sábado, 23 de junho de 2012

Nascimento de Joao Batista


Um profeta que veio para endireitar estradas.
(IS 49,1-6; Sl 138/139; At 13,22-26; Lc 1,57-66.80)

A festa de São João está profundamente arraigada na cultura do povo brasileiro. Em algumas regiões tornou-se até atração turística e é explorada como ocasião para ganhar dinheiro ou consolidar votos. Mas esta é uma festa que se distanciou do seu nascedouro bíblico e profético só aparentemente. Pois a alegria simples e inocente que a caracteriza brota da certeza de que Deus não esquece a aliança que fez conosco, visita e liberta seu povo, e envia profetas e profetizas que preparam caminhos novos. Por isso, celebremos este dia com trajes e comidas que nos aproximam do povo simples, mas também com a alegria que brota da liberdade que virá e com a coragem profética que João nos deixa como herança.
“E alegraram-se com ela...”
A festa de hoje não exige uma mega-produção. Bastam uma pequena fogueira e fogos de artifício, algumas roupas simples e baratas, uma banda improvisada e capaz de tocar a alma popular, alimentos que custam pouco e têm sabor de intimidade, bandeirinhas coloridas nos varais e balões levados ao sabor do vento, gente boa e amável que se despe dos trajes que demarcam fronteiras, consolidam hierarquias e impõem honrarias.
Os degraus do poder são substituídos pela roda que a todos iguala nas mãos dadas. A seriedade sisuda dos comandantes e a resignação calada dos/das que devem obedecer o ritmo de produção ditado pela sede de lucro dão lugar a uma alegria que não há como esconder, uma alegria que lança raízes no passado bíblico que nos pertence e se embebeda das luzes de um mundo que está por vir. De repente, os operários viram artistas, os camponeses se revelam bailarinos, os coadjuvantes são protagonistas.
“Os vizinhos e parentes ouviram quanta misericórdia o Senhor lhe tinha demonstrado.”
A alegria, assim como a irreverência, têm raízes bíblicas e força revolucionária. Não se trata da alegria forçada pelas drogas lícitas ou ilicitas, nem da felicidade histérica daqueles que se deleitam com os bens subtraídos aos homens e mulheres que os produzem, e também não da alegria produzida artificialmente por líderes religiosos sequiosos de domínio e de riqueza, ou por estrelas políticas e midiáticas que seduzem incautos mas duram pouco mais que uma noite.
Trata-se da alegria que brota da descoberta de que Deus olha para as mãos calejadas, para os rostos sofridos, para os corpos vergados e os corações partidos e os vê e proclama cheios de graça, plenos de charme. “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,28.42). A notícia de que Deus nos ama desde sempre e para sempre faz pular de alegria até os bebês que ainda estão nos úteros. “Feliz aquela que acreditou!” (Lc 1,45).
Como Maria na casa de Isabel, alegramo-nos em Deus porque ele olhou para a humilhação dos seus filhos e filhas; porque sua misericórdia se estende de geração em geração; porque ele mostra a força do seu braço derrubando os poderosos dos tronos e elevando os humildes; porque ele enche a mesa dos pobres e despede os ricos de mãos vazias; porque acolhe o seu povo e não esquece o compromisso jurado aos nossos antepassados.
“Que vai ser este menino?”
Assim, a alegria inocente e despojada das festas juninas têm raízes na história da salvação, que atravessa e supera a história da opressão e que está ainda hoje em curso. Antes de mais nada, o nascimento de João representa a delicadeza de um Deus que levanta o manto da vergonha e da dor que, numa sociedade machista, pesa sobre uma mulher idosa e sem filhos (cf. Lc 1,25). E quando o menino nasce, a vizinhança toda se alegra com mais esta demonstração da misericordia de Deus.
A razão dessa alegria vem sacramentado no próprio nome dado àquele prodígio nascente: João significa literalmente ‘Deus age com misericórdia’. Ao dar este nome ao filho, Zacarias e Isabel rompem com a tradição e renunciam a fazer do filho um espelho dos desejos do pai. João não será sacerdote mas profeta. Nas palavras que voltam aos lábios de Zacarias em forma de canção, ele será ‘profeta do Altissimo’, porque irá à frente do Senhor, ‘preparando os seus caminhos, dando a comhecer ao seu povo a salvação, com o perdão dos pecados, graças ao coração misericordioso do nosso Deus’ (cf. Lc 1,76-78).
Segundo os evangelhos, João despertará a ira de Herodes ao denunciar seu casamento com a cunhada (cf. Mc 6,17-18). Mas este homem frágil e intrépido é muito mais que um pregador preocupado com a moralidade das relações e vínculos matrimoniais. João é um autêntico profeta, na linha dos grandes profetas de Israel, que exige mudanças radicais tanto o âmbito pessoal como na esfera social. Eias sua voz: “Preparai os caminhos do Senhor; endireitai as veredas para ele. Produzi frutos que mostrem vossa conversão. Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo...”
 “Desde o seio materno, o Senhor me chamou...”
A liturgia de hoje nos convida a refletir sobre a fonte da profecia, assim como foi experimentada e descrita por Isaías. A profecia nasce da descoberta de ser chamado/a pelo nome desde um tempo imemorial, desde o seio materno. Não é a própria pessoa que escolhe ser profeta. É Deus que a elege. “Tu és meu servo, é em ti que vou brilhar.” E isso leva conduz a duras batalhas, pede confiança radical em Deus, leva a descobrir-se mais servo/a que senhor/a, mais aprendiz que professor/a.
É importante ter presente que Zacarias inicialmente parace não entender ou não aceitar a vocação profética do filho. Seu ouvido se fecha e sua boca se cala. Sua língua se solta e seus ouvidos se abrem somente quando ele se liberta das malhas da tradição sacerdotal e reconhece que a vocação de João é mostrar a misericórdia de Deus em favor do povo e defendê-los dos inimigos. Oxalá todos os pais e mães dêem o melhor de si para que seus filhos e filhas descubram e realizem sua vocação na Igreja e no mundo de hoje, antecipando isso no próprio nome que escolhem para eles!
“Quero fazer de ti uma luz para as nações...”
O perdão gratuito dos pecados que João pregará será uma senha que abrirá as portas da vida a todos os excluídos, tanto judeus como pagãos. À luz de Isaías, podemos dizer que a profecia autêntica não se deixa limitar pelas paixões nacionalistas. “É muito pouco seres o meu servo só para resutaurar as tribos de Jacó, só para trazer de volta os israelitas que escaparam. Quero fazer de ti uma luz para as nações, para que minha salvação chegue até os confins do mundo.”
As comunidades cristãs reúnem homens e mulheres que descobriram a vocação de derrubar muros, de ultrapassar fronteiras – geográficas, sociais, políticas e culturais – para abrir estradas e edificar pontes capazes de unir diferentes grupos humanos. Nossa vocação é também superar as estreitas fronteiras eclesiais e doutrinais, procurando levar a semente perigosa e promissora do Evangelho aos âmbitos econômico, político e cultural. A boa profecia não se detém na proposta de uma reforma dos costumes.
“A mão do Senhor estava com ele...”
No clima alegre e singelo das festas juninas, recordo aqui o testemunho profético de um jovem que nos deixou tragicamente há poucos dias. Ele se chamava Pedro Fukuyei Yamaguchi Ferreira, tinha 27 anos e era advogado, filho do deputado paulista Paulo Teixeira Ferreira e da advogada Alice Yamaguchi Ferreira. Pedro renunciou a uma promissora carreira advocatícia em São Paulo foi a São Gabriel da Cachoeira (AM) como missionário leigo e advogado popular a serviço dos indígenas. Chegou no dia 02 de março de 2010 orreu afogado no rio Negro no dia 1° de junho do mesmo ano.
Algumas semanas antes, Pedro escrevera aos amigos: “Tenho trabalhado bastante. As pessoas têm me procurado, querem falar com ‘o advogado da Diocese’. Ficam aliviadas quando sabem que eu não cobro pelo trabalho... Eu quero trabalhar para mostrar que cadeia não funciona e que temos de achar outras soluções, sobretudo com os Povos Indígenas, que têm peculiaridades culturais próprias.”  Que vivam sempre a alegria, a coragem e a liberdade proféticas!
Deus dos humildes, pai e mãe dos profetias e profetizas, razão da nossa alegria: te agradecemos pelos homens e meulheres que continuas enviando para transformar desertos em jardins e acender teu fogo no mundo. Eles se chamam João, Adelaide, Pedro, Oscar, Ezequiel, Sepé, Dorothy. Mas seus irmãos e irmãs menos famosos se chamam José, Tião, Rosa, Maria, Tonico, Zeca, Antônio, Josefa..., gente que faz parte da imensa caravana de homens e mulheres que vivem uma alegria autêntica e simples, inocente e solidária, despojada e profética, um precioso tesouro do povo brasileiro. Bendito sejas!
Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 20 de junho de 2012

12° Domingo do Tempo Comum


“Viver é conhecer a marcha e seguir em frente.”
(Jó 38,1-11; Sl 106/107; 2Cor 5,4-17; Mc 4,35-41)

Vida é movimento, caminhada. A estabilidade absoluta e o sedentarismo é morte. Estamos em travessia, e nossa condição no mundo é de êxodo permanente. Como cristãos, encarnamo-nos onde estamos e engajamos-nos nas lutas dos homens e mulheres, sentimo-nos atraídos a estabelecer aqui nossa morada, mas, ao mesmo tempo, descobrimo-nos estrangeiros/as, cidadãos de uma sociedade que ainda está para ser construída. Assim também a Igreja: mesmo que as forças da inércia e o peso de 20 séculos de história a puxem para trás e para baixo, sua vocação original é lançar-se para a frente, empreender uma infindável travessia, engajar-se num permanente e solidário diálogo com os homens e mulheres de cada época, ir ao encontro daqueles/as que estão longe, colaborar nas grandes lutas que a humanidade está travando hoje. E mesmo quuando isso comporta riscos e ameaças.

“Passemos para a outra margem.”

São muitas as nossas travessias. E diversas. Há o necessário caminho que leva do eu fechado e indiferente ao nós aberto e acolhedor. É uma travessia tão necessária quanto exigente, uma páscoa que entra em confronto com o moderno e resistente mito do individualismo do qual todos/as bebemos. Este mito nos faz crer que tudo é apenas uma questão de esforço e mérito pessoal, e que o outro é o nosso inferno e a comunidade é a nossa máxima penitência. Atravessar é preciso!

E há a travessia que nos leva da estabilidade de um conhecimento exaustivo e seguro, de uma doutrina que pretende explicar tudo, de uma ciência que imagina desvendar todos os mistérios, de uma ideologia que oferece programas e estratégias para todos os desafios, à reverente consciência de que todas as coisas estão envoltas em mistério. E, quanto mais avançamos nessa passagem, maior é o espanto diante de um mundo que não cabe na estreiteza asfixiante dos nossos conceitos. Avançar é preciso!

E há também a travessia urgente de uma sociedade injusta e desigual a uma sociedade inclusiva e solidária; de uma cultura econômica que só sabe pensar em termos de desenvolvimento e de exploração dos recursos naturais a uma cultura da hospitalidade, capaz de promover e proteger a biodiversidade; de uma Igreja que deseja ter respostas para todas as perguntas a uma Igreja que aceita o desafio de compartilhar as perguntas e buscas que acompanham a humanidade. Recriar é preciso!

“Veio, então, uma ventania tão forte que as ondas se jogavam dentro do barco.”

Mas as travessias não costumam ser muito tranqüilas, e os muros normalmente não caem ao toque das trombetas dos nossos instáveis desejos. Ao lado do movimento de expansão que dá vida a todo o universo há também, em todos os corpos e eventos, uma tendência à inércia, à estabilidade. Existem ventos contrários à mudança, forças que nos convidam a permanecer em casa, tentações que nos ensinam a não trocar um mal que conhecemos por um bem hipotético e desconhecido.

Na travessia do deserto, diante da falta de água e de alimento, frente à ausência de caminhos claros e a uma liberdade com contornos indefinidos, as tribos de Israel se esquecem rapidamente da dureza da opressão e suspiram pelas cebolas do Egito. E essa experiência se tornou um paradigma das dificuldades inerentes a todos os processos de mudança. Por comodidade e por interesse, acabamos abdicando dos nossos sonhos de águia e fazendo as pazes com o galinheiro...

“Por que sois tão medrosos?”

É triste quando, na própria Igreja, imaginada por Jesus para estimular e acompanhar a humanidade em suas necessárias travessias, o medo paira como sombra que preenche todos os espaços. É perigoso quando, assombrados, os teólogos e teólogas desistem de publicar suas reflexões. É triste e desalentador quando bispos e padres, inseguros ou carreiristas, deixam de manifestar discordância e apresentar propostas para as mudanças que urgem. É desolador quando os leigos e leigas são tratados como menores, eternamente tutelados e empurrados à margem pelas pressões e pelo medo.

Aquilo que é desconhecido parece fugir ao nosso controle e nos amedronta. A experiência de controlar as situações ou de estar sob controle nos dá a sensação de segurança e de verdade. E o medo acaba sendo a mãe das submissões que limitam, das dominações que esterilizam, das ideologias que matam. Ele está na raiz do estado de guerra em que vivem as sociedades, e promovê-lo é uma estratégia que serve aos dominadores. No coração de algumas liturgias e por trás de muitas mensagens políticas está a intenção de criar medo e, assim, manter a dominação.

“Ainda não tendes fé?”

Javé responde a Jó do meio da tempestade, e é na travessia do deserto que o povo de Israel experimenta a companhia de Deus e faz aliança com ele. Mas os discípulos desconhecem ou temem a travessia. Depois de terem ouvido da boca de Jesus as parábolas que sublinham o dinamismo escondido do Reino de Deus, eles se mostram desconcertados e temem profundamente a travessia que os levaria ao encontro com os estrangeiros. Tudo parece escuro, tanto dentro como fora deles.

O medo faz com que eles se esqueçam do objetivo da travessia. E Jesus diz claramente que na raiz do medo diante do mar agitado, está a falta de fé. É falta de fé temer o contato e o diálogo com quem é diferente e pensa diferente. É falta de fé esperar que Deus elimine magicamente as dificuldades da travessia da vida ou nos leve imediatamente à outra margem. Nasce da falta de fé a lamentação de que Deus estaria dormindo e não se importaria com as nossas dificuldades.

Eu me pergunto a quem Jesus se dirige quando fala “Cale-se! Acalme-se!” Por um lado, parece que ele se dirige ao mar e ao vento que, aos olhos dos discípulos, pareciam descontrolados e ameaçadores. Por outro lado, parece que Jesus se dirige aos próprios discípulos. Mais que o mar, eles é que estão agitados e precisam ser acalmados. Estão aterrorizados diante da necessidade de passar “para o outro lado do mar”, da necessidade de mudar de idéia, de ideologia, de projeto de vida.

“Quem é este, a quem obedecem até o vento e o mar?”

Enquanto os discípulos manifestam pavor e desespero, Jesus se mostra tranquilo e dorme despreocupadamente. Quando o povo tem necessidade, Jesus realiza sinais da chegada do Reino. Quando os discípulos enfrentam perigos, está com eles. Não é o vento que desperta Jesus do seu aparente sono; é o grito dos discípulos apavorados. Será que ele não se importa com o risco que eles correm? Será que ele não vê que o diálogo intereligioso representa um perigo para a Igreja?

É importante reconhecer que a travessia é necessária e desejada por Deus. E ele nos acompanha em todas as passagens/páscoas. É verdade que, às vezes, ele parece dormir e pouco se importar com os riscos que enfrentamos, mas o que ele não quer é tomar o nosso lugar nessa passagem. Ele confia em nós, e a única maneira de chegarmos à maturidade que liberta é assumir nossa responsabilidade. O salmista convida: “Agradeçamos ao Senhor... Ele transformou a tempestade em brisa leve...”

 “E ele os guiou ao porto desejado...”

Jesus de Nazaré, peregrino e companheiro de quem persevera nas travessias que a vida pede, permanece desperto neste barco agitado no qual se transformou tua Igreja. Acorda e fala firme e forte para nos dizer de novo que uma Igreja que põe a mão no arado e só quer olhar para o passado não é digna do teu Reino! Desperta em nós a certeza consoladora de que é o próprio Pai quem nos guia ao porto desejado mas, que é teu amor que nos impulsiona a avançar, a não olhar para trás, a não cair na armadilha do medo. Sustenta-nos em todas as travessias, pois se permanecermos do lado de cá – fechados/as em nós mesmos/as, submissos/as aos poderes de plantão, seguros/as em nossas ideologias, encaracolados/as em nossas doutrina, altivos/as em nossos pódiuns – seguramente afundaremos. Muda a tempestade em bonança, mas também converte nosso medo em fé e nossa sede de segurança em vontade de caminhar. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Kalimantan: impressões, emoções e reflexões (7)

Um canteiro de obras



Nossa visita à Província de Kalimantan prosseguiu, mais veloz do pedem o amor pastoral e a prudência, mais intensa do que esperávamos. Retornamos da diocese de Palangka Raya, comunidade de Ampah (Kalimantan Central), no domingo à tardinha (11 de março). Depois de um breve e benfazejo descanso – e depois de ter lido os e-mails e enviado os últimos três relatos – iniciamos a viagem para visitar as comunidades de Samarinda e Sendawar, em Kalimantan Oriental. Para os leitores desatentos, chamo a atenção nossa visita se desenvolve em apenas uma das quase 13.000 ilhas que compõem o país da Indonésia!
Pe. Santiago no aeroporto de Balikpapan
Nosso vôo para Balikpapan deveria partir de Banjarmasin às 14:00. Saímos de casa ao meio-dia e a ansiedade logo tomou conta de nós diante do engarrafamento que enfrentamos na estrada para o aeroporto. Nossos anfitriões estavam tranquilos, pois estão habituados a isso que é mais que uma eventualidade. Na verdade, por todo lado – e mais ainda nas cidades médias e grandes desse país – o que vemos é uma verdadeira avalanche de carros e motos que se ultrapassam e cruzam por todos os lados. Não consigo nem imaginar-me guiando por aqui. Seria fatal! Além do tráfego intensíssimo, do grande movimento de pedestres, das barracas e tendas entrando estradas e ruas adentro, das paradas em plena via pública, tem a questão do volante no lado direito, o que inverte tudo.
Destaquei que nosso vôo para Balikpapan (pela Sriwijaya Airdeveria partir às 14:00, porque já no check-in ficamos sabendo que atrasaria 90 minutos.  Acabamos partindo com quase duas horas de atraso. Menos mal que tínhamos conosco o nosso caro Garinsingan, que continua acompanhando-nos como tradutor. O vôo durou 45 minutos (de carro seriam mais de 11 horas e, de ônibus, em torno de 15 horas de viagem). Assim, às 16:45 aterrizamos na cidade de Balikpapan, no litoral noroeste da ilha de Kalimantan.
Balikpapan é uma bela e moderna cidade portuária, com aproximadamente 470.000 habitantes e um percentual de 2% de católicos. Sobrevoando os arredores da cidade, vê-se logo o que a faz assim: seu litoral é literalmente tomado por centenas de poços de prospecção de petróleo. A cidade é contemplada com uma imensa bacia petrolífera, explorada por empresas nacionais e estrangeiras. É o principal pólo petrolífero da Indonésia (aqui o diesel é vendido nos postos ao equivalente a R$ 0,80, e custa menos que um litro de água!). Pelo que vimos, Balikpapan tem pouco a ver com as demais cidades indonesianas que conhecemos: ruas e avenidas largas, prédios modernos, shoping’s-center’s, pouco comércio na rua, muito limpa...
A cidade faz parte da diocese de Samarinda, coordenada há várias décadas por bispos originários da Congregação. Em Balikpapan existem três paróquias, duas das quais são animadas pelos Missionários da Sagrada Família. As duas estão com grandes obras em pleno andamento: a paróquia São Martinho, que está levantando uma igreja-matriz de dois pisos (o térreo para secretaria, salas e residência paroquial ; o piso superior propriamente para o templo, com 800 lugares!); a paróquia Santa Teresa, que está concluindo uma luxuosa casa paroquial de três pisos e 14 apartamentos e colocando os fundamentos de um templo para 1.200 pessoas, com um amplo estacionamento na parte inferior.
Do aeroporto fomos conduzidos pelo jovem e amável Pe. Petrus Prillion à paróquia São Martinho. Como a igreja e a casa paroquial estão em reforma e construção, fomos acolhidos pelo Pe. Lucas Thomas Atsui na casa onde ele mora e onde funciona provisoriamente a secretaria (uma casa emprestada por um generoso paroquiano). O Pe. Lucas vem de uma família praticava a religião tribal (que os sociólogos da religião denominam simplesmente “religiões animistas”) e recebeu o batismo em 1968, quando ele tinha 12 anos. Ali, ele atende sozinho as 18 comunidades (14 delas estão na cidade!) que compõem a paróquia, num total aproximado de 2.000 fiéis.
O encontro com o Pe. Atsui teve que ser abreviado por causa do nosso atraso e dos seus compromissos pastorais. Assim, o Pe. Prillon nos levou até a casa das Irmãs Missionárias Adoradoras da Sagrada Família (MASF, fundadas em 1936 pelo Pe. Anton Maria Trampe, então nosso Superior Geral). Como também a outra casa paroquial está em reformas, recorremos aos velhos laços de gênese e de hospitalidade... Na verdade, elas colaboram muito com nossos coirmãos na Indonésia, e a fraterna acolhida que recebemos não foi de ocasião. Registro de passagem que esta Congregação foi recentemente dividida em três, por uma imposição do grupo europeu: Indonésia, Madagascar e Europa. A parte Indonesiana ficou com 60 irmãs, distribuídas em cinco comunidades.
Irmãs Missionarias Adoradoras da Sagrada Familia
À noite, nossos coirmãos Prillon e Huvang nos levaram a um restaurante especializado em frutos do mar. Acompanharam-nos duas irmãs da casa e três membros do conselho de pastoral da paróquia. Os peixes estavam simplesmente deliciosos, mas não quero saber o tamanho da conta! O restaurante fica numa área de acesso restrito, cujo ingresso se faz mediante pagamento... Na verdade, o que vimos é que nesta região os católicos são praticamente da elite econômica, o que faz com que o círculo de amizade e o estilo de vida dos nossos coirmãos se situe também nessa elite. As casas, os carros e os hábitos de consumo o demonstram claramente.
Depois da celebração da missa matinal na comunidade das irmãs MASF (às 6:00!) e de um bom café da manhã, fomos visitar a residência dos padres Huvang e Prillon. Pe. Franciscus Xaverius Huvang Hurang, 68 anos, foi Superior Provincial de Kalimantan, e nos conhecemos em 1999, na Polônia. Ele dirige a Paróquia Santa Teresa, que conta com 9 comunidades e mais ou menos 3.000 fiéis (e a igreja matriz abrigará 1.200 de uma só vez!). Ele tem um apreço especial pela pastoral da família (é assistente diocesano do movimento Mariage Encounter) e pela inculturação da liturgia.
Almoço com Pe. Prillon e Pe. Huvang
O jovem Pe. Petrus Prillon, 35 anos, acaba de chegar à paróquia, depois de colaborar cinco anos na formação dos postulantes e na secretaria provincial. Ele fez parte do segundo grupo de estudos da língua francesa, em Chaponost, com Pablo e Firmino, no ano 2005. Disse-nos que aquele ano, logo nas primícias do seu ministério presbiteral, foi uma espécie de segundo noviciado, desta vez com uma indispensável abertura internacional. Pe. Prillon ajudou 5 anos na formação porque crê, como ensinou Berthier, que é mais missionário quem forma missionários que aquele que vai à missão. No seu jeito alegre e cativante, insiste que a Congregação deve propor mais encontros em âmbito internacional, como um caminho para superar a tentação do fechamento das Províncias em si mesmas.
Depois do almoço, sob o calor de sempre, passamos pela casa das irmãs, pegamos nossas malas – não sem antes deixar no quarto que voltaremos a ocupar algumas peças desnecessárias – e partimos para Samarinda, sede da diocese, onde nos esperavam três coirmãos e o bispo. Depois de três horas de estrada, chegamos a esta bela e dinâmica cidade portuária. Pelo imenso rio Mahakan, além de gente, descem rumo ao mar imensas balsas carregadas de madeira e imensas e incontáveis balsas repletas de carvão mineral, uma riqueza abundante na região e cobiçada pelos países com forte dinamismo industrial.

sábado, 16 de junho de 2012

Miriam de Nazaré (6)


Esta é a segunda parte de um ensaio de mariologia escrito pelo nosso amigo Bertilo Brod, professor aposentado da URI/Erexim, pai e vovô, pedagogo, ensaísta, teólogo e tradutor. Este fragmento faz parte do segundo capítulo do ensaio, que trata das questões crucias da mariologia.


 
2)      Questões cruciais de mariologia bíblica (2)

Miriam, a esposa de José e a Esposa da Aliança, manifesta não só a profunda e essencial dialogicidade da criatura humana, como também nos ensina, como pedagoga exemplar, o caminho ao longo do qual essa vocação dialógica radical pode ser vivenciada em plenitude, o caminho da reciprocidade perfeita entre a doação e a acolhida, entre o amor gratuitamente recebido e o amor gratuitamente oferecido. Vivendo em sua relação esponsal o cumprimento antecipado do desígnio da plenificação humana, a esposa de José revela a estrutura antecipadora de sua consciência transcendente que não se consome no hoje histórico, mas que se abre para o amanhã exodal da libertação definitiva, na utopia da eternização do homem na humanização de Deus.

Assim, Miriam de Nazaré, a Esposa da Aliança, ensina ao homem, ser dialógico e nupcial, chamado à transcendência, o “princípio-esperança”, que edifica o futuro de Deus no presente dos homens, para além das miopias intramundanas deste presente e no anúncio libertador do futuro escatológico. A “mulher”-esposa realiza em si este “princípio-esperança”, na forma mais densa e profunda. Por sua capacidade de antecipação do futuro e da reciprocidade amorosa, une o “já” ao “ainda-não” das promessas divinas, exercendo o seu papel arquetípico no caminho da libertação dos homens. Esta capacidade de anunciar profeticamente a libertação do homem, apanágio da “mulher”-esponsal em sua dimensão antecipadora do futuro, aparece reiteradamente em inúmeros cânticos de libertação, proferidos por mulheres bíblicas[i]. Antecipando, na esperança, o futuro, a “mulher” da epístola aos Gálatas e do quarto evangelho, em sua feminilidade esponsal, possui a capacidade de libertar os homens da escravidão do presente e dos inimigos da reciprocidade e dialogicidade amorosas. Miriam de Nazaré, mãe e “mulher”, esposa de José e das núpcias presentes e futuras, entrou no coração do tempo, da história e da eternidade.

Certamente, a mais crucial e problemática dimensão da feminilidade de Miriam de Nazaré é constituída da doutrina teológica da sua virgindade. Além de mãe de Jesus e esposa de José, Miriam concebeu virginalmente seu filho e se manteve virgem, “antes do parto, no parto e depois do parto”? Trata-se de um fato biológico concreto cuja historicidade decorre dos dados bíblicos e que afetam o núcleo da doutrina da encarnação? A grande maioria dos Padres da Igreja e dos exegetas e teólogos católicos, de ontem e de hoje, sustentam não apenas a verdade teológica da virgindade de Miriam de Nazaré, mas também a sua historicidade e biologicidade. Sirva de exemplo a argumentação do reconhecido exegeta católico francês Ignace de la Potterie:

“O fato biológico da concepção virginal (...) nunca pode ser separado do sentido profundo oculto nele. Trata-se do fato inaudito e único de uma mulher que se tornou mãe, permanecendo virgem, e, ao mesmo tempo, de seu significado religioso na revelação cristã. Toda a obra da salvação é intervenção de Deus na história por meio de fatos concretos, de acontecimentos. Mas a revelação do plano da salvação que Deus quis se encontra precisamente escondida nesses fatos e não pode ser separada deles. O mesmo se dá com a concepção virginal de Jesus, a qual, assim, vem a ser um símbolo significativo do mistério. Ela remete a algo diferente, que transcende o fato em si e lhe dá sentido” (Apud FORTE, loc. cit., p. 165).

Cresce, porém, significativamente, o número dos defensores católicos da tese da não-historicidade da concepção virginal e da virgindade de Miriam de Nazaré no parto e depois do parto. Há, também, os que admitem a doutrina da virgindade, mas não a consideram como fazendo parte do núcleo central da fé. “Trata-se de uma verdade secundária, cuja vivência subjetiva pode variar enormemente em cada pessoa e mesmo para toda uma geração. Embora seja conseqüência remota de dados da fé cristã acerca de Jesus e sua mãe, ela conservou na Tradição uma memória jamais perdida e que deve ser mantida ainda hoje” (BOFF, 1998, p. 159). O conhecido teólogo da libertação segue, neste ponto, o não menos renomado teólogo Karl Rahner[ii].

O exegeta que busca no Novo Testamento uma afirmação da concepção virginal de Miriam precisa contentar-se com Mt 1,18-25 e Lc 1,26-38, únicos textos que se referem explicitamente a esta tradição que, certamente, remonta a uma fonte textual anterior aos dois evangelhos e às duas narrativas da infância que a mencionam. Do ponto de vista da pesquisa histórico-crítica, o historiador e o exegeta não têm mais como verificar a origem ou a fonte deste ensinamento, tal como aparece nas duas perícopes evangélicas[iii]. Aceitar ou rejeitar esta doutrina dependerá grandemente dos pressupostos filosóficos (p. ex., a existência ou não de milagres) ou teológicos (p. ex., se Deus intervém milagrosamente na história humana). Quanto a nós, em consonância com nossa interpretação dos evangelhos de Mateus e de Lucas, que se apresentam como nítido intento de teologização do movimento de Jesus, de sua pessoa e dos seus atos e ensinamentos, acreditamos tratar-se também no caso da concepção virginal de Miriam, no parto e depois do parto, claramente de um “teologúmeno”, isto é, de um princípio teológico narrado como acontecimento histórico, tal como ocorreu com a descendência davídica de Jesus e seu nascimento em Belém.
Bertilo Brod

[i] Vejam-se, à guisa de exemplo, os cânticos de Miriam, irmã de Aarão, em Ex 15,21; de Débora, em Jz 5; das mulheres de Israel, em 1Sm 18,7; de Ana, em 1Sm 2,1-10; e, especialmente, do Magnificat, de Miriam de Nazaré, em Lc 1,46-55.
[ii] Cf. RAHNER, Karl. Schriften zur Theologie. Zürich: Benziger, 1978, p. 121-158. Vol. XIII.
Para uma análise acurada do desenvolvimento da doutrina da concepção virginal nos santos Padres dos primeiros séculos, especialmente no Ocidente, é assaz ilustrativo o minucioso informe de Hans F. von CAMPENHAUSEN, Die Jungfrauengeburt in der Theologie der alten Kirche. Heidelberg: Carl Winter-Universitätsverlag, 1962).
14 Recentemente, foi de novo proposta a tese de que uma possível fonte da concepção virginal de Jesus poderia ter sido o fato de ele ter sido concebido ou mesmo ter nascido fora do vínculo conjugal, isto é, a tese da ilegitimidade de Jesus, seja por estupro ou por adultério. Tanto Mateus como Lucas teriam aceito como ponto pacífico uma tradição oral, segundo a qual Jesus teria sido concebido desta forma por Miriam durante o noivado com José. Cf. Jane SCHABERG. Os antepassados e a mãe de Jesus. Revista Concilium, 226, 1989, nº 6, p. 117-125. Para uma discussão dos argumentos pró e contra esta tese, ver MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 222-229 e respectivas notas, p. 244-250.
[iii] Recentemente, foi de novo proposta a tese de que uma possível fonte da concepção virginal de Jesus poderia ter sido o fato de ele ter sido concebido ou mesmo ter nascido fora do vínculo conjugal, isto é, a tese da ilegitimidade de Jesus, seja por estupro ou por adultério. Tanto Mateus como Lucas teriam aceito como ponto pacífico uma tradição oral, segundo a qual Jesus teria sido concebido desta forma por Miriam durante o noivado com José. Cf. Jane SCHABERG. Os antepassados e a mãe de Jesus. Revista Concilium, 226, 1989, nº 6, p. 117-125. Para uma discussão dos argumentos pró e contra esta tese, ver MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 222-229 e respectivas notas, p. 244-250.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

11° Domingo do Tempo Comum


O dinamismo do reino de Deus desmente o realismo cínico.
(Ez 17,22-24; Sl 91/92; 2Cor 5,6-10; Mc 4,26-34)

O Tempo Comum não tem nada de comum e tem muito de comunidade. É o tempo da encarnação do Evangelho no cotidiano da vida pessoal, eclesial e social. Tempo de acolher e contemplar o mistério do Reino de Deus que vai lentamente adquirindo contornos e produzindo frutos. Tempo de cultivar pacientemente a esperança que, como o artista do circo, caminha sobre a corda bamba. Renovemos a convicção de que somos enviados para caminhar na esperança. E façamo-lo acolhendo e espalhando muitas sementes, mesmo que pareçam hoje insignificantes. Cremos que a pessoa justa cresce como palmeira em terra fértil: mesmo na velhice, se mantém verde e produz frutos. Deus não é aliado dos injustos, e uma vida comprometida sempre esbanja vitalidade (cf. Sl 91/92).
“O Reino de Deus é como um grão de mostarda.”
O realismo cínico é hoje apresentado como a maior das virtudes e se torna uma tentação, inclusive para aqueles/as que dizem acreditar num crucificado que ressuscitou. As afirmações que pretendem nos acordar para esse falso realismo se multiplicam, mas são variações de um mesmo tema. E a primeira delas quer nos convencer que o mundo sempre foi assim, e que não seremos nós os/as protagonistas de uma hipotética mudança. Um outro mundo não é possível, e ponto final!
Como todo esforço de mudança parte da idéia de que algo diferente é possível, estes realistas aconselham cinicamente: cada um que cuide de sua própria vida, não deixe escapar nenhuma oportunidade de superar os outros na competição da vida e procure sempre tirar o máximo de vantagem. Quando estamos no inferno, dizem, é preciso fazer aliança com o diabo e seguir adiante. Sábio/a seria quem faz aliança com este mundo e cobra seus dividendos...
No estreito realismo dos cínicos, daqueles/as que nada querem mudar para tirar o máximo de proveito, projetos de conversão pessoal ao Evangelho de Jesus Cristo, de comunhão e participação na Igreja, de afirmação dos direitos da pessoa humana concreta, de solidariedade com os excluídos e coisas do gênero não passam de efêmera gota de água no oceano, de uma quase invisível semente de mostarda perdida no meio de uma floresta inóspita.
“Estamos sempre cheios de confiança...”
Como cristãos, porém, fazemos parte de uma estranha caravana que percorre os caminhos da história guiada por convicções tecnicamente improváveis: um punhado de escravos é capaz de vencer o poderoso exército do Faraó, conquistar uma terra livre e elaborar os princípios de uma sociedade solidária; mulheres estéreis,  idosas e virgens engravidam e geram novidades; crucificados ressuscitam e pedras rejeitadas se tornam elementos fundamentais de uma nova construção...
Partindo de sua própria experiência e escrevendo sobre a esperança da ressurreição, São Paulo diz que vivemos nesse momento da história como se estivéssemos fora de casa, como peregrinos que buscam outra morada, outra cidade. Mas Paulo insiste que neste êxodo permanente estamos cheios de confiança, mesmo que, como cantava Elis Regina, “a esperança dança na corda bamba, de sombrinha, e em cada passo dessa linha pode se machucar.”
A postura cristã se distancia tanto do delírio de quem que arde de paixão por um mundo fictício e ilusório depois da morte como do conformismo medroso de quem apara as arestas do Evangelho e o acomoda a um mundo sem coração. Nossa confiança se inspira na sabedoria dos/as semeadores/as que sabem que a semente não é a colheita, mas a lança generosamente na terra, certos de que dará fruto, nem que seja temporão.
“Mas, depois de semeada, cresce e se torna maior que todas as outras hortaliças...”
Sempre acreditei – e continuo acreditando! – que é muito importante ter um projeto pessoal de vida, um projeto familiar ou comunitário bem claro, um projeto orientador da caminhada do movimento ou da comunidade eclesial, fiel ao Evangelho e em vista da conversão pessoal e da transformação do mundo. Mas também estou consciente de que é falta de realismo contar apenas como nossas forças, confiar apenas nas nossas estratégias, esquecer a gratuidade e fechar-se às surpresas da vida.
Na inadiável tarefa de tornarmo-nos semelhantes a Jesus Cristo e fazer com que o nosso mundo seja pelo menos uma pálida imagem da família de Deus, é absolutamente indispensável cultivar e manter a abertura e a acolhida ao outro e ao que está por vir.  Precisamos manter uma luta sem tréguas contra todas as tendências de fechamento medroso e de controle arrogante e dominador dos processos históricos e pessoas vivas. O medo e o controle asfixiam e matam as sementes.
“A terra produz o fruto por si mesma”, nos ensina Jesus, num dos contos populares que recolheu na zona rural da Palestina e nos oferece hoje. “A semente vai brotando e crescendo, mas o homem não sabe como isso acontece.” É possível que um processo de mudança se mostre verdadeiramente profundo quando nos leva à consciência dos próprios condicionamentos e limites, abrindo-nos a contribuições outras, iluminando-nos e fecundando-nos pela experiência da gratuidade.
“Caminhamos pela fé e não pela visão...”
Mas numa cultura que afirma e propaga a majestade do indivíduo, o sonho de relações de respeito e de colaboração, de uma comunidade de irmãos e irmãs igualmente dignos, não parece um louco delírio? Diante do peso e da frieza invernal das instituições eclesiásticas, as CEB’s não são apenas flores indefesas? Frente ao poder exorbitante dos G-8, G-20 e outras organizações do gênero, os movimentos sociais não são apenas frágeis Davis frente aos arrogantes Golias?
Efetivamente, o poder seduz com sua aparente beleza. e ofusca com seu impuro brilho. E nós acabamos pensando que sem poder não há salvação, esquecemos que o caminho que acesso à verdadeira liberdade nos foi aberto por um indefeso carpinteiro galileu. Precisamos nos libertar da ilusão da grandeza e colocar no centro da nossa fé a memória da coragem dos escravos frente ao faraó, a memória da vida de Jesus de Nazaré, o mistério escondido na semente de mostarda.
“Eu acredito que o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor.” O Reino de Deus não brilhará apenas quando chegar o hipotético dia em que não haverá mais compradores de justiça, a liberdade não será uma ilusão, a verdade será a fonte das notícias e poderemos crer nas pessoas outra vez. O Reino de Deus não é um particípio passado mas um gerúndio e um futuro: ele “vai sendo” nas milhares de ações de compaixão solidária e de afirmação da dignidade do outro.
“A terra produz o fruto por si mesma...”
Alcançamos a desejada e difícil maturidade na fé quando conseguimos conjugar adequadamente paciência e urgência históricas. Os processos humanos e sociais também têm e seu ritmo de maturação. Conhecê-los sem controlá-los, e remover as forças que podem representar obstáculos é a arte das artes. As frutas costumam perder sabor quando aceleramos seu processo de maturação natural. Conhecer o tempo de Deus é uma arte tão difícil quanto necessária.
Mas eu me pergunto também se hoje o risco não está no outro extremo, se a tentação mais forte não é deixar passar o tempo propício da maturação e da colheita, se não estamos fechando os olhos e os ouvidos a Deus, que pede com urgência que sejamos pessoas mais solidárias, Igrejas mais comunitárias e sociedade mais igualitária. “Quando as espigas estão maduras o homem corta com a foice, porque o tempo da colheita chegou.” Se não faz isso, tudo corre o risco de se perder.
Jesus de Nazaré, semeador da Palavra que liberta e nos faz libertadores/as, ajuda-nos a compreender que a fé é um dinamismo que nos abre à escuta de Deus, que cria espaços de silêncio no qual sua Palavra é acolhida e hospedada. Frente às dores e esperanças que habitam o mundo, dá-nos o senso profundo da peciência e da urgência que exercitaste. Faz com que essa escuta abra em nós espaços de relação com os outros, fundamente a convivência de igual para igual, ajude-nos a sair das próprias certezas e nos comprometa numa dinâmica de comunhão e de solidariedade no interior da qual nasce, cresce e e frutifica o sonho do bem comum da humanidade.Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

terça-feira, 12 de junho de 2012

Miriam de Nazaré (5)


2)    Questões cruciais de mariologia bíblica (1)

Deslindados os principais textos do Novo Testamento que fornecem um quadro geral do perfil bíblico de Miriam de Nazaré, importa investigar alguns aspectos específicos particularmente problemáticos e cruciais do ponto de vista hermenêutico. São questões de gênero que giram em torno do ser-mulher de Miriam, sua maternidade e sua virgindade

Na investigação do perfil bíblico geral de Miriam de Nazaré, em dois momentos significativos, encontramos a expressão ou o apelativo “mulher” endereçado à mãe de Jesus. O primeiro ocorreu em Gl 4,4, onde se afirma que Deus, na plenitude dos tempos, enviou seu Filho, “feito de mulher” (em grego: genómenon ek gynaikós) para significar que o Filho de Deus assumiu a condição humana no seio materno de Miriam. Nada permite supor que o autor da epístola aos Gálatas quisesse atribuir um papel especial a Miriam na filiação divina. O que se afirma se reduz ao seguinte: uma mulher assegurou a entrada do Filho de Deus na história humana. A verdadeira humanidade de Cristo se deveu a uma “mulher”. O apóstolo, ao traçar a estrutura fundamental do mistério da encarnação, deixou-nos o princípio de toda mariologia: a maternidade humana de Miriam na encarnação e missão do Filho de Deus. Nascido ou feito de mulher, o Filho de Deus entrou em profunda comunhão e intercâmbio com a precariedade da natureza humana, tornando-se homem como nós, histórico, sujeito às vicissitudes da condição humana.

Vamos encontrar novamente o apelativo “mulher” dirigido por Jesus à sua mãe no evangelho de João, tanto no relato das bodas de Caná (Jo 2,1-12), como na cena do Calvário (Jo 19,25-27). Por que utilizou Jesus tal apelativo, referindo-se à sua mãe, sabendo-se que não era comum na linguagem de um filho em relação à própria mãe? No âmbito da exegese bíblica, muitas foram as respostas aventadas para a questão. Na perspectiva do autor do quarto evangelho — essencialmente um trabalho de teologização da pessoa e da missão de Jesus —, a expressão “mulher”, tanto em Caná como na cruz, aproxima duas perspectivas. Por um lado, Miriam é a mãe carnal de Jesus, tal como texto Paulino aos Gálatas. Por outro lado, ela é a figura, o símbolo, o ícone que “reassume e sintetiza em si toda a esperança messiânica de Israel e em íntima união com seu Filho intercede para que os povos, o novo Israel já presente nela, sejam partícipes do vinho novo do Espírito” (AUTRAN, 1992, p. 136).

Pelo título “mulher” (em grego: gynè), Jesus revela que estava vendo sua mãe acima das meras relações familiares, dando a entender que não pode mais ser considerado apenas como o filho natural de Miriam e que esta ultrapassou seu estágio de mãe humana de Jesus para se tornar a “Mater Sion”,  mãe-Sião, a representante da coletividade do povo de Deus nos tempos messiânicos. A “mulher” Miriam, a Sião messiânica ou escatológica, simboliza, em Caná, a passagem do povo judaico ao povo messiânico e, na cruz, a passagem do povo messiânico ao povo de Deus da Igreja cristã. Na cena da cruz, a mãe-“mulher” que acolhe o discípulo amado se torna o tipo da Igreja. Em Jo 19, 25-27, o termo “mulher” aplicado a Miriam tem uma ressonância comunitária eclesial. Na Miriam, Jesus mostra a personificação da nova Jerusalém-mãe, isto é, a Igreja-mãe. Se, na antiga Jerusalém,  o profeta dizia: “Eis os teus filhos reunidos juntos” (Is 60,4), agora Jesus diz à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26)[i].

A iluminação retrospectiva que provém do texto de Isaías sobre a reunião dos dispersos confere uma dimensão eclesial e ecumênica à maternidade da “mulher” aos pés da cruz. Na impostação teológica do seu evangelho, João evidencia a presença de Miriam com uma finalidade bem evidente: ela se torna a tipologia da Igreja porque celebrou o culto “em espírito e verdade”, seguindo seu filho, imitando-o na dor e entrando no diálogo entre o Pai e o Filho. Jesus mostra na sua mãe a “mulher-mãe” de todos os seus discípulos. Isto significa que ele pretende propô-la à sua Igreja como modelo-exemplo-tipo-forma de vida evangélica. É este o caráter paradigmático e icônico da maternidade de Miriam de Nazaré, tal como emerge da teologia joanina.
É precisamente esta maternidade humana da mãe de Jesus que caracteriza por excelência o ser-“mulher” de Miriam de Nazaré, como aliás de toda mulher. Neste sentido, a maternidade de Miriam é mais importante que a sua virgindade, como adiante analisaremos. Não sem razão o Novo Testamento privilegia o título de mãe de Jesus ao de virgem. Este último título ocorre somente duas vezes (Mt 1,23 e Lc 1,27), ao passo que o de mãe é referido vinte e cinco vezes.

A maternidade se concretiza nos processos biofisiológicos basicamente espontâneos e transconscientes da ovulação, fecundação, gestação, nutrição e desenvolvimento do embrião e da parturição. No caso da mulher, estes aspectos ocorrem dentro de uma ambiência humana prenhe de emotividade, de liberdade e de consentimento. A dimensão psíquica da maternidade envolve e enriquece o mero biofisiologismo da maternidade. A relação humana que se estabelece entre mãe e filho assume uma dimensão de diálogo, de afetividade e de ternura infinitamente superior — porque livre e humana — à fatalidade natural do procriar da espécie animal. É nestes aspectos biofisiológicos e psíquicos que eclode, em plenitude, a feminilidade maternal de Miriam. O feminino entrou numa proporção profunda na constituição não só do genótipo, da herança biológica de Jesus, mas também da personalidade psicológica básica deste.

Quais são os traços do feminino que se revelam na “mulher” Miriam, na qualidade de mãe de Jesus e em que sentido sua maternidade é perceptível como dimensão tipicamente feminina, caracterizando-a como “mulher”-ícone? Talvez, a melhor resposta para esta questão seja: a feminilidade da maternidade de Miriam se expressa como radical e irradiante gratuidade, pois o seu “sim” à maternidade não só deu a vida ao filho Jesus, mas, pelo simbolismo icônico da sua presença em Caná e no Calvário, sua solicitude materna a tornou partícipe incondicional dos homens peregrinos no tempo. “A maternidade se oferece em Maria como um dar a vida, fontal e permanente, que não conhece condições ou reservas, porque é vivido na gratuidade mais total, e que se traduz, na concretude dos dias, na ternura de uma relação sempre capaz de suscitar vida e alegria em toda criatura amada” (FORTE, op. cit., p. 210).

A vocação à gratuidade irradiante da maternidade não é um princípio abstrato, mas concretude e geração da vida real, ternura próxima que se nutre da doação materna. Em Miriam de Nazaré, esta doação e esta ternura concretas da capacidade tipicamente feminina de realizar o amor estão exemplificadas nas faixas nas quais envolveu o menino (cf. Lc 2,7), na visita afetuosa a Isabel (cf. Lc 1,39ss.) e na intervenção solícita em Caná (cf. Jo 2,1-12). Nestes exemplos, a mãe de Jesus revela sua feminilidade, ao mesmo tempo simples e imediata, mas, também, paradigmática, irradiante e arquetípica.

A feminilidade e a maternidade de Miriam de Nazaré se expressam, igualmente, na nupcialidade da esposa de José[ii], símbolo e ícone da aliança esponsal entre Deus e a humanidade e das núpcias messiânicas da Igreja, novo povo da aliança. A simbologia de Miriam — esposa de José — exprime a reciprocidade e dialogicidade radicais do ser humano. A criatura humana, tal como emerge em Miriam, é chamada para a aliança, isto é, está constitutivamente orientada para a reciprocidade do encontro, do diálogo e da aliança na socialidade e profundidade da união e da comunhão. A reciprocidade da convivência masculino-feminina é condição estrutural da existência humana. O mistério da vida e da história humanas é essencialmente um mistério esponsal de aliança. A reciprocidade varão-mulher significa que todo ser humano é constitutivamente um ser dialógico: “O diálogo, encontro na palavra, manifesta a natureza mais profunda da pessoa humana enquanto chamada a tomar a iniciativa da relação com os outros, a acolher a iniciativa e a resposta deles e a integrar em unidade esse duplo movimento, de saída de si e de retorno a si, de fonte e de receptividade no amor” (FORTE, op. cit., p. 234).

Essa reciprocidade dialógica, radicalmente aberta aos outros, realizou-se iconicamente em Miriam, esposa de José e Esposa da nova aliança. Dialogou com Deus — veja-se a estrutura dialógica da narrativa da anunciação (Lc 1,26-38) e do hino Magnificat (Lc 46-55) —, com seu filho Jesus (cf. bodas de Caná: Jo 2,1-12) e com os homens, discípulos “serventes” (Jo 2,5: Fazei tudo o que ele vos disser).



[i] É nesta linha de interpretação que se orienta a reflexão de Francesco Rossi de Gasperis, em seu sugestivo livro Maria di Nazaret: icona di Israele e della Chiesa. Magnano: Qiqajon, 1997.
[ii] Não seria fora de propósito ou um anacronismo um ensaio sobre o papel de José na história da salvação — sem os exageros de uma josefologia! — e sobre a simbologia antropológica e teológica da Sagrada Família de Nazaré. Além dos estudos exegéticos pertinentes e atualizados, duas publicações antigas mereceriam ser revisitados.

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus


O coração de Deus é grande e compassivo.
(Os 11,1-4.8-9; Is 12,2-6; Ef 3,8-19; Jo 19,31-37)

A tentação de imaginar Deus de forma abstrata e de propor a mensagem cristã de forma estritamente doutrinal está sempre nos rondando. O princípio de um Deus uno e trino celebrado na festa da Santíssima Trindade pode virar uma questão de matemática ou metafísica. A boa notícia recordada na solenidade de Corpus Christi pode descambar em uma discussão polêmica e inoportuna. E acabamos representando o mistério de Deus mediante figuras abstratas ou ameaçadoras, como o triângulo, a lei, o olho. Até a cruz corre o risco de passar uma idéia parcial e doentia de um Deus sádico. Imagens como a mãe, o pai, o cordeiro, a mesa e o coração não seriam mais adequadas? Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus recordamos agradecidos/as que Deus tem um grande coração, um coração humano e compassivo. E isso não tem nada a ver com um Deus distante, abstrato e sádico.
“Eu sou o Santo no meio de ti, não venho com terror.”
Bem que o primeiro testamento proíbe terminantemente que se façam imagens de Deus. Imaginar Deus é difícil, perigoso e pode ter consequências desastrosas. Basta lembrar algumas imagens que, não obstante a proibição, o povo de Israel se fez de Deus: Senhor dos exércitos, Rei do céu e da terra, Deus altíssimo, Senhor onipotente... O caminho entre imaginar Deus nestes termos e sua cooptação pelos poderosos e opressores de plantão, em prejuízo dos pobres, é apenas um passo.
Nas últimas décadas, algumas escolas de teologia e de espiritualidade fizeram esforços significativos para refundir a noção de Deus nos parâmetros da cultura moderna. Mas o que significa concreta e existencialmente conceitos como Absoluto, Transcendente, Divindade? Correm o risco de passar mensagens ambíguas ou incompletas, como os antigos conceitos de Altíssimo, Onipotente e Senhor. E às vezes não fazem outra coisa que cavar um abismo intransponível entre Deus e ser humano...
“Eu os lacei com laços de amizade...”
Mas antes disso, no final do século XVII e meados do século XVIII, nasceu e se espandiu um movimento espiritual que quis corrigir o formalismo no qual caíra a teologia e a espiritualidade cristãs. O movimento pietista se propôs a recolocar a experiência prática e o sentimento no centro da vida cristã. Caminhou paralelamente às principais tendências teológicas, pois tinha a impressão de nada ganhar com elas. E a teologia, por sua vez, olhou para o pietismo com desconfiança, temendo a multiplicação de heresias.
É no âmbito do esfriamento das práticas de piedade, provocado pelo liberalismo, e no contexto do movimento pietista, que nasceu a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Em 1675, Jesus teria aparecido a Santa Margarida Maria Alcoque e dito,  descobrindo seu Coração:  “Eis o coração que tanto tem amado aos homens e  em recompensa não recebe, da maior parte deles, senão ingratidões pelas irreverências e  sacrilégios, friezas e  desprezos que tem por Mim neste Sacramento de Amor”.
A Sagrada Escritura nos apresenta a imagem de um Deus vivo e caracterizado pela Compaixão, e é isso que a solenidade do Sagrado Coração de Jesus deve colocar em evidência. Não precisamos ter medo de reconhecer traços antropomórficos em nossas imagens de Deus. Nunca nos livraremos disso. O que precisamos é evitar projetar na idéia de Deus elementos de uma antropologia que exclui aspectos fundamentais como a corporeidade, a relação, o sentimento e a solidariedade.
“Para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles.”
Como horizonte maior da reflexão deste dia, temos a experiência e a palavra do profeta Oséias. O trecho proposto é uma das mais ternas e belas páginas da experiência religiosa, e não só de Isarel. Para descrever quem é e como age o Deus de Israel, o profeta recorre aos marcantes sentimentos e às profundas  atitudes de uma mãe em relação aos filhos pequenos. A experiência masculina – e muito menos a abstração teórica e a frieza legalista – não são adequadas para falar de Deus.
Como uma mãe é incansável e criativa nos sinais do seu bem-querer, Deus toma seu povo pela mão, ensina-o pacientemente a dar os primeiros passos, envolve-o com os infinitos gestos que só o amor sabe criar. Como uma mãe se inclina para elevar seu filhinho ao peito e amamentá-lo, Deus se inclina para sustentar seu povo e fazê-lo subir. Diante do menor sofrimento de um filho ou filha, o coração de Deus salta no seu peito e suas entranhas se agitam dolorosamente. É um Deus que padece.
São metáforas que procuram quase desesperadamente dar conta de um Deus que tem coração, que não descansa enquanto não vê seu povo sair da opressão, que não admite fazer justiça castigando, que não suporta dar as costas àqueles/as a quem ama. Nem de longe ele se parece com um justiceiro altivo ou um homem vingativo. Ele é Santo, radicalmente diferente, incapaz de se deixar mover pelos desumanos sentimentos de mágoa e de vingança.  É um Deus apaixonado.
 “Um soldado golpeou-lhe o lado com a lança...”
O primeiro plano do quadro da Palavra que escutamos hoje é totalmente dominado pela figura de Jesus de Nazaré. Ele pende da cruz, onde fora pregado depois de ter sido acusado, traído, condenado e torturado. Fazem-lhe companhia dois outros proscritos. O dia é soleníssimo, antecede a grande festa dos judeus. O que o fez chegar a este lugar e a este estado é de domínio público: ousou desafiar uma certa imagem de Deus, afirmando que ele é, antes e acima de tudo, Amor.
Sabemos que o coração de Jesus bate forte pelos últimos da escala social, pelas pessoas arruinadas por causa de escolhas mal feitas ou de sistemas que excluem. Longe de cair na armadilha de uma generosidade ingênua, Jesus escolhe muito bem aqueles a quem dirige seu amor preferencial e ocupam um lugar nobre no seu coração. Ele vai premurosamente ao encontro das pessoas perdidas, reconduz as desgarradas, cuida das machucadas, fortalece fortalece as doentes, defende a dignidade de todas.
No alto da colina da caveira, o corpo pendente da cruz proclama em alto e bom som que Deus tem um coração: ele ama a justiça, estende sua misericórdia de geração em geração, aproxima-se de todos/as os/as necessitados/as com ternura de pai e mãe. Seu coração é de carne e jorra sangue, e não de pedra fria, feita de leis impostas e apllicadas sem condecendência. É para que seu peito não retenha este coração que suas pernas não são quebradas. É disso que nós somos beneficiadas testemunhas!
“Assim, conhecemos o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento.”
Paulo fizera uma experiência paradoxal: sendo fariseu de estrita observância e implacável perseguidor dos seguidores de Jesus, descobre-se amado e escolhido para testemunhá-lo como Messias de Deus e salvador da humanidade. Um amor e uma missão absolutamente imerecidas. O conhecimento e a observância da lei o havia fechado em si mesmo e feito dele um homem frio e orgulhoso. O conhecimento de Jesus Cristo o faz homem livre e frágil, próximo e servidor da humanidade.
Paulo tem a impressão de que a grandeza dessa experiência não cabe nas palavras. Escrevendo aos cristãos que vinham do paganismo e amargavam duras experiências de exclusão, Paulo faz de tudo para anunciar a eles a “riqueza insondável de Cristo”. O desejo de Deus sempre foi que, pela fé e pela adesão a Jesus Cristo, todos sejam livres para se aproximar de Deus com confiança. É este o mistério que antes estava escondido e agora deve ser anunciado sem meias-palavras.
Paulo prossegue, implorando de joelhos, que nossa humanidade amadureça e se desenvolva, enraizada e alicerçada em Jesus Cristo. Assim, teremos condições de “conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento”, de entender “a largura, o comprimento, a altura, a profundidade” desse amor gratuito e imerecido. E quem experimenta e compreende esse amor, não pode senão testemunhá-lo nas ações, relações e projetos concretos de compaixão e solidariedade.
 “O Senhor é minha força e meu alegre canto!”
Jesus crucificado, terno coração de um Deus que é pai e mãe, sofrido coração de um homem que é incapaz de ser indiferente às dores e dramas humanos: neste dia em que tua Igreja proclama a sacralidade transcendente do amor, de todo amor, dobramos os joelhos diante de ti e pedimos que o teu Espírito nos inunde, renove e guie nos caminhos do amor terno, despojado e serviçal. Acolhendo no teu coração sagrado o inteiro anúncio do Reino, dispo-mos a ser como és e a ir onde estás. Faça com que nosso instável coração adquira a altura, a profundidade e a largura do teu amor. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf