terça-feira, 21 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (174)

174 | Ano A | 33ª Semana Comum | Quarta-feira | Lucas 19,11-28

22/11/2023

Esta parábola de Jesus é apresentada por Lucas na sequência da conhecida cena de Zaqueu e no finalzinho da caminhada de Jesus a Jerusalém. A aproximação da capital e do templo suscita nos discípulos a pergunta pela possibilidade de uma manifestação gloriosa e poderosa do Reino de Deus. “Alguns pensavam que o Reino de Deus chegaria logo”, diz o evangelista.

Para curar a “febre escatológica” que contamina parte dos discípulos/as, e para desmontar uma expectativa apocalíptica e triunfalista, Jesus recorre a uma parábola. Na parábola, Jesus chama a atenção para a figura do homem nobre que viaja para ser coroado como rei, e também para a figura do último de uma série de empregados.

Os empregados são dez, e todos recebem 100 moedas de prata para administrar. O homem nobre coroado rei não pede nada mais: somente pede que administrem. Na sua volta, apenas três empregados são citados. O primeiro revela que fez o valor recebido se multiplicar por dez. O segundo, o fez render cinco vezes mais. O terceiro devolveu as 100 moedas, sem mais.

Mas há também um grupo de concidadãos que se manifestam contra a coroação, não aceitam sua autoridade, e acabam atraindo sobre si a ira do rei. O terceiro empregado age guiado pelo medo, porque o rei seria muito severo e exigente. Mas o rei não é severo nem exigente, pois não cobra nada, não toma de volta o que confiou aos empregados e ainda confia àqueles que foram ativos e criativos o governo de um conjunto de cidades!

A figura do rei representa Jesus, que vai a Jerusalém para ser coroado, não exatamente como rei, mas para ser contestado em sua liderança. Seu reino se manifesta na acolhida de todas as pessoas como filhas de Abraão, na cura de doenças, na integração dos excluídos. Na sua coroa brilham os espinhos... E cabe aos discípulos/as, segui-lo e fazer o que ele fez.

A punição mais dura é reservada àqueles que rejeitam que rei governe sobre eles, enquanto que o servo medroso e preguiçoso apenas perde a confiança e a missão a ele encomendada, porque, acorrentado pelo medo, não obedeceu e não foi fiel. Quanto mais fiéis formos à missão, mais crescemos na comunhão com Jesus.

 

Meditação:

§   Acompanhe esta cena – que não é parábola ou história inventada – passo a passo, gesto a gesto, palavra por palavra

§   Perceba Jesus se dirigindo a você, pedindo que você “desça” dos pedestais e títulos para um encontro íntimo na sua “casa”

§   Que atitudes você precisa tomar para corresponder à humanidade misericordiosa de Jesus?

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (173)

173 | Ano A | Apresentação de Maria | Mateus 12,46-50

21/11/2023

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado pelo Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Ele deixa a sinagoga, e está em uma casa, não na sua, com seus discípulos e discípulas. É como se fosse o lugar de encontro e convivência de uma nova família, alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém avisa Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Aproximam-se respeitosamente, e não interrompem a ação pedagógica e missionária de Jesus. O motivo teria sido a saudade dele? Ou o desejo de que ele voltasse para casa? Ou talvez a decisão de segui-lo na aventura do Reino de Deus? De qualquer modo, estar dentro ou fora dessa casa delimita a clara pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino.

A novidade do Reino de Deus, muito esperada por todos os oprimidos e trazida por Jesus, implicava claramente uma mudança das relações sociais, econômicas, religiosas, políticas, mas também das relações familiares. Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão da mulher e dos/as filhos/as ao homem e senhor, sempre funcional aos sistemas estruturados sobre a dominação.

Jesus responde ao aviso de que sua mãe e seus irmãos o procuram com uma pergunta, uma declaração e um gesto. Depois de questionar quem é sua mãe e seus irmãos, Jesus se dirige aos discípulos e discípulas que o circundam, e declara: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele/a que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” A comunidade é a sua nova família, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, pois, ninguém mais que ela, viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é nossa mãe, irmã e discípula. E hoje, na celebração que a recorda sua apresentação no templo de Jerusalém, reafirmamos sua pertença ao círculo dos discípulos.

 

Meditação:

§  Jesus não interrompe sua missão para atender sua família, nem a coloca acima da vontade do Pai

§  Como podemos alargar os limites e muros da nossa família de sangue, superando hierarquias rígidas?

§  Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos/as aqueles/as que vivem seu Evangelho?

§  O que você pode fazer para que sua comunidade e sua família seja de fato semente e sinal de uma nova humanidade?

domingo, 19 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (172)

172 | Ano A | 33ª Semana Comum | Segunda-feira | Lucas 18,35-43

20/11/2023

O episódio narrado no evangelho de hoje está situado no caminho de Jesus a Jerusalém, depois da parábola do fariseu e do publicano, após a apresentação das crianças como modelo para os/as discípulos/as e do anúncio de Jesus sobre sua rejeição e morte nas mãos das autoridades religiosas.

Próximo a Jericó, um cego está mendigando à beira da estrada. Percebendo um crescente rumor de gente que se aproxima, o cego pergunta o que está acontecendo. Ele já ouvira algo sobre Jesus, e quando lhe dizem que é “Jesus Nazareno” que se aproxima, solta seu grito, sem constrangimento.

Sua palavra é um pedido, e seu pedido é um grito de socorro: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” O cego e mendigo não leva em conta as advertências das pessoas que acompanham Jesus, e não se cala. Mesmo sendo cego, ele reconhece naquele profeta itinerante e suspeito o Messias enviado por Deus, o esperado filho de Davi, rejeitado pela própria família.

O grito do cego é expressão de fé, de tenaz e perseverante confiança de que o Filho de Davi é movido pela compaixão, e vem para abrir os olhos aos cegos. Jesus vê a situação daquele “resto de gente”, a dor e a força que suscitam seu grito. Por isso, interrompe sua viagem, e pede que tragam o cego a ele. O mendigo interrompe a marcha de filho de Deus!

Interrogado sobre o que ele deseja do mais profundo da sua atribulada existência, o cego diz o óbvio: “Senhor, eu quero enxergar de novo...” Neste caso, enxergar é mais do que ver: é reconhecer a presença de Deus nos homens e mulheres, reconhece-los como irmãos, crer na vontade libertadora de Deus e colaborar com ela.

Jesus não é um messias poderoso, mas um profeta compassivo com os pobres e necessitados. Ele ensina e demonstra que a fé e confiança nele e na sua Palavra têm força iluminadora e libertadora. Elas que estão na raiz da cura. Mas a salvação vai além da cura, e se traduz no seguimento agradecido de Jesus. E esse testemunho vivo é Evangelho que alegra a humanidade.

 

Meditação:

§  Imagine-se à beira da estrada, na periferia de Jericó, em meio a esta cena, interagindo com os diversos personagens

§  Perceba a situação do cego mendigo, seu grito de socorro, o desprezo expresso pelas pessoas que seguem Jesus, a atenção de Jesus, o diálogo com o mendigo, a mudança radical da situação

§  Qual é a intensidade da sua confiança e sua fé em Jesus, o homem de Nazaré, e o que você pede insistentemente a ele?

§  Em que medida a ativa e solidária compaixão de Jesus pelas pessoas vulneráveis atrai e sustenta sua caminhada de fé?

sábado, 18 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (171)

171 | Ano A | 33ª Semana Comum | Domingo | Mateus 25,14-30

19/11/2023

Deus nos confia muito mais que uma doutrina a ser defendida e ensinada, ou que uma simples mensagem a ser transmitida. Ele coloca em nossas mãos a tarefa de dirigir o curso da história e nela realizar seu Projeto de Vida para todos/as, seu sonho e sua vontade. Nem mais, nem menos que isso. Jesus ilustra isso com a parábola dos talentos.

É o próprio Deus que chama seus administradores, entrega a eles seus bens e espera que cada um/a corresponda a esta confiança de acordo com suas próprias possibilidades. Sua confiança é tão absoluta que ele viaja sem nenhuma preocupação. Deus sabe em quem coloca sua confiança, e espera que cada servidor dê o melhor de si.

Mas é importante perguntar: o que ele espera daqueles/as que nele acreditam? Seria a simples multiplicação de horas de adoração, de doutrinas abstratas, de leis pesadas e de morais implacáveis? Eis o que ele pede e espera: “Vão e façam discípulos meus em todos os povos! Assim como o Pai enviou a mim, eu envio vocês!”

Trata-se de anunciar e dinamizar o Reino de Deus acolhendo os pobres, reconciliando os inimigos, consolidando a justiça, amando sem distinção e sem impor condições. E Deus espera que a confiança depositada em nós dê frutos! O que ele nos confia é um fermento, e o fermento cumpre seu destino somente quando se mistura à farinha e a faz a massa crescer. Ele nos confia o dinamismo do seu amor, e o amor morre quando é só um sentimento.

É verdade que o que se espera de nos é uma responsabilidade serena e sóbria, mas isso não significa que podemos ser impunemente passivos ou medrosos. Há aqueles/as que agem de forma errada, e por medo. Um dos administradores diz que age por medo e respeito, mas, na verdade, é guiado pelo medo e pela preguiça! É um servo mau e preguiçoso, que renuncia às exigências da sua missão, que não quer sujar as mãos na vida concreta.

A fé sempre nos leva a enfrentar desafios: a encarnar a esperança no coração do mundo; a amar e servir a todos e sempre, começando pelos últimos da pirâmide social; a pagar o mal com o bem; a encontrar soluções humanas e viáveis para os problemas humanos aparentemente insolúveis.

 

Meditação:

§  Como você, sua família e sua comunidade tem feito com o sonho de Jesus, que é salvar e libertar todas as criaturas?

§  Sua vida e sua missão têm sido guiadas pela fé, pela confiança e pela responsabilidade ou pelo medo e pela ortodoxia?

§  Você percebe na sua comunidade de fé sinais da preocupação de conservar a “pureza” da fé em vez de torná-la libertadora?

O Evangelho dominical (Pagola) - 19.11.2023

NÃO ENTERRAR A VIDA

A parábola dos talentos é certamente uma das mais conhecidas. Antes de partir em viagem, um homem confia seus bens a três funcionários. Os dois primeiros vão de imediato trabalhar. Quando o patrão regressa, apresentam-lhe os resultados: ambos duplicaram os talentos recebidos. Os seus esforços são premiados com generosidade, pois souberam responder às expectativas do senhor.

A atitude do terceiro funcionário é estranha. A única coisa que lhe ocorre é esconder no chão o talento recebido e conserva-lo seguro até o fim. Quando chega o senhor, entrega-o, pensando que respondera fielmente aos seus desejos: «Aqui está o que é teu». O patrão o condena. Este funcionário negligente e preguiçoso não entendeu nada da vontade do seu senhor. Ele só pensou na sua própria segurança.

A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim à criatividade. Não a uma vida estéril, sim à resposta ativa a Deus. Não à obsessão pela segurança, sim ao esforço arriscado de transformar o mundo. Não à fé sepultada sob o conformismo, sim ao seguimento dos comprometido dos passos de Jesus.

É muito tentador viver sempre evitando problemas e procurando a tranquilidade: não nos comprometendo com nada que possa nos complicar a vida, defendendo o nosso pequeno bem-estar. Não há melhor maneira de viver uma vida estéril, pequena e sem horizonte.

A mesma coisa acontece na vida cristã. O nosso maior risco não é sair dos esquemas habituais e cair em inovações exageradas, mas congelar nossa fé e apagar a frescura do evangelho. Devemos nos perguntar o que estamos a semear na sociedade, a quem contagiamos com a esperança, onde aliviamos o sofrimento dos outros.

Seria um erro apresentar-nos diante de Deus com a atitude do terceiro servo: «Aqui está o que teu. Aqui está o teu evangelho, o projeto do teu reino, a tua mensagem de amor aos que sofrem. Conservamos fielmente, não mudamos nada. Não serviu para transformar as nossas vidas ou para introduzir o teu reino no mundo. Não quisemos correr riscos. Mas aqui o tens intacto, inteiro, como o recebemos de ti».

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (170)

170 | Ano A | 32ª Semana Comum | Sexta-feira | Lucas 18,1-8

18/11/2023

O episódio do evangelho de hoje se relaciona com aquelas cenas e episódios que lemos e meditamos nos últimos dias pelo tema da fé confiante e perseverante. A questão central não é propriamente a oração, mas aquilo que a oração busca e expressa: a fidelidade de Deus e a confiança nele, especialmente nos tempos de demora e tribulação.

A parábola do juiz e da viúva é, no mínimo, inusitada. Se a figura de uma viúva injustiçada e indefesa pode facilmente representar os/as discípulos/as em tempos de perseguição, um juiz desumano, agnóstico e pragmático não parece uma boa representação da ação de Deus, ao menos da imagem de Deus que Jesus Cristo nos apresenta em sua ação e em seu ensino.

Vivendo num tempo de perseguições violentas, de aparente ausência ou de silêncio de Deus, a comunidade dos discípulos/as de Jesus se questiona quando isso terá fim, quando Jesus se manifestará em seu poder e glória. O risco da desilusão e da resignação é grande, e só lhes resta uma arma para combatê-lo: a insistência, a perseverança.

É nisso que a figura da viúva suplicante reforça a exortação de Jesus. Ela não se resigna, não se cansa e nem se intimida frente à absoluta indiferença do juiz. A insistência é a única arma que lhe resta, dada a sua extrema vulnerabilidade. Esta perseverança insistente de uma pessoa indefesa produz seus frutos, pois acaba dobrando o juiz insensível.

A lição de Jesus é evidente. Se um juiz desumano e injusto se dobra e atende, por razões pragmáticas, a demanda da viúva indefesa, Deus Pai poderia ser pior que ele? O Pai está sempre atento aos clamores e dores do seu povo, e pronto a atender as necessidades dos seus filhos e filhas que clamam;

Para Jesus, a oração não tem um caráter piedoso e pragmático, mas engajado e programático. A oração cristã é, pelo menos em sua base, um clamor, e ajuda a discernir, acolher e realizar a vontade do Pai. Se faltar essa atitude de abertura e de busca confiante, se grassarem a dúvida na força e no socorro de Deus, não há mais fé, mas apenas uma ideologia religiosa.

 

Meditação:

§  Solte as asas da sua imaginação e coloque-se dentro desta história imaginaria, interagindo com os personagens

§  Procure sintonizar com os diferentes grupos sociais e cristãos que lutam desesperadamente por sua dignidade e seus direitos

§  Procure acolher, compreender e tirar as consequências da afirmação de que Deus leva a peito as dores dos seus filhos/as

§  A fé vivida e celebrada por sua comunidade suscita perseverança nas lutas e confiança na justiça de Deus?

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (169)

169 | Ano A | 32ª Semana Comum | Sexta-feira | Lucas 17,11-19

17/11/2023

Esta cena continua a de ontem, quando os fariseus pedem de Jesus uma resposta sobre quando aconteceria a manifestação pública do Reino de Deus, quando seria o “Dia de Javé”. Para Jesus, o Reino se faz presente no mundo como fermento, como sal e como semente de mostarda. O Reino de Deus está no meio de nós e ao nosso alcance.

No texto de hoje, Jesus continua no mesmo tema e, para ilustrar seu ensino, recorre a dois eventos bíblicos bem conhecidos dos seus interlocutores: o dilúvio e a destruição de Sodoma. Ambos são episódios de eliminação das pessoas e organizações que não vivem corretamente e fazem o mal. E nenhum desses dois acontecimentos foram percebidos ou levados a sério pelas pessoas em geral, não obstante os alertas dos enviados de Javé.

Esta postura indiferença e desatenção às mensagens de advertência vindas de Deus é o que faz a ligação dos personagens do passado com o presente vivido pelos interlocutores de Jesus. Imersos em suas atividades cotidianas e mergulhados nos seus pequenos interesses, poucos dão atenção e levam a sério o convite de Jesus a mudar de mentalidade e abrir-se ao Reino de Deus.

Ignorando que são chamados a um estilo de vida contrastante, contracorrente, os discípulos perguntam “onde” acontecerá a manifestação do Reino de Deus. Como respondera aos fariseus, que perguntavam “quando” esse evento se realizaria, Jesus diz que não se pode localizar o Reino de Deus. Ele não tem território, não se identifica com uma nação ou um povo particular. Viver vigilantes não significa saber o dia nem o lugar.

Jesus ensina que o Reino de Deus é um evento certo, imprevisível e universal. Como nos dias de Noé, ele vem nos dias da semana, sem grandes sinais, e é preciso estar atento e vigilante para não ficar para trás. O Reino de Deus está onde estão os discípulos/as fiéis de Jesus, aqueles/as que prosseguem sua prática, em qualquer tempo e lugar. Mas é um acontecimento sempre fora do nosso controle. A vida cristã não se identifica com algo estável, adquirido, possuído com segurança, algo que podemos manipular a nosso bel-prazer.

 

Meditação:

§  Será que também nós estamos demasiadamente preocupados em saber o tempo e o lugar do encontro com Deus e seu Reino?

§  Será que a ditadura das necessidades cotidianas, mesmo as ações pastorais, não estão nos sequestrando e dispersando?

§  Como entender que quem procura salvar a sua vida vai perde-la, e quem perde a sua vida pelo Reino, vai ganha-la?

§  Como viver o seguimento de Jesus de olhos abertos, atentos aos apelos e sinais de Deus, engajados na construção do seu Reino?

terça-feira, 14 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (167)

167 | Ano A | 32ª Semana Comum | Quarta-feira | Lucas 17,11-19

15/11/2023

Jesus nos está na última etapa do seu caminho a Jerusalém. Na cena de ontem ele nos ensinava que quem se aventura a seguir seus passos e compartilhar sua vida não pode pensar em créditos ou méritos. Ele se fez homem e servo, e segui-lo significa disposição de servir.

É nesta caminhada de “subida” a Jerusalém que um grupo de dez leprosos se aproxima dele e pede que considere sua miserável situação com compaixão e misericórdia. Jesus não faz nada, dá-lhes uma ordem:  eles devem ir aos sacerdotes, como se estivessem curados. Eles levam a Palavra de Jesus a sério e, no caminho, dão-se conta de que estão purificados.

Os dez leprosos se dirigiram ao templo em atenção à Palavra de Jesus, a quem reconheceram como “mestre”. O relato chama a atenção para um deles que, vendo-se purificado (porque além de doença, se pensava que a lepra os deixava impuros) volta ao encontro de Jesus, joga-se aos pés dele para expressar agradecimento, e louva a Deus.

Todos obedecem à Palavra de Jesus, mas só um reconhece que nele aconteceu a salvação que vem de Deus. E este era um samaritano, estrangeiro, considerado herege e dissidente, discriminado pelos judeus de Jerusalém. É correto deduzir que os outros nove eram judeus. Aqui temos um eco daquilo que Jesus dissera em Nazaré: seu povo achava que tinha prioridade nos benefícios de Deus, mas Deus prioriza os marginalizados (como o são os estrangeiros).

Jesus não faz nenhum gesto de cura, nem sequer chama a atenção para si mesmo como curador, mas elogia aquele samaritano, porque demonstrou ter fé. Na verdade, a fé antecede a cura, mas se expressa posteriormente, como gratidão e louvor a Deus. A fé é demonstrada na escuta e obediência à Palavra, na caminhada ao templo e no agradecimento. Jesus não costuma pedir agradecimento e reconhecimento das pessoas que são beneficiadas por sua ação, mas ele sabe que o louvor expressa a ruptura com o fechamento, com o egoísmo, com a arrogância. 

 

Meditação:

§  Leia e releia esta passagem, acompanhando os personagens, observando os gestos e palavras de cada um

§  Você seria capaz de acatar a Palavra de Jesus mesmo sem ele ter atendido seu pedido?

§  Você costuma reconhecer e agradecer a ação de Deus e do próximo em sua vida, ou presume que tudo é mérito seu?

§  Qual é a forma mais frequente da sua oração: o pedido e a intercessão ou o agradecimento e o louvor?

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (166)

166 | Ano A | 32ª Semana Comum | Terça-feira | Lucas 17,7-10

14/11/2023

Em nosso exercício de meditação de ontem buscávamos um sentido atual para as advertências de Jesus sobre a inevitabilidade e a gravidade dos escândalos no interior das comunidades cristãs. Jesus insiste na necessidade do perdão e da reconciliação, sem os quais a vida comunitária é impossível. Mas não significa relativizar a responsabilidade quando escandalizamos os pobres.

Mas cultivar e manter a reconciliação não é nada fácil, e leva os discípulos a pedir que Jesus lhes aumente a fé. Somente ela pode nos ajudar a transpor os empecilhos. Depois de ilustrar a força (e não a quantidade) da fé, Jesus conta a parábola de hoje. A história é muito verossímil, pois trata de uma experiência amplamente conhecida e tolerada no mundo escravagista antigo: o escravo deve tudo ao seu dono, e não goza de nenhum direito frente a ele.

Jesus não elogia o patrão, nem compara Deus com um proprietário de escravos. O foco da parábola é a atitude de empenho, serviço e gratuidade que deve caracterizar todas as dimensões da vida dos discípulos e discípulas. A fé é obediência e serviço ativo e desinteressado, sem nenhuma pretensão de cobrar vantagens, dividendos e méritos. A fé nos faz incansáveis no serviço aos outros, não significa apenas esperar um milagre.

Assim foi Jesus, e assim ele espera que sejamos nós, seus discípulos e discípulas. O Concílio Vaticano II já dizia que a fé ilumina a nossa inteligência para que sejamos capazes de criar soluções concretas para os problemas humanos concretos. A fé não pode ser reduzida na aceitação resignada de uma doutrina, ou na crença desesperada que Deus poderá fazer um milagre.

É verdade que há situações para as quais não visualizamos nenhuma solução, e diante delas nos sentimos impotentes e derrotados/as. Muitas vezes perguntamo-nos: Será que vale a pena ser correto e compreensivo, tolerante e engajado, sonhador e construtor de fraternidades sem fronteiras? Nesses casos, depois de tentar tudo com insistência e santa teimosia, podemos dizer: “Fizemos o que devíamos fazer. Somos dispensáveis!” Mas, por isso mesmo, continuamos nossa busca de sentido para viver.

 

Meditação:

§  Leia e releia a parábola, meditando sobre ela, sem levar em conta o horizonte escravagista no qual a história está situada

§  Como você se sente quando, depois de ter feito tudo o que era possível, não conseguiu bons resultados, nem reconhecimento?

§  Você não acha que às vezes caímos na tentação de exigir méritos, créditos e benefícios de Deus pela vivência da fé?

§  Como nossa fé pode ser luz e força, por exemplo, diante do enorme e indecente problema da pobreza, da fome e da guerra?

domingo, 12 de novembro de 2023

O Evangelho na vida de cada dia (165)

165 | Ano A | 32ª Semana Comum | Segunda-feira | Lucas 17,1-6

13/11/2023

O texto que nos é proposto hoje é uma continuidade das “conversas à mesa”, nas quais Jesus fala da misericórdia com que Deus trata suas criaturas, da necessidade de fazer bem as contas para segui-lo sem recuos, da atenção solidária dos seus seguidores/as para com os pobres e vulneráveis.

Depois de ter se dirigido enfaticamente aos escribas e fariseus, Jesus se volta aos discípulos e discípulas, e aborda com eles/as a questão das dificuldades internas da comunidade cristã. Jesus não tem uma visão idealizada ou ingênua da comunidade de pessoas que o seguem. Ele faz questão de dizer que os escândalos são inevitáveis, o que não diminui a gravidade da situação.

Literalmente, “escândalo” significa a pedra de tropeço que alguém põe numa trilha para fazer o outro tropeçar. Por isso, em que pese serem normais as divisões e tropeços, quem faz os mais fracos tropeçarem ou desanimarem na fé por sua causa mereceria uma pena muito severa: ser amarrado numa pedra muito maior e ser jogado no mar. O escândalo é coisa grave!

Mas se o tropeço é inevitável, na vida em comunidade o perdão é essencial, indispensável. E merece mais atenção que o escândalo. “Prestai atenção!”, adverte Jesus para sublinhar isso. A comunidade precisa exercitar o ministério do perdão e da reconciliação com quem se arrepende de seus erros, inclusive se a reincidência chegar a sete por dia!

Se isso nos incomoda, incomodou mais ainda os apóstolos, que reagiram dizendo que a fé que eles têm não chega a tanto. A vivência da misericórdia, da solidariedade e da reconciliação só é possível no horizonte da fé, da graça de Deus, da adesão ao Evangelho e da imitação de Jesus Cristo. Nem tudo se resolve no voluntarismo, no “basta querer”.

Mas não precisamos de uma fé heroica, apenas de uma fé normal. Jesus não está aludindo a uma fé miraculosa, pois ele mesmo se recusou a produzir sinais que impressionassem o povo e atraísse admiração. A fé autêntica tem seu dinamismo e sua força, e não é questão de quantidade. A adesão sincera a Jesus e a graça do Evangelho têm força para mudar as relações humanas!

 

Meditação:

§  Leia e releia este episódio, procurando entender as expressões e as ênfases de Jesus nessa catequese dirigida aos discípulos

§  Na sua comunidade e na sua família ocorre o fato de alguns colocarem pedras para que os outros tropecem e entrem em crise?

§  Como entender a dura palavra de Jesus: “melhor seria que lhe amarrassem uma pedra de moinho e o jogassem no mar”?

§  O que o perdão e a reconciliação têm a ver com a fé? E o que significa a comparação que Jesus faz com a remoção da amoreira?