Compreendemos a
lição dos 5 pães e 2 peixes?
955 | Tempo do Natal
| Marcos 6,45-52
Pode parecer estranho, mas, depois de alimentar uma
multidão de pessoas famintas e recolher as sobras, Jesus “obriga” os discípulos
a entrar na barca e rumar sozinhos para terras estrangeiras. Jesus fica sozinho
no território, sobe a montanha, e se retira para rezar. Por que Jesus toma essa
decisão? Será que ele percebeu algo de errado ou preocupante no seu próprio
território ou com seus discípulos?
O
texto deixa entender que a ordem de dar de comer a quem tem fome assustou os
discípulos. Parece que eles desejavam uma orientação menos material, mais
espiritual. Dar de comer aos famintos parecia-lhes uma tarefa muito exigente, cansativa
e alheia à religião. Não estavam dispostos a abandonar a lei do “cada um para
si”. “Eles não tinham compreendido nada a respeito dos pães, o coração deles
estava endurecido”, diz o evangelista. Até hoje, a compaixão não cabe na lógica
do mercado.
Tornar-se
cristão, seguir Jesus e assimilar seu ensino não é um projeto que atrai
acomodados. Jesus sempre deixou isso muito claro, não quis enganar ninguém.
Talvez alguns de nós tenhamos nos enganado, pois recebemos um Evangelho
descaracterizado, focado na moral, nos ritos e nas devoções. Mas hoje não temos
mais desculpas para continuar assim. Só pode ser cristão quem sintoniza com a
prática de Jesus, mesmo com a força dos ventos contrários e o cansaço do remo.
É
neste contexto que, não obstante a experiência anterior dos discípulos, aquela
curta viagem ameaça terminar em tragédia em meio a águas ameaçadoras. As
dificuldades e tensões da missão cansam e preocupam. Para eles, é difícil
digerir a lição dos pães, e tantas outras. Jesus percebe o cansaço e o
desespero, mas espera até a madrugada. Enfim, se aproxima como bom amigo e
companheiro, levando a paz à barca e aos seus passageiros. Mas a lição do pão
continua!
Recentemente, o Papa Francisco
escreveu que transcender-se a si mesmo e ao próprio
grupo é algo “maravilhosamente humano”. Por isso, precisamos “reconhecer os
direitos de todo o ser humano, incluindo os nascidos fora das nossas próprias
fronteiras” (Fratelli tutti, 117). Jesus nos demonstrou isso de modo cabal,
mas, para fazer o mesmo, precisamos ousar uma longa e perigosa travessia, um
processo de conversão. Mas ele nos encoraja: “Coragem! Sou eu! Não tenhais
medo!”
Sugestões para a meditação
Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens e
nas palavras e nas ações deles, especialmente de Jesus
Procure perceber e compreender o impacto negativo que a
multiplicação dos pães e peixes teve sobre os discípulos
Em que medida nossa geração também não deseja uma
religião cômoda e sem exigências de mudança e conversão?
Como podemos vencer o medo que o Evangelho da partilha e
da libertação ainda causa em muitos cristãos e igrejas?
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