segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Jesus e sua família

A prática do Evangelho nos insere na família de Jesus

845 | 23 de setembro de 2025 | Lucas 8,19-21

Como já percebemos, os três versículos de hoje estão inseridos numa seção literária maior, na qual Jesus sublinha a importância de ouvir corretamente o Evangelho do Reino. Noutros textos ele sublinha que escutar a Palavra de Deus implica em guardá-la, praticá-la, fazê-la frutificar na vida (cf. 6,46-49; 11,27-28).  Esta palavra de Deus compreende o conjunto do antigo testamento, assim como a vida e o ensinamento de Jesus. Neste sentido, Maria já fora apresentada pelo evangelista como a ouvinte e servidora exemplar da Palavra de Deus.

No breve texto de hoje, Lucas nos informa que Jesus está ensinando seus discípulos e o povo, e que sua mãe e seus irmãos se aproximam dele, mas não conseguem chegar perto por causa da multidão. Podemos imaginar que também eles, especialmente a mãe, querem ouvi-lo e aprender como acolher a novidade revolucionária do Reino de Deus. Então, um mensageiro avisa Jesus da chegada dos seus familiares.

“Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”, diz o mensageiro a Jesus. Sem ressentimento em relação a ninguém, e mostrando profundo apreço àqueles que o circundam e escutam, Jesus dá uma resposta um pouco estranha, com aparência de desprezo à sua própria mãe. Ele afirma claramente que seus irmãos e sua mãe são as pessoas que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. É a escuta e a prática do Evangelho do Reino que cria e sustenta a relação com ele.

Os discípulos são sua grande e nova família, e a escuta e a prática da Palavra de Deus é o dinamismo que a congrega. Para Jesus, as exigências dessa Palavra são claras: relacionamento fraterno e igualitário; perdão recíproco; prioridade aos pequenos; superação dos estreitos laços de sangue, de nação e de etnia. Não é possível ser discípulo e ignorar ou menosprezar estes imperativos.

Jesus não se deixa prender por laços de sangue, nem cai na tentação de formar guetos ou seitas fechadas. Ele propõe uma mudança profunda e total nas relações humanas, sociais, espirituais e políticas, e nem as relações familiares ficam de fora. Também a família deve entrar na lógica do reino de Deus. É claro que podemos imaginar, sem perder o foco, que Maria e os parentes que a acompanham se agregarão, pouco a pouco, ao círculo daqueles que “ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Mas, não esqueçamos: os laços de sangue não estão acima do vínculo de fé.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome a breve cena oferecida por Lucas, procurando interagir com os personagens: a mãe e os irmãos de Jesus; o mensageiro; a atitude e a palavra de Jesus; o olhar atento e agradecido dos discípulos que o circundam

§ Como você vive concretamente a relação entre os vínculos familiares e os vínculos com Jesus e com a comunidade?

§ Como está a escuta e a prática – sua, da sua família e da sua comunidade – da Palavra de Deus, especialmente neste mês?


domingo, 21 de setembro de 2025

A função da lâmpada

Atenção ao modo como escutamos o Evangelho!

844 | 22 de setembro de 2025 | Lucas 8,16-18

Com a parábola do semeador, que estudamos no sábado passado, Jesus pedia de nós uma escuta atenta e generosa, um aprofundamento responsável e uma sólida perseverança na escuta da Palavra. O discípulo se torna missionário, chamado a anunciar (semear) o Evangelho a todas as pessoas e grupos, sempre com confiança na força da semente e com esperança de que ela frutifique, pois a pequena parte que a acolhe bem produz pelas demais.

Os poucos versículos do texto de hoje estão no mesmo horizonte e dão sequência ao tema. Neles Jesus põe em destaque a atitude daqueles que leem ou escutam sua Palavra. “Prestai atenção à maneira como vós ouvis!”, adverte ele. E, para ilustrar aquilo que deseja enfatizar, Jesus recorre à metáfora da lâmpada, advertindo quem o escuta sem atenção e sem discernimento.

É da experiência comum que ninguém acende uma lâmpada para escondê-la ou para cobri-la, e nenhum eletricista com um mínimo de juízo instala uma lâmpada num lugar que possa limitar seu raio de iluminação. A luz existe para ajudar a ver as coisas, e não para servir de decoração ou ostentação! Não olhamos a lâmpada diretamente, mas aquilo que ela ilumina.

Assim é a Palavra de Deus na vida pessoal e eclesial. Ela não está aí para decorar nossas mesas e estantes. Nas celebrações, ela não deve simplesmente ser exposta com destaque, saudada com aplausos e acolhida com danças rituais, mas ser proclamada, ouvida e entendida. Ela está presente para iluminar e ajudar a entender o que Deus nos fala pelos acontecimentos e pelos sinais dos tempos. Ela é luz que ilumina nossos passos, sabedoria no discernimento sobre como agir.

Assim, compreendemos a sentença final de Jesus no texto de hoje. Quem proclama, escuta, lê ou estuda com atenção a Palavra de Deus verá crescer ainda mais seu entendimento. Mas quem a trata como decoração ou amuleto, como uma palavra qualquer, descobrirá desolado que sequer leu ou escutou a Palavra de Deus, que aquele livro que aplaudiu ou em torno do qual dançou, não passa de um livro desconhecido ou uma lâmpada encoberta.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome, com toda a atenção possível estes três versículos que prosseguem a parábola do semeador e a explicação de Jesus

§ A simplicidade das parábolas do Reino de Deus não pode ser tomada como sinal de superficialidade e irrelevância

§ Será que não estamos tratando o ensino e a prática do Reino de Deus como uma lâmpada que acendemos e escondemos dentro do sacrário, do templo ou do coração, impedindo que ele ilumine e transforme o mundo?

§ Estamos levando a sério de verdade a Palavra de Deus que lemos, ouvimos e estudamos? 

Encontro dos Novos Bispos

Uma experiência de catolicidade e de unidade

Entre os dias 3 e 11 de setembro tive a oportunidade de participar da semana de encontro e estudos que a igreja católica organiza em Roma para os bispos que foram ordenados nos últimos 12 meses. Éramos mais de 190 bispos provindos do mundo inteiro, divididos em dois grupos: um, reunindo os bispos que atuam no continente americano e europeu (inclusive alguns bispos de igrejas ortodoxas e 14 novos bispos do Brasil); o outro, agrupando basicamente bispos oriundos da África, da Ásia e da Oceania.

Para além dos ricos e oportunos temas refletidos, esta foi uma experiência que possibilitou “tocar com a mão” a diversidade e a catolicidade da Igreja. Ouvir a experiência dos bispos e os desafios de Igrejas particulares da Rússia, da França, da Etiópia, da Escócia, das Ilhas Fuji, da Indonésia e da Venezuela, para citar apenas alguns países, é algo que não costuma ocorrer com frequência. Conviver e partilhar buscas e esperanças de igual para igual, não obstante os limites de idioma, é uma graça especial.

Três momentos foram particularmente especiais. O primeiro foi a celebração eucarística na Basílica de São Pedro, concluída com a visita ao túmulo de São Pedro. Este sinal visível de comunhão com a sede da Igreja Católica, com o passado humilde e eloquente dos apóstolos que lançaram as bases da vida cristã, emociona e compromete. Levei comigo junto aos restos mortais de São Pedro o povo da diocese de Santa Cruz, especialmente as pessoas mais vulneráveis, os padres, os diáconos e as demais lideranças.

Um segundo momento particularmente tocante foi a celebração de canonização dos jovens Pedro Jorge Frassatti (1901-1925) e Carlo Acutis (1991-2006). Presenciar a proclamação solene da Igreja de que estes jovens, não obstante os poucos anos de vida, chegaram à maturidade humana e cristã e são referências sólidas para todas as gerações, é fonte de imensa alegria e sincera gratidão. Neles os jovens de hoje podem encontrar estímulo e orientação para unir fé e vida, vida eclesial e compromisso social.

Um terceiro momento especial foi o encontro coletivo dos novos bispos com o Papa Leão XIV. Mais que poder apertar a mão e receber a bênção pessoal daquele que é sinal visível de unidade da Igreja católica, apreciei a oportunidade de diálogo com ele, de apresentar questões e ouvir suas ponderações. De fato, depois de uma breve reflexão de pouco mais de maia hora, o Papa dialogou conosco por mais de uma hora, respondendo às nossas perguntas e aconselhando, sempre com muita humanidade, simplicidade e bom humor.

Animado e confirmado por essas experiências, e também com a ajuda das diversas palestras de expoentes da Igreja (diversos bispos e cardeais, inclusive três que eram considerados “papáveis”), volto com algumas convicções que estarão presentes no exercício do ministério que a Igreja me confiou. Partilhando essa vivência, desejo agradecer a Deus a oportunidade, reforçar os vínculos com o povo que vive na Diocese de Santa Cruz e renovar meu compromisso de pastorear sempre movido pela esperança.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

sábado, 20 de setembro de 2025

O que fazer com o dinheiro?

É o uso solidário que lava o dinheiro da sua sujeira

843 | 21 de setembro de 2025 | Lucas 16,1-13

A parábola do evangelho que meditamos hoje coloca em evidência um administrador acusado de esbanjar os bens do patrão e, por isso, ameaçado de demissão. Ciente de que não está preparado para assumir outro trabalho, e recusando-se a pedir esmolas, o administrador age com esperteza e rapidez: altera, em favor dos devedores, o montante de algumas contas.

Com isso, ele acaba prejudicando mais ainda seu patrão. Mas o que surpreende e é paradoxal é que a esperteza desonesta do administrador é elogiada pelo patrão (e, talvez, pelo próprio Jesus). Há quem explique essa situação embaraçosa levantando a hipótese de que o desconto dado pelo administrador corresponderia aos juros iníquos cobrados pelo credor ou à comissão à qual o administrador teria direito.

Mas será que Jesus não está propondo outra mensagem, semelhante àquela do pai que gasta sem critérios para acolher e restabelecer a dignidade do filho que havia caído ao degrau mais baixo do inferno social? A questão fundamental não seria como usar de forma evangelicamente correta os bens, as honras e o prestígio? Jesus enfatiza que somos administradores de bens que não nos pertencem e que, frente ao valor do Reino de Deus, o dinheiro é coisa de pouco valor e radicalmente injusta.

O administrador aparentemente desonesto é elogiado porque evita ser amigo do dinheiro (como o eram os fariseus) e se mostra amigo das pessoas devedoras insolventes. Ele ensina que o dinheiro e demais bens que passam pelas nossas mãos não nos pertencem e precisam ser usados corretamente: ou seja, para construir solidariedade, para beneficiar a pessoa humana, começando pelas mais carentes.

Aquilo que parece esbanjamento e desonestidade é, na verdade, sabedoria evangélica. Precisamos atuar na vida econômica com critérios evangélicos. E o critério fundamental é este: ou os bens estão a serviço de uma convivência social sadia e solidária, ou não servem para nada. Desviar para os bens econômicos o amor e o afeto que devemos às pessoas humana e ao Reino de Deus é uma loucura que compromete nossa felicidade pessoal e destrói os laços sociais. Só o uso solidário pode lavar o egoísmo que suja nosso dinheiro.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome, com todas nuances, a parábola que Jesus conta para ensinar seus discípulos o verdadeiro valor do dinheiro

§ Esta parábola lhe causa desconforto? Será que Jesus (ou o patrão) elogia a desonestidade ou a lucidez evangélica do administrador?

§ Veja como o dinheiro é usado por uma pessoa vulnerável para ajudar outras pessoas em dificuldades, e isso gera fraternidade

§ Por que será que Jesus não identifica os “dois senhores” que se opõem como Deus e o Diabo, mas como Deus e o dinheiro?

Deus X Dinheiro

A LÓGICA DE JESUS

Jesus já era adulto quando Herodes Antipas colocou em circulação moedas cunhadas em Tiberíades. A monetização representava, sem dúvida, um progresso no desenvolvimento da Galileia, mas não conseguiu promover uma sociedade mais justa e equitativa. Aconteceu exatamente o contrário.

Os ricos das cidades podiam agora operar melhor nos seus negócios. A monetização permitia-lhes acumular moedas de ouro e prata que lhes proporcionavam segurança, honra e poder. Por isso chamaram a este tesouro «mammona», dinheiro «que dá segurança».

Enquanto isso, os camponeses mal conseguiam ter algumas moedas de bronze ou cobre, de escasso valor. Era impensável guardar “mamona” numa aldeia. Por isso, os aldeões dispunham apenas do suficiente para subsistir trocando seus modestos produtos entre si.

Como quase sempre acontece, o progresso dava mais poder aos ricos e afundava um pouco mais os pobres. Assim, não era possível acolher o reino de Deus e a sua justiça. Jesus não se calou: «Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque se dedicará a um e não fará caso do outro... Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro (mammona)». Há que escolher. Não há alternativa.

A lógica de Jesus é avassaladora. Se se vive subjugado pelo Dinheiro, pensando apenas em acumular bens, não se pode servir a esse Deus que quer uma vida mais justa e digna para todos, a começar pelos últimos.

Para ser de Deus, não basta adorá-lo no templo ou fazer parte do povo escolhido. É necessário permanecer livre diante do Dinheiro e ouvir a sua chamada para trabalhar por um mundo mais humano.

Algo falha no cristianismo dos países ricos, quando somos capazes de nos esforçar para aumentar cada vez mais o nosso bem-estar sem nos sentirmos interpelados pela mensagem de Jesus e pelo sofrimento dos pobres do mundo. Algo falha quando pretendemos viver o impossível: o culto a Deus e o culto ao Bem-estar.

Algo vai mal na Igreja de Jesus quando, em vez de gritar com a nossa palavra e a nossa vida que não são possíveis a fidelidade a Deus e o culto da riqueza, contribuímos para adormecer as consciências desenvolvendo uma religião burguesa e tranquilizadora.

 

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A boa semente e a terra

É preciso ouvir, compreender e praticar a Palavra

842 | 20 de setembro de 2025 | Lucas 8,4-15

No trecho do Evangelho que nos propomos a meditar hoje, Jesus se dirige à multidão que chega a ele vindo de várias cidades. Mas, ao narrar esse acontecimento, Lucas tem presente também sua comunidade, que, 50 anos depois da páscoa de Jesus, se pergunta pelas razões do aparente fracasso da missão que está a desenvolver.

No texto, Jesus chama a atenção dos seus ouvintes e interlocutores: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” Ele propõe e sublinha o modo correto de ouvir a Boa Notícia do Reino de Deus. A parábola do semeador, especialmente a interpretação que ele mesmo dá da parábola, ajuda a ilustrar exatamente isso.

Na verdade, o centro da parábola não é o semeador, nem a semente, mas a qualidade do terreno que a recebe, a diferente sorte da semente do reino de Deus misturada na história humana. Com isso, fica bastante claro que Jesus propõe uma séria reflexão sobre as condições para uma autêntica escuta do Evangelho e para que ele chegue a produzir frutos bons e abundantes.

Jesus deixa claro que o que impede que o Evangelho frutifique não são apenas a perseguição e as pressões externas, mas também a falta de uma decisão firme de alguns discípulos e a intercorrência de outros interesses que não são os de Deus: as rotinas cotidianas, a falta de aprofundamento, a ambição de riquezas, etc.

Além de pedir de nós uma escuta atenta e generosa, um aprofundamento maduro e responsável, e uma sólida perseverança na escuta da Palavra, Jesus pede também que não deixemos de anunciar (semear) o Evangelho a todas as pessoas e grupos, em todos os tipos de terreno. Também pede que façamos isso sempre com absoluta confiança na força da semente e com esperança de que frutifique, pois a pequena parte que a acolhe produz pelas demais.

Como imagina o profeta Ezequiel, somente quem “come, mastiga e digere” a palavra de Deus, repleta de clamores, dores e cantos de vitória do povo de Deus, está em condições de anunciá-la, praticá-la e testemunhá-la. Quando o Evangelho que ouvimos germina, lança raízes e frutifica em nós, então poderá ser anunciado eficazmente, confirmando e fortalecendo os ouvintes.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome, com todas nuances, a parábola de Jesus e a cena descrita por este trecho do evangelho segundo Lucas

§ Você já viveu, ou vive, a sensação de que a luta pela justiça e o testemunho de uma vida ética e coerente não produzem nada?

§ Que tipo de terreno você tem sido, como você tem ouvido o Evangelho, especialmente neste tempo de pandemia?

§ Que frutos o Evangelho tem produzido em você e sua família? Há algo que o está sufocando e impedindo os frutos?

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Jesus e as mulheres

Jesus inova ao aceitar mulheres como discípulas

841 | 19 de setembro de 2025 | Lucas 8,1-3

Os três versos do trecho do evangelho de hoje nos apresentam Jesus anunciando a boa notícia do Reino de Deus, missão na qual é acompanhado e auxiliado pelo “grupo dos doze” e por um bom número de mulheres. A maioria delas fora libertada de um passado de dominação, medo e exclusão e beneficiada pela misericórdia de Jesus Cristo. Não se trata de pecadoras no sentido moral, mas de pessoas que, por motivos diversos, eram tratadas como pouco importante, de segunda categoria.

Que Jesus tenha admitido mulheres como discípulas é algo bastante claro nos evangelhos, mas também muito inusitado, e não apenas para a cultura daquele tempo. Os pais escolhiam mestres e educadores para seus filhos, mas não para suas filhas. Por mais importantes que pudessem ser na dimensão afetiva e na educação dos filhos, as mulheres eram confinadas ao mundo doméstico. Nesse aspecto, Jesus representa uma novidade e uma ruptura com os padrões judaicos. A novidade do Reino de Deus gera relações de partilha, serviço e autonomia.

As mulheres que acompanham Jesus, nomeadas pelas escrituras ou não, não são explicitamente chamadas de discípulas, mas o são de fato. Elas “caminham atrás de Jesus”, seguem seu caminho, e aparecem em nível de igualdade com o grupo dos doze. As mulheres aparecem nos evangelhos como servidoras eficazes – como diaconisas! – e são modelos daquilo que se espera de todo discípulo missionário de Jesus e do Reino de Deus. O que poderíamos esperar mais que isso?

O que congrega e caracteriza este grupo amplo e diversificado de pessoas que seguem Jesus é a plena dedicação a ele, a disposição de deixar-se educar e formar na sua “escola”, a dedicação ao anúncio da boa notícia do Reino de Deus e o testemunho de abertura, acolhida, partilha e fraternidade. A novidade de Jesus se mostra na comunidade que o segue, e esta é uma comunidade sem fronteiras, que acolhe mulheres e outras tantas categorias de excluídos!

Que belo exemplo, e que provocação contundente, Jesus faz às nossas igrejas, ainda tão masculinas e resistentes ao pleno reconhecimento do jeito feminino de viver a missão! E isso deve ser dito mais incisivamente a respeito da nossa velha e amada Igreja Católica Apostólica Romana, que, nesse ponto, parece inamovível. As diferenças entre homem e mulher não pode implicar em hierarquização e exclusão. Não podemos mudar aquilo que Jesus nos deixou como herança e mandamento.

 

Sugestões para a meditação

§ Você e sua comunidade eclesial têm se esforçado para reconhecer a plena dignidade das mulheres e não tem impedido que tenham lugar e importância como os homens?

§ Por que a igreja católica ainda não consegue incluir plenamente as mulheres nos seus ministérios e postos de direção e decisão?

§ O que fazer para que a Igreja seja coerente com Jesus no tratamento inclusivo das mulheres e outras categorias de pessoas menosprezadas ou excluídas?

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Olhares preconceituosos

O que nos afasta de Deus é a falta de misericórdia

840 | 18 de setembro de 2025 | Lucas 7,36-50

No final da parábola que antecede o texto de hoje Jesus sentenciava: “A sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. Os filhos e filhas da sabedoria são as pessoas que entendem e seguem Jesus, os pobres e pecadores, e não os mestres da lei ou os fariseus. Isso é reforçado no episódio de hoje.

Estamos diante de uma obra-prima da arte narrativa que usa de forma exuberante tons de simpatia e delicadeza. O fariseu Simão recebe Jesus em sua própria casa, e está cercado de gente do seu círculo de amizade, num clima de cumplicidade e confraternização. Mas eis que aparece do nada uma visita embaraçante, que se dirige a Jesus com um gesto profundamente desconcertante.

Uma mulher conhecida como pecadora (não quer dizer que o seja de fato!) entra na sala, se coloca atrás de Jesus chorando, lava os pés dele com suas lágrimas, enxuga-os com seus próprios cabelos, beija-os e unge-os com perfume. Jesus aparentemente não faz caso disso, e até aprova o gesto da mulher. Ele entende o sentido do gesto, mas Simão abre a boca contra Jesus, mesmo sem pronunciar palavras. Ele se pergunta que tipo de profeta é Jesus se aceita coisas desse tipo.

O mais surpreendente e eloquente da cena é que Jesus não se preocupa com a situação da mulher, mas com a atitude preconceituosa e excludente de Simão e seus colegas. Enquanto os fariseus e doutores da lei consideram o gesto da mulher inoportuno e ambíguo, para não dizer condenável, Jesus o vê positivamente, como reconhecimento da misericórdia que Deus vem manifestando nas suas ações. Este da mulher é um gesto de amor agradecido. Ela diz tudo sem palavras.

O pensamento crítico de Simão é próprio de quem esquece ou esconde que é pecador, e revela que seu conceito de profecia não é correto. Para Jesus, o gesto da mulher não tem nada de ambíguo, e, mediante a parábola dos dois devedores perdoados, afirma que quem está em pecado e não foi perdoado é o próprio fariseu e aqueles que pensam e agem como ele: são mais preconceituosos que religiosos.

Simão não reconhece sua condição de pecador e, com isso, se fecha ao perdão e à gratidão. E a mulher, porque perdoada, expressa sua confiança e gratidão a Jesus. O modelo a ser imitado não é o fariseu, mas a mulher pecadora. É ela que vive uma fé que tem força libertadora e regeneradora. E nós, com quem nos parecemos?

 

Sugestões para a meditação

§ Retome, em todos os delicados detalhes e nuances, a cena que se desenvolve na casa do fariseu Simão

§ Visualize as reações dos diferentes sujeitos, entre na parábola de Jesus, e deixe-se ensinar por seu gesto e sua palavra

§ Você se reconhece serenamente como pecador perdoado, como profundamente amado por Deus, se relaciona com as pessoas sem preconceitos, e é capaz de mostrar gratidão?

Dançar ao ritmo de Jesus

Qual é a sua resposta ao Evangelho de Jesus?

839 | 17 de setembro de 2025 | Lucas 7,31-35

A cena que estamos meditando hoje está literariamente situada depois do elogio de Jesus ao soldado romano que pediu sua intervenção em favor de um empregado seu (7,1-10) e da devolução da vida ao filho da viúva de Naim (7,11-17), e em seguida às perguntas de João Batista sobre Jesus e de seu comentário elogioso a ele (7,18-30), episódio omitido pela sequência da liturgia diária.

Para desmascarar as resistências e contradições daqueles que resistiam à sua proposta (principalmente os fariseus e mestres da lei), Jesus apresenta uma cena pitoresca e muito popular em pequenas cidades interioranas: um grupo de crianças que brincam na praça, umas tocando música e outras indiferentes ao que as primeiras fazem e transmitem. As crianças-artistas tocam músicas alegres e as outras não dançam; tocam músicas tristes, e ninguém chora ou entoa lamentações.

Os dois estilos de música são uma alusão aos diferentes caminhos de salvação oferecidos por João Batista e por Jesus. As crianças indiferentes que brincam na praça são os judeus, que nunca estão satisfeitos ou de acordo com aquilo que ouvem. A referência é clara: a mensagem de João Batista não foi aceita porque era muito dura e exigente (jejum e penitência); e Jesus é criticado por parecer-lhes muito permissivo (come e bebe, partilhando a mesa com pecadores e gente suspeita). São duas perspectivas diversas que enfrentam a mesma resistência à mudança.

Mas essa resistência não é exclusividade dos fariseus e doutores da lei, nem eventualmente dos cristãos das primeiras gerações. Os discípulos resistem à novidade anunciada e inaugurada por Jesus, e até se atrevem a propor reparos. Pensam que o amor aos inimigos seria uma proposta inocente e inadequada, e que há gente que não merece o perdão, ao menos um perdão sem limites, como nos lembrava a pergunta de Pedro a Jesus no evangelho do último domingo.

Jesus arremata seu questionamento em linguagem parabólica com uma afirmação um pouco obscura: “Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. Os filhos da sabedoria, as pessoas que ouvem e compreendem Jesus, são os pobres e pecadores, e não os fariseus, os doutores da lei ou a casta sacerdotal. E nós, como reagimos hoje ao ensino libertário de Jesus? Podemos dizer que reconhecemos e aceitamos de fato à sua proposta do Reino de Deus?

 

Sugestões para a meditação

§ Retome a cena pitoresca proposta por Jesus e procure relacioná-la com os diferentes grupos de cristãos que você conhece

§ Você não se vê, às vezes, desejando propor reparos em aspectos essenciais da proposta de Jesus? Quais?

§ Leia algo sobre a vida dos santos Cornélio e Cipriano, cuja memória celebramos hoje, e procure relacioná-la com o evangelho de hoje

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Pare o cortejo da morte!

Jesus interrompe todos os cortejos de morte

838 | 16 de setembro de 2025 | Lucas 7,11-17

No episódio que antecede a cena de hoje, um oficial do exército romano recorre a Jesus em benefício do seu filho, mesmo não se considerando digno de se dirigir a ele. No episódio de hoje, é Jesus quem se aproxima de uma viúva que acaba de perder seu único filho e, movido pela compaixão que pulsa no coração de Deus, diz-lhe palavras de consolo e devolve-lhe o filho com vida.

A cena é comovente. Duas pequenas multidões se encontram na porta de uma pequena cidade: uma multidão acompanha Jesus, o dador e fonte da vida; outra acompanha um jovem corpo sem vida e uma viúva absolutamente desamparada. A viúva em prantos é a figura simbólica da pessoa pobre e sem amparo. Sem marido e sem filho que possa cuidá-la e administrar a pouca herança do marido, é como se fosse uma não cidadã, uma pessoa invisível e sem direitos.

Diversamente do chefe do exército da cena anterior, a pobre viúva não pede nada, pois não tem forças nem para isso. É Jesus que toma a iniciativa e se aproxima dela e, mergulhando no seu desespero, procura consolá-la. A exortação a não chorar poderia soar como insulto se Jesus não tocasse no caixão e não pedisse que o cortejo da morte pare. Com o gesto de tocar o caixão, Jesus derruba o muro imaginário que separa o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os puros dos impuros.

Exercitando a força da sua Palavra, aquela força libertadora que o centurião romano recém havia reconhecido, Jesus ordena que o jovem morto se levante, se coloque de pé. A força da sua Palavra é tal que o jovem não apenas se coloca de pé, mas também começa a falar, retomando seu lugar e seu protagonismo nas relações sociais. E, uma vez que sua vitalidade e seus vínculos foram suscitados de novo (ressuscitados), ele é entregue à sua mãe para ser seu arrimo.

A reação das duas multidões é dupla: elas foram tomadas de medo e glorificaram a Deus. Reconheceram no acontecimento da revivificação do morto e no conforto da mãe a revelação do poder libertador de Deus e a Jesus como grande profeta e dador de vida. Jesus é o próprio Deus infinito que visita e liberta seu povo. Como Elias e Jeremias, Jesus é proclamado como parte da comunidade dos profetas perseguidos. A admiração (ou medo) é a reação diante da presença misteriosa de Deus, e o louvor é pelo bem que essa presença traz à humanidade.

 

Sugestões para a meditação

§ Leia atentamente este texto, prestando atenção aos personagens e aos dois cortejos: o cortejo da morte, que sai da cidade; o cortejo da vida, que entra na cidade com Jesus

§ Os traços da imagem de Jesus que apresentamos em nossas pregações correspondem à que aparece neste episódio?

§ Que atenção damos as pessoas e grupos que batem à nossa porta e às portas das Igrejas pedindo socorro para seus desesperos?