Um Deus ao
alcance da nossa mão?
A sede de Deus queima a alma
humana como o sol impiedoso que esturrica a terra (cf. Sl 63,2). Essa é a
experiência dos místicos e buscadores de Deus, inclusive daqueles que não o
chamam por esse nome e até se declaram não-crentes ou ateus. Quem busca um
sentido pleno para seu viver e um mundo que acolha e respeite a todos é um
buscador de Deus.
As Escrituras estão repletas
de histórias de gente que vive essa busca visceral, de Abraão a Paulo, passando
pela escrava Agar (cf. Gn 16,7-14) e pela Sulamita (cf. Ct 3,1-4). E ninguém
buscaria a Deus se, de alguma forma, não tivesse sido encontrado e seduzido por
ele. Mas Deus permanece sempre envolto Mistério, e não se deixa ver de forma
clara.
As letras sagradas nos
alertam que quem vê Deus face a face paga com a morte (cf. Gn 32,31; Ex 33,20).
Por isso, ele se deixa apenas entrever, ser visto pelas costas ou em meio à
escuridão, como ocorreu com Jacó e Moisés. Em Jesus, Deus se deixa ver, ouvir e
tocar, mas não se deixa reter (cf. Jo 20,17). Deus é próximo, mas não está ao
alcance da mão.
Eis aqui a razão da
interdição bíblica à confecção de imagens de Deus. Deus é sempre mais que
aquilo que escutamos, compreendemos, vemos, experimentamos ou ensinamos. Ele é
Mistério envolvente, um mistério de amor que nos abraça, mas não permite que
ninguém se aproprie dele. Diante dele somos sempre sedentos e peregrinos.
Num certo sentido, o Novo
Testamento é, em sua essência, a Boa Notícia de Deus, mas, ao mesmo tempo, uma
séria advertência àqueles que cremos em Deus: não nos fiemos cegamente nas nossas
ideias, imagens ou experiências de Deus. Aqueles que estavam seguros de saber
quem é, como é e o que quer Deus, o condenaram à morte na cruz!
Deus está próximo de nós, no
tempo e no espaço, na cruz e nos crucificados, na resiliência dos fracos, na
busca dos sonhadores, nos sutis fios que tecem o milagre da vida. Mas não está
ao alcance das mãos e das redes de palavras e impropérios daqueles que querem
dominar, taxar, excluir, invadir ou condenar. O deus deles é falso, é um ídolo
que mata.
Jesus dedicou sua vida a
“libertar Deus” das mãos dos agentes religiosos e políticos do seu tempo, das
imagens falsas, interesseiras e idolátricas que eles apregoavam e impunham. E
pagou caro por isso. Mas sua luta continua: o nome, a imagem e a palavra de
Jesus precisam hoje ser libertadas do sequestro ideológico de pessoas e setores
“terrivelmente religiosos” que as usam para dividir, agredir, excluir e
condenar.
Dom Itacir
Brassiani msf
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