quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A amargura do Rio Doce

Carta conjunta dos Bispos   
aos Párocos, Administradores Paroquiais, Vigários Paroquiais   
e aos Conselheiros Pastorais Comunitários e Paroquiais 
da Arquidiocese de Belo Horizonte

Estimados irmãos padres e conselheiros pastorais
O Papa Francisco ensina, na Exortação Alegria do Evangelho, que “Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação” (EG 215). O planeta é a nossa “casa comum”. Iluminados por essa compreensão, precisamos unir as nossas vozes para exigir, de todas as autoridades, ações concretas em defesa da “ecologia integral” (LS).
Sob o impacto da destruição de vidas humanas, fauna, flora, córregos e rios, de Mariana e cidades ribeirinhas do Rio Doce e afluentes, em Minas Gerais e no Espírito Santo, pela lama avassaladora que se desprendeu das barragens e sob o impacto do terrorismo praticado na França, viveremos um momento oportuno para uma forte manifestação, durante a realização da 21ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 21), evento que ocorrerá de 30 de novembro a 11 de dezembro, em Paris. Líderes de dezenas de nações assinarão um pacto para diminuir a emissão de poluentes na atmosfera. A Igreja, por meio do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, pede para que essas autoridades aprovemum acordo climático justo, juridicamente vinculativo e autenticamente transformativo”.
Para demonstrar o nosso compromisso com a defesa do planeta e diante da necessidade de trabalharmos juntos com o objetivo de preservar a nossa “casa comum”, pedimos: no dia 30 de novembro, ao meio-dia, durante três minutos, façam tocar os sinos de todas as comunidades das Paróquias, de modo que toda a Arquidiocese de Belo Horizonte, pelo badalar dos sinos, como uma prece, manifeste sua esperança de que as ações ali decididas paralisem o aquecimento global e que também cessem todas e quaisquer formas de terrorismo no mundo.
É importante explicar esta ação simbólica às comunidades durante as próximas duas semanas.
Agradecemos sua acolhida, contamos com o seu apoio.
Fraternalmente em Cristo,
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Bispo Auxiliar – Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança
Dom Luiz Gonzaga Fechio
Bispo Auxiliar – Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida
 Dom João Justino de Medeiros Silva
Bispo Auxiliar – Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade
Dom Edson José Oriolo dos Santos

Bispo Auxiliar – Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição

Que tipo de rei é Jesus?

Festa do Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo [Jo 18, 33-37]


“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”
A Igreja Católica, no último domingo do Ano Litúrgico, celebra a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.  A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa – que Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não ateu, mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.
O evangelho a ser refletido no próximo domingo (22/11) é inspirado na paixão segundo João: o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típica, João faz com que Pilatos – o representante do poder absoluto da época, o Império Romano – apresente Jesus como Rei, o que ele é na verdade, mas não de modo que Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano: não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida.
É exatamente por pregar e semear este Reino que Jesus deve morrer. Aliás, não morrer, mas ser morto, o que é diferente. Pilatos demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi morto, houve algum motivo e houve alguém que o matasse.
 Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. O Templo funcionava como “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, todos coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus continua hoje
O seguimento de Jesus, na construção de um Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiramente tentarão cooptar a igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não faltarão incentivos monetários e outros, para que as igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para verificarmos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou com o reino de Pilatos.
Para João, Jesus provoca a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar.  Por isso, a festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência – tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!
Tomaz Hughes SVD

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Evangelho dominical

CONVICÇÕES CRISTÃS

Pouco a pouco iam morrendo os discípulos que tinham conhecido Jesus. Os que ficavam, acreditavam Nele sem tê-lo visto. Celebravam a Sua presença invisível nas eucaristias. Mas quando veriam o Seu rosto cheio de vida? Quando se cumpriria o desejo de encontrarem-se com Ele para sempre?
Continuavam a recordar com amor e com fé as palavras de Jesus. Estas eram o seu alimento naqueles tempos difíceis de perseguição. Mas, quando poderiam comprovar a verdade que encerravam? Não iriam se esquecendo pouco a pouco? Passavam os anos e não chegava o Dia Final tão esperado, que podiam pensar?
O discurso apocalíptico que encontramos em Marcos quer oferecer algumas convicções que hão de alimentar a sua esperança. Não o temos de entender em sentido literal, mas procurando descobrir a fé contida nessas imagens e símbolos que hoje nos resulta tão estranhos.
Primeira convicção: A história apaixonante da Humanidade chegará um dia ao seu fim. «sol» que assinala a sucessão dos anos apagar-se-á. A «lua» que marca o ritmo dos meses já não brilhará. Não haverá dias e noites, não haverá tempo. Também, «as estrelas cairão do céu», a distância entre o céu e a terra se apagará, já não haverá espaço. Esta vida não é para sempre. Um dia chegará a Vida definitiva, sem espaço nem tempo. Viveremos no Mistério de Deus.
Segunda convicção: Jesus voltará e os Seus seguidores poderão ver por fim o Seu desejado rosto: «verão vir o Filho do Homem». O sol, a lua e os astros apagar-se-ão, mas o mundo não ficará sem luz. Será Jesus quem o iluminará para sempre pondo verdade, justiça e paz na história humana tão escrava hoje de abusos, injustiças e mentiras.
Terceira convicção: Jesus irá trazer consigo a salvação de Deus. Vem com o poder grande e salvador do Pai. Não se apresenta com aspecto ameaçador. O evangelista evita falar aqui de juízos e condenações. Jesus vem a «reunir os Seus eleitos», os que esperam com fé a sua salvação.
Quarta convicção: As palavras de Jesus «não passarão». Não perderão a sua força salvadora. Seguirão alimentando a esperança dos seus seguidores e o alento dos pobres. Não caminhamos em direção ao nada e ao vazio. Espera-nos o abraço com Deus.
José Antonio Pagola

TRIGÉSIMO-TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 15.11.2015)

Jesus é um profeta que desestabiliza todos os poderes.

A grandeza e o poder das pessoas e instituições costumam garantir-lhes a submissão dos fracos e granjear-lhes uma admiração que tende a perdurar no tempo. Submissão e admiração, especialmente quando conjugadas com o medo sucitado pela violênia congênita ao poder, geram o mito da invencibilidade: quanto mais poder e mais grandeza tiver uma pessoa ou entidade, mais estável será. O cristianismo rejeita este mito amordaçador e imobilizador, e afirma que tudo o que parece poderoso e inabalável acaba desabando pela ação corrosiva e libertadora da fé, recusa a sedutora resignação a um presente sem sabor e sem justiça, e espera ativamente um outro mundo possível.
Vivemos um tempo de crises profundas e caminhamos sem referências seguras. Os grandes mitos e narrativas desapareceram. A esperança fez as malas e desertou, sem deixar endereço para contatos. Falar de esperança passou a ser  considerado algo anacrônico e até ridículo. Por isso, a fuga aparece como a única possibilidade para viver em paz. Sem esperança de futuro, o presente parece um refúgio que garante uma doce sensação de sabedoria. O tempo foge do nosso controle e parece sempre mais acelerado. A realidade flui como água, e parece que nada pode ser feito para mudar seu curso...
É feito de tribulações o tempo que vivemos. Muitas são as pessoas que se perguntam: é possível que o humano venha a prevalecer, ou aquilo que chamamos de humano não passaria de uma ideologia enganadora? Ou será que o humano foi possível apenas no passado e suas sementes não podem mais germinar na terra poluída e ressequida do nosso tempo? Não seria o nosso apenas  um tempo de indivíduos solitários na multidão e de consumidores vorazes, destes que negociam o sonho de um mundo novo pelos novos e fugazes lançamentos do mercado?
Mas aqui, de novo e como sempre, aqueles que acreditam em Jesus Cristo e organizam a vida a partir dele remam contra a corrente e afirmam que o humano se manifestará, está se manifestando, já está presente no meio de nós. O ‘filho do homem’, aquele que é verdadeiramente humano, está vindo ao nosso encontro, solicitando e possibilitando abertura, acolhida, esperança, conversão. É isso que ensina o evangelho de hoje, que recorre a uma linguagem apocalíptica e parabólica para chamar a atenção para a mudança, para o processo de nascimento de uma nova ordem social.
O evangelho não quer insinuar que uma catástrofe cósmica esteja se aproximando, nem suscitar medo e fuga diante dos dramas da história. Ao contrário, convida-nos a entrar na história e tomar posição nas lutas inadiáveis que estão sendo travadas. Sol, lua e estrelas simbolizam os poderes aparentemente sólidos e indestrutíveis. Mas esta solidez é mentirosa, pois o advento do homem novo depõe os poderosos dos seus tronos e eleva os humildes; afirma a dignidade dos últimos; faz germinar sementes e florir os desertos; desarticula as forças e estruturas que mantém a injustiça e a opressão.
O questionamento e abalo da ordem velha e cambaleante não é tudo. É apenas o sinal de que o humano está nascendo, batendo à porta e pedindo para entrar. E, na medida em que ele for acolhido e se tornar regra da nossa vida, uma nova humanidade nascerá, sem fronteiras nem restrições, “reunindo as pessoas que Deus escolheu, do extremo do céu ao extremo da terra.” A parábola da figueira pede atenção a sinais pequenos e discretos dessa mudança. A velha e injusta ordem social simbolizada pelo templo deve chegar ao fim para que desponte um outro mundo.
O ‘filho do homem’ e seus seguidores serão os protagonistas desta mudança. A imagem dele “vindo sobre as nuvens com grande poder e glória” é uma referência ao Jesus Cristo elevado na cruz. No filho do homem perseguido e crucificado resplandece o que é verdadeiramente humano e se revela a glória e o poder de Deus. O advento do humano se dá definitivamente em Jesus crucificado em sua solidária fidelidade a todos os seres humanos. É em torno dele que se reúnem as pessoas escolhidas que, tendo-o como cabeça, formam um corpo verdadeiramente humano, capaz de transfigurar a história.
Tu és, Jesus de Nazaré, divinamente humano e humanamente divino, meu único Senhor, e fora de ti não tenho bem algum, nem esperança que valha a pena. Tu és minha herança e meu cálice. Estás sempre à minha frente e à minha direita, e por isso não vacilo. Minha alegria e minha serena esperança é perceber, com a tua graça, os pequenos e promissores sinais de realização do teu e nosso sonho, o Reino de Deus, o céu novo e a terra nova, o nascimento do homem novo. Nisso se alegra meu coração e exulta a minha alma, e até meu corpo, sempre tão vulnerável, repousa seguro. Amém! Assim seja!

Itacir Brassiani msf
(Profeta Daneil 12,1-3 * Salmo 15 (16) * Carta aos Hebreus 10,11-18 * Evangelho de São Marcos 13,24-32)

O fim e o começo

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13, 24-32)


Este texto nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós.  Porém a sua mensagem central fica clara – o triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu Reino.  A linguagem vetero-testamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatológica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central.  A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus – e a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatológico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10, Ez 32,7; Am 8,9; Jl 2,10.31; 3,1.5; Is 34,4; Ag 2,6.21. Mas nenhum texto do Antigo Testamento se refere à vinda do Filho do Homem – esta é uma novidade do Evangelho.  A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda final.  A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel.  A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2,10.  Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30,4; Is 11,11.16; 27,12. Ez 39,7 etc. – mas nunca é o Filho do Homem que faz esse trabalho no Antigo Testamento.
A segunda parte do texto consiste em uma parábola (vv. 28-29), um ditado sobre a hora do fim (v. 30), sobre a autoridade de Jesus (v. 31) e de novo sobre a hora (v. 32).   Nem sempre fica claro a que se refere – o que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata.  A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas continua clara a mensagem básica – a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho.
Pode parecer confuso o nosso texto – e para nós hoje, de certa forma, o é.  Mas, se inserido no contexto do Discurso Escatológico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e uma advertência.  A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida – um elemento fundamental em todo apocalipticismo.  A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto convida nos convida como discípulos, a uma atitude positiva que nos leve a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós.  Mas também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus.  As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta.  “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”. 
Pe. Tomaz Hughes SVD

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Evangelho dominical

CONTRASTE

O contraste entre as duas situações é total. Na primeira, Jesus põe as pessoas em guarda frente aos escribas do templo. A sua religião é falsa: utilizam-na para procurar a sua própria glória e explorar aos mais fracos. Não tem de os admirar nem seguir o seu exemplo. Na segunda, Jesus observa o gesto de uma pobre viúva e chama os Seus discípulos. Desta mulher podem aprender algo que nunca lhes ensinarão os escribas: uma fé total em Deus e uma generosidade sem limites.
A crítica de Jesus aos escribas é dura. Em vez de orientar o povo em direção a Deus procurando a Sua glória, atraem a atenção das pessoas para si mesmos procurando a sua própria honra. Gostam de «passear-se com amplas roupas» procurando cumprimentos e reverências das pessoas. Na liturgia das sinagogas e nos banquetes procuram«os lugares de honra» e «os primeiros lugares».
Mas há algo que, sem dúvida, dói a Jesus mais que este comportamento fátuo e pueril de ser contemplados, saudados e reverenciados. Enquanto aparentam uma piedade profunda nas suas «longas rezas» em público, aproveitam-se do seu prestígio religioso para viver à custa das viúvas, dos seres mais débeis e indefesos de Israel segundo a tradição bíblica.
Precisamente, uma destas viúvas vai pôr em evidência a religião corrupta destes dirigentes religiosos. O seu gesto passou despercebido a todos, mas não a Jesus. A pobre mulher só deitou na arca das oferendas duas pequenas moedas, mas Jesus chama de seguida os Seus discípulos pois dificilmente encontrarão naquele ambiente do templo um coração mais religioso e mais solidário com os necessitados.
Esta viúva não anda à procura de honras nem prestigio algum; atua de forma calada e humilde. Não pensa em explorar ninguém; pelo contrário, dá tudo o que tem porque outros o podem necessitar. Segundo Jesus, deu mais que todos, pois não dá o que lhe sobra, mas «tudo o que tem para viver».
Não nos equivoquemos. Estas pessoas simples, mas de coração grande e generoso, que sabem amar sem reservas, são o melhor que temos na Igreja. Elas são as que fazem o mundo mais humano, as que creem verdadeiramente em Deus, as que mantêm vivo o Espírito de Jesus no meio das outras atitudes religiosas falsas e interesseiras. Destas pessoas temos de aprender a seguir a Jesus. São as que mais se lhe parecem.

José Antonio Pagola

A mulher do ENEM

MULHER GOSTA DE APANHAR?

Há tempos circula nas redes sociais a frase: “Não existe mulher que gosta de apanhar; o que existe é mulher humilhada demais para denunciar, machucada demais para reagir, com medo demais para acusar, pobre demais para ir embora.” Gosto da frase apesar de sua alguma banalidade. Gosto porque me parece que, de forma primária, diz a verdade sem sombras nem ocultamentos.

Cresci na geração que glorificava frases machistas do tipo “Lugar de mulher é na cozinha” ou “Quando você bate em uma mulher você pode não saber por que está batendo, mas ela sabe por que está apanhando”. Trata-se da geração que brindava por “saúde e filhos machos” e considerava a mulher um objeto de propriedade do pai, do irmão mais velho, depois do marido, do filho etc., sem vida própria, vontade própria ou qualquer laivo de independência.

Por isso, parece-me de extrema oportunidade o tema da redação da prova do Enem sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Questão extremamente atual, instigante e que obriga os estudantes que se dispõem a fazer o percurso da universidade a tomar consciência de que a violência contra a mulher no Brasil só faz crescer. Apesar de alguns avanços, como as delegacias da mulher, a Lei Maria da Penha e outros, é fato que continuam acontecendo espancamentos, violações, estupros e toda classe de violência sexual que diariamente acometem as mulheres em todo o nosso território nacional. Pesquisas comprovam que a maior parte das agressões ocorre dentro do lar, e são cometidas por esposos, companheiros ou namorados, ou seja, pessoas da confiança das agredidas.

É sintomático da existência de um ainda vigoroso machismo em nossa população o fato de o tema ter causado tanta polêmica, invadido as redes sociais com críticas irritadas e agressivas. Muitos protestam contra o que dizem ser uma forma de tornar a mulher uma “vítima privilegiada” da violência. Parecem não dar-se conta de que se homens e mulheres e até mesmo animais são suscetíveis de sofrer violência tornando-se, portanto, igualmente dignos da proteção da Lei, as mulheres têm contra si vários elementos que tornam a violência que sofrem mais frequente e por isso mesmo mais lamentável. Padecem, além e acrescentado à agressão, do fato de possuírem menor força física, ou dependerem financeiramente do agressor. Os agressores contam também com a cumplicidade e o pacto informal de silêncio das instituições e da sociedade quando o assunto é violência doméstica ou feminicídio. Ditos como “em briga de marido e mulher ninguém põe a colher” confirmam agressor e vítima no papel que desempenham no triste cenário da violência sexual que continua acontecendo em nosso país.

Em todo caso, a prova de redação incomodou. O tom de alguns comentários ouvidos e lidos após a prova era de surpresa, como se uma realidade presente em muitos lares, bares e locais de trabalho nunca tivesse existido, fosse uma pequena desavença doméstica sobre a qual não seria educado falar. Ou ainda, apenas uma bandeira de movimentos de gênero ou políticos

Ora, independentemente das provas do Enem, a violência contra qualquer ser humano, animal ou natureza não é questão de ideologia. Trata-se de uma violência contra a humanidade, aos direitos humanos, à civilização, aos direitos fundamentais. Está previsto no edital do próprio exame que “[...] será atribuída nota 0 (zero) à redação: [...] que desrespeite os direitos humanos...” A violência contra a mulher é a violação de um direito humano e, portanto, intrinsecamente perversa e reprovável. Mais: trata-se de violência cometida contra a mulher, independentemente de sua ideologia, posição política, configuração ideológica. Atirar sobre o tema a perspectiva do feminismo como ideologia reducionista não corresponde à realidade e não é expressão da verdade.
Na realidade, a questão motivadora da redação na prova é detonadora de toda a celeuma. Trata-se da citação da conhecida filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminine."

Simone de Beauvoir é uma das pensadoras mais conhecidas da contemporaneidade. E não apenas nem principalmente por ser a companheira do famoso e ilustre filósofo Jean Paul Sartre. Com luz própria e uma personalidade fulgurante, Simone abriu caminho por entre a machista sociedade francesa e europeia com seu livro “O segundo sexo”, chamou sobre si os holofotes do questionamento que faria surgir um dos movimentos mais importantes do século XX, o movimento feminista.

Muitas mulheres certamente não se alinham inteiramente com o ideário de Simone de Beauvoir. Eu sou uma delas. Mas não posso deixar de reconhecer seu valor intelectual e o largo e fascinante caminho que abriu para todas as mulheres do mundo, espécie ainda medrosa, envergonhada e intimidada pela discriminação de que sempre foi objeto. O fato de seus textos serem acessíveis aos jovens de ambos os sexos que hoje se preparam para entrar na universidade é extremamente positivo. São jovens que, procurando redigir um texto claro e inteligível sobre o tema, são convidados a não confirmar na sociedade em que vivem e à qual amanhã presidirão chavões lamentáveis como o título deste artigo.

Mulher não gosta de apanhar. Como todo ser vivo mulher gosta de carinho, de amor e de respeito. A diferença é que cada vez mais ela está aprendendo a se defender e a demonstrar que se recusa a enquadrar-se nos estereótipos que lhe foram destinados. Trata-se de uma das maiores revoluções – senão a maior – que está em curso em nossos tempos. Quem sabe uma sociedade onde a mulher tenha um papel mais relevante poderá ser menos violenta, menos injusta, menos cruel? A história dirá. Enquanto isso, leiamos Beauvoir. Mas não só ela. Também todos e todas que na história mais recente ou mesmo mais antiga refletiram sobre a igualdade de direitos entre mulher e homem, no coração de suas inegáveis e saborosas diferenças.

Maria Clara Bingemer

TRIGÉSIMO-SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 08.11.2015)

A religião não pode legitimar a exploração dos pobres!

Precisamos ter cuidado para não distorcer a Palavra de Deus. As passagens propostas para este domingo podem ser presas fáceis de uma exegese preguiçosa ou de uma edificante ideologia. A figura das duas viúvas, a do livro dos Reis e a do evangelho de Marcos, soa como canto de sereia para leituras superficiais e conclusões fáceis. A necessidade de resgatar virtudes como a hospitalidade e a partilha, assim como de angariar fundos para as Igrejas e suas obras sociais, pode induzir a um louvor precipitado da atitude destas mulheres que são, antes de tudo, vítimas de sistemas injustos.
Depois de uma longa viagem, durante a qual procura insistentemente formar os discípulos no seu caminho, Jesus chega com eles a Jerusalém (cf. 11,15). Visitando o templo, Jesus não se encanta nem se omite: classifica-o como esconderijo de ladrões e expulsa do seu interior os comerciantes que lucram com ele (cf. 11,17). Então, abre-se uma série de confrontos entre Jesus e os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei (cf. 11,18.28) e saduceus (cf. 12,18-27). Estes grupos religiosos e políticos não apenas questionam o ensinamento de Jesus, mas procuram um modo de prendê-lo e matá-lo (cf. 11,18; 12,12).
Assim, o contexto literário da passagem do Evangelho deste domingo é de questionamento do templo e de confronto com as autoridades religiosas, especialmente com os doutores da Lei. Contra estes, Jesus levanta cinco acusações: pretendem demonstrar o saber religioso pelas roupas que usam; gostam de ser cumprimentados nas praças; disputam os primeiros lugares nas sinagogas e banquetes; exploram e roubam as viúvas; e usam a piedade como disfarce que encobre tudo isso.
Jesus desmascara a hipocrisia dos doutores da Lei, importantes autoridades religiosas do judaísmo da época, afirmando que eles não vivem o essencial da aliança, que é praticar o direito, amar a misericórdia e caminhar humildemente diante do Senhor (cf. Mq 6,8), assim como proteger os pobres, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros (cf. Dt 24,18-22). Antes, eles correm atrás de status e privilégios especiais, e se aproveitam da fraqueza e insegurança das viúvas, das quais são legalmente constituídos administradores. Aos olhos deJesus, a piedade dos doutores da Lei e dos escribas é falsa e serve como um belo véu para encobrir o oportunismo e a exploração dos pobres e indefesos.
É neste contexto que a passagem da viúva que vai ao templo adquire sentido. Não passa pela cabeça de Jesus elogiar o templo, que há pouco havia desmascarado. Sentado diante das caixas de coleta, ele observa e descreve concretamente como se processa a exploração das viúvas, das pessoas mais pobres. Jesus não se deixa enganar pelas aparentemente volumosas contribuições dos ricos. Sua atenção se volta a uma viúva pobre que, depositando duas unidades da menor moeda em circulação, "depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver".
Não me parece que Jesus queira elogiar a generosidade da pobre viúva.  Antes, pretende desmascarar a exploração que se realiza através do templo: os ricos contribuem com o que lhes sobra, enquanto que os pobres são obrigados a dar tudo o que têm para viver. Jesus chama atenção para o contraste e diz que há uma inversão inaceitável: diferente do que se pensa e se diz, o templo exige mais dos pobres que dos ricos. É assim que os escribas rapinam as viúvas pobres: justificando tudo pela contabilidade financeira e pelas aparências piedosas...
Jesus lamenta a exploração praticada pelo templo e justificada por mentiras matemáticas e teológicas. Ele não se impressiona com a grandiosidade do templo, e se irrita com a ausência de justiça e de equidade. Ele percebe com clareza que atitudes e práticas piedosas podem esconder injustiças violentas, e a própria religião pode tornar-se meio de exploração dos mais pobres. Jesus convida a rever as práticas individuais, eclesiais e sociais. E acrescenta como profecia e ameaça: "Você está vendo estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído" (13,2).
Jesus, pregador do Reino, peregrino nas estradas da Galiléia e observador crítico das práticas opressoras do templo em Jerusalém...  Concede-nos a coragem e a liberdade que necessitamos para denunciar que há um nexo entre a riqueza de poucos e a pobreza de muitos,  e que a desregulamentação liberal das relações trabalhistas reduz a segurança social e aumenta a exploração sobre os trabalhadores.  Ajuda-nos a não sermos coniventes com isso, e inspira às nossas Igrejas e a cada um de nós palavras e ações que instaurem a justiça do teu Reino na terra. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(1° Livro dos Reis 17,10-16 * Salmo 145 (146) * Carta aos Hebreus 9,24-28 * Evangelho de Marcos 12,38-44)

Quem da mais?!

A oferta de uma viúva pobre: Mudança de Paradigma (Mc 12,38-44)

Reflexões iniciais – considerações pastorais
Escrevo este texto num momento de grandes escândalos no Brasil, devido à corrupção e lavagem de dinheiro. Igrejas têm sido usadas e, inclusive, se utilizado dessas benesses corruptas. Um político, inclusive, tem uma empresa com o nome de Jesus.com, providenciada por ele como expediente para a lavagem de dinheiro público. A fé cristã está sendo disposta como mercadoria para desvios financeiros e em vista disto, medito sobre o texto de Marcos 12.38-44. O que significa, neste contexto, a viúva dar tudo o que tinha? De que forma, este texto ajuda na reflexão sobre a doação financeira? A personagem protagonista da narrativa é uma viúva pobre, isto é, uma pessoa excluída da sociedade. Vivemos também, no momento, uma grande xenofobia aos pobres no Brasil, às pessoas estrangeiras, aos negros e negras, às mulheres, aos povos indígenas... Portanto, o texto nos faz também refletir sobre os grupos de pessoas excluídas de nossa sociedade.

O chão brasileiro religioso: a questão do dízimo
Muito ouvimos falar de dízimo, doações e ofertas. Existe muita discussão em torno deste assunto. Exageros em relação à temática são proclamados e também praticados na realidade religiosa pluralista e sincretista brasileira. Escutamos, inclusive, histórias tristes de pessoas que entregam o dízimo a determinadas igrejas, mas passam necessidade de comida, de saúde e até de educação. Outras pessoas testemunham que desde que estão doando o dízimo receberam muitas bênçãos em sua vida. As histórias de vida e de fé são, muitas vezes, contraditórias em relação à prática do dízimo, que se tornou uma lei de troca, principalmente em determinadas igrejas evangélicas. O discurso religioso do dízimo está relacionado, na maioria das vezes, com o recebimento de bênçãos e prosperidade, baseado numa teologia retributiva, isto é, procura-se negociar com Deus.
No entanto, não é a quantia de doação e oferta que importa, mas a intenção com que é doado. Quem não se sensibiliza quando observa a alegria de crianças doando brinquedos, roupas, ou até mesmo, as suas moedinhas. O que conta é exatamente essa alegria. Certa vez, participei de uma celebração onde a comunidade estava arrecadando doações em alimentos, roupas, brinquedos para pessoas vítimas das enchentes. Emocionei-me muito quando vi crianças levando os seus brinquedos ao altar e elas voltavam correndo junto aos seus pais com um largo sorriso nos lábios. Doação tem a ver com a entrega para uma causa. O que interessa é como acontece a doação... Ela não pode ser forçada. Necessita ser um verdadeiro gesto de solidariedade e de alegria!
Contudo, é necessário ter claro que não vivemos numa sociedade igualitária. No mundo em que vivemos, não é possível ignorar a diferença entre as pessoas. Há pessoas com melhores condições financeiras do que outras. Muitas vezes, nossas doações, também estão ligadas a projetos concretos. As contribuições de todas as pessoas são importantes para o trabalho da igreja, das organizações não governamentais, inclusive, do CEBI. Porém, permanece em qualquer situação válida a questão que Deus não avalia o doador ou a doadora conforme a quantia doada. O que tem valor é como você doa, como nós doamos. Se é com amor, com o coração aberto! Quando você doa, você também necessita conversar com sua família. A doação também necessita ser uma decisão compartilhada, decidida coletivamente.
Tenho ouvido muitas histórias em que pessoas são coagidas a doar aquilo que também significa o sustento da família, inclusive, casa, terreno, carro, dinheiro, entre outros. Então, quando isto acontece, necessitamos ter muito claro que isto não é da vontade de Deus. Nenhuma pessoa pode ser coagida a doar. Tem se utilizado de métodos que envolvem a emoção para fazer as pessoas entregarem muitas vezes mais do que elas realmente gostariam e poderiam doar, pois muitas, infelizmente, vão atrás de promessas falsas, através do discurso das teologias retributiva e da prosperidade. Estas teologias incentivam um negócio com Deus e este não é o objetivo da oferta. O ofertar tem a ver com a gratidão. Quem assim age, não atua de acordo com o evangelho que liberta, mas se apodera de um discurso para tirar, poderíamos até mesmo dizer, roubar da outra pessoa.

Texto de Marcos 12,38-44
É interessante observar que nos versículos 38-40 Jesus alerta o povo, em relação aos religiosos de seu tempo, os escribas, a forma como os mesmos se comportam, se vestem com roupas especiais, escolhem os lugares de honra nas casas de oração e nos banquetes. No versículo 40 Jesus diz: “Exploram as viúvas e roubam os seus bens, e para disfarçar, fazem longas orações. Portanto, o castigo que vão sofrer será pior!”.
O texto continua a relatar que Jesus estava no templo, sentado perto da caixa das ofertas e observava como o povo punha ali a sua doação. Jesus observa e declara, então, que a viúva que colocou duas moedas, ao dar de sua pobreza, “deu tudo o quanto tinha para viver” (v. 44), dispôs, com esta atitude, toda a sua vida perante Deus. O texto no qual estamos meditando evidencia fortes contrastes, mudanças de paradigmas: o que vale para Jesus não é a quantidade, o valor da oferta, mas sim a forma, o jeito como a doação é depositada na caixa das ofertas.
A pessoa que narra o texto, no Evangelho de Marcos, faz claramente uma oposição entre a atitude dos professores da lei (escribas) e a atitude da viúva pobre. Nos versículos 38-40 Jesus censura a forma como os escribas se apresentam e atuam, e nos versículos 41-44 ele exalta a oferta da viúva pobre. Jesus apresenta dois grupos que se opõem na sociedade. Aí se encontra o conflito do texto.
Jesus condena, com rigor, o fato dos escribas tirarem, de alguma forma, os recursos das viúvas. Como vimos, os escribas com suas atitudes consideravam-se melhores que as viúvas, seja como religiosos, ou como cidadãos.
Na sociedade da época de Jesus, as viúvas pertenciam ao grupo dos pobres. Viúvas e órfãos eram o símbolo do desamparo, da marginalização. Estavam entregues à própria sorte. Não havia sistema previdenciário, um SUS, que os amparasse. Viúvas não davam oferta – mendigavam esmolas. Elas eram marginalizadas, porque dependiam de outras pessoas para sobreviverem. Se não tinham filhos, estavam então, totalmente desamparadas.
Para além do contraste fundamental e mais óbvio no registro do evangelista (v. 41: ricos e v. 42: viúva pobre), Jesus "desloca" a viúva da situação de sujeito marginal trazendo-a para o centro, como sujeito ativo. A viúva é feita referência de devoção e de fé e não os "senhores da lei". Quem se torna exemplo de fé não são os escribas, e sim a viúva pobre.
É importante deixar claro que Jesus não faz uma comparação entre ricos e pobres, não é esta a questão. O que Jesus compara é a atitude das pessoas que se dizem crentes em Deus. No Evangelho acontece uma inversão do paradigma. Não são os mestres da lei, os escribas, os exemplos de fé, mas sim a viúva, ela doa tudo o que tem.
Na narrativa, Jesus chama os discípulos e lhes diz: “Eu afirmo a vocês que esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque os outros deram do que que estava sobrando. Ela, porém, tão pobre assim, deu tudo quanto tinha para viver” (v. 44). Jesus percebe na atitude da viúva uma entrega confiante, despreendida.

A viúva era pobre
A viúva dentro do contexto da comunidade de Marcos fazia parte do grupo de pobres. Viúvas eram excluídas da vida normal da comunidade. Ela deu “tudo quanto possuía”. À primeira vista, esse gesto parece até ser um ato de irresponsabilidade. No entanto, é um gesto de confiança irrestrita em Deus. Só que como já refletimos anteriormente, deve-se ter todo o cuidado para não usarmos este texto como uma lei, mas como ação libertadora boa-nova.
A doação da viúva pobre apresenta relações com Jesus, o qual também se entregou inteiramente em resgate de muitos. No seguimento a Jesus, também será necessário fazer renúncias, afirmar outro tipo de mentalidade, outro jeito de viver, transparecendo nas relações de solidariedade. As viúvas bíblicas e marginalizadas de hoje mostram o quanto a sociedade está amarrada ao lucro de poucos em detrimento do prejuízo de muitos. A viúva que foi vista por Jesus sobrevive até hoje, servindo de inspiração para nós, pois ela entendeu o que significa viver graças ao amparo de Deus.
Damos dinheiro à Igreja para que ela desenvolva o seu trabalho e ampare as viúvas, os pobres, todas as pessoas excluídas e que a mensagem do Evangelho gracioso e libertador possa ser proclamada.
A atitude de humildade da viúva a re-liga mais a Deus do que os escribas que ficam se exibindo nas praças com suas longas orações. Lembro-me da Palavra da Carta de Tiago (1.27): "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesma(o) guardar-se incontaminada(o) do mundo". A viúva que Jesus observou deixou no templo de Deus o sustento de sua vida. Ela entregou sua vida nas mãos de Deus. A pobre viúva entregou a sua oferta, como era costume. O detalhe importantíssimo, porém, é que ela “da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento”. Trata-se de uma entrega total, abnegada, mas que indica uma forte esperança que sustenta a vida.
Quem são os pobres hoje em nossas comunidades? Como estão sendo cuidados?
Comunidade cristã, por natureza, é inclusiva. Como tal, ela se preocupa em especial com os pobres, com aquelas pessoas que no critério do mundo que não tem valor. Por pobres, se entendem todas as pessoas excluídas da sociedade, independente dos motivos da exclusão. Portanto, há muitos pobres entre nós. É só abrir os olhos e ter um coração acolhedor e solidário. Sejamos comunidade acolhedora das pequenas doações que transformam o mundo, assim como Jesus enxergou a doação da viúva pobre. Um canto africano diz: “muitas pessoas pequenas, em muitos lugares pequenos, podem mudar a face do mundo”. Acreditamos nas pequenas ações ativas, combativas e esperançosas de nosso cotidiano. Há neste momento, muitos grupos se encontrando para lutar contra a exploração e discriminação que se assola entre nós.

Concluindo
Em muitas igrejas percebe-se um apelo exacerbado no sentido de angariar contribuições maiores para o trabalho da própria igreja. Não faltam exemplos de líderes de igrejas brasileiras que enriqueceram desta forma. Há uma verdadeira ditadura do ofertar em determinadas denominações religiosas, atitude que não corresponde ao evangelho. A oferta necessita ser de gratidão. Portanto, o texto da oferta da viúva pobre do Evangelho de Marcos não deve ser usado neste sentido. O destaque não está na grande soma de dinheiro ofertada, mas na pequena oferta que é doada pela viúva pobre. Tudo que somos e temos recebemos de Deus por sua imensa graça e misericórdia. Nada nos pertence. Fomos agraciados por Deus e por gratidão ofertamos nosso tempo, nossos dons e nossos recursos materiais para a sua causa no mundo, isto é, da paz e da justiça. Agimos em favor da sua causa na Igreja e na sociedade. A história da viúva é como um grande quadro que Jesus pinta para os seus seguidores e seguidoras, onde ele apresenta uma inversão de valores, mudança de paradigma. A oferta é recebida por Deus quando é dada com o coração aberto e solidário, comprometido com a causa dos pobres deste mundo.
Claudete Beise Ulrich

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

CNBB emite nota sobre o momento politico do Brasil

A REALIDADE SOCIOPOLÍTICA BRASILEIRA:
DIFICULDADES E OPORTUNIDADES
O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília de 27 a 29 de outubro de 2015, comprometido com a vivência democrática e com os valores humanos, consciente de que é dever da Igreja cooperar com a sociedade para a construção do bem comum, manifesta-se acerca do momento de crise na atual conjuntura social e política brasileira.
A permanência e o agravamento da crise política e econômica, que toma conta do Brasil, parecem indicar a incapacidade das instituições republicanas que não encontram um modo de superar o conflito de interesses que sufoca a vida nacional, e que faz parecer que todas as atividades do país estão paralisadas e sem rumo. A frustração presente e a incerteza no futuro somam-se à desconfiança nas autoridades e à propaganda derrotista, gerando um pessimismo contaminador, porém, equivocado, de que o Brasil está num beco sem saída. Não nos deixaremos tomar pela “sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre” (Papa Francisco – Alegria do Evangelho, 85).
Somos todos convocados a assegurar a governabilidade que implica o funcionamento adequado dos três poderes, distintos, mas harmônicos; recuperar o crescimento sustentável; diminuir as desigualdades; exigir profundas transformações na saúde e na educação; ampliar a infraestrutura, cuidar das populações mais vulneráveis, que são as primeiras a sofrer com os desmandos e intransigências dos que deveriam dar o exemplo. Cada protagonista terá que ceder em prol da construção do bem comum, sem o que nada se obterá.
É preciso garantir o aprofundamento das conquistas sociais com vistas à construção de uma sociedade justa e igualitária. Cabe à sociedade civil exigir que os governantes do executivo, legislativo e judiciário recusem terminantemente mecanismos políticos que, disfarçados de solução, aprofundam a exclusão social e alimentam a violência, entre os quais o estado penal seletivo, as tentativas de redução da maioridade penal, a flexibilização ou revogação do Estatuto do Desarmamento e a transferência da demarcação de terras indígenas para o Congresso Nacional. No genuíno enfrentamento das atuais dificuldades pelas quais passa o país, não se pode abrir espaço para medidas que, de maneira oportunista, se apresentam como soluções fáceis para questões sabidamente graves e que exigem reflexão e discussão mais profundas com a sociedade.
A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso comum entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético e moral de favorecer a busca de caminhos que recoloquem o país na normalidade. É inadmissível alimentar a crise econômica com uma crise política irresponsável e inconsequente.
Recorde-se que “uma sociedade política dura no tempo quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências comuns, estimulando o crescimento de todos os seus membros, especialmente aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas” (Papa Francisco ao Congresso dos EUA). Nesse sentido, com o espírito profético inspirado na observância do Evangelho, a CNBB reitera que o povo brasileiro, os trabalhadores e, principalmente, os mais pobres não podem ser prejudicados em nome de um crescimento desigual que reserva benefícios a poucos e estende a muitos o desemprego, o empobrecimento e a exclusão.
A construção de pontes que favoreçam o diálogo entre todos os segmentos que legitimamente representam a sociedade é condição fundamental para a superação dos discursos de ódio, vingança, punição e rotulação seletivas que geram um clima de permanente animosidade e conflito entre cidadãos e grupos sociais. Esse clima belicoso, às vezes alimentado por parte da imprensa e das redes sociais, poderá contaminar ainda mais os corações e mentes das pessoas, aprofundando abismos e guetos que, historicamente, maculam nossa organização social. Ao aproximar-se o período eleitoral de 2016, é responsabilidade de todos os atores políticos e sociais, comprometidos com a ética, a justiça e a paz, aperfeiçoarem o ambiente democrático para que as eleições não sejam contagiadas pelos discursos segregacionistas que ratificam preconceitos e colocam em xeque a ampliação da cidadania em nosso país.
A corrupção se tornou uma “praga da sociedade” e um “pecado grave que brada aos céus” (Papa Francisco - O rosto da misericórdia, n.19). Acometendo tanto instituições públicas, quanto da iniciativa privada, esse mal demanda uma atitude forte e decidida de combate aos mecanismos que contribuem para sua existência. Nesse sentido, destaca-se a atuação sem precedentes dos órgãos públicos aos quais compete combater a corrupção. A contraposição eficaz à corrupção e à sua impunidade exige, antes de mais nada, que o Estado cumpra com rigor e imparcialidade a sua função de punir igualmente tanto os corruptos como os corruptores, de acordo com os ditames da lei e as exigências de justiça.
Deus nos dê a força e a sabedoria de seu Espírito, a fim de que vivamos nosso ideal de construtores do bem comum, base da nova sociedade que almejamos para nós e para as futuras gerações.
Brasília, 28 de outubro de 2015.

Dom Sergio da Rocha, Arcebispo de Brasília-DF, Presidente da CNBB
Dom Murilo S. R. Krieger, Arcebispo de São Salvador da Bahia- BA, Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner, Bispo Auxiliar de Brasília-DF, Secretário Geral da CNBB