A paz merece
uma chance!
No
final da fervilhante década de 1960, John Lennon e Yoko Ono lançaram um grito
de alerta: “Deem uma chance à paz!” Meio século depois, no início de um novo
ano, ainda é preciso repetir, mesmo que poucos deem ouvidos e outros protestem
ao ouvir isso da boca de um líder religioso: “Tudo o que estamos dizendo é isso:
deem uma chance à paz!”
Resumo aqui a mensagem do Papa Leão XIV
para o ano novo, pois ele faz eco a esse alerta. O coro dos anjos na noite do
Natal e o dom de Jesus na sua páscoa atestam que a
paz que Jesus Cristo nos dá é uma paz desarmada, desarmante e perseverante. E
um apelo oportuno quando os donos das guerras rosnam por todo lado, inclusive
perto de nós.
A paz existe, deseja
habitar-nos, tem o poder de iluminar e alargar a inteligência, resiste à
violência e a vence. Ela vence inclusive a “terceira guerra mundial em pedações”,
que se espalha mais e mais. Mesmo sendo frágil e vulnerável, a paz nos ajuda a
não esquecer o bem, a reconhecê-lo como vencedor, a escolhê-lo sempre de novo e
de mãos dadas.
A paz que Jesus nos confia
como tarefa é desarmada porque desarmada foi toda a sua luta. Não há nada mais
desarmante que um bebê! Como discípulos seus, devemos ser testemunhas desta
novidade, denunciando os governantes que aumentam os gastos militares e os
justificam com a vaga ameaça dos “narcotraficantes”. Basta de cadáveres!
A fabricação interesseira de
inimigos (os migrantes, os favelados, os diferentes) é uma tática de guerra, e
os avanços tecnológicos e a aplicação da inteligência artificial aumentam a
tragédia dos conflitos armados. Com elas, as autoridades delegam às máquinas as
decisões sobre vida e a morte dos outros e fogem de suas responsabilidades.
Essa lógica de oposição, que
não é o princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização
planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Em 2024, as despesas militares a nível mundial
aumentaram 9,4% (2,5% do PIB mundial) em relação ao ano anterior, confirmando a
tendência dos últimos dez anos.
Como poderá 2026 ser um ano novo se não formos capazes de
perceber e nos rebelar contra isso que acontece sob os nossos olhos e ao nosso
redor? Não podemos repetir Shalom!
como se fosse uma saudação protocolar que não compromete nem incomoda ninguém.
Não esperemos um ano novo de modo passivo e ingênuo. Trabalhemos
incansavelmente por um ano realmente novo, por uma paz desarmada e desarmante.
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