sábado, 17 de janeiro de 2026

Deus é imanipulável

Um Deus ao alcance da nossa mão?

A sede de Deus queima a alma humana como o sol impiedoso que esturrica a terra (cf. Sl 63,2). Essa é a experiência dos místicos e buscadores de Deus, inclusive daqueles que não o chamam por esse nome e até se declaram não-crentes ou ateus. Quem busca um sentido pleno para seu viver e um mundo que acolha e respeite a todos é um buscador de Deus.

As Escrituras estão repletas de histórias de gente que vive essa busca visceral, de Abraão a Paulo, passando pela escrava Agar (cf. Gn 16,7-14) e pela Sulamita (cf. Ct 3,1-4). E ninguém buscaria a Deus se, de alguma forma, não tivesse sido encontrado e seduzido por ele. Mas Deus permanece sempre envolto Mistério, e não se deixa ver de forma clara.

As letras sagradas nos alertam que quem vê Deus face a face paga com a morte (cf. Gn 32,31; Ex 33,20). Por isso, ele se deixa apenas entrever, ser visto pelas costas ou em meio à escuridão, como ocorreu com Jacó e Moisés. Em Jesus, Deus se deixa ver, ouvir e tocar, mas não se deixa reter (cf. Jo 20,17). Deus é próximo, mas não está ao alcance da mão.

Eis aqui a razão da interdição bíblica à confecção de imagens de Deus. Deus é sempre mais que aquilo que escutamos, compreendemos, vemos, experimentamos ou ensinamos. Ele é Mistério envolvente, um mistério de amor que nos abraça, mas não permite que ninguém se aproprie dele. Diante dele somos sempre sedentos e peregrinos.

Num certo sentido, o Novo Testamento é, em sua essência, a Boa Notícia de Deus, mas, ao mesmo tempo, uma séria advertência àqueles que cremos em Deus: não nos fiemos cegamente nas nossas ideias, imagens ou experiências de Deus. Aqueles que estavam seguros de saber quem é, como é e o que quer Deus, o condenaram à morte na cruz!

Deus está próximo de nós, no tempo e no espaço, na cruz e nos crucificados, na resiliência dos fracos, na busca dos sonhadores, nos sutis fios que tecem o milagre da vida. Mas não está ao alcance das mãos e das redes de palavras e impropérios daqueles que querem dominar, taxar, excluir, invadir ou condenar. O deus deles é falso, é um ídolo que mata.

Jesus dedicou sua vida a “libertar Deus” das mãos dos agentes religiosos e políticos do seu tempo, das imagens falsas, interesseiras e idolátricas que eles apregoavam e impunham. E pagou caro por isso. Mas sua luta continua: o nome, a imagem e a palavra de Jesus precisam hoje ser libertadas do sequestro ideológico de pessoas e setores “terrivelmente religiosos” que as usam para dividir, agredir, excluir e condenar.

Dom Itacir Brassiani msf

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