sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Reino de Deus está próximo

 PERDIDOS NA CRISE RELIGIOSA

Vivemos tempos de crise religiosa. Parece que a fé vai ficando como que afogada na consciência de muitas pessoas, reprimida pela cultura moderna e pelo estilo de vida atual. Mas, ao mesmo tempo, é fácil observar que volta a despertar em muitos a busca de sentido, o desejo de uma vida diferente, a necessidade de um Deus Amigo.

É certo que se espalhou entre nós um ceticismo generalizado perante os grandes projetos e as grandes palavras. Já não têm eco os discursos religiosos que oferecem salvação ou redenção. A esperança mesma de que possa realmente ouvir-se em algum lugar uma Boa Nova para a humanidade diminuiu até quase desaparecer.

Ao mesmo tempo, cresce em muitos a sensação de que perdemos a direção certa. Algo se afunda sob os nossos pés. Estamos ficando sem metas nem pontos de referência. Damo-nos conta de que podemos resolver problemas, mas somos cada vez menos capazes de resolver «o problema» da vida. Não estaremos mais necessitados do que nunca de salvação?

Vivemos também tempos de fragmentação. A vida foi atomizada. Cada um vive no seu compartimento. Fica muito longe aquele humanismo que buscava a verdade e o sentido de totalidade. Hoje não se escuta quem sabe da vida, mas o especialista que sabe muito de uma parcela, mas ignora tudo sobre o sentido da existência.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas começam a sentir-se mal neste mundo vertiginoso de dados, informações e números. Não podemos evitar os eternos interrogantes do ser humano. De onde vimos? Para onde vamos? Não há onde encontrar um sentido último para a vida?

São também tempos de pragmatismo científico. O homem moderno decidiu (não se sabe bem porquê) que só existe o que pode ser comprovado pela ciência. Não há nada mais. O que escapa à ciência, simplesmente não existe. Naturalmente, neste raciocínio tão simples quanto pouco científico, Deus não tem lugar, e a fé religiosa fica relegada ao mundo ultrapassado dos não progressistas.

No entanto, são muitos os que vão tomando consciência de que este raciocínio é demasiado curto, pois não responde à realidade. A vida não é um «grande mecanismo», nem o homem apenas «uma peça» de um mundo que possa ser desvendado pela ciência. Por toda a parte se pressente o Mistério: no interior do ser humano, na imensidão do cosmos, na história da humanidade.

Por isso surge de novo a suspeita: não serão justamente as questões sobre as quais a ciência guarda silêncio aquelas que constituem o sentido da vida? Não será um grave erro esquecer a resposta ao mistério da existência? Não será uma tragédia prescindir tão ingenuamente de Deus? Enquanto isso, continuam aí as palavras de Jesus: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino de Deus».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

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