidade que marcaram a vida do Padre Berthier. “Deus nos tem sempre ajudado, e precisamos crer que ele continuará nos ajudando”, dizia ele aos discípulos. “Ele estava sempre tranquilo. Quando um vocacionado deixava a casa, lágrimas rolavam no rosto dele, o que demonstra que ele sofria interiormente. Mas ele se mantinha calmo e não dizia nada. Mesmo diante das diversas desistências, às vezes de turmas inteiras, ele jamais se queixava. Apenas dizia: “Que a vontade de Deus seja feita.” Mesmo quando estava enfermo ou contrariado, ele mantinha a gravidade, a bondade e a alegria, diz uma testemunha.
Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Evangelho dominical - 14.10.2018


COM JESUS NO MEIO DA CRISE

Antes de se pôr a caminho, um desconhecido aproxima-se de Jesus a correr. Ao que parece tem pressa de resolver o seu problema: Que devo fazer para herdar a vida eterna?” Não o preocupam os problemas desta vida. É rico. Tem tudo resolvido.
Jesus coloca perante a Lei de Moisés. Curiosamente, não o recorda os dez mandamentos, mas só os que proíbem de atuar contra o próximo. O jovem é um homem bom, observante fiel da religião judia: “Tudo isso tenho cumprido desde jovem”.
Jesus olha-o com carinho. É admirável a vida de uma pessoa que não fez mal a ninguém. Jesus quer atrai-lo agora para que colabore com Ele no Seu projeto de fazer um mundo mais humano, e faz-lhe uma proposta surpreendente: Uma coisa te falta: anda, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres... e depois vem e segue-me”.
O rico possui muitas coisas, mas falta-lhe o único que permite seguir Jesus de verdade. É bom, mas vive apegado ao seu dinheiro. Jesus pede-lhe que renuncie à sua riqueza e a coloque ao serviço dos pobres. Só partilhando o que é seu com os necessitados poderá seguir Jesus colaborando no Seu projeto.
O homem sente-se incapaz. Necessita de bem-estar. Não tem forças para viver sem a sua riqueza. O seu dinheiro está acima de tudo. Renuncia a seguir a Jesus. Tinha vindo a correr entusiasmado para Ele. Agora afasta-se triste. Não conhecerá nunca a alegria de colaborar com Jesus.
A crise econômica convida-nos a dar passos para uma vida mais sóbria, para partilhar com os necessitados o que temos e simplesmente não necessitamos para viver com dignidade. Temos que nos fazer perguntas muito concretas se queremos seguir Jesus nestes momentos.
O primeiro é rever a nossa relação com o dinheiro: que fazer com o nosso dinheiro? Para que poupar? Em que investir? Com quem partilhar o que não necessitamos? Logo, rever o nosso consumo para o fazer mais responsável e menos compulsivo e supérfluo: O que compramos? Onde compramos? Para que compramos? A quem podemos ajudar a comprar o que necessitam?
São perguntas que temos que nos fazer no fundo da nossa consciência e também nas nossas famílias, comunidades cristãs e instituições da Igreja. Não faremos gestos heroicos, mas, se damos pequenos passos nessa direção, conheceremos a alegria de seguir Jesus contribuindo para fazer a crise de alguns um pouco mais humana e leve. Se não é assim, iremos sentir-nos bons cristãos, mas à nossa religião faltará alegria.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

terça-feira, 9 de outubro de 2018

ANO B – VIGÉSIMO-OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 15.10.2018


Partilhar os bens para seguir Jesus com mais liberdade.
A fé é uma caminhada, como o é também nossa eterna luta por um mundo melhor. É uma caminhada a pé e, por isso, quanto menos bagagem, melhor. A estrada do seguimento de Jesus, um caminho que conduz à realização mais profunda que poderíamos desejar, tem seu preço. Mas o caminho que nos leva ao Reino de Deus tem seu próprio pedágio, e quem descobre e assume sua própria missão no mundo precisa evitar a omissão e jamais pedir demissão. Longe de nos afastar das dores, tensões e buscas da história, a fé nos leva ao seu próprio coração. E isso pede de nós lucidez, coragem e generosidade.
O personagem anônimo apresentado pelo evangelho de hoje é paradigmático. Aparentemente não lhe falta fervor religioso: corre ao encontro de Jesus, ajoelha-se respeitosamente diante dele, chama-o de bom mestre. Mas Jesus parece querer jogar um balde de água fria no fervor superficial e no orgulho oculto daquele homem. “Só Deus é bom, e ninguém mais.” Depois, remete ao conhecido caminho dos mandamentos: cita cinco sinais que proíbem passagens perigosas e um que mostra a direção obrigatória. O candidato a discípulo responde, muito seguro de si: “Mestre, desde jovem tenho observado todas essas coisas.” Refratário às estradas, ele frequentara apenas os genuflexórios!
Para este homem piedoso e rico, a fé não é um caminho a ser percorrido, mas um porto seguro e já alcançado, uma aquisição garantida pela moeda da piedade superficial e das leis mesquinhas, centrada nos próprios méritos e indiferente à sorte dos outros. Nem mesmo a referência que Jesus faz ao mandamento de não roubar consegue inquietá-lo. É a típica pessoa que tem a consciência absolutamente tranquila, imperturbável. Seu único desejo é ser reconhecido e aplaudido como bom e irrepreensível. Mas Jesus entra como um terremoto no tranquilo status deste postulante à santidade.
O amor de Jesus por este homem que parece tão correto e piedoso não o impede de perceber nele uma grande ausência, uma lacuna: “Falta só uma coisa para você fazer: vá, venda tudo, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me.” Para Jesus, as práticas de piedade e o cumprimento dos mandamentos não atingem sua meta enquanto não nos abrem à partilha e à solidariedade e não nos colocam livres e nus no caminho do discipulado. Em outras palavras, a questão que Jesus coloca é a seguinte: qual é teu verdadeiro tesouro? Em que puseste tua confiança?
A reação do homem aparentemente exemplar revela o que ele considerava realmente importante: o reconhecimento público como alguém perfeito e superior ao comuns dos mortais; o capital que ele havia acumulado e que lhe conferia um poder nada desprezível numa Palestina espoliada. Pedindo-lhe que venda seus bens, Jesus não está propondo a pobreza como tal, como se lhe agradasse um estilo de vida miserável. Jesus está pedindo que os bens cumpram sua finalidade legítima: atender solidariamente as necessidades das pessoas humanas, e nada mais.
Diante das palavras de Jesus, o homem fica abatido e vai embora cheio de tristeza, porque é muito rico. Seu desejo de uma vida humanamente madura e profunda não é tão forte quanto seu amor pelos bens que acumulo. Essa sua atitude faz Jesus murmurar desconsolado: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” E acrescenta, para escândalo dos discípulos: “É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” E não adianta querer superar este escândalo diminuindo o tamanho do camelo ou aumentando as dimensões do buraco da agulha...
Apego às riquezas e seguimento de Jesus Cristo não podem andar de mãos dadas. Quando colocamos nossa segurança nas bens, parece-nos difícil empreender travessias. A casa das nossas honras e conquistas nos parece mais segura, e acabamos pensando que os pobres devem sair da miséria com suas próprias forças e meios, cumprir suas obrigações e deixar de exigir direitos. Vender os bens e dar o dinheiro aos pobres é apenas uma etapa, e prepara a opção decisiva: seguir Jesus no enfrentamento das armas ideológicas da morte, na missão de em tudo e sempre amar e servir. “Depois, venha e siga-me...”
Jesus de Nazaré, missionário enviado pelo Pai para nos conduzir à vida plena! Dá-nos uma mente sábia, que aprecie mais a vida que os bens e valorize mais a liberdade que os prêmios das loterias e cargos políticos. Desperta em nossas comunidades a capacidade de ler responsavelmente a história, de identificar nela os problemas, aspirações e esperanças dos pobres e oprimidos. Suscita e sustenta na tua Igreja a coragem e a liberdade feminina de Teresa de Ávila, o testemunho martirial de João Bosco Penido Burnier e o sonho missionário do Pe. Berthier. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Livro da Sabedoria 7,7-11 * Salmo 89 (90) * Carta aos Hebreus 4,12-13 * Evangelho de S. Marcos 10,17-30)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O Evangelho dominical - 07.10.2018


CONTRA O PODER DO HOMEM

Os fariseus colocam a Jesus uma pregunta para o pôr à prova. Desta vez não é uma questão sem importância, mas um fato que faz sofrer muito as mulheres da Galileia e é motivo de vivas discussões entre os seguidores de diversas escolas rabínicas: “É lícito ao marido separar-se da sua mulher?”
Não se trata do divórcio moderno que conhecemos hoje, mas da situação em que vivia a mulher judia dentro de um matrimônio controlado absolutamente pelo homem. Segundo a Lei de Moisés, o marido podia quebrar o contrato matrimonial e expulsar de casa a sua esposa. A mulher, pelo contrário, submetida em tudo ao homem, não podia fazer o mesmo.
A resposta de Jesus surpreende todos. Ele não entra nas discussões dos rabinos. Convida a descobrir o projeto original de Deus, que está acima das leis e normas. Segundo Jesus, esta lei machista impôs-se no povo judeu pela dureza de coração dos homens, que controlam as mulheres e as submetem à sua vontade.
Jesus aprofunda o mistério original do ser humano. Deus criou-os homem e mulher. Os dois foram criados em igualdade. Deus não criou o homem com poder sobre a mulher. Não criou a mulher submetida ao homem. Entre homens e mulheres não tem de haver domínio por parte de ninguém.
A partir desta estrutura original do ser humano, Jesus oferece uma visão do matrimônio que vai mais além de tudo o que é estabelecido pela Lei. Mulheres e homens se unirão para “ser uma só carne” e iniciar uma vida partilhada numa mútua entrega, sem imposição nem submissão.
Este projeto matrimonial é para Jesus a suprema expressão do amor humano. O homem não tem direito algum de controlar a mulher como se fosse o seu dono. A mulher não há de aceitar viver submetida ao homem. É Deus mesmo quem os atrai a viver unidos por um amor livre e gratuito. Jesus conclui de forma rotunda: “O que Deus uniu que não o separe o homem”.
Com esta posição, Jesus destrói pela raiz o fundamento do patriarcado em todas as suas formas de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher. Não só no matrimônio, mas em qualquer instituição civil ou religiosa.
Temos de escutar a mensagem de Jesus. Não é possível abrir caminhos para o reino de Deus e da sua justiça sem lutar ativamente contra o patriarcado. Quando reagiremos na Igreja com energia evangélica contra tanto abuso, violência e agressão do homem sobre a mulher? Quando defenderemos a mulher da “dureza de coração” dos homens?
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

terça-feira, 2 de outubro de 2018

ANO B – VIGÉSIMO-SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 07.10.2018


“E que nada no mundo separe um casal sonhador!”
Não é bom que a pessoa viva sozinha: isso está inscrito no mais profundo do nosso ser. E uma das formas, não a única, de evitar o isolamento e de promover a socialização é o matrimônio e a vida familiar Antes de ser um sacramento ou uma instituição, o matrimônio é uma realidade antropológica: duas pessoas, geralmente homem e mulher, sentem-se atraídos um pelo outro e selam uniões que recebem diversos nomes, conforme a linguagem e a cultura que as batiza, e diferem amplamente em relação às obrigações recíprocas que estabelecem.
A história concreta deste dinamismo que se torna vínculo é, porém, como uma rosa com espinhos abundantes. Muito antes e para além da dolorosa tragédia da separação, conhecemos o exercício violento da dominação do mais forte sobre o mais fraco, a violência física e moral, a exploração despudorada e ilimitada do corpo do outro, a dependência costurada com os fios nada dourados da ameaça. E há ainda hoje candidatos autoritários que se apresentam como paladinos da família tradicional e se pretendem abençoados por Deus, que propõem isso como ideal de vida... Hipócritas! As separações são apenas uma das faces da falência que pode se abater sobre as relações matrimoniais.
Quando os fariseus, com o ardiloso objetivo de questionar a prática libertária de Jesus, perguntam se a lei permite que um homem se divorcie da sua mulher, querem fundamentalmente garantir os direitos de uma das partes: a parte masculina, a mais forte. Todos sabiam o que dizia a tradição: “Quando um homem se casa com uma mulher e consuma o matrimônio, se depois ele não gostar mais dela, por ter visto nela alguma coisa inconveniente, escreva para ela um documento de divórcio e o entregue a ela, deixando-a sair de casa em liberdade” (Dt 24,1).
Jesus sabe perfeitamente que a lei de Moisés é androcêntrica e patriarcal. Para abandonar a mulher bastava não gostar mais dela, ou encontrar nela algo de inconveniente. Por isso, Jesus situa a lei no seu contexto original: diante da fraqueza e da maldade dos homens, Moisés tentou ao menos dar um salvo-conduto à mulher abandonada pelo marido. “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse mandamento.” Mas este não é o projeto original e atual de Deus, pois, para ele, “eles já não são dois, mas uma só carne”. Portanto, “o que Deus uniu, o homem não deve separar.”
Entretanto, Jesus reconhece que as separações são um fato, muitas vezes doloroso e trágico, no qual as responsabilidades e os direitos precisam ser divididos igualmente por ambas as partes. É correto repetir, que nada e ninguém deve separar aqueles que Deus uniu mediante o amor, mas é preciso também reconhecer que nunca deveríamos marcar com o selo da lei ou do sacramento decisões imaturas e baseadas em tudo menos no amor. Movidos por um comodismo irresponsável, podemos criar algemas que colocam as pessoas numa gaiola cujas chaves estão nas nossas mãos...
Não seria tempo de superar o moralismo mórbido que pensa que a falência de um matrimônio sempre se deve à maldade culpável de alguém, de admitir que existem casamentos que não têm caráter sacramental nenhum, que são como cadáveres que esperam autópsia e sepultura? Não seria urgente desmascarar o legalismo virulento que isola e cristaliza uma frase de Jesus como lei imutável e relativiza o restante da vida e da prática libertária do mesmo Jesus? Quando Paulo diz que Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos e irmãs, está se referendo apenas aos ‘bem-casados’, às “pessoas de bem”?
Depois de responder aos fariseus e de aprofundar com os discípulos a questão do casamento e do divórcio, algumas crianças são apresentadas a Jesus. Ele demonstra irritação com a dominação e as barreiras impostas às crianças. Ao pedir que deixem as crianças se aproximar dele, Jesus está enfatizando que Deus não despreza nem violenta os mais fracos, como alguns o fazem, inclusive em nome de frias doutrinas e leis pouco cristãs. Ele acolhe e abençoa as primeiras vítimas dos relacionamentos fracassados. “Deixem que as crianças venham a mim, e não as impeçam de fazê-lo!”
Jesus de Nazaré, irmão das vítimas e defensor dignidade de todo ser humano: também hoje, mulheres e crianças são dominadas, desprezadas e violentadas. Ajuda-nos a descobri-las como chave que dá acesso ao teu Reino, a entender que ninguém se torna cidadão do teu Reino a partir do centro ou de cima, mas desde baixo e da periferia, acompanhando aqueles que não contam. Que as crianças aprendam isso enquanto sorvem o leite no seio da mãe e são carregadas nos ombros de um pai. Confirma e sustenta nossas comunidades, famílias e jovens nesta bela e irrenunciável missão. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf


(Livro do Gênesis 2,18-24 * Salmo 127 (128) * Carta aos Hebreus 2,9-11 * Evangelho de São Marcos 10,2-16)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Dia Mundial das Missões 2018


“Juntamente com os jovens, levemos o Evangelho a todos!”
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões/2018

Queridos jovens, com vocês desejo refletir sobre a missão que Jesus nos confiou. Apesar de me dirigir a vocês, pretendo incluir todos os cristãos, que vivem na Igreja a aventura da sua existência como filhos de Deus. O que me impele a falar a todos, dialogando com vocês, é a certeza de que a fé cristã permanece sempre jovem, quando se abre à missão que Cristo nos confia. “A missão revigora a fé’, escrevia São João Paulo II. O Sínodo que celebraremos em Roma no próximo mês de outubro, dá-nos oportunidade de entender melhor aquilo que o Senhor Jesus vos quer dizer a vocês, jovens, e, através de vocês, às comunidades cristãs.
A vida é uma missão!
Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade, sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande desafio. Conheço bem as luzes e as sombras de ser jovem e, se penso na minha juventude e na minha família, recordo a intensidade da esperança por um futuro melhor. O fato de nos encontrarmos neste mundo sem ser por nossa decisão faz-nos intuir que há uma iniciativa que nos antecede e faz existir. Cada um de nós é chamado a refletir sobre esta realidade: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo”.
Anunciamos-lhes Jesus Cristo!
Ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), a Igreja pode partilhar com vocês, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenham medo de Cristo e da sua Igreja! Nela está o tesouro que enche a vida de alegria.
Digo-lhes isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor 1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-lhes a perguntar a vocês mesmos em cada circunstância: “Que faria Cristo no meu lugar?”
Transmitir a fé até aos últimos confins da terra
Pelo Batismo, também vocês, jovens, são membros vivos da Igreja e, juntos, temos a missão de levar o Evangelho a todos. Vocês estão desabrochar para a vida. Crescer na graça da fé, que nos foi transmitida pelos sacramentos da Igreja, integra-nos num fluxo de gerações de testemunhas, onde a sabedoria daqueles que têm experiência se torna testemunho e encorajamento para quem se abre ao futuro. E, por sua vez, a novidade dos jovens torna-se apoio e esperança para aqueles que estão próximos da meta do seu caminho. Na convivência das várias idades, a missão da Igreja constrói pontes intergeracionais, nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem fatores de profunda união.
Por isso, a transmissão da fé, coração da missão da Igreja, verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por atração requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8, 6). E tal expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes, impugnadores e contrários à mesma.
Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja são as periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem sempre com eles o seu Senhor (cf. Mt 28, 20; At 1, 8). Nisto consiste o que designamos por missão ad gentes. A periferia mais desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do seu amor.
Para vocês hoje, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente navegáveis. O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato... E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter milhões de contatos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou nesta terra (cf. Lc 9, 23-25). Atrevo-me a dizer que, para um jovem que quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação.
Testemunhar o amor
Agradeço a todas as realidades eclesiais que vos permitem encontrar, pessoalmente, Cristo vivo na sua Igreja: as paróquias, as associações, os movimentos, as comunidades religiosas, as mais variadas expressões de serviço missionário. Muitos jovens encontram, no voluntariado missionário, uma forma para servir os «mais pequenos» (cf. Mt 25, 40), promovendo a dignidade humana e testemunhando a alegria de amar e ser cristão. Estas experiências fazem com que a formação de cada um não seja apenas preparação para o seu bom-êxito profissional, mas desenvolva e cuide um dom do Senhor para melhor servir aos outros. Estas louváveis formas de serviço missionário temporâneo são um começo fecundo e, no discernimento vocacional, podem ajudar-vos a decidir pelo dom total de vós mesmos como missionários.
De corações jovens, nasceram as Pontifícias Obras Missionárias (POM), para apoiar o anúncio do Evangelho a todos os povos, contribuindo para o crescimento humano e cultural de muitas populações sedentas de Verdade. As orações e as ajudas materiais, que generosamente são dadas e distribuídas através das POM, ajudam a Santa Sé a garantir que, quantos recebem ajuda para as suas necessidades, possam, por sua vez, ser capazes de dar testemunho no próprio ambiente. Ninguém é tão pobre que não possa dar o que tem e, ainda antes, o que é. Apraz-me repetir a exortação que dirigi aos jovens chilenos: “Nunca pensem que vocês não tem nada para dar, ou que não precisam de ninguém. Muita gente precisa de vocês. Pensem nisso! Cada um de vocês pense nisto no seu coração: muita gente precisa de mim!” 
Queridos jovens, o mês de outubro, em que terá lugar o Sínodo a vocês dedicado, será mais uma oportunidade para que vocês se tornem discípulos missionários cada vez mais apaixonados por Jesus e pela sua missão até aos últimos confins da terra. A Maria, Rainha dos Apóstolos, ao Santos Francisco Xavier e Teresa do Menino Jesus, ao Beato Paulo Manna, peço que intercedam por todos nós e sempre nos acompanhem.
Vaticano, 20 de maio – Solenidade de Pentecostes – de 2018.

FRANCISCO