domingo, 22 de janeiro de 2012

Pescadores de homens

A simples repetição de uma expressão, somada a um determinado contexto eclesial que condiciona a interpretação, pode esvasiar sua aderência à realidade, desviar sua perspectiva e até trair seu sentido fundamental. É o que acontece com duas frases centrais, propostas na liturgia deste terceiro domingo do tempo comum.

Refiro-me concretamente às seguintes expressões: “Convertei-vos e crede na Boa Nova” (Mc 1,15); “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mc 1,17). Ambas fazem parte, segundo o evangelho de Marcos, das primeiras palavras pronunciadas por Jesus Cristo. Portanto, palavras com sabor de novidade, essenciais, cheias de consequências.

“Convertei-vos e crede na Boa Nova!”

A primeira frase – “Convertei-vos e crede na Boa Nova” – está ligada indissoluvelmente àquela que a antecede: “Completou-se o tempo, e o reino de Deus está próximo”. Este anúncio que saiu da boca de Jesus e ressoou na periférica Galiléia, tem claro sabor de uma boa notícia: o tempo amadureceu, a espera chegou ao fim e Deus toma nas mãos as rédeas da história – usurpadas violentamente pelos poderes imperiais de todo tipo – para fazer justiça aos oprimidos.

Mas por quê a recepção de uma boa notícia como esta exige fé e conversão? Primeiro, porque nossa tendência é postergar a intervenção libertadora de Deus para um futuro indeterminado ou situá-la no âmbito nebuloso do coração, da alma ou do céu. Segundo, porque sempre imaginamos que Deus age sem recorrer a mediações humanas ou, no máximo, recorrendo à força dos poderosos.

Jesus associa à intervenção libertadora de Deus sua própria e frágil ação, inclusive a paixão na cruz, e a ação de pessoas absolutamente comuns e desprezíveis, como aquelas duas duplas de pescadores galileus. Reconhecer e aceitar que Deus realiza seu reinado no mundo neste momento da história e mediante pessoas deste nível só é possível no horizonte da fé e da mudança radical de mentalidade.

“Farei de vós pescadores de homens...”

A segunda frase em questão – “e farei de vos pescadores de homens” – precisa ser libertada de um contexto hermenêutico determinado pelas demandas da instituição eclesiástica e condicionado por um romantismo sem raízes históricas. E precisa ser colocado em relação com a perspectiva profética e com a própria ação de Jesus.

O profeta Jeremias fala em pescar e caçar o povo no sentido de  libertá-lo das mãos dos opressores e de levá-lo de volta à sua terra (cf. Jer 16,16-18). A seu modo, o profeta Ezequiel ironiza e ameaça o poder do rei do Egito, que escraviza de novo os hebreus: “Cravarei arpões no seu queixo” e “puxarei você para fora do rio com todos os peixes grudados nas suas escamas” (cf. Ez 29,1-16). E o profeta Amós, falando contra a elite da Samaria, diz que vai chegar o dia em que ela vai ser “carregada com ganchos e seus filhos com arpões” (cf. Am 4,1-3).

Fica claro que a pesca é uma metáfora que ilustra o julgamento de Deus, sua ação revolucionária de libertar os oprimidos e meter na cadeia os opressores! Se, por um lado, a ação de Jesus dá visão aos cegos ver, passos aos paralíticos, ouvidos aos surdos, vida aos mortos, pureza aos leprosos e boas noticias aos pobres (cf. Lc 4,18-19; 7,18-23), por outro, dispersa os que têm planos orgulhosos, derruba os poderosos dos seus tronos, despede os ricos de mãos vazias, dá o primeiro lugar aos últimos e põe os primeiros no fim da fila (cf. Lc 1,46-56; Lc 13,30). “Pois o Senhor ama o seu povo, enfeita os humildes com a vitória” e os chama a “prender com correntes seus reis, seus nobres com grilhões de ferro” (cf. Sl 149,4.8).

Parece incrível, mas é para esta obra magnífica e surpreendente que Jesus Cristo convida aqueles pescadores galileus, dando-lhes prioridade frente a tantos outros possíveis agentes. E é nesta mesma ação libertadora e regeneradora que ele alista todos/as os/as que em seu nome são batizados/as.

Será que este projeto tem futuro? Convertamo-nos e acreditemos nesta boa notícia!
Itacir Brassiani msf

sábado, 21 de janeiro de 2012

Muros

O Muro de Berlim era a notícia de cada dia. Da manhã à noite líamos, víamos, escutávamos: o Muro da Vergonha, o Muro da Infâmia, a Cortina de Ferro...
Finalmente, esse muro, que merecia cair, caiu. Mas outros muros brotaram, e continuam brotando, no mundo. Embora sejam muito maiores que o de Berlim, deles fala-se pouco ou não se fala nada.

Pouco se fala do muro que os Estados Unidos estão erguendo na fronteira mexicana, e pouco se fala das cercas de arame farpado de Ceuta e Melilla.

Quase nada se fala do muro da Cisjordânia, que perpetua a ocupação israelita de terras palestinas e será quinze vezes mais longo que o Muro de Berlim, e nada, nada de nada, se fala do Muro do Marrocos, que perpetua o roubo da pátria saharaui pelo reino marroquino e mede sessenta vezes mais que o Muro de Berlim.

Por que será que há muros tão altissonantes e muros tão mudos?

(Eduardo Galeno, Espelhos, L&PM, 2008, p. 312)

A Sagrada Família segundo os Evangelhos (11)

Marcos 3,31-35: Chegaram a mãe e os irmãos de Jesus...

Uma reflexão séria e equilibrada sobre a Sagrada Família na Sagrada Escritura não pode se limitar às narrativas da infância de Jesus. É absolutamente necessário contemplar também os atos da sua vida pública, especialmente aqueles relacionados a Nazaré, onde ele teve sua concepção, formação e crescimento. Vejamos, pois, brevemente dois textos sobre a Sagrada Família no Evangelho segundo Marcos.

Marcos escreve seu Evangelho para responder à pergunta que interroga ‘quem é Jesus?’ Os relatos das ações, movimentos e  palavras de Jesus servem para responder a essa pergunta. Sob a convicção de que Jesus é o Messias e Filho de Deus, Marcos mostra como a prática de Jesus realiza o reinado de Deus e transforma radicalmente as relações humanas: do poder ao serviço; do comércio à partilha; da alienação à atitude de escuta e envolvimento com a realidade; etc. Depois de uma breve ‘apresentação do messias’, o evangelista descreve a cegueira e a resistência das autoridades (1,14-­3,6), a cegueira e a resistência do mundo (2,7-6,6), a cegueira e a resistência dos discípulos (6,7-­8,26), o caminho do discipulado (8,27­-10,52), o conflito decisivo com a ideologia do templo (11,1­13,36) e o desfecho do conflito (14,1­-16,8)

Dentro da seção ‘cegueira e resistência do mundo’ (cf. Mc 2,7-6,6) ou do ministério de Jesus na Galiléia, temos a perícope que retrata um momento tenso entre Jesus e seus familiares (3,31-35). De volta para casa, depois de alguns dias de intensa e tensa atividade em favor dos excluídos da cidadania de Israel, Jesus não tinha tempo sequer para se alimentar, muito menos para ficar com sua família. A multidão invadia a casa e perturbava o convívio familiar.

A ação de Jesus desconcertava e provocava tanta surpresa que a rejeição foi crescendo e até seus familiares ficaram contrariados (v. 21). Sua família temia que ele estivesse fora de si. (O evangelista João também registra a suspeita, levantada pelas autoridades de Jerusalém, de que Jesus tivesse enlouquecido: cf. Jo 7,20; 8,48.49.52). e receava pela sua segurança. Queria pedir para que ele abandonasse a missão. Entretanto, a cautela dos familiares chegou tarde, pois os investigadores do governo já tinham vindo da capital e estavam prontos a levantar calúnias e acusações. Acusavam­no de estar possuído por um demônio.

O v. 31 informa que "chegaram a mãe e os irmãos de Jesus" (literalmente, "os que pertenciam a ele"). É uma referência clara à sua família, mas não podemos esquecer aqui que o conceito judaico de família é mais amplo que a família nuclear moderna. Eles estão impressionados com a rigidez mental (ou obsessão) de Jesus em relação à missão. A família tinha a impressão de que Jesus estava preparando a própria ruína e sentia necessidade de defender a reputação da família.

Não esqueçamos que a família era um dos eixos centrais da sociedade judaica, na medida em que determinava a personalidade e a identidade dos seus membros, controlava a vocação e facilitava a socialização. Mas o parentesco era também a coluna dorsal da própria ordem social que Jesus luta para derrubar. Por isso o estranhamento entre Jesus e sua família era mútuo: a família não aceitava sua missão e Jesus se recusava a aceitar o parentesco como limite.

O texto informa também que os familiares de Jesus "ficaram do lado de fora e mandaram chamá­lo" (a expressão original é mais forte, e traduz a idéia de "prender", e é a mesma expressão que encontramos em Mc 6,17; 12,12; 14,1.44.46.49.51), enquanto havia um outro grupo de pessoas que "estavam sentadas ao seu redor". É uma alusão ao grupo dos que não aceitam sua mensagem e sua ação e ao grupo dos que aderem a ele e se fazem discípulos. Os familiares nem sequer se aproximaram, e mandaram recado através de terceiros. Jesus, por sua vez, não os atendeu nem respondeu diretamente, revelando um tratamento rude e desconcertante.

Na sua resposta, Jesus afirma um círculo familiar mais aberto e amplo. Olhando para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor, declarou: "Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (v. 35). Sua verdadeira família é formada por aqueles que realizam na própria vida a vontade de Deus, que prosseguem sua missão. A família deve ser como um porto de onde o navio parte e não como uma doca onde lança raízes e se amarra. Jesus propõe um novo modelo familiar, baseado na obediência a Deus e não ao patriarca; repudia a velha instituição familiar patriarcal e abre caminho para uma nova família. A unidade fundamental do reino de Deus será a nova família, a comunidade dos discípulos e discípulas.

Os familiares de Jesus (sua mãe inclusive) precisam aprender com ele que a própria vida familiar está em função do estabelecimento do Reino de Deus, e não há nada mais urgente e importante que a aceleração da sua vinda. Aqui a família de Nazaré é interpelada à conversão, convocada ao discipulado, chamada a sentar ao redor de Jesus e centrar-se nele, escutar e praticar sua palavra, a aprender com a comunidade daqueles que acreditam.
Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

3° Domingo do Tempo Comum

Um outro mundo é possível: acreditem nessa boa notícia!
(Jn 3,1-5.10; Sl 24/25; 1Cor 7,29-31; Mc 1,14-20)
Como não lembrar, no início do tempo comum e em pleno período de férias, o evento do Fórum Social Mundial? Há mais de uma década ele nascia como um grito visceralmente evangélico: ‘Um outro mundo é possível’. E desde então o mundo não é mais o mesmo! As vozes e as mãos que anunciam e tecem alternativas se uniram e o mundo de Davos a contra-gosto reconheceu sua existência. Como não ver nesse grande laboratório de diversidade e de alternativas um eco daquilo que aconteceu às margens do mar da Galiléia dois mil anos atrás? As palavras são outras, mas a perspectiva é a mesma: “O Reino de Deus está próximo! Convertam-se e acreditem nessa boa notícia!” E esse grito reuniu discípulos/as, espalhou sementes, gerou alternativas e ainda hoje nos desperta do sono letárgico de um mundo cheio de produtores, distribuidores e consumidores, mas carente de pessoas plenamente  humanas e cidadãs.
“Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo!”
O cristianismo se tornou o maior movimento religioso do Ocidente, não obstante o constante crescimento do islamismo. Sua influência é tal que o mundo inteiro acabou aceitando a divisão da história em antes e depois de Jesus Cristo. Mas em nome dele, algumas ou muitas barbaridades foram cometidas: cruzadas, destruição dos povos latino-americanos, inquisição, guerras de ontem e de hoje, marginalização e extermínio de culturas, etc.
Infelizmente, há outras perversões em curso, algumas delas com cheiro e sabor de boa piedade. Como avaliar o mal produzido pelo esquecimento da dimensão política e social da fé em Jesus Cristo? Como não chamar de traição a identificação pura e simples do cristianismo com a cultura dominante, masculina, branca e ocidental? Como reparar o mal provocado por uma espiritualidade que reduz Jesus Cristo a um pregador da vida depois da morte, e a fé a uma questão privada e íntima?
É bem outra coisa o que ouvimos no Evangelho. A primeira palavra que sai da boca de Jesus, o anúncio que resume sua pessoa e sua missão é: “O tempo se cumpriu: o Reino de Deus está próximo!” Ao lançar mão dessas palavras Jesus sabia da força que tinham no imaginário do seu povo. Com este conceito se anunciava o início do novo céu e da nova terra, o começo de uma nova sociedade, na qual idosos e crianças, trabalhadores do campo e da cidade teriam lugar e seriam tratados como gente (cf. Is 65,17-25; Zc 8,1-23). Nada mais longe disso que uma inócua paz para os corações...
“Caminhando à beira do lago da Galiléia, Jesus viu Simão e o seu irmão André...”
O Reino de Deus era uma esperança que os profetas de turno se encarregavam de mater viva. Nos tempos de êxito ou de fracasso político-insitucional essa esperança quase desaparecia, sufocada pela ânsia de poder ou desmentida pela dura realidade. Mas sua semente promissora era teimosa e cuidadosamente guardada e cultivada pelos pobres de Deus que esperavam o ‘Dia do Senhor’. Nenhum reino, por mais poderoso que fosse, pode convencer o povo de que o fim da história havia chegado.
O anúncio do Reino de Deus realizado por Jesus apresenta pelo menos duas novidades: ele desloca o tempo do futuro para o presente; e estabelece cada pessoa humana como seu protagonista. Jesus não anuncia o ‘novo céu e a nova terra’ para um tempo indeterminado, num futuro distante e num lugar incerto, mas diz que o tempo de espera terminou e que esta realidade está próxima do povo palestino. A expressão ‘está próximo’ indica que o reino está batendo à porta, é iminente.
Por outro lado, mesmo mantendo o princípio de que o reino é de Deus, Jesus não atribui sua realização exclusivamente a Deus ou a si mesmo. Certo, ele tem o papel de protagonsita, mas também associa a si homens e mulheres que levam o Reino de Deus adiante. O Reino é tanto mais de Deus quanto mais tiver como protagonistas homens e mulheres comuns, livres e libertadores, despojados e solidários. É na ação de libertar que as pessoas se tornam livres e Deus reina.
“Segui-me...”
É por isso que, depois de fazer ressoar seu anúncio e de pedir o engajamento dos seus ouvintes – “convertam-se e acreditem nessa boa notícia!” – Jesus chama os primeiros discípulos. O pré-requisito é a conversão, a ruptura com o modo de pensar que ensina que o mundo não tem jeito, que a opressão sempre existiu e sempre existirá, que a fé não tem nada a ver com a política, e assim por diante. Para acreditar que um outro mundo é possível é nessário mudar os esquemas mentais, converter-se.
Caminhando às margens do mar da Galiléia Jesus vê Simão, André, Tiago e João e os convida a ir com ele, a se tornarem discípulos e aprendizes. Os quatro são pescadores, o que significa que têm um nível um pouco acima da pobreza. Mas são trabalhadores comuns de uma região marginal e suspeita, o que significa que o Reino de Deus não é uma espécie de guerra santa ou uma tarefa que supõe muito saber e grande poder. Deus reina quando os calados falam, os passivos agem, os pobres se dão as mãos...
“E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram.”
Para seguir Jesus e mudar seu esquema mental, aquele quarteto teve que abandonar o trabalho e distanciar-se da família. Seguir o caminho do Reino é uma decisão que exige rupturas, e a primeira delas é com a segurança econômica. Por mais humilde que fosse, o trabalho de pescador oferecia uma certa segurança econômica, inclusive poder sobre empregados, como é o caso de Tiago e João. Com isso, eles rompem também com a sustentação do sistema opressor através do pagamento de impostos!
Mas, em seguida, os discípulos rompem com a segurança social dada pela família. Deixando o pai, eles estão como que rompendo com um modelo de família centrado na figura e no poder masculino e abrindo-se para novas relações, menos piramidais e mais fraternas. Rompendo com a ordem sócio-econômica dominante, os discípulos entram na escola de Jesus e começam a assimilar um novo pensar e um novo agir. Em linguagem de hoje, os discípulos são inseridos numa prática social alternativa.
“E eu farei de vós pescadores de homens.”
Aceitar o convite e seguir Jesus Cristo é uma decisão inteligente e  exigente. Inteligente porque supõe um claro discernimento sobre o caminho da realização pessoal e da libertação social pelas quais ansiamos ardentemente. Exigente porque implica em deixar o cômodo mundo privado e seus interesses estreitos e arriscar-se no tenso e disputado espaço público, tomando partido em favor dos pobres e, quando necessário, contra os poderosos e seus aliados.
É isso que significa originalmente a surpreendente expressão “pescadores de homens”. Jeremias fala em ‘pescar’ e ‘caçar’ o povo libertando-o das mãos dos opressores para levá-lo de volta à sua terra (cf. Jer 16,16-18). Ezequiel ironiza e ameaça o poder do rei do Egito, que escraviza os hebreus: “Cravarei arpões no seu queixo” e “puxarei você para fora do rio com todos os peixes grudados nas suas escamas” (cf. Ez 29,1-16). Falando contra a elite da Samaria, Amós diz que vai chegar o dia em que ela vai ser “carregada com ganchos e seus filhos com arpões” (cf. Am 4,1-3). A pesca é o julgamento de Deus!
Assim, para não romantizar ou espiritualizar apressadamente a força dessa expressão, precisamos colocá-la no seu devido lugar, ou seja: na ação de criticar e mudar a ordem de poder que privilegia uma minoria à custa do sofrimento de muitos, enfrentando seus defensores. Estabelecendo os discípulos como “pescadores de homens” Jesus os compromete nessa ação de barrar o poder dos dominadores e reunir os oprimidos como povo, com memória, articulação e utopia. Tornar-se pescador de gente significa dar continuidade àquilo que o próprio estava fazendo.
“Pois a figura deste mundo passa...”
Deus pai e mãe, fonte e destino dos nossos sonhos e do bom viver que humanidade busca, às vezes de modo inseguro e incerto: Ensina-nos a compreender que a figura deste mundo, com todas as suas propostas de prazer, bem-estar e poder auto-referencializados não tem consistência nem  futuro. Ajuda-nos a descobrir com alegria que tudo câmbia, e que um outro mundo está nascendo nas mil ações dos discípulos e discípulas do teu Filho. Cura e abre nossos ouvidos, a fim de que sejamos capazes de ouvir a Boa Notícia de que o teu Reino está próximo. Envia o vento do teu Espírito para mudar nossos rígidos e medrosos sistemas mentais e dinamizar a necessária ruptura com as amarras que reciclam os poderes moribundos. Faz da tua Igreja uma comunidade de pescadores/as de gente, de servidores/as do teu juízo crítico e libertador sobre os sistemas deste mundo. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

3° domingo do tempo comum

Um outro mundo é possível: acreditem nessa boa notícia!
(Jn 3,1-5.10; Sl 24/25; 1Cor 7,29-31; Mc 1,14-20)
Como não lembrar, no início do tempo comum e em pleno período de férias, o evento do Fórum Social Mundial? Há mais de uma década ele nascia como um grito visceralmente evangélico: ‘Um outro mundo é possível’. E desde então o mundo não é mais o mesmo! As vozes e as mãos que anunciam e tecem alternativas se uniram e o mundo de Davos a contra-gosto reconheceu sua existência. Como não ver nesse grande laboratório de diversidade e de alternativas um eco daquilo que aconteceu às margens do mar da Galiléia dois mil anos atrás? As palavras são outras, mas a perspectiva é a mesma: “O Reino de Deus está próximo! Convertam-se e acreditem nessa boa notícia!” E esse grito reuniu discípulos/as, espalhou sementes, gerou alternativas e ainda hoje nos desperta do sono letárgico de um mundo cheio de produtores, distribuidores e consumidores, mas carente de pessoas plenamente  humanas e cidadãs.
“Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo!”
O cristianismo se tornou o maior movimento religioso do Ocidente, não obstante o constante crescimento do islamismo. Sua influência é tal que o mundo inteiro acabou aceitando a divisão da história em antes e depois de Jesus Cristo. Mas em nome dele, algumas ou muitas barbaridades foram cometidas: cruzadas, destruição dos povos latino-americanos, inquisição, guerras de ontem e de hoje, marginalização e extermínio de culturas, etc.
Infelizmente, há outras perversões em curso, algumas delas com cheiro e sabor de boa piedade. Como avaliar o mal produzido pelo esquecimento da dimensão política e social da fé em Jesus Cristo? Como não chamar de traição a identificação pura e simples do cristianismo com a cultura dominante, masculina, branca e ocidental? Como reparar o mal provocado por uma espiritualidade que reduz Jesus Cristo a um pregador da vida depois da morte, e a fé a uma questão privada e íntima?
É bem outra coisa o que ouvimos no Evangelho. A primeira palavra que sai da boca de Jesus, o anúncio que resume sua pessoa e sua missão é: “O tempo se cumpriu: o Reino de Deus está próximo!” Ao lançar mão dessas palavras Jesus sabia da força que tinham no imaginário do seu povo. Com este conceito se anunciava o início do novo céu e da nova terra, o começo de uma nova sociedade, na qual idosos e crianças, trabalhadores do campo e da cidade teriam lugar e seriam tratados como gente (cf. Is 65,17-25; Zc 8,1-23). Nada mais longe disso que uma inócua paz para os corações...
“Caminhando à beira do lago da Galiléia, Jesus viu Simão e o seu irmão André...”
O Reino de Deus era uma esperança que os profetas de turno se encarregavam de mater viva. Nos tempos de êxito ou de fracasso político-insitucional essa esperança quase desaparecia, sufocada pela ânsia de poder ou desmentida pela dura realidade. Mas sua semente promissora era teimosa e cuidadosamente guardada e cultivada pelos pobres de Deus que esperavam o ‘Dia do Senhor’. Nenhum reino, por mais poderoso que fosse, pode convencer o povo de que o fim da história havia chegado.
O anúncio do Reino de Deus realizado por Jesus apresenta pelo menos duas novidades: ele desloca o tempo do futuro para o presente; e estabelece cada pessoa humana como seu protagonista. Jesus não anuncia o ‘novo céu e a nova terra’ para um tempo indeterminado, num futuro distante e num lugar incerto, mas diz que o tempo de espera terminou e que esta realidade está próxima do povo palestino. A expressão ‘está próximo’ indica que o reino está batendo à porta, é iminente.
Por outro lado, mesmo mantendo o princípio de que o reino é de Deus, Jesus não atribui sua realização exclusivamente a Deus ou a si mesmo. Certo, ele tem o papel de protagonsita, mas também associa a si homens e mulheres que levam o Reino de Deus adiante. O Reino é tanto mais de Deus quanto mais tiver como protagonistas homens e mulheres comuns, livres e libertadores, despojados e solidários. É na ação de libertar que as pessoas se tornam livres e Deus reina.
“Segui-me...”
É por isso que, depois de fazer ressoar seu anúncio e de pedir o engajamento dos seus ouvintes – “convertam-se e acreditem nessa boa notícia!” – Jesus chama os primeiros discípulos. O pré-requisito é a conversão, a ruptura com o modo de pensar que ensina que o mundo não tem jeito, que a opressão sempre existiu e sempre existirá, que a fé não tem nada a ver com a política, e assim por diante. Para acreditar que um outro mundo é possível é nessário mudar os esquemas mentais, converter-se.
Caminhando às margens do mar da Galiléia Jesus vê Simão, André, Tiago e João e os convida a ir com ele, a se tornarem discípulos e aprendizes. Os quatro são pescadores, o que significa que têm um nível um pouco acima da pobreza. Mas são trabalhadores comuns de uma região marginal e suspeita, o que significa que o Reino de Deus não é uma espécie de guerra santa ou uma tarefa que supõe muito saber e grande poder. Deus reina quando os calados falam, os passivos agem, os pobres se dão as mãos...
“E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram.”
Para seguir Jesus e mudar seu esquema mental, aquele quarteto teve que abandonar o trabalho e distanciar-se da família. Seguir o caminho do Reino é uma decisão que exige rupturas, e a primeira delas é com a segurança econômica. Por mais humilde que fosse, o trabalho de pescador oferecia uma certa segurança econômica, inclusive poder sobre empregados, como é o caso de Tiago e João. Com isso, eles rompem também com a sustentação do sistema opressor através do pagamento de impostos!
Mas, em seguida, os discípulos rompem com a segurança social dada pela família. Deixando o pai, eles estão como que rompendo com um modelo de família centrado na figura e no poder masculino e abrindo-se para novas relações, menos piramidais e mais fraternas. Rompendo com a ordem sócio-econômica dominante, os discípulos entram na escola de Jesus e começam a assimilar um novo pensar e um novo agir. Em linguagem de hoje, os discípulos são inseridos numa prática social alternativa.
“E eu farei de vós pescadores de homens.”
Aceitar o convite e seguir Jesus Cristo é uma decisão inteligente e  exigente. Inteligente porque supõe um claro discernimento sobre o caminho da realização pessoal e da libertação social pelas quais ansiamos ardentemente. Exigente porque implica em deixar o cômodo mundo privado e seus interesses estreitos e arriscar-se no tenso e disputado espaço público, tomando partido em favor dos pobres e, quando necessário, contra os poderosos e seus aliados.
É isso que significa originalmente a surpreendente expressão “pescadores de homens”. Jeremias fala em ‘pescar’ e ‘caçar’ o povo libertando-o das mãos dos opressores para levá-lo de volta à sua terra (cf. Jer 16,16-18). Ezequiel ironiza e ameaça o poder do rei do Egito, que escraviza os hebreus: “Cravarei arpões no seu queixo” e “puxarei você para fora do rio com todos os peixes grudados nas suas escamas” (cf. Ez 29,1-16). Falando contra a elite da Samaria, Amós diz que vai chegar o dia em que ela vai ser “carregada com ganchos e seus filhos com arpões” (cf. Am 4,1-3). A pesca é o julgamento de Deus!
Assim, para não romantizar ou espiritualizar apressadamente a força dessa expressão, precisamos colocá-la no seu devido lugar, ou seja: na ação de criticar e mudar a ordem de poder que privilegia uma minoria à custa do sofrimento de muitos, enfrentando seus defensores. Estabelecendo os discípulos como “pescadores de homens” Jesus os compromete nessa ação de barrar o poder dos dominadores e reunir os oprimidos como povo, com memória, articulação e utopia. Tornar-se pescador de gente significa dar continuidade àquilo que o próprio estava fazendo.
“Pois a figura deste mundo passa...”
Deus pai e mãe, fonte e destino dos nossos sonhos e do bom viver que humanidade busca, às vezes de modo inseguro e incerto: Ensina-nos a compreender que a figura deste mundo, com todas as suas propostas de prazer, bem-estar e poder auto-referencializados não tem consistência nem  futuro. Ajuda-nos a descobrir com alegria que tudo câmbia, e que um outro mundo está nascendo nas mil ações dos discípulos e discípulas do teu Filho. Cura e abre nossos ouvidos, a fim de que sejamos capazes de ouvir a Boa Notícia de que o teu Reino está próximo. Envia o vento do teu Espírito para mudar nossos rígidos e medrosos sistemas mentais e dinamizar a necessária ruptura com as amarras que reciclam os poderes moribundos. Faz da tua Igreja uma comunidade de pescadores/as de gente, de servidores/as do teu juízo crítico e libertador sobre os sistemas deste mundo. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

domingo, 15 de janeiro de 2012

Jornada Mundial dos Migrantes (15 de janeiro)

Salmo 143 rezado por un migrante

Dios mío, creador del cielo y la tierra, oye mi oración, atiende mi súplica.
Respóndeme por tu fidelidad y tu justicia.
Solamente pido que tu justicia sea hecha.
Soy tu hijo, soy tu hija.
Busco solo una oportunidad para proveer a mi familia de comida, ropa, techo, seguridad.
En el lugar de donde vengo, estas oportunidades son muy limitadas.
Podría trabajar una semana entera y aun no tener suficiente.
¿Es esto justo, Señor?

En busca de oportunidades, cruzo fronteras creadas por hombres.
Viajo a través de ríos y desiertos desafiando enfermedad, deshidratación, aun la muerte.
Al cruzar la frontera, me vuelvo invisible.
Tengo dos o tres trabajos que ni siquiera pagan salario mínimo.
Apenas tengo tiempo para dormir.

Dame descanso, Señor.
Oye mi suplica, respóndeme por tu justicia.
Hay muchos que no me ven como hijo de Dios sino como un extra terrestre.
No quieren reconocer mi valor y dignidad como criatura tuya.
Señor, ante ti nadie puede alegar inocencia, pues todos hemos pecado.
Perdónanos Señor.

El enemigo me persigue, el enemigo de la justicia.
El enemigo de nuestra común humanidad.
Huyo hacia las sombras, habito en las tinieblas.
Viajo por tierra estéril buscando oportunidad.
¿Dónde estás cuando me veo forzado a hacer este viaje?
¿Dónde estás cuando me persiguen por ello?
¿Dónde estás, Dios mío?
Escucha mis ruegos, oye mi oración.

Este país fue fundado y ha prosperado por la labor de inmigrantes como yo.
Aunque este país ha excluido a algunos, eventualmente ha visto el error de sus acciones.
La historia de este país y tu obra, Señor, me ayudan a saber que no siempre seré perseguido. Corazones han sido cambiados, actitudes han sido cambiadas.

Escucha mis ruegos, oye mi oración.
Extiendo mis manos y mi alma, esperando que me bendigas haciéndome parte de esta comunidad.
Extiendo mis manos, esperando aquello que se me ha prometió: un futuro, una esperanza.
Mi alma, como el desierto que cruzo, está sedienta.
¿Por cuánto tiempo, Señor?
Empápame con la dignidad de ser reconocido como lo que soy: un hermano, una hermana, un hijo o hija de Dios.
Manda lluvias, Señor, que sacien la sed de mi alma.
Manda lluvias, Señor.
Escucha mis ruegos, oye mi oración.

Hay familias separadas.
Pasan muchos años sin verse por este sistema quebrado.
Al pasar los años, mi hijo va creciendo y lo conozco menos y menos.
Mi espíritu desmaya.
No he visto a mi madre en cinco años.
Mi esperanza disminuye.

Escucha mis ruegos, oye mi oración.
No escondas de mí tu rostro, para evitar que baje a la sepultura.
Tengo un hijo ciudadano de esta gran tierra que necesita de los recursos disponibles aquí.
En cambio, yo no tengo derecho a estar aquí con él, ayudándolo en su jornada.
Me persiguen para echarme fuera.

En ti me refugio.
Tú me has permitido llegar hasta aquí y, por eso, te doy gracias.
Pero Señor, estoy cansado.
Estoy cansado de ser perseguido.
Estoy cansada de no ser reconocida.
Estoy cansado de tener miedo.
Estoy cansada de vivir en las sombras.

Vivifícame, Señor, por tu nombre.
Saca mi alma de la angustia, por tu justicia.
Disipa el odio de mis enemigos.
Disipa la ignorancia de mis enemigos.
Disipa la ceguera de mis enemigos.
Disipa la complicidad de mis enemigos.
Rescata a mis adversarios de sus malentendidos, desconfianza y mala comunicación.
Solamente pido que tu justicia sea hecha, porque yo soy tu siervo, yo soy tu sierva.
En tu nombre, Señor.
Así sea. Amén.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Sagrada Família segundo os Evangelhos (10)

Lucas 4,14-30: “Este não é o filho de José?...”

Neste texto, Lucas apresenta o lançamento público da plataforma messiânica de Jesus. Isso aconteceu em Nazaré, "onde se havia criado" (v. 16). Ele já tinha feito alguma fama (v. 14) e foi à sinagoga, ao lugar da "família de fé", conforme era seu costume. A fama lhe facilitou o acesso à leitura, pois era costume convidar visitantes para recitar os textos sagrados (de pé) e para ensinar sobre eles (sentado).

Jesus recorreu a Isaías para explicitar sua missão: sob o impulso do Espírito de Javé, anunciar boas notícias aos pobres, proclamar a libertação aos presos, anunciar aos cegos a recuperação da vista, libertar os oprimidos e anunciar o ano da graça do Senhor. E disse que essa profecia não era para um tempo distante, mas estava se realizando em suas próprias ações.

A primeira reação foi de aprovação. Suas palavras pareciam cheias de encanto. Mas todos conheciam sua história e sabiam que ele era filho de José. Aos olhos de muitos, lá estava apenas o antigo carpinteiro da cidade, cujos familiares continuavam habitando em Nazaré. Era apenas um deles; vivera ali, crescera ali, e nada tinha de especial. Jesus havia deixado a cidade como carpinteiro e voltava como Messias! A perplexidade era amarga e hostil. Os que o conheciam não conseguiam compreender e justificar sua sabedoria.

Os conterrâneos pediram sinais de sua messianidade, mas Jesus apontou para uma missão universal, sem fronteiras. "Cura­te a ti mesmo" é um desafio tanto à comprovação de sua identidade messiânica como uma interpelação a fazer algo em benefício dos parentes. Parece que sua própria família, assim como os conterrâneos, perceberam que também poderiam se tornar famosos. Todos esperavam algum benefício com o sucesso do jovem pregador.

Então Jesus recorre a dois outros profetas (Elias e Eliseu) para argumentar que o verdadeiro profetismo não conhece fronteiras de sangue e de nacionalidade, age prioritariamente em favor dos excluídos e não dos familiares e compatriotas. As ações messiânicas são atos de compaixão, e não exibições ou promoção de privilégios. A reação da população foi uma tentativa de linchamento.

Neste texto, percebemos que a família dá a Jesus uma dimensão de normalidade, de pequenez, de rebaixamento. Ele é filho de José, e isso não parece digno aos seus compatriotas. A família de Nazaré é marcada pela condição dos desprezados, mas também pelos interesses mesquinhos e pelas contradições. Em Jesus, é marcada também pela abertura ilimitada às exigências do reino.

 Pe. Itacir Brassiani msf

Ensina-nos a ler os sinais!

Espírito Santo,
Tu que abres os olhos do nosso coração
Para intuir e discernir a dimensão interior de todas as coisas,
Esnina-nos a “ver” a Realidade espiritual escondida nas palavras e sinais
Que Jesus de Nazaré multiplicou pelas estradas da Palestina.

Espírito Santo,
Tu que és a fonte do discernimento,
Dá-nos o olhar da fé para que aprendamos a “ver”
Através dos acontecimentos pessoais e coletivos, pequenos e grandes,
Os sinais que Jesus Cristo realiza para nós hoje.

Espirito Santo,
Tu que és o dinamismo da história,
Dá a cada um de nos a graça de “ver”
Através das aspirações, sofrimentos e engajamentos das pessoas,
E também dos sacramentos da Igreja, dos gritos dos profetas e da vida dos santos,
Os frágeis brotos do amor, da justiça e da paz,
Sinais da lenta emergência do Reino e da Presença dAquele que vem.

Espírito Santo,
Tu que és a inteligência e a vigilância do coração,
Desperta-nos da sonolência e do torpor
E ensina-nos a “ver” nas coisas pequenas do cotidiano
(Um doente, uma reunião, uma viagem, o sorriso de uma criança,
Um pássaro, uma nuvem, um pôr-de-sol, uma flor,
Uma palavra, um silêncio, uma oração, uma pessoa que chora,
Uma carta, uma chamada telefônica, uma refeição familiar,
Uma cruz numa encruzilhada...)
Os sinais do Reino que vem,
Da passagem de Jesus Vivo que nos convida, cada dia, a crescer amando.

Michel Hubant, Prières à l’Esprit Saint,
Desclée de Brouwer, 1997, p. 83-84