segunda-feira, 7 de maio de 2018

Seminário sobre a vida religiosa (8)


Cadê o carregador do nosso celular?
Reagindo e refletindo a partir das reflexões do Marcelo de Barros, a Ir. Annette disse que, às vezes, a vida religiosa se parece com um celular descarregado, para o qual perdemos o carregador e a fonte de energia. A vida religiosa parece desconectada, sonolenta, descarregada, agitada em ações que não realizam o que ela é. A energia espiritual da vida religiosa não vem de nós, mas precisamos ter um carregador e uma fonte de energia.
Onde está o carregador da nossa espiritualidade e a fonte de energia que nos dinamiza?, perguntou Ir. Annette. E ensaia a resposta, começando pela afirmação de que não existe uma espiritualidade da vida consagrada. A vida consagrada é chamada a ser uma amostra-grátis da vida de Jesus, pequena, significativa e picante como uma semente de mostarda. O que essa amostra-grátis está dizendo hoje do seguimento de Jesus? Trata-se de voltar à relação radical e substancial com Jesus e seu Evangelho. “Tu o vês, ele fala contigo!”
A vida religiosa precisa demonstrar assimilar o estilo de vida do Mestre da Galileia, do estilo de vida evangélica. Para isso, precisa sair do condicionamento, de um passado brilhante. No Brasil, os religiosos e religiosas foram em tudo os primeiros, e hoje precisa deixar de ser uma espécie majestosos cedros do Líbano para ser sementes de mostarda, pequeninas e picantes, evangelicamente significativas.
Por fim, Ir. Annette sublinhou que a vida religiosa precisa ser reestruturada, mais com espírito de Jesus que estruturas do mundo. E apontou cinco pontos de uma reestruturação no Espírito, cada qual seguido de uma pergunta:
(1) A alegria, que não é a mesma coisa euforia. O que nos provoca alegria verdadeira ou sorrir? Guardamos a chama do entusiasmo ou precisamos de artefatos para sentir euforia?
(2) Gestos proféticos, pequenos como o grão de mostarda, mas eloquentes e com força para mexer com as pessoas. Qual é a próxima compra que planejamos: um sofá ou uma sandália?
(3) Experiência de comunhão. Ou somos apaixonados pela comunhão, ou não somos vida religiosa consagrada. Por que tanto desamor na comunidade se a meta é comum? Por que tanta energia desperdiçada?
(4) Saídas missionárias, sair de si, da autorreferencialidade. Não é suficiente ser dócil ao Espírito, é preciso ser disponível, criativamente. Desejamos sair da mesmice para recuperar a criatividade das origens?
(5) Opção pelos pobres. Nosso processo formativo continua aburguesando. É preciso ser capaz de ver Jesus no pobre. Será que o pobre ainda vê Jesus no rosto das pessoas consagradas? Mostramos um rosto credível de Jesus?
Para que nosso rosto revele Jesus, não adianta carregar na maquiagem. Precisamos de uma plástica profunda, colocarmo-nos diante de Jesus, rosto dos pobres, pedindo que nosso rosto seja transparência do rosto dele.
 Itacir Brassiani msf

Seminário sobre a vida religiosa (7)


A parábola da flor de lótus e a vida consagrada
Dialogando com a conferência de Dom Marcelo Barros, a Ir. Tea Frigério recordou uma das lendas que envolvem a flor de lótus, segundo a qual essa flor é resultado da cooperação da terra, da água, do vento e do sol, que deram o melhor de si mesmos para criá-la e assim evitar a punição da humanidade. Lembrou, com isso, que as criaturas somos todas aparentadas, interligadas, relacionadas. E a espiritualidade é ação da Ruah divina, que confere sacralidade, intencionalidade, interação e movimento a todas as criaturas.
Téa Frigério afirmou que não somos consumidores de espiritualidade e de mística, mas criadores de espiritualidade, e apontou quatro caminhos ou trilhas para o desenvolvimento de uma espiritualidade que nos ajude a viver honradamente nos tempos atuais:
(1) Enamorar-se diariamente, ou seja, deixar-se maravilhar pela beleza das criaturas e acontecimentos, por quem é diferente, descobrir e maravilhar-se com o amor possível.
(2) Ousar mergulhar na escuridão, o que significa retornar às origens obscuras da vida, ao Mistério no qual fomos gerados, à dimensão de obscuridade da nossa interioridade, à obscuridade ou ocultamento social e cultural, pois nela nos recompomos e nos capacitamos para dar o passo seguinte.
(3) Aceitar o desafio de ser luz, o desafio de iluminar gastando-se, de viver e de refletir na pequenez da própria vida o Evangelho de Jesus de Nazaré, no dinamismo do enamoramento e a partir do mergulho na escuridão.
(4) Ser compassivos (maduros, plenos) como o Pai celeste é compassivo com suas criaturas, já que compaixão compreende e articula justiça e festividade, luta e festa, e, portanto, é visceralmente profética.
Itacir Brassiani msf

Seminário sobre a vida religiosa (6)


Espiritualidade da vida religiosa: o primeiro amor e o bem viver

Segundo o monge beneditino Dom Marcelo Barros, palestrante de hoje no Seminário da Vida Consagrada (Aparecida – SP), espiritualidade está relacionada sempre com santidade e sanidade, que é o oposto da “normose”, do ser doentiamente normal e adaptado às exigências culturais e institucionais, e tem a ver com vitalidade e dinamismo. Segundo ele, as instituições, inclusive as religiões e os votos, existem para nos levar à maturidade, ao bem viver; se não for para isso, não valem nada, devem ser jogadas fora. Se cremos e temos fé em Deus, é para não sermos normais, para nadar contra a corrente, para mudar, inovar, transformar. 
Depois de interrogar se podemos afirmar que há uma identidade religiosa, uma identidade da vida consagrada, dom Marcelo sublinhou que hoje as identidades são hoje são plurais e múltiplas, e, quando fechadas e enrijecidas, podem se tornar mortíferas (como aquilo que ocorre com as identidades fundamentalistas). Uma identidade desenha fronteiras, mas precisa fazê-la no respeito, no apreço e na admiração pelo Outro.
Para Marcelo Barros, o primeiro eixo dinâmico de uma espiritualidade da vida religiosa para os tempos atuais é manter o primeiro amor, aquele que moveu nossos primeiros passos e deve continuar movendo nossa vida hoje, nossa inserção na instituição, nossa militância e nossa missão. Esse primeiro amor nos ajudará a “reiventar” e viver a aliança, o deserto (resistência e luta interior, comunitária, política e social), o Evangelho como norma e prática de vida cotidiana, a caminhada toda (na sua dimensão itinerante, contestatória e revolucionária).
Enquanto eixo articulador da vida consagrada, o Evangelho arrasta-nos à profecia. Não podemos esquecer que o profeta Jesus não se contentou em ser contestador dos poderes políticos e estruturas econômicas do seu tempo, mas voltou sua atenção e a sua palavra forte e contestadora contra os desmandos das autoridades e estruturas religiosas. Então, como a vida consagrada pode viver e exercitar a profecia numa instituição eclesial que cede à autorreferencialidade e relativiza o Evangelho, e num mundo que idolatra o capital, numa cultura que postula o sacrifício da vida humana e da família das criaturas, que vê o outro sempre como ameaça e nunca como promessa, uma sociedade sem vínculos ou da “desvinculação”?
Segundo Marcelo Barros, faz parte do DNA da vida consagrada sua vocação de humanizar e fraternizar o mundo, de ser fator de aliança na complementaridade das diferenças e na riqueza da alteridade. E isso em Deus e com Deus, o que significa, a partir de um amor universalmente inclusivo, irrestrito e incondicional. A travessia necessária é aquela que leva de uma forma de amar marcadamente “egóica” e uma forma de amar essencialmente ecológica, sistêmica, relacional.
Itacir Brassiani msf

domingo, 6 de maio de 2018

Seminário sobre a vida religiosa (5)


Profetismo na vida religiosa consagrada hoje

Na sua conferência sobre O profetismo da vida religiosa consagrada hoje, parte do Seminário Nacional sobre a Vida Consagrada, que está acontecendo em Aparecida (SP), promovida pela Conferência dos religiosos do Brasil, a Ir. Marian Ambrosio (Superiora Geral das Irmãs da Divina Providência), começou sublinhando que, segundo o Papa Francisco, “a nota que caracteriza a vida consagrada hoje é a profecia”, e isso nos pede uma mística de olhos abertos, capaz de sustentar uma busca apaixonada de Deus e seus caminhos.  
Raízes proféticas, profecia das raízes
Partindo da alegoria da árvore (com suas raízes, seu tronco, suas folhas, suas flores e frutos), Ir. Marian lembrou que as raízes não constroem; cavando, elas traçam a seu modo, um caminho de busca incansável de agua, sabendo que a água não lhe pertence, nem vem dela mesma. Jesus, o Profeta, cavou pacientemente durante 30 anos e lançou raízes em Nazaré. Na herança viva do seu povo e sua família - sua terra e sua mãe! - buscou aquilo que o sustentou nos e desertos, na frequência às sinagogas, nas peregrinações ao templo.
“Quais são as nossas raízes, como vida religiosa?”, provocou Ir. Marian. Ou será que estamos ocupados apenas em dar um final feliz àquilo que construímos, e não temos tempo nem sede para buscar a energia, seguindo o cheiro da água? Manter a busca do Mistério e repropor Deus – o Outro, a Alternativa que esconde a vida, o Horizonte benfazejo, emancipador e solidário – num mundo fechado em si mesmo pode ser a primeira expressão da profecia, uma profecia de raiz. O mundo frio, calculista e desencantado que nos toca tem necessidade de encontrar a fé como horizonte, como abertura, como impulso a caminhar.
Vinculadas a essa profecia da raiz, e decorrentes dela, estão a releitura do carisma fundacional, a profissão e a vivência pública dos votos, a opção pelos pobres, o silêncio orante e a escuta despojada da Palavra, o martírio cotidiano de quem vive nas fronteiras e desertos e a serena esperança de novos céus e nova terra. Seguindo Jesus desde a raiz e ao modo de raiz podemos testemunhar a fé radical e ser sinais da Presença discreta de Deus no mundo.
A audácia profética do tronco
O tronco nasce com a primeira raiz, tronco e raiz estão simbioticamente unidas. Todas as raízes buscam manter-se ligadas ao tronco. Se isso não ocorre, a raiz morre ou dá origem a outro arbusto, outra forma de vida. O tronco se abre e multiplica à medida em que cresce e amadurece, avança para acolher folhas e flores e garantir frutos, se reinventa em vista da sua finalidade. As raízes se realizam quando sustentam um tronco saudável, e este depende do lugar, do terreno, das raízes. O tronco amadurece quando brota, floresce, frutifica.
A vida de Jesus se sustenta num tronco constituído por sua família, sua comunidade, seu povo. Mas este tronco se reinventa permanentemente sob a força da inspiração e da ação de Jesus. O segredo da fecundidade de Jesus está na comunhão amorosa e crescente com seu povo e com o Espírito Santo. Também na vida religiosa consagrada, unificando-nos com o tronco que se ergue para produzir frutos, constituímo-nos comunidade em missão, ressaltou a Ir. Marian.
Há mais de 20 anos, João Paulo II já enfatizava que a vida comunitária religiosa, antes de ser meio para a missão, é espaço teologal onde podemos experimentar a experiência mística de Jesus ressuscitado. A comunidade de pessoas consagradas não é uma simples estratégia organizacional, nem funciona como uma espécie de asilo afetivo, de zona de conforto que alivia as tensões que nos provoca o mundo que nos toca. A alegria de viver juntos e compartilhar vida e lutas é, em si mesma, sinal do Reino de Deus. Na fraternidade comunitária, os conflitos existem, e precisam ser acolhidos e acariciados, mas em vista da missão. “Se uma pessoa não pode viver a fraternidade em comunidade, também não pode viver a vida religiosa” (Papa Francisco).
No tronco, e a serviço dos frutos e do seu vínculo com as raízes, está o serviço da autoridade. Ela tem uma perspectiva e uma função organizativa (da vida comunitária, da missão, dos recursos), e pode e deve ser profética. Quando for exercida ao modo de Jesus, servindo, em vista da construção do Reino, a autoridade cumpre sua missão profética. E isso passa pela ousadia de repensar estruturas que se esvaziaram e repropor projetos que as maiorias não querem encarar.
A profecia das folhas, das flores e dos frutos
As raízes não mudam, mesmo quando o tronco sofre com o tempo e com as podas. O tronco da comunidade, com suas folhas e frutos, não existe para brilhar, mas para oferecer seus frutos ao mundo.  A semente é o embrião da arvore e do fruto, promessa de vida. Dela depende a qualidade do fruto.
Ir. Marian sublinhou que é da qualidade da formação inicial e permanente que depende a qualidade e o sabor do fruto. A primeira gota de água ajuda a semente a inchar e germinar, faz elevar-se em forma de tronco comunitário. A gentileza, a beleza, a simpatia são parte da flor, expressão da missão. Parte das flores se transformam em frutos.
Como todos sabemos, ou deveríamos saber, missão é engajamento na missão única de Deus, gerar, sustentar, proteger e multiplicar a vida, em suas multiplicidade de formas. Deus tem uma missão, e confia parte dela à nossa Congregação. O Carisma que se faz carne se faz missão, mas permanece sempre dom do Espírito, para a missão, coisa de Deus. Sinalizando ao mundo que nos toca a gratuidade do criador, damos testemunho de fé e seduzimos o mundo para o Evangelho do reino.
A identidade da vida religiosa consagrada é carismática, e, portanto não é dirigida à organização ministerial da Igreja. Ela está em função do reino de Deus, da missão de Deus. O núcleo identitário da vida religiosa (raiz, tronco, frutos) pede de nós uma releitura profética. A verdadeira profecia da vida religiosa está na integração da energia interna que nos capacita a viver as três dimensões de forma conjugada.
As profetizas e os profetas ajudam a despertar no povo de Deus a capacidade de entender o presente no horizonte do futuro. Profetas e profetizas perscrutam o futuro, gritam e pedem que o povo mude o rumo, atuem em vista do futuro. Por isso, a profecia é (quase) sempre portadora de esperança. E a alegria prenuncia o futuro já presente.
Itacir Brassiani msf

sábado, 5 de maio de 2018

Seminário sobre a vida religiosa (4)


Passar de comunidades instituídas a comunidades instituintes
O professor Coutinho sublinhou que, como cristãos do século XXI, precisamos apropriarmo-nos de modo inteligente da Gaudium et Spes. Na perspectiva desse documento conciliar, mundo e Igreja são consubstanciais. Mas precisamos também interrogar-nos: O mundo entrou realmente em nossos institutos? Ou melhor: quais são os aspectos do mundo que nossos institutos assimilaram ou que assimilaram nossos institutos?
Efetivamente, o mundo moderno entrou nas nossas instituições. Basta dar uma breve olhada sobre nosso patrimônio e nossos equipamentos. A lógica implacável do capitalismo neoliberal lançou raízes no terreno dos nossos projetos, alimenta sonhos, provoca suspiros indiscretos, produz dividendos. E dores. Mas o mundo das feridas e dores das vítimas, depois de uma breve visita de apresentação, corre o risco de ser ignorado ou expulso pelas exigências da lógica institucional, da sobrevivência das nossas instituições, mesmo que seja no rodapé da história. As vítimas, os pobres e as periferias aparecem fugazmente nas assembleias e momentos de celebração, mas são praticamente invisíveis nos momentos e espaços onde se definem as estratégias a longo prazo. Ou não?
E há também alguns setores religiosos que, depois de uma breve paixão pelas alternativas de um mundo diferente, mostram-se impacientes e incomodados com a demora da sua chegada. Como se, diante da demora da passagem do ônibus que nos leva ao futuro sonhado, a saída fosse pegar ônibus de volta, e não avançar à pé, coletivamente. Precisamos, como sempre, recuperar a capacidade instituinte dos carismas, e, ao mesmo tempo, relativizar o carisma instituído. Em outras palavras, precisamos reencontrar a capacidade criativa e inovadora, e não as figuras históricas e transitórias que ele gerou, marcas de um tempo que não existe mais.
Itacir Brassiani msf

Seminário sobre a vida religiosa (3)


Seria melhor não ver nada, evitar ser tocado por este mundo?
Participando no debate com o professor Coutinho, a Ir. Francinete lembrou que, no Brasil, a VRC quer deixar-se iluminar pela profecia de Isaías e identificar sinais da novidade em gestação e sair às pressas onde a vida está clamando. E isso porque somos tocados e não podemos fazer de conta de quem não temos nada a ver com isso. Mas provocou a assembleia: Podemos dizer que, realmente, o mundo, a dor do outros me toca, dói em mim?
A Irmã Francinete leu a carta de um adolescente que, ao visitar uma casa de pessoas idosas e com visão reduzida, diz que preferia ser cego a ver o que tem que ver no cenário nacional. Mas, para a vida consagrada, não ver, não ouvir, não se tocar, pode ser mais cômodo e mais econômico, mas não gera compromisso, nem transforma, expressa a morte e leva à morte. 
Nossos Fundadores e Fundadoras nos inspiram porque foram pessoas que se deixaram tocar pela realidade, pela dor das vítimas, não conseguiram ficar indiferentes. Imaginaram caminhos e congregaram pessoas para sonhá-los e percorrê-los. Mas, não podemos negar, cada vez menos as dores da humanidade nos atingem, nos movem, provocam indignação e mobilização.
Vivemos num mundo no qual cada um assume a impossível missão de cuidar sozinho de si mesmo, sem poder contar com mais ninguém, plenamente ocupado em cuidar dele mesmo. E nos sentimos dispensados de cuidar de outro que não sejamos nós mesmos. Será que isso pode ser dito também dos nossos institutos religiosos?!
Para que a situação de desordem seja excelente, como afirmava Mao Tsé Tung, precisamos posicionarmo-nos corretamente. De que lado estamos? Não podemos fingir que não vemos, desistir de ver, pois esse não é um caminho cristão. Deixemo-nos tocar pelo mundo, para que nossa ação toque e transforme o mundo, a partir das vítimas.
Itacir Brassiani msf

Seminário sobre a Vida Religiosa (2)


As alegrias e dores do mundo nos tocam?
Reagindo às afirmações do professor Coutinho, o Frei Luís Carlos Susin sublinhou que a situação que vivemos hoje no Brasil e no mundo em geral é tão complexa, que qualquer tentativa de análise se revela temerária e aventureira. Mas o caos e a desordem são arenas da criatividade, convites à inventividade. Aprendemos com o espírito conciliar que as alegrias e angústias do nosso tempo o são da Igreja. Não somos alheios, mas afetados por tudo isso. “O nosso mundo nos toca”.
As regiões hoje em conflito são as regiões ricas em recursos naturais, especialmente de mineração e hídricos, objetos de interesse do mundo globalizado. As guerras lançam suas garras e bombas, envias seus batalhões e armamentos, às regiões que detém minerais e outros recursos estratégicos para a economia do mundo atual. Pelo controle desses recursos, as potencias estão dispostas a pisar leis, convenções e valores, pessoas e nações.
As divisões sociais e o ódio que crescem nas redes sociais afetam também a Igreja? Como essa reação primária e “selvagem” nos atinge? Preferimos ficar com as falsas comunidades das redes sociais, onde as relações são fluidas e interesseiras, ou nos aventuramos a reconhecer e valorizar a diferença, e dialogar com elas, enriquecendo-nos?
Quando não sabemos pra onde andar, precisamos lembrar o caminho que percorremos. Nessa perspectiva, a meditação sapiencial da história do povo hebreu, da história da missão e da história dos povos oprimidos pode ser de grande ajuda. Para a profecia, o que interessa é o futuro, e o passado enquanto nos ajuda e visualizá-lo, nos oferece inspiração, e não receitas.
Analisando os dois últimos séculos do ocidente, alguns analistas dizem que, depois de uma era de luta pela erradicação da repressão, em todas as suas expressões, vivemos agora uma era da depressão, do vazio. Jogamos tudo pela janela, e a casa ficou vazia. Apagamos o sol que nos aquecia, e sentimos cada vez mais frio. Mas, para os discípulos e discípulas de Jesus, o vazio pode ter algum sentido, pode ser elaborado, pode nos ajudar e redescobrir a kénosis, uma dimensão essencial e promissora do cristianismo.
Quando nos defrontamos com encruzilhadas, é salutar olhar para a juventude. Ela reaparece em público, inclusive com os seus badulaques. Ela está em movimento para reocupar os espaços públicos, onde a sociedade é tecida e distorcida. É possível que a vida religiosa consagrada esteja presente nestes espaços, observando, somando, fazendo memória criativa e inspiradora?
Itacir Brassiani msf

Seminário sobre a Vida Religiosa (1)


O mundo que nos toca

Vivemos tempos escatológicos. Esta foi a afirmação do professor Sérgio Coutinho na conferência de abertura do Seminário da Vida Consagrada, que está sendo realizado em Aparecida (SP) e reúne mais de 500 religiosos e religiosas vindos de todo o Brasil.
Ele lembrou que, desde 2008, o mundo enfrenta uma crise, primeiro financeira, que partiu dos EUA e nos alcançou. E levantou perguntas: As coisas retornarão ao seu curso normal proximamente? Ou estaríamos chegando ao fim da globalização neoliberal, de uma etapa do capitalismo? Chegamos ao fim dos tempos, ou a fim de um tempo?
Segundo Coutinho, que cita Slavoj Zizek, vivemos tempos escatológicos, o fim de um tempo. O fim de um tempo não é um tempo de medo nem de esperança, mas um tempo de ação. A escatologia apocalíptica nega o mundo e espera pela intervenção divina, mas a escatologia ético-sapiencial é a nega este mundo por uma ação capaz de transformá-lo.
Mas, se é verdade que estamos no fim de um mundo, afirma o historiador, não nos despedimos dele sem mais. Como sociedade, precisamos passar pelo ritual do luto, lamentar a perda, o fim, como o fazem as pessoas diante de morte de alguém querido. E isso acontece, segundo alguns estudiosos, em cinco atitudes: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação.
A postura de negação vem se faz evidenciar no retorno ao protecionismo econômico, das políticas anti-imigratórias, na tentativa de voltar ao período pré-liberal.  A atitude de raiva se mostra na onda de violência desmedida contra os grupos sociais que são identificados como inimigos ou ameaçadores, tanto sujeitos religiosos como afetivos e sociais; a própria diferença passa a ser vista como ameaça e perigo, e gera reações raivosas.
A reação da barganha se faz ver na procura brechas e oportunidades para que o capitalismo sobreviva. As relações trabalhistas passam pela precarização, pela exclusão e cancelamento de direitos, de exploração suplementar: trabalho a domicílio, estágio, trabalho por peças, empresas de alocação de mão de obra, regime de trabalho intermitente, microempresário individual, trabalho voluntário, enfim: a “uberização” do trabalho.
Como nem o paradoxo das redes sociais consegue exorcizar as novas formas de desencanto subjetivo, vem um estado de depressão social. A falsidade da promessa neoliberal do bem-estar e da igualdade se derramando sobre o mundo e as pessoas levou a sintomas de depressão. Nasceu uma sociedade do do desencanto, do colapso da confiança, da crença de que todos os líderes são corruptos, estúpidos e incapazes. Criou-se um individualismo rasteiro, o ativismo do sofá, desvinculado de ações que podem mudar. Nasceu um universo fechado, individual, inoculado, homogeneizado.
Mas isso não é o fim. Há sinais de ressurgimento da subjetividade emancipatória e de práticas da democracia transformadora. A emergência de modos mais solidários de produzir, consumir e distribuir engendra novos processos de subjetivação, numa perspectiva emancipatória, com coletivos potentes. Será que a vida consagrada representa e potencializa esta possibilidade?, pergunta Coutinho. O trabalho associativo, cooperativo e auto gestionário é uma dessas expressões.
Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O Evangelho dominical - 06.05.2018


UMA ALEGRIA DIFERENTE

Não é fácil a alegria. Os momentos de autêntica felicidade parecem pequenos parêntesis no meio de uma existência de onde brotam constantemente a dor, a inquietação e a insatisfação.
O mistério da verdadeira alegria é algo estranho para muitos homens e mulheres. Sabem quiçá rir às gargalhadas, mas esqueceram o que é um sorriso alegre, nascido do mais profundo do ser. Têm quase tudo, mas nada os satisfaz na verdade. Estão rodeados de objetos valiosos e práticos, mas nada sabem do amor e da amizade. Correm pela vida absorvidos por mil tarefas e preocupações, mas esqueceram que somos feitos para a alegria.
Por isso, algo se desperta em nós quando escutamos as palavras de Jesus: falei-vos «para que participeis da minha alegria, e para que a vossa alegria seja completa». A nossa alegria é frágil, pequena e está sempre ameaçada. Mas algo grande nos é prometido. Poder partilhar a alegria mesma de Jesus. A Sua alegria pode ser a nossa.
O pensamento de Jesus é claro. Se não há amor, não há vida. Não há comunicação com Ele. Não há experiência do Pai. Se falta o amor na nossa vida, não fica mais que o vazio e a ausência de Deus. Podemos falar de Deus, imaginá-lo, mas não experimentá-lo como fonte de gozo verdadeiro. Então o vazio enche-se de deuses falsos que tomam o lugar do Pai mas não podem fazer brotar em nós a verdadeira alegria que nosso coração deseja.
Quiçá os cristãos de hoje pensamos pouco na alegria de Jesus e não temos aprendido a desfrutar da vida, seguindo os Seus passos. As Suas chamadas para procurar a felicidade verdadeira perderam-se no vazio talvez porque continuamos obstinados em pensar que o caminho mais seguro de o encontrar é o que passa pelo poder, o dinheiro ou o sexo.
A alegria de Jesus é a de quem vive com uma confiança limpa e incondicional no Pai. A alegria do que sabe acolher a vida com agradecimento. A alegria do que descobriu que a existência inteira é uma graça.
Mas a vida extingue-se tristemente em nós se a guardamos para nós mesmos, sem saber como a oferecer. A alegria de Jesus não consiste em desfrutar egoisticamente da vida. É a alegria de quem dá vida e sabe criar as condições necessárias para que cresça e se desenvolva de forma cada vez mais digna e mais sã. Está aqui um dos ensinamentos-chave do Evangelho. Só é feliz quem faz um mundo mais feliz. Só conhece a alegria quem a sabe oferecer. Só vive quem faz viver.
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

terça-feira, 1 de maio de 2018

ANO B – SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA – 06.05.2018


Jesus Cristo é a perfeita expressão e a medida de todo amor.
Amor é uma palavra à qual damos sentidos muito variáveis e diferentes. A maioria das pessoas coloca o amor no âmbito dos sentimentos e, com isso, acaba eliminando sua essência. Se é verdade que o Evangelho segundo João dá ao amor fraterno num lugar central no anúncio de Jesus, não podemos esquecer que os evangelhos sinóticos conferem esta mesma centralidade à prática da nova justiça do Reino de Deus. Por isso, é preciso escutar com atenção e acolher com inteligência a proposta que Jesus nos faz no trecho do Evangelho que a Igreja propõe para este sexto domingo do tempo pascal.
Um caminho que pode nos ajudar a evitar as armadilhas do sentimentalismo é compreender o amor mais como verbo que como substantivo. A questão é como amar, e não o que é o amor. Quem conjugou o verbo amar em todos tempos, modos e pessoas foi Jesus Cristo. As primeiras comunidades cristãs compreenderam e expressaram isso de muitos modos, mas sobressai o que lemos na primeira carta de João: “Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo para dar-nos a vida por meio dele.” A pessoa concreta de Jesus de Nazaré, nas palavras que pronunciou e nas ações solidárias que realizou, é como a vitrine que expõe o amor de Deus no mundo.
Eis como Jesus concretizou o amor: acolheu pecadores e resgatou dignidade deles; compadeceu-se dos famintos e multiplicou pães e peixes; comoveu-se com o sofrimento das pessoas doentes  e deu-lhes condições de plena cidadania; tomou a defesa de mulheres condenadas violentamente pelos próprios homens que as usavam;  atendeu às necessidades de pagãos e estrangeiros, dividindo com eles aquilo que era destinado apenas aos judeus; aproximou-se das pessoas excluídas e sentou-se com elas à mesa; afirmou profeticamente que os últimos da escala social são os primeiros na perspectiva de Deus.
Tudo isso porque Deus é amor, e seu amor não se mostra em suspiros e sentimentos profundos, mas em ações que garantem a quem é diverso o direito de ser e atendem suas necessidades sem impor qualquer espécie de condição. Jesus diz que nos ama na mesma dinâmica e com a mesma intensidade com que é amado pelo seu e nosso Pai. E é nessa força e nesse espírito que nos sentimos chamados e capacitados a amar. O amor de Deus que se tornou visível em Jesus Cristo se torna em nós dom e mandamento. “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês.”
Como Jesus nos revelou, a vivência do amor tem mais a ver com decisão e vontade que com sentimento. O sentimento é involuntário e se impõe sobre a vontade, enquanto que o amor é a decisão de fazer-se próximo e servidor de quem é diferente e pode estar precisando de nós, e não mero sentimento. Amar significa bem-querer, bem-dizer e bem-fazer, tudo ao mesmo tempo. É desejo, palavra e ação. É nessa linha que João nos interroga: “Se alguém possui os bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, fecha-lhe o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele?” (1Jo 3,17)
No evangelho que meditamos hoje, Jesus apresenta a si mesmo como medida e referência do amor: “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês”. Jesus é a medida do amor que inspira os cristãos. Com isso, Jesus quer nos libertar da tentação de colocar nossos desejos como referência essencial para todas as relações. O amor se concretiza no relacionamento de igual para igual, na abolição de hierarquias, senhorios e servidões, na atitude de serviço. O próprio Jesus não nos trata como servos mas como iguais, pois não reserva nada para si mesmo, e comunicar tudo significa confiar irrestritamente.
Mas o amor cristão tem múltiplas dimensões, e uma delas é a dimensão social, apostólica ou missionária. Está muito claro que o amor generoso e intenso com que Jesus nos ama não tem como finalidade criar uma comunidade ou um clube de bajuladores ou publicitários que alardeiam suas qualidades divinas.  O amor maduro frutifica em missão solidária e transformadora. A amizade com Jesus se mostra na participação na sua missão. O amor de Jesus Cristo se realiza quando renascemos e agimos como pessoas adultas, capazes de agir orientados pelas próprias convicções e por valores essencialmente humanos.
Jesus de Nazaré, filho de Deus e filho da humanidade, fonte e medida de todo amor: faz com que teu amor por nós se transforme em amor pelos irmãos e irmãs, e converte tua igreja, hierárquica e desigual, em comunidade de pessoas amigas e igualmente servidoras. Faz com que, inspirados em Paulo, deixemos de ser defensores infantis das instituições e vivamos como testemunhas de um amor despojado, crucificado e renovado. Ajuda nossas autoridades a descobrirem que elas permanecem sempre e fundamentalmente humanas, e isso é bom e bonito. Assim seja! Amém!
 Itacir Brassiani msf

(Atos dos Apóstolos 10,25-26.34-35 * Salmo 97 (98) * 1ª Carta de São João 4,7-10 * Evangelho de SãoJoão 15,9-17)