terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A lição dos pães partilhados

Compreendemos a lição dos 5 pães e 2 peixes?

955 | Tempo do Natal | Marcos 6,45-52

Pode parecer estranho, mas, depois de alimentar uma multidão de pessoas famintas e recolher as sobras, Jesus “obriga” os discípulos a entrar na barca e rumar sozinhos para terras estrangeiras. Jesus fica sozinho no território, sobe a montanha, e se retira para rezar. Por que Jesus toma essa decisão? Será que ele percebeu algo de errado ou preocupante no seu próprio território ou com seus discípulos?

O texto deixa entender que a ordem de dar de comer a quem tem fome assustou os discípulos. Parece que eles desejavam uma orientação menos material, mais espiritual. Dar de comer aos famintos parecia-lhes uma tarefa muito exigente, cansativa e alheia à religião. Não estavam dispostos a abandonar a lei do “cada um para si”. “Eles não tinham compreendido nada a respeito dos pães, o coração deles estava endurecido”, diz o evangelista. Até hoje, a compaixão não cabe na lógica do mercado.

Tornar-se cristão, seguir Jesus e assimilar seu ensino não é um projeto que atrai acomodados. Jesus sempre deixou isso muito claro, não quis enganar ninguém. Talvez alguns de nós tenhamos nos enganado, pois recebemos um Evangelho descaracterizado, focado na moral, nos ritos e nas devoções. Mas hoje não temos mais desculpas para continuar assim. Só pode ser cristão quem sintoniza com a prática de Jesus, mesmo com a força dos ventos contrários e o cansaço do remo.

É neste contexto que, não obstante a experiência anterior dos discípulos, aquela curta viagem ameaça terminar em tragédia em meio a águas ameaçadoras. As dificuldades e tensões da missão cansam e preocupam. Para eles, é difícil digerir a lição dos pães, e tantas outras. Jesus percebe o cansaço e o desespero, mas espera até a madrugada. Enfim, se aproxima como bom amigo e companheiro, levando a paz à barca e aos seus passageiros. Mas a lição do pão continua!

Recentemente, o Papa Francisco escreveu que transcender-se a si mesmo e ao próprio grupo é algo “maravilhosamente humano”. Por isso, precisamos “reconhecer os direitos de todo o ser humano, incluindo os nascidos fora das nossas próprias fronteiras” (Fratelli tutti, 117). Jesus nos demonstrou isso de modo cabal, mas, para fazer o mesmo, precisamos ousar uma longa e perigosa travessia, um processo de conversão. Mas ele nos encoraja: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!”

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens e nas palavras e nas ações deles, especialmente de Jesus

Procure perceber e compreender o impacto negativo que a multiplicação dos pães e peixes teve sobre os discípulos

Em que medida nossa geração também não deseja uma religião cômoda e sem exigências de mudança e conversão?

Como podemos vencer o medo que o Evangelho da partilha e da libertação ainda causa em muitos cristãos e igrejas?

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