domingo, 19 de fevereiro de 2012

Há 172 anos nascia o Pe. João Berthier


O século XVIII havia chegado ao seu fim com a fronte curvada diante o idolo ou ‘deusa Razão’ e os pés atolados no sangue dos padres e outras pessoas de bem. Desde o amanhecer do século XIX, exteriormente menos agitado mas interiormente tiranizado pelas mesmas paixões, 40 anos haviam se passado, alternando tempos de paz e tempos de luta, mas sob o sopro abrasador e ameaçador da independência, da insubmissão e da incredulidade.
Depois da queda de Napoleão a França, filha predileta da Igreja, havia visto sucederem-se no trono de São Luís o rei Luis XVIII (1814-1824), Carlos X (1824-1830) e, enfim, Luis Felipe, Duque de Orleães que, sendo oficial geral do reino, foi proclamado rei dos franceses em 1830. Era a chamada ‘monarquia juliana’, caracterizada por uma atitude ao mesmo tempo bondosa e hostil para com a Igreja, e que se estenderia por 18 anos. É sob este reino que nasceria João Berthier.
Era o ano de 1840, dominado pela luta pela liberdade de ensino, sustentada com zelo e eloquência por Dupanloup, Veuillot e Montalembert; tempo em que, noutro cenário, brilhava com todo seu esplendor o humilde João Maria Vianney; o mesmo ano em que, numa pequena vila da Bretanha, chamada S. Servan, próxima de S. Malo, um pobre vigário (Pe. Lepailleur) lançava os fundamentos da Congregação das Pequenas Irmãs dos Pobres, que hoje se espalham por todo o mundo; ano em que, em Neuville, o Pe. Libermann fundava os Missionários do Sagrado Coração de Maria; enfim, o ano em que, longe de sua pátria, um filho da França, o Beato Gabriel Perboyre, derramava seu sangue pela causa de Cristo...
Foi neste ano imortalizado por tantos fatos gloriosos que nasceu o Pe. João Berthier, aos 24 de fevereiro de 1840, em Châtonnay, pequena vila de 1800 habitantes, no departamento de Isère, França. Seus pais se chamavam Pedro Berthier, nascido aos 13 de fevereiro de 1812, e Maria Putoud, nascida aos 24 de março de 1820. Por ocasião do casamento Pedro tinha 27 anos e um caráter ardente, ativo e parcimonioso. Maria, oito anos mais jovem que ele, se caracterizava pela ternura e pela compaixão, e levou como dote de casamento uma piedade sincera e convicta que, unida à fé robusta de Pedro, faria do novo lar um modelo para os lares cristãos: uma mistura de força e de ternura, de atividade e de serenidade. Amando-se sinceramente um ao outro, Pedro e Maria dirigiam a Deus sua afeição, dando a ele o primeiro e o mais importante lugar na sua vida. (Júlio Maria de Lombaerde, Un Apôtre de nos jours, 1910, p. 23-24)

“O nome dele é João!”

Aquele 24 de fevereiro de 1840, um típico dia de inverno da região de Isère, conhecida como região das ‘terras frias’, foi especial para Pedro e Maria, que haviam celebrado o casamento há pouco mais de 10 meses: às 21h00 vinha à luz o amado e esperado filho primogênito, a quem dariam o nome de João Pedro.
Pedro Berthier era então um jovem ardoroso, ativo e parcimonioso que apenas havia completado 28 anos. Maria Putoud se caracterizava pela ternura e pour uma piedade firme e sincera, e alcançaria 20 anos no dia 24 de março. Assim, o pequeno João Pedro vinha ao mundo num ambiente no qual a força abraçava a ternura e a serenidade se unia ao sentido de urgência.
Na primeira hora da manhã do dia seguinte, acompanhado pelo cunhado Antônio Putoud e pelo vizinho José Rajon,  o jovem Pedro Berthier foi até oficial de registro civil de Châtonnay para comunicar o fato. O oficial Lucien Jocteur Monrozier registrou que, por vontade do pai, o recém-nascido se chamaria João Pedro.
De fato, aquele menino herdaria de São João evangelista a ternura, a bondade envolvente, a caridade transbordante e uma atraente doçura. E de São Pedro apóstolo aprenderia o dinamismo e o entusiasmo para fazer a missão, a fé indomável e uma capacidade incrível de resistir às adversidades. Amor e zelo serão o pano de fundo de toda sua história. Como o discípulo amado, um dia ele tomaria Maria como sua mãe e viveria por ela e com ela, gravando na alma suas palavras: “Meu filho, comunique isso a todo o meu povo!” (cf. De Lombaerde, Un apôtre de nos jours, p. 26).
No dia 26, apenas dois dias depois do seu nascimento, o menino João Pedro foi acolhido pela comunidade paroquial de Châtonnay e batizado pelo Pe. Champon, o qual anotou no livro: “Aos 26 de fevereiro de 1840, batizei João Batista Berthier, filho legítimo de Pedro e de Maria Putoud. Os padrinhos foram João Motèere e Maria Berthier-Motère.”
Como pais cristãos que eram, Pedro e Maria se empenharam desde cedo para que o pequeno João Pedro e os filhos que nasceriam mais tarde recebessem o batismo e fossem educados na fé católica. Mais tarde João Berthier escreveria a propósito da missão educadora dos pais: “Para fazer um bom pão é necessário ter um bom fermento. O futuro das famílias e da própria sociedade depende do cuidado que os pais dispensam aos filhos.” E, no seu típico estilo que une ortodoxia e imagens curiosas, acrescenta: “Um filho batizado é um filho de Deus e um herdeiro do céu, ao qual seus pais devem conduzi-lo... A galinha não abandona seus pintinhos. O tigre esquece sua ferocidade diante dos filhotes. Mais que isso deve ser o amor dos pais pelos filhos.” (Le prêtre, vol. I, 7ª ed., p. 211; 213).
No trajeto que vai do ofício civil à igreja paroquial, o filho de Pedro e de Maria perdeu Pedro e recebeu Batista como segundo nome. Porém, esse segundo nome não aparecerá em nenhum ato oficial envolvendo João Berthier e jamais será empregado por ele mesmo. Ele assinará sempre e apenas João Berthier, e é justo e correto que assim o chamemos. Como o velho Zacarias dirrimindo dúvidas, proclamemos: “O nome dele é João” (Lc 1,63).
Fazendo memória do nascimento e batismo do Pe. João Berthier louvemos a Deus pelo incansável missionário que ele se tornou e pelo legado catequético e misssionário que nos deixou. Não sejamos omissos frente à missão de avivar e entregar à nossa geração o mandato missionário de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, mergulhemos no mistério de amor e providência que envolve nosso próprio nascimento e nas fontes do nosso batismo, extraindo deles a força fermentadora do Evangelho. Entrando no 170° ano do nascimento e do batismo do nosso Fundador saibamos ser criativos e não permitamos que este seja um tempo vazio e estéril.
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Feliz quem cuida dos fracos: no dia da desgraça o senhor o libertará. Velará sobre ele o Senhor, e o fará viver feliz sobre a terra.” (Sl 40,2-3)
Ação de graças pelos 25 anos de ministério do
Pe. Itacir Brassiani msf
Anchieta, 1987 – 21 de fevereiro – Roma, 2012

Jesus, filho de Maria e de José,
morador anônimo de Nazaré, jovem galileu,
amigo dos pobres e pecadores, irmão da humanidade:
um dia me chamaste para caminhar contigo.

Dei os primeiros passos neste caminho com meus pais e irmãos,
na Comunidade Nossa Senhora do Caravágio
e, mais tarde, com os jovens da paróquia Santa Lúcia.

Foi quando olhaste em meus olhos e me chamaste pelo nome
para uma dedicação pessoal a ti e ao teu povo
como Missionário da sagrada Família.
Então fui acompanhado por outros irmãos
e educado segundo o teu coração.

O profeta pede para não ter saudades do passado,
porque o teu e nosso Pai está sempre fazendo coisas novas.
Mas, ao celebrar 25 anos de ministério pastoral,
não posso deixar de recordar os sinais
do teu amor belo e exigente,
em tantas pessoas que, de mil modos,
me levaram ao encontro contigo.

Descobri que não me chamas apenas
a ser um pastor à frente do rebanho,
mas um pastor entre muitos outros pastores/as
que dedicam o melhor de si mesmos /as
para que teu povo não viva cansado e abatido,
como ovelhas sem pastor.

Hoje, consciente dos meus inúmeros limites e faltas,
sinto que me dás teu perdão e me convidas a levantar,
juntar minhas coisas e seguir em frente.
Foste tu que me ungistes
e imprimistes em mim a marca do serviço.

Por isso, te peço confiante:
não me deixes jamais caminhar solitário!
E, repassando tantos e belos momentos que me concedeste,
proclamo, com o salmista:
“Seja bendito o Deus dos pequenos,
desde agora e para sempre!
Amém! Amém!”

Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um irmão entre os irmãos e irmãs!

Fui ordenado presbítero por Dom José Gomes, no dia 21 de fevereiro de 1987, na Paróquia Santa Lúcia, em Anchieta (SC). Lá se vão 25 anos de caminhada, com subidas e descidas, curvas e passagens perigosas, encontros e experiências gratificantes. Por isso, é com alegria serena e agradecida que celebro 25 anos de ministério presbiteral.
Desde que descobri o sentido da consagração religiosa, sinto-me mais religioso que presbítero. Ou melhor: fundamentalmente religioso e secundariamente padre. Aprendi que as pessoas consagradas não fazem parte da dimensão hierárquica da Igreja, mas da sua vocação à santidade. Ou seja: os ministérios pertencem ao tempo, enquanto que a consagração faz parte da sua essência. Os ministérios passam, a consagração é destinada a permanecer na plenitude do tempo.
Mas isso não significa menosprezo a esta vocação à qual desejo permanecer criativamente fiel. Aproveito a oportunidade jo jubileu para interrogar-me sobre o que significa substancialmente este chamado especial do Senhor e sobre como é possível e necessário vivê-lo neste complexo e apaixonante momento da história. Não pretendo oferecer um tratado teológico sobre o ministério ordenado, mas partilhar convicções e esperanças.
Um dom gratuito
O primeiro aspecto que me parece relevante e essencial neste ministério é propriamente seu caráter vocacional. Isso significa que o ministério presbiteral é um chamado que nos é dirigido, uma graça que nos é dada, um dom concedido à Igreja e a todo o povo. Sendo dom, não é mérito nem posso, e seu destino é expressar-se na gratuidade.
O ministério é por definição uma interpelação e um dom, não um estado, uma honra ou uma propriedade pessoal ou eclesiástica. O chamado é sempre gratuito e imerecido, pura iniciativa e gratuidade de Deus, e isso deve expulsar da nossa mente todo sentimento de superioridade e toda postura de propriedade de um dom que não nos pertence.
Um sinal eloquente
Um segundo aspecto fundamental do ministério presbiteral é seu caráter de sinal. Por mais que a teologia oficial insista no caráter ontológico do ministério presbiteral, parece-me que hoje importa destacar e resgatar seu caráter semiológico, sua força de sinal. Que importância poderia ter uma marca indelével sem falta a eloquência capaz de comunicar algo às pessoas de hoje?
E mais: se as relações e práticas concretas dos presbíteros não são capazes de traduzir numa linguagem compreensível e unívoca o que significa ser depositário de um dom e mediador de um serviço, a que serve uma marca ontológica que pretensamente dura para sempre?
Um serviço generoso
Um terceiro aspecto que me parece importante na vocação presbiteral é seu caráter de serviço. Mesmo depois de 50 anos do Vaticano II não conseguimos superar uma espécie desvio teológico – que hoje volta com força e com caráter de verdade inquestionável! – que reflete unicamente sobre os poderes e os valores objetivos do estado clerical.
Sem querer entrar aqui na discussão sobre estes conceitos, pergunto-me se não seria mais conforme o Evangelho falar em termos de serviço presbiteral ou em exercício do ministério. E respondo afirmativamente. A vocação presbiteral é mais relação de serviço que estado ou poder. E não vejo como o ministério possa continuar existindo quando o serviço deixou de ser efetivamente exercitado.
Em função do povo de Deus
Um quarto aspecto que julgo essencial do ministério presbiteral é sua interface, ou seja, o sujeito a serviço de quem se põe. Sem ignorar a importância do ensino tradicional, segundo o qual o presbítero é uma pessoa consagrada a Deus e a serviço dele, penso que é absolutamente necessário sublinhar, na perspectiva do Vaticano II, que se trata de um serviço específico ao reinado de Deus, à sua ação salvífica no mundo. Em outras palavras: o padre está a serviço do povo de Deus, para que tenha vida em abundância.
Portanto, ou nos colocamos a serviço dos vigários de Jesus Cristo neste mundo – cuja lista incompleta nos é dada por Jesus em Mt 25,31-46 – ou nosso serviço a Deus é uma perigosa ilusão ou uma detestável mentira. A atual insistência de Bento XVI sobre o aspecto sacerdotal e estritamente cúltico do ministério presbiteral me parece um perigoso desequilíbrio na teologia da vocação.
Uma função do Corpo de Cristo
Outro aspecto do ministério presbiteral que não gostaria de desprezar é seu caráter orgânico ou comunitário. O que quero enfatizar é que a vocação presbiteral é um entre os diversos chamados que o Senhor continua fazendo aos membros do povo de Deus. Não é evangélica a teologia (ou ideologia?) que situa o padre no topo de uma pirâmide, como se fosse a única autoridade pastoral e o detentor de todas as honras, poderes e funções.
Segundo a imagem paulina, a comunidade é um corpo organizado, e a função da cabeça não cabe ao padre mas a Jesus Cristo! O padre é um membro, com função específica, mas com o mesmo grau de dignidade dos demais membros ou ministérios. Se faz as vezes de cabeça, é sempre ao modo de Jesus, ou seja, lavando os pés dos demais!
Passou o tempo em que o padre era o único pastor diante de um rebanho indiferenciado e dependente. Hoje somos ministros ordenados que cooperam com um grupo de outros ministros e ministras extraordinários (e aqui eu uso a expressão mais no sentido de valor que de falta de estabilidade). Nossa missão é coordenar e animar uma comunidade ministerial!
Um irmão entre irmãos e irmãs
O Concílio Vaticano II sublinha que o padre é uma pessoa chamada de dentro da comunidade humana e colocada a serviço dela. Por isso, deve viver em meio aos homens e mulheres como um irmão entre irmãos e irmãs, como servidor de todos/as (cf. PO 3). Nem fora, nem estranho, nem acima, nem contra os demais homens e mulheres.
É constitutiva do ministério presbiteral a tarefa de edificar a Igreja como comunidade de irmãos e irmãs e de ajudar os demais fiéis a descobrir, desenvolver e exercitar a própria vocação. “De pouco servirão as cerimônias, embora belas, bem como as associações, embora florescentes, se não se ordenam a educar os homens a conseguir a maturidade cristã.” (PO 6).
Com as marcas da história
Um último – mas de nenhum modo o último em termos de importância – traço da vocação e do ministério presbiteral que julgo oportuno sublinhar é o caráter histórico tanto do seu conteúdo como da sua forma. A identificação exclusiva deste ministério com pessoas celibatárias e com a liturgia sacramental traz em si as marcas de um tempo muito determinado. E isso não quer dizer que sempre foi e sempre deverá ser assim.
Inquieto-me quando escuto dizer que o povo tem direito à eucaristia, e disso se passa diretamente ao apelo à oração para que Deus envie mais vocações sacerdotais, a fim de que o povo não fique sem este alimento. Por quê os sacramentos, especialmente a eucaristia, têm que depender do ministro ordenado nos moldes atuais? E por quê este ministério é concebido e organizado moldes impostos a partir do século XI?
Ousemos um pouco mais, em nome de Jesus Cristo, modelo de liberdade e ousadia crítica diante da religião institucionalizada. Quem pode proibir que Deus chame mulheres e homens casados ao ministério presbiteral? É urgente pensar e organizar diversamente o ministério presbiteral. Ou a Igreja deverá responder perante o tribunal divino por impedir que o rebanho de Deus disponha de pastores/as que tomem conta de suas dores.
Descer, movido pela compaixão
Mesmo que a missão do presbítero seja servir ao povo de Deus indistintamente, o Concílio diz que os pobres e fracos têm direito a receber deles uma atenção especial e prioritária (cf. PO 6). Se o anúncio da boa notícia aos pobres foi um dos critérios para identificar Jesus como Messias, como poderia esta característica estar ausente da vida daqueles que são chamados e enviados a continuar sua missão?
Nunca esquecerei um dos pensamentos que Dom José Gomes desenvolveu na homilia da missa na qual fui ordenado padre. Partindo da parábola do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37), que eu havia sugerido para a celebração, disse que o padre precisa interromper as viagens dos seus interesses, descer do cavalo da sua pretensa superioridade e, movido pela compaixão, socorrer solidariamente as pessoas oprimidas e descartadas, caídas à beira das estradas. E isso, às vezes, implica em carregá-las nos próprios ombros.
Força de comunhão
Desde minhas primícias pastorais, leio e releio com grande emoção, entre outras passagens da Bíblia, um trecho do profeta Isaías (42,5-9). Através do profeta, Deus diz que ele pessoalmente deu forma ao nosso ser, tomou-nos pela mão e chamou-nos para o serviço da justiça. Ele nos confia a missão de ser fator de aliança entre os povos, luz das nações, visão para os cegos, liberdade para os presos.
Neste momento de graça e júbilo, louvo o bom Deus por tantas pessoas que, em nome dele e mesmo sem saber, me tomaram pela mão e mostraram o rumo nas encruzilhadas, me acompanharam e me forçaram nas descidas, me guiaram quando se fez escuro. Agradeço a Deus pela graça– o mérito e a honra pertencem a Ele! – de ser fator de aliança e comunhão entre diferentes grupos, comunidades e povos.
E tenho que terminar pedindo!... Que ele seja generoso no perdão que não mereço, mas que necessito, por tantos limites, teimosias, fechamentos, sentimentos e atitudes de superioridade. Que ele não me deixe jamais caminhar solitário, nem sentar-me acima dos meus irmãos e irmãs. Que ele me acompanhe, se for preciso, forçando meus passos, no caminho de descida para encontrar e ser irmão dos últimos, em cuja dor e esperança Ele fez morada.
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

7° Domingo do Tempo Comum

Levanta, assume tua história e vá em frente!
(Is 43,18-25; Sl 40/41; 2Cor 1,18-22; Mc 2,1-12)
Vivemos dias que nos convidam mais à festa que à reflexão. O tempo de carnaval é mais propício à imagem e ao movimento que à palavra e ao silêncio meditativo. As máscaras que fantasiam os rostos e os carros que alegorizam a história convidam a tomar distância do realismo crítico e do recato da fé. Mas se conseguirmos ver mais a fundo, o próprio espetáculo carnavalesco é o anúncio de uma boa notícia insistente: nossa vocação é a festa, a alegria, o sábado da criação; somos obrigados a usar a máscara de trabalhadores comportados e cristãos obedientes durante o ano inteiro, mas não perdemos nossa condição de pessoas livres, criativas e festivas. É como se o carnaval fosse um eco da palavra de Jesus dirigida a um povo subjugado e discriminado: “Meu filho querido, deixa a tristeza de lado e entra na roda, pois você não deve nada a ninguém! Levante-se, toma nas mãos seu destino e vai em frente!”
“E espalhou-se a notícia de que Jesus estava em casa.”
Depois de ter curado o leproso, Jesus não podia mais entrar tranquilamente nas vilas e cidades. Por precaução, preferia ficar fora, nos lugares desertos (cf. Mc 1,45). Por isso, quando entrou em Cafarnaum, evitou a praça e a sinagoga e preferiu ficar em sua própria casa. O ambiente doméstico poderia ser uma proteção contra as polêmicas que suscitara na sinagoga e nas estradas da Galiléia...
Mas a cisão entre espaços privados e espaços públicos não faz parte da cosmovisão de Jesus, nem é respeitada pela multidão carente de tudo. Para Jesus qualquer lugar era lugar de missão e todo tempo é tempo de Deus. “Logo se espalhou a notícia de quen Jesus estava em casa. E tanta gente se reuniu aí que não havia lugar nem na frente da casa. E Jesus anunciava a palavra...”
O Evangelho deixa claro que o centro que galvaniza a intensa vida de Jesus é o anúncio da Palavra, a notícia boa de que o tempo de espera terminou e o Reino de Deus está chegando. Quando ameaça demônios, cura doentes ou purifica leprosos o faz como que para demonstrar palpavelmente que seu anúncio é verdadeiro. Curas e perdão dos pecados são sinais que apontam para a realidade do Reino.
“Vendo a fé que eles tinham...”
Em meio a uma notável multidão que se reúne sedenta à frente da casa de Jesus para ouvir seu anúncio nossa atenção é solicitada por um grupo de quatro pessoas anônimas que carregam um homem paralítico. O povo que se interpõe entre eles e Jesus não representa um obstáculo à criatividade da fé que os move e, abrindo uma brecha no teto da casa, fazem o pobre homem chegar diante de Jesus.
O evangelista diz que Jesus viu a fé que eles tinham. Quando profunda e verdadeira, a fé pode ser vista, tocada. Sendo descoberta e experiência da firmeza, segurança e solidez da presença de Deus junto aos pequenos e humildes, a fé se expressa em ações de resistência e de criação. Sendo confiança e aceitação da verdade de um Deus que nos quer livres, humanos e adultos, a fé se mostra um dinamismo capaz de abrir caminhos de vida sempre mais plena.
Assim, uma fé viva e fecunda não se detém no anúncio da ação de Deus no passado. É abertura crente e confiante na ação de Deus no presente e no futuro. O próprio profeta Isaías insiste: “Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas; vejam, eu estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora... Abrirei um caminho no deserto, rios em lugar seco.” E essa abertura transcende a interioridade da pessoa e se expressa no engajamento nos processos coletivos de criação.
“Só Deus pode perdoar pecados!”
A fé vivida como abertura e confiança é o dinamismo que está na origem do processo de recriação da vida, de vitória sobre o pecado que aprisiona e amordaça a humanidade oprimida. Mais que uma desordem ou uma revolta contra Deus, o pecado é literalmente a condição da humanidade que não consegue atingir seus objetivos de plena vida e paz duradoura, que erra o alvo para o qual se orienta. E a fé ajuda a reencontrar o rumo e avançar no caminho e abre para o perdão de Deus.
No tempo de Jesus, o judaísmo sustentado pelos escribas e fariseus identificava o pecado com as ofensas contra as leis e tradições dos quais eram guardiães. Sabemos que os extratos mais pobres do povo judeu não tinham como observar o intrincado conjunto de leis que pesava como fardo sobre suas costas. Por mais que se esforçassem, não conseguiam sair da condição de pecadores, de devedores frente a Deus e ao sistema que se apresentava como seu procurador. Pagãos, pobres, estrangeiros, doentes e mulheres eram tidos como eternos reféns do pecado, excluídos/as da cidadania.
“Filho, os teus pecados aão perdoados.”
João Batista apresenta Jesus como “o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). E os judeus ortodoxos o acusam de ser “comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores” (Lc 7,34). Notemos bem: Jesus não se limita à prática de perdoar uma espécie de lista de pecados dos pecadores. Ele tira o pecado do mundo e é amigo dos pecadores! Ou seja: não leva a sério a condição de pecadores e excluídos que o sistema religioso impõe a boa parte do seu povo.
Essa atitude transgressora e libertadora de Jesus frente à ideologia do pecado fica clara quando ele diz ao homem paralítico: “Filho, os seus pecados estão perdoados.” Antes de tudo, chama ‘filhinho’ àquele que, à luz da lei e da tradição, era considerado, devedor e filho do pecado, separado de Deus e seu inimigo. Que outra afirmação mais clara da dignidade dos pecadores poderíamos desejar?
Um segundo aspecto que não podemos menosprezar é que Jesus começa concedendo perdão, e só depois realiza a cura física. Na verdade, Jesus prioriza a afirmação da dignidade e da integridade social da pessoa doente e deixa para um segundo plano a cura física. Também hoje, a exclusão e a marginalização social e cultural ofendem e machucam mais que as doenças, e a saúde física não é tudo.
Os doutores da lei se irritam, questionam e acusam: “Por que esse homem fala assim? Ele está blasfemando! Ninguém pode perdoar pecados, porque só Deus tem poder para isso.” Apelando aos direitos exclusivos de Deus, o que os doutores da lei querem afirmar é a imutabilidade do sistema excludente e assegurar o próprio poder de se apresentarem como procuradores de Deus...
“Levanta-te, pega a tua maca e vai para casa!”
Jesus não se deixa intimidar pela acusação e reafirma a estreita conexão entre a ideologia do pecado e a marginalização social e, de igual modo, a coincidência do encontro com ele e a emancipação social. O que surpreende é que Jesus tira de Deus o privilégio de mudar a ordem social e perdoar os pecados e o coloca nas mãos da própria humanidade, do ‘filho do homem’. Não é por nada que a multidão exclama: “Nunca vimos uma coisa assim!”
Depois de declarar ao paralítico que ele não deve coisa alguma a ninguém, Jesus ordena que se levante, tome sua cama e volte para casa. E aquele que chegara a Jesus carregado por outros descobre-se livre e independente, senhor do seu próprio destino. Mais que a paralisia física, que o imobilizava na maca e o prendia à miséria, era a teologia que culpava os pobres por suas próprias dores e inocentava o sistema discriminador que tolhia sua liberdade. E Jesus enfrenta e muda radicalmente essa ordem desordenada.
“É nele que todas as promessas de Deus têm o ‘sim’ garantido...”
A divindade transcendente de Jesus se revela na sua encarnada humanidade em favor das pessoas humilhadas e necessitadas. Ele é o amigo dos pecadores, o lixeiro que recolhe e recicla nossas imundícies. E isso é ainda mais que patente no seu nascimento na estrebaria, na sua vida anônima em Nazaré, na sua pregação na Galiléia e na sua morte na cruz entre dois ladrões. Ele é o ‘Amém’ de Deus diante da dingidade dos homens e mulheres e todas as demais criaturas.
Jesus de Nazaré, amigo dos/as pecadores e libertador dos/as oprimidos/as, sim definitivo de Deus à nossa humana natureza: te agradecemos pelos irmãos e irmãs que nos trouxeram ao encontro contigo e com a tua Palavra que nos coloca sobre nossos próprios pés. Fica conosco, para que possamos dançar o samba da dignidade, o frevo da libertação e a marchinha da solidariedade sem fim. Retira a máscara da prepotência, da certeza e do distanciamento que há séculos cobre o rosto da tua Igreja, e faz dela uma comunidade que possibilita aos seres humanos de hoje um encontro vivo contigo, com tua Palavra e com uma comunidade que confirma sua dignidade e liberta sua liberdade. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

6° Domingo do Tempo Comum

Jesus cura os doentes e resgata a cidadania dos excluídos.
(Lv 13,1-2.44-46; Sl 31/32; 1Cor 10,31-11,1; Mc 1,40-45)
Nestas primeiras semanas do ano somos pouco a pouco introduzidos/as no mistério divino e humano que vai se revelando em Jesus Cristo. Após ter-nos convidado a participipar de sua missão de reunir o seu povo disperso e anunciar a chegada do Reino de Deus e a consequente punição para os opressores, Jesus foi à sinagoga enfrentar a autoridade dos escribas, e à casa de Pedro, onde curou muitos doentes. Depois de uma madrugada de oração, no final da qual ampliou os horizontes da sua missão, ele é procurado por um leproso. Assim, progressivamente vamos reconhecendo em Jesus um homem absolutamente livre e libertador, capaz de colocar a pessoa humana necessitada ou marginalizada como prioridade absoluta. Como nos dirá mais tarde, para um cristão e missionário/a uma só pessoa em situação de risco vale mais que 99 que estão seguras e em paz.
“Durante todo o tempo em que estiver contaminado de lepra, será impuro.”
Luciano era um jovem que vivia nas ruas de Belo Horizonte. Eu o conheci em 1990, quando trabalhava na Pastoral dos Sofredores da Rua. Luciano vivia da coleta de papel na área central da cidade e morava num barraco improvisado, numa área reservada para selecionar o lixo coletado. Não preciso dizer que essa sua condição  por si mesma expressava e, ao mesmo tempo, atraía a marginalização social.
Mas no barraco Luciano convivia com um companheiro que se chamava Paola, um travesti. Não sai da minha memória o constrangimento que experimentei quando sentei a primeira vez ao lado deles, num Círculo Bíblico. Além de ser vítima da miséria e mal-vista pelo ofício de catadores de papel, aquela dupla sofria uma marginalização suplementar, inclusive da minha parte, por serem homossexuais.
Em meados daquele ano Luciano adoeceu gravemente. Os exames revelaram que ele estava com AIDS. Depois dos exames, sua saúde continuou piorando. A equipe da Pastoral dos Sofredores da Rua procurou um jeito de interná-lo. Ficou uma semana na maca de um hospital ‘por falta de leito’ e só foi baixado quando chamamos a Rádio Globo. Pobre, homossexual e aidético: uma tríplice marginalização.
Fui ao hospital visitá-lo e dar-lhe a unção dos enfermos. Jamais esquecerei o olhar assustado e delirante do Luciano quando me viu entrar com aquela roupa e a máscara que o hospital me impôs. Além de AIDS ele tinha hepatite, e eu fui proibido de tocá-lo. Como ungi-lo sem tocá-lo? Não tocá-lo seria confirmar sua condição de impuro, indesejável, e marginalizado. Eu desobedeci a ordem do hospital. E sobrevivi!
“Um leproso aproximou-se de Jesus...”
A doença nunca é apenas doença. A doença não se reduz a um fato objetivo ou a uma questão biológica. Mantidas as devidas diferenças entre a situação de um doente de classe média ou alta e um doente de classe pobre, à questão da dor física sempre vem como acréscimo o sentimento que a acompanha: de sujeira, castigo, abandono; de ser incômodo e peso para os outros; etc.
Isso é mais ou menos semelhante nas diversas culturas, inclusive no tempo de Jesus. Mas naquele tempo, por várias razões, a lepra era tratada como uma das piores doenças. A lei determinava que as pessoas que tinham essa doença deveriam ser separadas da convivência familiar e social e morar fora das aldeias, em bosques ou cavernas. E eram proibidas aproximarem-se das pessoas considaradas sãs.
As pessoas leprosas eram declaradas impuras e assim permaneciam enquanto durava a doença. É fácil perceber que, além de doentes, os leprosos eram colocados literalmente à margem da sociedade e considerados intratáveis, impuros, sem dignidade. A condição de impuro se sobrepunha à condição de doente e a tornava ainda mais pesada.
“Jesus encheu-se de ira...”
O que chama a atenção é que o leproso do evangelho de hoje se aproxima de Jesus. Essa aproximação é uma transgressão da lei que demarcava muito bem os limites da sua movimentação. Jamais um leproso poderia aproximar-se de qualquer pessoa sã, e deveria gritar de longe que ninguém se aproximasse dele porque era impuro. A força que sustentou aquele leproso anônimo na sua transgressão foi a confiança na acolhida purificadora por parte de Jesus.
O leproso chegou perto de Jesus e pediu de joelhos: “Se queres, tu tens o poder de me purificar”. Não deixa de causar surpresa o registro de que Jesus ficou muito irritado (embora algumas traduções amenizem e falem em compaixão). Seguramente, Jesus não se irritou com o leproso que a ele se dirigiu com tanta coragem e humildade, mas contra a terrível ideologia que colocava sobre o fardo da doença o carimbo da impureza e da marginalização.
Mas a irritação de Jesus pode vir também do conhecimento de que aquele leproso já tivesse procurado os sacerdotes para ser purificado e nada conseguira. Ou seja, sua irritação tinha uma dupla razão: os leprosos eram marginalizados; para serem purificados e reintegrados na sociedade deveriam pagar uma cota suplementar (oferecer um sacrifício especial). Eles deveriam pagar a conta da própria marginalização...
“Eu quero! Fique purificado!”
Jesus “estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero, fique purificado!’ No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado.” Jesus não se distancia da doença e da impureza que pesa sobre os marginalizados, mas deixa-se tocar pela miséria deles e, ao mesmo tempo, os purifica com seu toque. Hoje sabemos muito bem da importância da expressão física de carinho e acolhida na recuperação dos doentes.
As leis do antigo testamento davam ao sacerdote o poder de declarar um doente impuro e, quando fosse o caso, declarar oficialmente também sua cura e purificação. Declarando puro aquele leproso Jesus desafia a lei e a autoridade sacerdotal, ocupa seu lugar. Enviando-o ao templo, Jesus está reintroduzindo no mais sagrado dos espaços aquele condenado à viver na margem e sem cidadania. Aquele leproso transformado em cidadão é enviado para testemunhar contra os sacerdotes, e assim  é envolvido na própria missão de Jesus.
“Ele ficava fora, em lugares desertos.”
O leproso reinserido socialmente não vai ao templo, mas se transforma em apóstolo: “Começou a pregar muito e espalhar a notícia.” Aquele homem anônimo, antes condenado a viver nos lugares remotos e desertos, voltou para o seio de sua família e sua cidade, e tornou-se testemunha de Jesus e evangelizador. Mas, como consequência, agora é Jesus que não pode mais entrar numa cidade...
Parece que a impureza passou do leproso para Jesus. Com seu toque humanamente divino Jesus purificou o leproso e assumiu sua impureza, assumiu na sua própria carne o pecado do mundo. O doente antes excluído se torna cidadão e Jesus experimenta a perseguição. Mas os lugares desertos e afastados das cidades não são obstáculo para sua missão libertadora. “De todos os lados as pessoas iam procurá-lo.” Jerusalém se esvazia, o templo fica estéril e o povo procura Jesus no deserto.
“Sejam meus imitadores como eu o sou de Cristo.”
A ação de Jesus provoca conflitos e é muito mais que um trabalho médico-hospitalar. Quando declara purificados os leprosos Jesus está desmascarando a ideologia opressora e excludente e reafirmando a dignidade das pessoas sem didnidade, promovendo sua cidadania. Sua ação é uma espécie de assalto simbólico à hegemonia dos escribas, doutores da lei e sacerdotes.
São muitos e diversos os terapeutas que hoje, como Paulo, se tornam imitadores de Jesus Cristo, mesmo sem se apresentarem como tal. As pessoas que lutam pela paz, pacificando as relações – familiares ou internacionais – são terapeutas. São vencedores/as do mal os/as educadores que desperatm o que há de mais belo e mais nobre no interior de cada pessoa. São terapeutas espirituais aqueles/as que cultivam as perenes sementes da hospitalidade, da ternura, da reverência e da sobriedade.
Estende tua mão, Jesus de Nazaré, e toca as multidões que jazem à beira da vida, jogada em situações nas quais é quase impossível sobreviver. Converte a mão da tua Igreja em mão acolhedora e benfazeja, eliminando as cômodas mãos postas, os dedos em riste e os punhos fechados. Que a comunidade dos/as que acreditam em ti trabalhem sem tréguas pela tua glória, que é a vida dos pobres, e não seja pedra de acusação ou de tropeço para quem quer que seja. Amém! Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

5° Domingo do Tempo Comum

Jesus nos toma pela mão e nos faz livres e servidores/as.
(Jó 7,1-7; Sl 146/147; 1Cor 9,16-23; Mc 1,29-39)
Há 256 anos, no dia 07 de fevereiro de 1756, como desfecho de um confronto desigual e sanguinário, o índio guarani Sepé Tiarajú misturava seu sangue ao sangue do seu povo martirizado. Seu grito ressoa ainda hoje nas coxilhas do Rio Grande do Sul e desperta os ouvidos dos/as discípulos/as de Jesus Cristo e daqueles/as que crêem que outro mundo é possível: “Deixem-me viver!” Nesse grito ressoa o lamento e o clamor da humanidade oprimida, desde a sogra de Pedro e a multidão de estropiados que buscavam em Jesus uma centelha de liberdade até os povos indígenas do Brasil de hoje, os palestinos divididos por um muro iníquo e os sírios reprimidos ferozmente por um regime sustentado pelos interesses ocidentais. Deus não é indiferente ao clamor dos seus filhos e filhas. Ele assume e recapitula esse clamor no grito do seu próprio Filho no alto da cruz. Em cada eucaristia nos encontramos com seu corpo crucificado e somos revigorados para prosseguir seu ministério de compaixão.
“Foram, com Tiago e João, para a casa de Simão e André...”
No domingo passado acompanhamos Jesus em sua primeira ação pública, na sinagoga de Cafarnaum, quando calou a voz dos escribas e foi reconhecido pelo povo como um pregador com mais autoridade que eles. Aquela foi uma ação pública, no sentido pleno da palavra: ocorreu num espaço público e sagrado do judaísmo, no domínio próprio das autoridades religiosas.
O movimento seguinte é sua saída da arena pública para um âmbito considerado privado: a casa de Simão e André, um espaço marcadamente íntimo, doméstico e cotidiano. Mas a casa se torna espaço de acolhida e recuperação de doentes de todos os tipos, superando uma separação rígida entre espaço público e espaço privado. O terceiro movimento de Jesus é a retirada para um tempo e um espaço de oração pessoal, no qual confirma seu objetivo de andar por todas as aldeias e lugares da redondeza.
A ação libertadora de Jesus não conhece fronteiras: supera a oposição entre religião e política; desconhece a divisão entre espaço público e espaço privado; une oração e ação; não reconhece a prioridade aos homens em detrimento das mulheres; vai além do moralismo que impõe o respeito às autoridades e faz pouco caso do povo simples; une de forma indissolúvel o amor a Deus ao amor ao próximo.
“Tive por ganho meses de decepção...”
Na casa de Simão e de André Jesus toma conhecimento de que a sogra de Simão estava acamada. Aquela mulher anônima é o símbolo da humanidade oprimida por doenças, dominações  e doutrinas que discriminam e condenam. Constritas ao mundo privado, quando adoeciam as mulheres eram ainda mais segregadas, inclusive no próprio espaço doméstico. Ao machismo araigado na mente e no coração dos homens vinha se somar a ideologia da impureza.
A condição humana simbolizada na sogra de Pedro é descrita com traços vivos por Jó: os homens e mulheres vivem como bóias-frias que esperam ansiosamente pelo miserável pagamento do dia; têm como herança dias e meses de ilusão e noites de insônia; é como se tivessem o corpo coberto de feridas e se a vida não tivesse mais força que um sopro, desassistida de qualquer possibilidade de felicidade.
Essa não é a simples descrição da vida de um pecador castigado por Deus, nem um discurso que despreza a fugacidade das coisas do mundo. É uma triste e dolorida metáfora daquilo que milhões de homens e mulheres experimentam um pouco a cada dia. É a realidade diante da qual Jesus sente suas entranhas se remoer de compaixão e que o impele a falar e agir. Não há a mínima possibilidade de ficar indiferente!
“Ele aproximou-se e, tomando-a pela mão, levantou-a.”
Jesus foi informado de que a sogra de Pedro estava acamada, com febre. É interessante notar que Jesus não faz pouco caso daquilo que seria uma simples febre, não faz de menos por ser a doente uma mulher, nem espera que a conduzam a ele. “Jesus foi onde ela estava, segurou a sua mão e ajudou-a a se levantar.” É uma espécie de parábola que evidencia um Deus que se aproxima da humanidade oprimida, toma-a pela mão e firma-a sobre os próprios pés.
Num mundo no qual predominava a figura masculina, Jesus se importa com a febre de uma mulher... Numa cultura que considerava toda doença um sinal de impureza, Jesus rompe as barreiras e toca no corpo de uma pessoa doente. Numa sociedade que sujeitava os mais fracos e  mantinha multidões na dependência frente aos que detinham o poder, Jesus ajuda o povo caminhar sobre os próprios pés.
Aquela que antes estava segregada e dependente por causa da doença se descobre livre e capaz de servir. “Então a febre deixou a mulher e ela começou a servi-los.” E não se trata de um simples serviço subalterno ao qual são submetidas as mulheres. Ao servir Jesus e os presentes a sogra de Pedro exerce a diaconia emancipada, característica dos discípulos e discípulas de Jesus, e ainda hoje recusada pelas autoridades eclesiásticas eivadas de patriarcalismo.
“Ele curou muitos que sofriam de diversas enfermidades.”
A compaixão de Jesus não conhece fronteiras nem privilégios, a não ser a prioridade das pessoas mais necessitadas. Jesus parece até desrespeita a casa dos seus amigos, e a transforma em lugar de resgate da dignidade e da autonomia de um povo cansado e abatido, doente e oprimido. “À tarde, depois do pôr-do-sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que estavam possuídos pelo demônio. A cidade inteira se reuniu na frente da casa...”
Como diz o salmista, Deus “cura os corações despedaçados e cuida dos seus ferimentos”. As ciências não deixam dúvidas: há uma estreita relação entre doença, pobreza, desemprego e insegurança; são todas causas e consequências ligadas uma à outra. São ingênuos/as ou mal-intencionados/as aqueles/as que ainda hoje pretendem isolar uma coisa da outra, tratando da doença como questão estritamente biológica, separada da pobreza e de outros fatores.
Jesus atende às necessidades das pessoas desamparadas e lhes devolve a possibilidade de cidadania e de vida plena, de um bom viver. Ele não receita um simples tratamento para as doenças, pois não é enfermeiro nem médico. Ele cura as pessoas, ou seja, reintegra plenamente as pessoas no convívio social, mesmo que isso signifique negar radicalmente as leis que separam e excluem os doentes, considerados impuros e culpados do próprio mal-estar.
“Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava.”
A missão de devolver ao povo a dignidade e autonomia que lhe pertence éum trabalho exigente e, por vezes, absorvente. Corremos o risco de imaginar-nos capazes e auto-suficientes, ou então, de reduzir as pessoas às suas necessidades e carências. Daí a importância de tomar distância para inserirmo-nos de modo coerente e profundo na missão. E é aqui que entra a oração.
Jesus não se deixou envolver pela fama, nem ser dominado pelo que parecia mais urgente. “Todos estão te procurando...” Ele sabia distinguir aquilo que éra urgente e aquilo que era essencial. “Quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.” Para ele, a oração nunca foi álibi para não se importar com o povo necessitado, mas seu jeito de manter abertura a todos, sem excluir ninguém. A oração foi também a pedagogia que o ajudou a centrar a vida na vontade do Pai e não em si mesmo.
“Vamos a outros lugares, nas aldeias da redondeza...”
O resultado da oração vivida como encontro sem reservas e sem máscaras com o Pai é a perseverança e a ampliação do campo da missão: “Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim.” Na oração Jesus compreende que seu mundo não se resume a Cafarnaum e que sua missão não se restringe à cura dos doentes, apesar da urgência e da fama que isso lhe dava. Ele sabe que deve também se dedicar ao anúncio da Boa Notícia de Deus, e em todo lugar.
E essa é uma lição que todos/as precisamos assimilar. Não podemos buscar em Jesus apenas a cura das nossas enfermidades, nem pensar que é suficiente ocuparmo-nos com os cristãos da nossa comunidade. Como discípulo e apóstolo, Paulo entendeu muito bem essa lição. “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” E assim fez-se servidor de todos, deu-se inteiro a todos, consciente de que a missão não é algo que escolhemos, mas uma decorrência da própria fé.
Querido Jesus, amigo que vem à nossa casa, libertador que não conhece fronteiras, pregador incansável da Boa Notícia aos pobres: contemplamos tua ação, escutamos tua Palavra e logo mais faremos um só corpo contigo. Dá-nos a coragem de seguir teu exemplo e, como Sepé Tiaraju, fazer do serviço aos nossos povos nosso tesouro e destino, e “tudo isso... por causa do Evangelho”, como nos ensina Paulo. Amém! Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf