A vida do faminto vale
mais que a propriedade
965 | Tempo Comum | 2ª
Semana | Marcos 2,23-28
No trecho do Evangelho que meditamos
ontem vimos que Jesus não veio pedir a multiplicação de promessas e ave-marias,
ofertas e velas, mas solicitar nossa participação na solidária e inclusiva
caravana da vida nova, que ele chama Reino de Deus. A cena de hoje é a terceira
que discute a nova prática dos discípulos: a primeira foi a comunhão de mesa
com os marginalizados; a segunda foi o não cumprimento do jejum; a terceira é o
direito de comer quando têm fome.
Oque está em foco hoje é a observância das
leis que impedem o trabalho humano aos sábados e estabelecem a sempre de novo
reivindicada “inviolabilidade da propriedade privada”. O fato é que,
atravessando o campo, os discípulos de Jesus colhem espigas de trigo, e fazem
isso porque estão com fome ou para abrir passagem. Os fariseus os acusam diante
de Jesus: eles não estão cumprindo as leis!
Jesus responde secamente aos fariseus, dando a
entender que eles desconhecem as Escrituras, ou gostam de citar apenas os textos
que lhes interessam. Conforme o livro de Samuel (1Sm 21,1-6), Davi recebe do
sacerdote os pães sagrados, reservados para o consumo exclusivo dos sacerdotes,
e alimenta com eles seus soldados, engajados numa campanha importante e que
estavam com muita fome. Ou seja: numa situação de emergência, o alimento, mesmo
o mais ‘sagrado e segregado’, pertence a todos!
O que os discípulos de Jesus fazem, e o que
Jesus ensina, é uma espécie de “desobediência civil” às normas da política
alimentar da Palestina do seu tempo, e isso com base na Escritura, que expressa
a vontade de Deus. Com Jesus, a antiga aliança é refeita, e a criação chega à
plenitude do sétimo dia. O Reino de Deus é festa, celebração e confraternização
com Deus. Por isso, o pão deve chegar a todas as mesas.
Jesus se declara
o Humano por excelência, Senhor do sábado e Senhor da casa comum. Nenhuma lei,
costume ou instituição pode ser colocada acima ou contra ele. O Reino de Deus,
que Jesus anuncia e instaura, é a plenitude, o limite e o fim das leis,
costumes e instituições. Nele, o que conta é a Vida, o Dom e a Gratuidade, e
não as posses, os direitos, os deveres e os haveres. A angústia de um estômago
vazio está acima e vem antes que as leis e mercados.
Sugestões para a meditação
Você
consegue perceber que está em discussão não apenas a lei do sábado, mas também
o direito à alimentação?
Você
acha mesmo que a necessidade de uma pessoa está acima do seu direito ao
descanso, à propriedade dos bens e outros tantos?
Por
que será que os cristãos ainda têm dificuldade de questionar a compra em moeda
como único caminho para conseguir alimentos?
Por
onde começar para ajudar a Igreja a não colocar as leis, costumes e
instituições acima das necessidades das pessoas?
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