quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Sagrada Família de Nazaré segundo os Evangelhos (2)

Lucas 2,1-20: E encontraram Maria, José e o recém­-nascido...

Aproveitando o clima e o espírito natalinos, ofereço uma série de meditações sobre a Sagrada Família de Nazaré nos Evangelhos. Pois não é verdade que a Sagrada Família viveu de forma profunda e especial tudo o que o Natal de Jesus significa? Então, acompanhemos e meditemos serena e atentamente sobre cada um dos acontecimentos que rodearam este mistério. Os textos fazem parte do livroUm tesouro escondido: elementos para uma espiritualidade inspirada na Sagrada Família de Nazaré, preparado por mim e publicado pela Editora IFIBE (Passo Fundo, 2009).


Passamos ao largo dos belos relatos sobre o encontro de Maria com Isabel, o cântico de Maria, o nascimento de João Batista e o cântico de Zacarias. Estes episódios falam da família de Nazaré num sentido mais amplo. Dirijamos nossa atenção ao relato do nascimento de Jesus e da visita dos pastores.
Lucas apresenta o recenseamento geral ordenado por César Augusto como ocasião providencial para o nascimento de Jesus em Belém, já que Maria e José viviam a 140 km desta pequena vila. Assim, Jesus seria o Messias não apenas por ser filho de José (descendente de Davi), mas também por ter nascido na própria cidade originária de Davi.

José é apresentado novamente como "da família e descendência de Davi" (v. 3). Ele já estava casado com Maria e, com ela, residia em Nazaré (v. 4). Maria parece ter sido da tribo de Levi, estava esperando um filho e foi com José à cidade de origem de Davi para se alistar no recenseamento convocado pelo imperador. Em Belém nasceu seu primogênito, o qual foi enfaixado e deitado numa manjedoura porque não havia lugar na casa (v. 7). Tendo como pano de fundo a experiência da fragilidade e pobreza de Salomão (cf. Sb 7,3-6), Lucas apresenta aqui o Messias, mesmo sendo filho de Deus, partilhando a fragilidade e a pobreza de todo ser humano.

Em seguida Lucas diz que alguns pastores receberam um comunicado divino que anunciava significado do nascimento do filho de Maria e José, em Belém: ele é Salvador, Messias e Senhor (v. 11), boa notícia e causa de alegria para todo o povo (v. 10). Vencendo o medo, eles foram a Belém e encontraram "Maria e José, e o recém­nascido deitado na manjedoura" (v. 16).

É bom recordar que os pastores pertenciam a uma categioria social desprezada pelos rabinos porque, por causa do trabalho, não cumpriam fielmente as observâncias religiosas. A eles foi anunciado que a ação de Deus manifestada em Jesus teria alcance universal e bem definida: seria para todo o povo. Os anjos deram ao menino deitado na manjedoura um tríplice título: Salvador, Messias e Senhor: Salvador porque traz a libertação definitiva; Messias porque traz o Espírito de Deus, que convoca a uma relação de justiça e amor fraterno (cf. Is 11,1­9); Senhor porque vence todos os obstáculos na estrada que leva a uma história nova.

Chama a atenção sinal oferecido aos pastores: uma criancinha indefesa e pobre. Nada de extraordinário poderia ser atribuído a um bebê recém­nascido envolto em faixas, até porque não era incomum criancinhas nascerem em lugares tão humildes como manjedouras... Mas este nascimento humilde redundou em glória no céu e fez com que os exércitos anunciassem a paz. No cântico da corte celeste repercute a exultação dos pobres e oprimidos quando da entrada de Jesus em Jerusalém. Na admiração dos ouvintes ecoa o corajoso e alegre anúncio pós­pascal de Jesus ressuscitado.

Os pastores foram e encontraram o sinal anunciado. E o evangelista observa que eles não se calaram, e muita gente se maravilhou com aquilo que eles contavam. Eles se tornaram testemunhas e apóstolos do Menino, mas ninguém em Israel esperava semelhante notícia, e menos ainda de gente tão desprezada. Por isso não lhe deram crédito. Talvez por isso mesmo a própria Maria "conservava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração" (v. 19). Meditava porque não compreendia tudo, porque precisava aprofundar seu próprio entendimento a fim de comunicar o mistério de Jesus aos primeiros cristãos.

Neste relato evangélico encontramos uma família humilde e constrangida pelas autoridades a passar por uma notável humilhação. Uma família que, na sua pequenez e pobreza, é portadora de alegria para todos os povos, pois nela se manifesta o dom de Deus à humanidade. Uma família que acolhe e cuida do mistério de Deus encarnado na fragilidade humana. Uma família que acolhe a visita de pessoas tratadas com desprezo. Uma família que medita e interpreta os fatos da vida, reveladores dos apelos e dos caminhos de Deus.

A Sagrada Família de Nazaré segundo os Evangelhos (1)

Lucas 1,26-38: Uma virgem prometida em casamento...

Aproveitando o clima e o espírito natalinos, ofereço uma série de meditações sobre a Sagrada Família de Nazaré nos Evangelhos. Pois não é verdade que a Sagrada Família viveu de forma profunda e especial tudo o que o Natal de Jesus significa? Então, acompanhemos e meditemos serena e atentamente sobre cada um dos acontecimentos que rodearam este mistério. Os textos fazem parte do livro Um tesouro escondido: elementos para uma espiritualidade inspirada na Sagrada Família de Nazaré, preparado por mim e publicado pela Editora IFIBE (Passo Fundo, 2009).

O enquadramento maior deste texto é a apresentação da pessoa e da missão de Jesus (capítulos 1 a 4) , do seu nascimento e dos primeiros anos de vida (capítulos 1 e 2). Lucas informa algo sobre o lugar onde Maria vivia: Nazaré, na Galiléia. Sabemos que, para o Antigo Testamentpo, Nazaré não tinha nenhum significado. Para a Jerusalém do Novo Testamento, era um povoado desprezível. Os habitantes daquela região alimentavam uma espécie de desejo e busca de independência, o que provacava um tratamento zombeteiro por parte dos judeus estritos a Nazaré. Ali viveram Maria, Jesus e José, a família que assumiu o nome da cidade como seu sobre­nome.
Sobre as relações familiares, Lucas informa que Maria era "uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi" (v. 27); que Maria seria mãe sem ter relação com homem algum (v. 34­35); que o filho ocuparia o trono de Davi e seria chamado Filho de Deus (v.32.35); e que Maria tinha uma irmã chamada pelo mesmo nome: a esposa de Cléofas (cf. Jo 19,25).
Lucas caracteriza Maria usando a expressão grega parthenos, que traduz a idéia de donzela ou virgem (v. 26). Inicialmente José não aparece em cena e o filho é apenas objeto de promessa. Num horizonte mais amplo, temos informações de que Maria era parente de Isabel (v. 36) e que José era da casa/família de Davi (v. 27). Pelas informações de que dispomos, parece que José não pertencia a um setor privilegiado, porquanto era trabalhador manual. Assim, a família de Nazaré que começa a aparecer em Lucas é uma família de aldeões, com poucos recursos econômicos.
Surpreendentemente, o anjo saúda Maria – uma jovem normal, como as outras – e conversa com ela, uma jovem desconhecida. Revelação de Deus a mulheres não é coisa muito comum no judaísmo! O mensageiro de Deus saúda Maria e declara que ela encontrou graça diante de Deus e que seria mãe. A primeira reação de Maria foi marcada pela perplexidade e pelo medo. Sua perplexidade se justifica pelo anúncio do nascimento de um filho antes de coabitar com José. O mensageiro disse que o Espírito Santo agiria sobre ela e que seu filho teria a força do Altíssimo e seria chamado Filho de Deus.
Não é pelo fato de seu nascimento ser extraordinário que Jesus seria Filho de Deus, mas é por ser Filho de Deus que seu nascimento deveria ser extraordinário. O nome do filho será Jesus (o Senhor é salvação), ou seja: ele realizará as esperanças messiânicas do povo de Israel. Ele será filho de Davi e Filho de Deus: realizará a esperança popular de um Messias davídico. Ele reinará sobre a "casa/família" de Jacó (v. 33).
Que características têm a Sagrada Família neste texto? Ela participa do anonimato e do menosprezo das famílias que vivem nos lugares mais remotos. Está ligada às esperanças messiânicas do povo. É cheia de graça e de encanto e agrada a Deus. Constitui-se a partir de um chamado e de uma missão recebidos de Deus. Está a serviço de Deus e da realização dos seus projetos. Como Jesus que, mais tarde, se revelará Messias-Servidor de Javé, Maria também é apresentada como Serva de Deus, inteiramente disponível para fazer sua vontade.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Unge-me, Senhor!

Senhor,
Unge minha cabeça para que os meus pensamentos saiam da fonte de teu ser, para encher-me com graça e paz.
Unge os meus olhos para que eu possa enxergar tua presença e providência calmamente.
Unge meus ouvidos para que eu possa escutar o grito dos pobres em volta de mim e o sussurro de tua Palavra.
Unge meus lábios para que eu possa proclamar a Boa Notícia de tua missão e o significado de Jesus Cristo.
Unge minhas mãos para ajudar a sarar muitas vidas que estão quebradas, para que eu possa fazer o bem, fazer o que eu devo, para trazer esperança ao desesperado.
Unge meus pés para caminhar no teu caminho, correr e nunca cansar, ficar firme para a justiça, sem medo.
Unge meu coração com calor e compaixão e uma generosidade genuína para todos os que estão necessitados.
Unge meu espírito para a missão, para que eu possa estender a mão do coração ao mundo inteiro ferido.
Unge-me por inteiro, ó Santo, para que eu também possa ser santo.
Unge-me para o serviço, para que eu possa ter a coragem de responder com todo o meu ser às demandas diárias de tua graça.
Ó Deus, Pai e Mãe da criação, fonte de toda a vida, pela força maternal do teu Espírito, fecunda os nossos trabalhos no seguimento do teu Filho Jesus e nos abençoa, agora e sempre.
Amém.
(Ir. Ana Roy)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Manhã do Natal

A paz para todos nasce da justiça de cada um.
(Is 52,7-10; Sl 97/98; Hb 1,1-6; Jo 1,1-18)
A festa da noite de ontem se prolongou madrugada adentro e na manhã de hoje tudo está mais silencioso. Aproveite-mos, pois, para compreender o sentido do Natal colocando entre parênteses os apelos e ofertas do mercado natalício e pedindo ajuda aos primeiros cristãos. Por trás do hino do primeiro capítulo do Evangelho segundo João e dos primeiros versículos da carta aos Hebreus está uma experiência concreta e uma profissão de fé amadurecida numa busca longa e intensa, em meio a conflitos e perseguições. O coração desta experiência proclamada como Boa Notícia é a manifestação da glória de Deus na vulnerabilidade da carne humana e, nela, a oferta de paz duradoura e de libertação graciosa e universal de Deus em favor de todos os seres humanos, indistintamente.
“E a Palavra se dez carne e veio habitar entre nós.”
Tudo parte da gruta de Belém e nela se sustenta. Mas não menos viva é a memória da vida inteira de Jesus, seu anúncio e sua ação polêmica e libertadora, sua condenação e morte na cruz dos proscritos. João tem isso presente quando nos fala da Palavra que estava junto de Deus e que era Deus, que é a luz que brilha e vence as trevas, que se faz carne e vem habitar entre nós, que torna visível o Deus invisível. E o mesmo ocorre com o autor da carta aos Hebreus, quando afirma que Jesus exprime o ser de Deus.
Recordemos a poética narração de Lucas, proclamada na celebração da vigília da noite passada. Forçados pelo Imperador Augusto, Maria e José tiveram que ir a Belém e, completado o tempo da gravidez e sem terem encontrado hospedagem, se abrigam numa estrebaria, onde Jesus é dado à luz. Proscritos pastores sabem do ocorrido e acorrem ao estábulo, onde encontram o casal e um recém-nascido envolto em panos e acomodado numa cocheira. Seria propriamente esta a glória de Deus?
“E a Luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la.”
Perguntemos aos irmãos e irmãs da primeira hora pelo sentido deste acontecimento histórico. Na carta aos Hebreus, a comunidade cristã, amadurecida às custas da perseguição e da perseverança, dá seu testemunho afirmando que através de Jesus, nascido na pobreza e perseguido pelos poderes políticos e religiosos, Deus nos falou de modo definitivo. Ele é a expressão da glória de Deus e o próprio dinamismo que sustenta as buscas de paz e de comunhão de todo o universo.
A comunidade joanina vai na mesma linha da comunicação, dizendo que na vida de Jesus é pronunciada definitivamente a Palavra divina: é uma Palavra que gera dinamismos de Vida que ilumina a humanidade; que vence as forças que a ela se opõem; que transforma os/as escravos/as em filhos/as. Nesta Palavra feita carne humana e hóspede do mundo, vemos a glória de Deus, o qual estabelece conosco uma aliança baseada na gratuidade e na verdade.
“A quantos a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos/as de Deus.”
As imagens e conceitos são vários e complementares. Prestemos atenção a três delas: Palavra, Vida e Graça. Enquanto Palavra, Jesus é a exteriorização da interioridade de Deus, e esse mistério interior não é uma lei, uma advertência ou uma doutrina, mas uma boa notícia que produz felicidade. A Palavra de Deus assume a carne humana e a vida histórica e corporal de Jesus como tenda na qual os homens e mulheres podem encontrar, tocar e acolher o próprio mistério de Deus.
O mesmo Jesus, filho de Maria e de José, que nasceu em Belém e viveu como carpinteiro em Nazaré, que reuniu discípulos/as e foi por eles abandonado em Jerusalém, é portador da Vida plena e eterna,  do bem viver desejado por todas as criaturas. Nele o bem viver ou a Vida é revelada e doada como comunhão profunda com o mistério de Deus, comunhão solidária com todas os pobres e as vítimas e comunhão graciosa com todas as criaturas.
Na pessoa e no caminho histórico de Jesus de Nazaré, vislumbramos também a Graça de Deus, graça manifestada e encarnada. Nele recebemos a boa notícia de que Deus não é um cobrador de dívidas ou um juiz frio e calculista, mas um irmão e um hóspede que se rege pela gratuidade e pelo dom. A lei e a cobrança implacáveis vêm das velhas instituições, mas a Graça e a Verdade nós as recebemos por Jesus Cristo. Nele, todos/as recebemos graças e mais graças... Ele mesmo é a graça e a gratuidade de Deus!
“Nós vimos a sua glória...”
Tanto a comunidade de João como a da carta aos Hebreus fala de Jesus de Nazaré como glória. “Ele é o explendor da glória do Pai, a expressão do seu ser”, diz a carta.  “Nós vimos a sua (da Palavra feita carne) glória, glória como do Filho único da parte do Pai”, diz João. O que esta expressão pode comunicar sobre o Filho de Deus que se revela no presépio de Belém, na carpintaria da Galiléia, na família de Nazaré e na via-crucis de Jerusalém?
Em hebraico, glória (kabôd: peso, valor, brilho) é uma palavra que exprime a importância e o valor interior de uma pessoa, que se revela nas ações e requer o respeito dos outros. Ver a glória de Deus significa testemunhar sua ação salvífica e libertadora, reconhecer sua santidade nos acontecimentos históricos.  A metáfora da luz é frequentemente usada para materializar a glória de Deus, como aparece no relato do nascimento de Jesus (cf. Lc 2,9).
A tradição cristã afirma com ousadia que a glória de Deus se manifesta de modo incomparável e insuperável na crucifixão de Jesus, na sua fidelidade radical e amorosa à humanidade oprimida. Sendo a cruz o desfecho de uma inteira vida de amor, podemos dizer que na humanidade de Jesus vemos a glória de Deus. E os discípulos/as de Jesus são glorificados/as na medida em que participarm do dinamismo do seu amor ou paixão pelo mundo. Eis nosso brilho, nosso peso, nosso valor.
 “Todos os confins da terra puderam ver a salvação.”
A liturgia natalina também nos ensina que universalidade e libertação são duas características essenciais do evento da encarnação do Filho de Deus. A festa do Natal de Jesus não pode ser reduzida a um evento voltado unicamente aos cristãos ou católicos, e menos ainda a um sentimento ou iluminação interior, bem ao gosto do individualismo e do misticismo pós-modernos. E não tem nada a ver também com as luzes coloridas e ofertas de consumo que abundam no mercado globalizado.
O profeta Isaías e o Salmo de meditação sublinham claramente tanto o caráter universal como a marca libertadora do nascimento de Jesus. Somos convidados a cantar porque Deus faz maravilhas, arregaça as manhas do seu braço santo e põe em movimento sua salvação. E são todos os confins da terra que vêem e experimentam esta salvação, e a terra inteira que é convocada a gritar, exultar e cantar hinos agradecidos. E João diz que todos quantos acolhem a Luz, podem se tornar filhos e filhas de Deus.
  “Que beleza, pelas montanhas, os passos de quem traz boas notícias...”
Mas tudo isso não pode ser apenas sermão monótono ou doutrina abstrata. A fé que não é experiência vital se torna ideologia escravizadora. Partindo de uma libertação vivida como esperança e experiência de graça, o profeta Isaías se delicia contemplando os passos de quem corre sobre as montanhas anunciando boas notícias a um povo dominado e desolado. Ele vislumbra os guardas cantando em coral e um povo em ruínas explodindo de alegria diante do mensageiro que traz um edito de paz.
Pois o Natal é também a boa e definitiva notícia de que Deus deseja e promove uma paz duradoura, para todos e em todos os lugares. Bento XVI nos lembra oportunamente que a paz é dom a ser recebido e realidade a ser construída mediante a compaixão e a solidariedade. “A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidade”, diz o Papa na sua mensagem para o Ano Novo.
“Vamos explodir de alegria...”
Diante da tua pequenez gloriosa, Deus Menino, ajoelhamo-nos eternamente agradecidos/as. É desta tua glória que todos necessitamos. É este brilho que todos/as buscamos de forma inconsciente e quase desesperada. Tu nos ensinas que é armando a tenda dos nossos sonhos e palavras em meio à humanidade peregrina que alcançamos a liberdade e a plena realização. Obrigado por esta lição pronunciada na nossa carne. Queremos ser filhos/as desta luz. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

Noite do Natal

Jesus Cristo é a Paz de Deus para todas as criaturas.
(Is 9,1-6; Sl 95/96; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14)
Percorremos o processo de quatro semanas vigiando, preparando, desgustando e escutando. O dia chegou e estamos com o coração leve e puro. Com os olhos limpos e os ouvidos abertos, estamos prontos/as a reconhecer e acolher a Presença de Deus que se manifesta do seu próprio jeito: na carne humana, nas estrebarias e periferias... No silêncio de um inocente que nos olha nos olhos e desperta em nós o que há de mais nobre: a capacidade de se enternecer e de cuidar; a generosidade de fazer-se dom e presente; o dinamismo que rompe com a tendência de fechar-se em si mesmo/a e na fugacidade do presente. Uma alegria inefável brota do encontro com a fineza de um Deus que se revela definitivamente amigo e benfeitor – filântropo diz Paulo – de todas as criaturas.
“Ele se entregou por nós...”
Um certo clima natalício envolve a todas as pessoas. E isso não vem apenas da publicidade que tenta vender tudo e todos. De repente redescobrimos o prazer da gratuidade, a alegria da simplicidade, o gosto da amizade. Trocamos cartões um pouco antiquados e mensagens high-tech. Gastamos um pouco daquilo que não está sobrando para comprar presentes bonitos e simples. E expressamos despudoradamente nosso agradecimento pelos pequenos dons e calorosos abraços que recebemos.
É o espirito do natal que toma conta de nós. Parentes que passam o ano distantes, envolvidos e ocupados com coisas muito e menos importantes acham um jeito de se encontrar. As refeições costumeiramente feitas às pressas, pressionadas que são pela ditadura dos deveres com horas marcadas, ocupam um tempo nobre nessa noite. E somos capazes de repartir generosamente algum alimento com os mais pobres, sem esperar pela sobra ou pelo toque da campainha.
As mensagens querem lembrar aquela notícia primeira que ecoou na fria noite dos campos de Belém: “Eu anuncio para vocês uma boa notícia que será uma grande alegria para todos...” Os presentes ajudam a não esquecer o presente maior de um Deus “que se entregou a si mesmo por nós”, que é Dom e Presença no meio de nós. E os encontros e visitas exprimem a visita definitiva de Deus que vem ao nosso encontro, irmão entre irmãos, hóspede querido e membro pleno da família humana.
“E isso vos servirá de sinal...”
O nascimento de Jesus ocorre no mundo dos pobres, à margem dos poderes romanos e judaicos, na periferia daquele mundo que pregava uma paz sustentada pelo medo. Os decretos oficiais põem José e Maria outra vez na estrada: garantem a cobrança dos impostos mas não a tiram a Família de Nazaré de sua pobreza. Aquela humilde família percorre um caminho em direção às raizes das esperanças populares e messiânicas: a família e origem do pastor Davi.
Enquanto o poder de César Augusto empurra a Sagrada Familia para a margem e o desconforto, os proscritos pastores dos arredores de Belém fazem desta familia o centro para onde converge sua atenção e no qual repousa a esperança que os encoraja e alegra. Naquela estrebaria ignota há mais luz que no brilho de Jerusalém e na sabedoria da Lei. Os mensageiros de Deus não estão presos ao Templo, mas juntos àqueles que, estando longe de tudo, vigiam os rebanhos, inclusive à noite.
A boa noticia, motivo da alegria à qual são convidados os pobres de todos os tempos, anuncia que nasceu Salvador na “periferia do mundo”. Os anjos fazem referência ao sinal de que isso aconteceu: um bebê deitado numa cocheira para animais, envolto em pobres panos. O sinal da “grande alegria para todo o povo” não são os anjos, nem a luz que os envolve, nem a música melodiosa que ressoa no céu; é a fragilidade de uma criança, acolhida por um casal migrante, trazida ao mundo por uma familia pobre e fiel que se colocou à escuta e à disposição de Deus e sua vontade.
“O chicote dos capatazes tu quebrastes...”
Para aqueles/as que crêem, o nascimento de Jesus é mais que um acontecimento do passado. Não se resume também a uma revelação que aponta para uma dimensao “sobrenatural” da vida ou a  para um evento que tem sentido apenas para o coração.  Com a ajuda do profeta Isaías descobrimos que a encarnação do Filho de Deus refulge como luz para quem caminha na escuridão, como a alegria da colheita para os camponeses, como a vitória dos fracos sobre o medo e a violência. O Natal é a passagem da opressão à liberdade, do medo à confiança, da dependência à emancipação.
A imagem da fogueira é muito sugestiva. Isaías imagina o povo reunido ao redor de uma grande foguera, celebrando a quebra da vara com que os senhores batiam nos escravos. Nessa mesma fogueira são queimados os unifomes e botas dos soldados, manchados de sangue e violência. É uma festa para saudar a Paz duradoura que chega com o fim da opressão. “Porque nasceu para nós um menino... Ele se chama conselheiro maravilhoso, Deus forte, Pai para sempre, Príncipe da paz...”
“E na terra, paz aos que são do seu agrado...”
O romantismo e a beleza da música nos envolve e nos inspira: “Pobrezinho nasceu em Belém. Eis na lapa Jesus, nosso bem. Dá-nos paz, ó Jesus!” O natal é a festa da paz. Paz entre as nações. Paz entre as Igrejas. Paz nas comunidades. Paz entre nas famílias. Paz na relação entre os seres humanos e as demais criaturas. Paz entre o céu e a terra. Paz onde há guerra e paz onde falta confiança, no norte e no sul, no oriente e no ocidente.
Paulo VI já ensinava que novo nome da paz é desenvolvimento, e Bento XVI também nos lembra que o caminho para a paz é a superação da pobreza através da solidariedade e da justiça. Muitos  recursos materiais e humanos hoje “são desviados dos projetos de desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais pobres e necessitados de ajuda, e empregados para as despesas militares e para os armamentos”, diz o Papa. A guerra fria deu lugar ao confronto entre o ocidente e o oriente médio.
Mas os povos originários da América Latina nos ensinam com sabedoria que a paz não se reduz ao equilíbrio de forças políticas ou a um sentimento interior. A paz se situa no coração da utopia ancestral de bem viver (sumak kawsay), que se realiza na convivência harmoniosa e equilibrada da pessoa com sua dimensão de interioridade e exterioridadem das pessoas entre si, das pessoas com a natureza como um todo. O bem ou o mal de uma espécie ou parte é sempre o bem ou o mal do conjunto todo.
 “E para a paz não há limites...”
Dos centros de poder –  da Jerusalém daquele ou de qualquer outro tempo –  mais cedo ou mais tarde se expandem crises perseguçiões. O caminho da paz passa por Belém, pela estrebaria, pela manjedoura. É para lá que apontam os anjos e é nessa direção que seguem os pastores e os magos. O caminho da paz passa pela solidariedade com os pobres, pela recuperação das virtudes humanas mais fundamentais como a hospitalidade, a solidariedade, a ternura, o cuidado com os mais frágeis.
A paz que não tem fim passa também pela comunidade eclesial. Nela nos encontramos com pessoas diferentes, descobrimos que somos membros diversos num único corpo e escutamos a Palavra sempre vive e criadora de Deus. Uma Palavra que nos confirma como filhos e filhas que não perdem essa dignidade por motivo nenhum. Uma Palavra que nos ajuda a compreender sempre de novo que a divindade se esconde na humanidade e com ela se identifica.
O caminho da paz efetiva passa hoje também por um consumo moderado, tanto de comida e bebida como de recursos não renováveis. Quantas famílias despertaram na manhã de dia de natal com a dolorida notícia da morte de um amigo ou parente, provocada pela irresponsabilidade de alguém que consumiu bebida demais?... E o que dizer das monstanhas de material descartável, restos de um natal mal entendido, jogados por todo o lado?
“A graça salvadora de Deus manifestou-se a toda a humanidade.”
Deus Menino, vivo na nossa frágil carne, filântropo do gênero humano: viemos te procurar e te encontramos repousando sob o olhar humano e cuidadoso de um casal humilde e surpreso. Parece-nos que te faltam tantas coisas, mas  nos ensinas a bem viver. Por isso, o que nos resta é apenas trocar presentes: tu nos dás a felicidade, a dignidade e a solidariedade que há muito perdemos nos corredores dos shopings, e nós te oferecemos a palha da nossa pequenez, a luz do nosso olhar e o calor que ainda resta nas nossas entranhas e no meio das pessoas que amamos. Acolhe, Jesus, nossos dons. Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma inesquecível noite de Natal

Este é o segundo testemunho do Pe. Júlio Maria de Lombaerde msf, missionário enviado ao Brasil em 1912. Depois de 6 meses de introdução à língua e aos costumes brasileiros, Pe. Júlio Maria celebrou sua primeira missa pública exatamente na noite do Natal de 1912, em Ceará-Mirin (RN). Com seus reconhecidos dotes literários e poéticos, relata o significado e o impacto desta experiência no seu jovem coração missionário. O texto faz parte do livro Diário Missionário do Pe. Júlio Maria (tradução do Pe. Demerval Alves Botelho SDN. O Lutador, Belo Horizonte, 1991, p. 125-127). Transcrevo-o como homenagem aos coirmãos que atuam nas fronteiras da missão e como convite para que todos celebremos com reverência e respeito profundos, onde quer que estejamos, o mistério da encarnação do amor de Deus.

Soa meia-noite. É a hora solene. A hora das realidades tão divinas quanto poéticas. Cessa a música e o eco repete o som dos últimos cantos. Faz-se um silêncio geral. Homens, mulheres e crianças vêm agrupar-se em semicirculo em torno do altar. Saindo da igreja a fim de dirigir-me para o altar, uma forte sensação percorreu-me todo o corpo, ao contemplar essa massa humana assentada a meus pés.
A Igreja está construída no alto de uma pequena colina, em declive suave e sem irregularidades no terreno. O altar tinha sido armado diante da porta da igreja, ficando assim no lugar ideal.
A meninada se agrupou em torno do altar. As mulheres, vestidas de branco, conforme o costume da terra, assentaram-se no chão. Atrás, de pé, os homens formavam uma espécie de muralha que nos separava do mundo visível e, ao mesmo tempo, constituía a guarda de honra do Emanuel que devia chegar. O céu estava sereno e parecia iluminar com complacência esse espetculo grandioso em sua simplicidade.
Não havia cantos, nem música e nem mesmo orações em comum. Nada de tudo aquilo que, na Europa, anima nossas cerimônias religiosas. Apenas uma mesa, que servia de altar; uma cortina vermelha, que cobria o fundo e os lados, formando o baldaquino; seis velas iluminando tudo; e, afinal, o padre vestido das indumentárias sagradas, tendo à sua frente uma multidão compacta que olha e reza, como se estivesse fascinada pelo espetáculo solene.
Eu mesmo estava impressionado com essa cena, quase como com a lembrança da hora sublime em que o Divino Infante iria descer entre minhas mãos. E, pensando como Ele desceu outrora, entre os braços de sua divina Mãe, comecei o Santo Sacrificio.
Após o Evangelho, voltei-me para o povo e, pela primeira vez desde minha chegada ao Brasil, exerci as funções de pregador. Depois de ter lido em alta voz a tradução portuguesa do Evangelho, tomei por tema o adorável mistério realizado nessa noite memorável e renovado todos os dias, durante o Sacrifício da Missa.
Esta oportunidade permitiu-me falar-lhes longa e detalhadamente sobre o mistério da Encarnação e da Eucaristia. Permitiu-me também fazê-los conhecer os desejos de Nosso Senhor, tão recomendado pelo nosso santo padre Pio X, de aproximar-se frequentemente da Mesa Sagrada. Escutavam-me com expectativa. Sentia seus corações suspensos a meus lábios.
Queridas almas, seria meu imenso desejo entregar-lhes todo o meu coração e toda a minha alma a fim de penetrá-los com este amor que o Divino Infante vem trazer à terra no mistério desse dia. Meus ardentes desejos eram pegar meu coração com as duas mãos e jogá-lo, transbordando de ternura e de ardor, para aquele povo assentado à minha frente, a fim de arrancá-lo desta terra e levá-lo ao amor que se irradia tão divinamente em volta da manjedoura. Mas fui forçado a me ater aos limites de meu assunto, sob pena de estropiar uma língua que eu ainda não dominava.
A impressão dessa noite silenciosa e tão cheia de mistérios deu à minha voz a capacidade de ser ouvida, sem dificuldade, por toda a multidão e repercutir nas casas que formavam, ao longe, o fundo do quadro. Jamais me esquecerei desse primeiro sermão em português: à meia-noite, ao ar livre, diante de um altar improvisado, de frente para todo um povo assentado e atento.
Mas sentia que não estava sozinho. Senti a divina Mãe de Jesus perto de mim. Sentia ela perto de cada uma dessas almas, para ouvi-las, dispô-las e penetrá-las da verdade que eu expunha. Via as lágrimas correrem nas faces bronzeadas dos meus ouvintes. Através dessas lágrimas e dessas emoções, parecia-me escutar o pulsar dos corações que se abriam à verdade, à luz e ao amor.
E os anjos da guarda punham-me nos lábios um tom de voz desconhecido e, no meu coração, emoções que não se traduziam em palavras. Sentia que formava com os meus ouvintes um só coração e uma só alma. E este coração era o de Jesus, em Belém, e esta alma era a alma da caridade que ama em Deus e para Deus.
Ó consolação gratificante para um coração de padre! Ver almas em lágrimas que a verdade faz brotar. Ver corações que se inflamam ao contato com o amor que sua palavra e suas próprias lágrimas fazem irradiar. Não, não existe nada de comparável aqui na terra!
Terminada a missa, homens, mulheres e crianças vieram beijar-me as mãos para manifestar seu reconhecimento e a felicidade que experimentavam e que seriam incapazes de expressar por palavras. Estavam irradiantes, e seus olhos continuavam a derramar lágrimas. E, no momento da despedida, mais de uma lágrima caiu-me sobre minhas mãos, como se dissessem: “Leva-me como testemunho de esperanças e como encorajamento para o futuro.”
Ó, sim! Levá-las-ei, e possa sua lembrança estimular-me num ministério sem dúvida difícil, mas que tem a força de iluminar as mais agradáveis esperanças e as mais inebriantes emoções.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um novo movimento de vida consagrada?

Entrada da Sala Magna da P. U. Urbaniana,
local de realização do Simposio

Hoje foi a jornada de encerramento do Simpósio que discutiu o futuro da vida consagrada, promovido pelo Claretianum e pelo Urbanianum, em Roma. Com uma assistência mais reduzida por causa da greve do transporte público, os/as assessores/as convidados/as nos ajudaram a refletir sobre novos institutos, uniões, fusões, supressões e novas formas de de vida consagrada. O Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, o brasileiro Dom João Braz de Aviz se fez presente na abertura.
A reflexão de fundo esteve sob a responsabilidade do religioso paulino e professor Giancarlo Rocca, que se esforçou para oferecer uma visão panorâmica do fenômeno, focalizando o período compreendido entre 1960 e 2010. Neste período, segundo os registros da Santa Sé, nascem 320 novos institutos de vida consagrada (especialmente nos países emergentes do ocidente). No mesmo lapso de tempo desaparecem em torno de 400 institutos, quase todos nascidos no século XIX.
Dom João Braz de Aviz na abertura do dia
Segundo Giancarlo Rocca, as novas comunidades nascem à sombra da crise e do declínio do modelo clássico de vida religiosa. Algumas características deste estilo de vida consagrada são: congregam homens e mulheres; não assumem os ministérios tradicionais (como educação, saúde e assistência social); promovem uma intensa e renovada vida fraterna; enfatizam a acolhida, a hospitalidade e a escuta; o apostolado e a missão são centrados na força irradiadora; apresentam fraca definição institucional.
Finalmente, a palavra foi dada  a convidados/as que vivem em primeira pessoa a aventura destas novas comunidades. O primeiro a falar foi Frei Roberto Fusco, membro da Fraternidade Franciscana Betânia, fundada na Itália nos anos 80, congregando homens e mulheres e reconhecida como instituto de vida consagrada em 1994. Em seguida falou a senhora Concetta Bonfante, consagrada focolarina e responsável internacional pelo processo de formação do Movimento Focolare.
Pessoalmente, eu alimentava uma grande expectativa sobre o tema de hoje. Infelizmente, a meu ver, a qualidade das colocações e do debate deixou bastante a desejar. O método do Simpósio não abre muitas possibilidades: o tempo é repleto de palestras que se sucedem, cada palestrante recebe um tempo muito curo e o espaço para a reação e a interação com os ouvintes é praticamente zero.
Itacir msf

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A presidente da CRB em visita a Roma

Ir. Marian Ambrosio IDP

Hoje não fui ao Simpósio sobre ao futuro da vida religiosa. Em vez disso, participei do encontro mensal dos/as Religiosos/as Brasileiros/as de Roma. Desta vez, tivemos a satisfação de ter entre nós a Ir. Marian Ambrósio IDP, presidente da Conferência dos/as Religiosos/as do Brasil. Ela está em visita à Sagrada Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica e reservou parte do seu precioso tempo para um encontro conosco.
Ir. Marian animou a todos/as com seu jeito descontraído, seu pensamento  intuitivo, sua espiritualidade profunda e sua visão clara sobre a vida religiosa no Brasil e os projetos que a Conferência está colocando em ação. E começou dizendo que veio Roma para dialogar com a hierarquia da Igreja, e está sentindo, por parte da Santa Sé, vivo interesse pela vida religiosa no Brasil.
Religiosos/as brasileiros/as presentes
A nossa presidente falou dos três projetos que a CRB do Brasil está levando para frente com muito ânimo e ardor: a) aprofundamento do sentido e das exigências da vida consagrada nos tempos atuais, (especialmente através de um Seminário para Superiores/as Maiores, em fevereiro de 2012); b) artitulação e complementaridade entre vida religiosa inserida e vida religiosa missionária (mediante o Fórum Sócio-Missionário, em setembro de 2012); c) requisitos e passos para a passagem dos projetos intercongregacionais para comunidades intercongregacionais.
Religiosos/as brasileiros/as presentes
Por último, provocada pelo interesse dos/as religiosos/as presentes, Ir. Marian falou brevemente sobre as novas comunidades de vida religiosa no Brasil. Para nossa satisfação, este desafio vem sendo enfrentado com prudência, coragem e sabedoria pela CRB. Até porque o próprio número de novas comunidades de consagração chama muito a atenção: são 625 diferentes comunidades, enquanto que as Congregações/Províncias clássicas afiliadas à CRB são apenas 519!
Itacir msf

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Qual futuro para a vida consagrada?

Participei do segundo dia do Simpósio sobre o futuro da vida consagrada. Os temas previstos para hoje eram: 1) O futuro é agora; 2) Olhar para o futuro, pois ainda faz sentido consagrar-se a Deus. Para o primeiro tema foram convidadas duas teólogas: Ir. Giselle Gómez (nicaraguense) e Ir. Antonietta Potente (ítalo-boliviana). O segundo tema foi confiado ao conhecidíssimo Pe. Amedeo Cencini (italiano).
Profetas, artistas, terapeutas e apaixonados
Ir. Giselle Gomez
De acordo com a Ir. Giselle, a vida consagrada tem como carisma essencial procurar e sinalizar a presença do Deus da vida na história, e isso quer dizer: acelerar o dinamismo do ano/tempo de graça de Deus em favor dos empobrecidos e marginalizados. Entretanto, os/as religiosos/as não podem esquecer que são apenas uma das tantas vocações que fazem a Igreja, e devemos estabelecer relações de aliança com todos os movimentos que promovem a vida.
A religiosa nicaraguense lembrou ainda que a vida religiosa nasceu no deserto e na periferia, e é ali que se esconde o seu futuro. Hoje precisamos tomar o pulso da história, compreender o tempo que vivemos e nos situar profeticamente diante dos diversos movimentos de protesto e de mudança. E desafia: Onde e como estamos presentes hoje? Quem são nossos interlocutores e parceiros/as?
Segundo a Ir. Giselle, mais que perguntar se a vida religiosa tem futuro, é preciso ressignificar nossa paixão por Deus e pela humanidade. O que importa é abrir-se às diversas sedes e fomes dos nossos irmãos e irmãs, formar-se para um conhecimento profundo e amoroso da realidade, abandonar a pretensão de ter respostas claras e doutrinas seguras. Para que a vida consagrada tenha futuro, os religiosos/as devem ser profetas, artistas, enamorados e terapeutas.
Deus não é mais propriedade exclusiva das religiões
Ir. Antonietta Potente
Ir. Antonieta Potente sublinhou que a dimensão de tempo acompanha a fé e, portanto, a vida religiosa. Mais ainda: a própria vida religiosa nasce de uma especifica experiência do tempo, de um discernimento sobre a história. Assim também hoje: se a vida consagrada quer se repensar e reprojetar, deve olhar ao redor e aprender ler o tempo que habita.
Para a teóloga dominicana que adotou a América Latina a pergunta mais importante não é pelo futuro, mas pelo presente. É preciso ler o que dizem os sinais do tempo. E são sutis os fios que tecem a trama existencial da história presente: a precariedade, a complexidade e a pluralidade da vida que habita o mundo; a busca constante de superação e de novos patamares de coexistência e interação; o humano desejo das pessoas de serem reconhecidas e tratadas como adultas...
Inspirada num relatório da ONU que afirma que a riqueza das nações é sua gente, Ir. Antonieta pergunta: enquanto congregações religiosas, podemos dizer que nossa riqueza são as pessoas consagradas e nossos povos? É nisso que reside nossa maior consolação, é este nosso tesouro? É inútil refletir sobre a vida religiosa sem olhar em torno, sem caminhar com o povo, que tem que reinventar a vida cotidianamente. É dele que a vida consagrada precisa aprender a se reinventar.
Finalmente, a vida religiosa se transforma somente quando é capaz de compreender que a mudança não é uma possibilidade ou uma opção, mas uma necessidade e uma urgência. Só merece sobreviver uma vida religiosa que interaja com o pluralismo religioso e cultural e que esteja disposta a abrir  novos caminhos ecoantropológicos. Deus não é mais propriedade das religiões, a e vida religiosa precisa aprender a encontrá-lo alhures.
Consagrar-se a Deus continua fazendo sentido?
O Pe. Cencini se empenhou em animar a assembléia a fixar o olhar no futuro que já começou e despertar a convicção que a consagração continua tendo sentido. E apresentou o velho Abraão, amigo de Deus, como ícone da vida consagrada de hoje: como ele, em nossa desolação e fragilidade, somos convidados a contemplar o céu e contar as estrelas, convictos de que só temos futuro em deus.
Pontificia Universidade Urbaniana, local do Simposio
Infelizmente, Amedeu Cencini não consegue se libertar de uma visão eurocêntrica e de teologia demasiadamente centrada na religião. Quando afirma polemicamente que o mundo de hoje não é pós-cristão mas pré-cristão, induz a pensar que é uma realidade a ser conquistada e civilizada. E quando assume e elogia a metáfora do “Pátio dos Gentios”, proposta por Bento XV como estratégia de uma nova evangelização, acaba considerando o mundo moderno como um sujeito inferior, como o eram os pagãos dentro do templo de Jerusalém.
Parece que pouco adianta sublinhar e enumerar apologeticamente as mil razões para consagrar-se a Deus hoje se deixamos de lado o diálogo com um mundo adulto e cioso de sua autonomia e abandonamos a intereção com os diversos movimentos nos quais a vida se reinventa a cada dia. E no qual Deus está presente e é buscado com outros nomes, numa outra linguagem.
Itacir msf

João da Cruz, poeta e místico

Hoje fazemos memória de João da Cruz. João nasceu em 1542, em Fontiveros, Espanha. Seu pai pertencia a uma família economicamente bem situada da cidade de Toledo e, por ter se casado com uma jovem de classe “inferior”, foi deserdado por seus pais e teve que trabalhar como tecelão.
Entre 1559 a 1563 João estudou Humanidades com os Jesuítas. Em 1563 ngressou na Ordem do Carmo, recebendo o nome de Frei João de São Matias. Tendo concluído seus estudos teológicos, foi ordenado sacerdote e celebrou sua Primeira Missa em 1567.
Decepcionado com o relaxamento da vida carmelitana, Frei João tentou passar para a Ordem dos Cartuxos mas, em Setembro de 1567, encontrou-se com Santa Teresa de Ávila. Ela lhe falou sobre o projeto de estender a Reforma da Ordem Carmelita também ao ramo masculino. Frei João aceitou o desafio e mudou o nome para João da Cruz. O projeto de voltar à mística religiosidade do deserto custou ao jovem Frei maus tratos físicos e difamações. Por causa disso, em 1577, esteve preso por oito meses, no cárcere de Toledo.
Depois de um itinirário de vida marcado pela pobreza e pela humilhação, durante o qual reconhece ter-se sentido abandonado por Deus mas também experimentado a chama viva de um amor sedutor e regenerador, morreu na noite de 13 para 14 de dezembro de 1591. Abaixo seguem três poemas que podem servir de aperitivo para saborear sua imensa e profunda obra mistica e poética.

A encarnação
Já que o tempo era chegado em que fazer-se devia
o resgate da esposa que em duro jugo servia, (...)
Nos amores perfeitos esta lei se requeria,
que se torne semelhante o amante a quem queria,
porque a maior semelhança mais deleite caberia;
o qual, por certo, em tua esposa grandemente cresceria
se te visse semelhante na carne que possuia.
Irei buscar minha esposa e sobre mim tomaria
suas fadigas e dores em que tanto padecia;
e para que tenha vida, eu por ela morreria,
e tirando-a das profundas, a ti a devolveria.

Cantico espiritual
Quando tu me fitavas, Teus olhos sua graça me infundiam;
E assim me sobreamavas e nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em ti viam.
Não queiras desprezar-me, porque,
se cor trigueira em mim achaste,
já podes ver-me agora, pois, desde que me olhaste,
a graça e a formosura em mim deixaste.


Chama viva de amor
Oh, chama viva de amor  que ternamente feres
de minha alma no mais profundo centro!
Pois nao és mais esquiva,  acaba já, se queres.
Ah, rompe a tela deste doce encontro! (...)
Oh, quão manso e amoroso,  despertas em meu seio,
onde tu só secretamente moras:
nesse aspirar gostoso, de bens e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!