segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O direito à alimentação

A vida do faminto vale mais que a propriedade

965 | Tempo Comum | 2ª Semana | Marcos 2,23-28

No trecho do Evangelho que meditamos ontem vimos que Jesus não veio pedir a multiplicação de promessas e ave-marias, ofertas e velas, mas solicitar nossa participação na solidária e inclusiva caravana da vida nova, que ele chama Reino de Deus. A cena de hoje é a terceira que discute a nova prática dos discípulos: a primeira foi a comunhão de mesa com os marginalizados; a segunda foi o não cumprimento do jejum; a terceira é o direito de comer quando têm fome.

Oque está em foco hoje é a observância das leis que impedem o trabalho humano aos sábados e estabelecem a sempre de novo reivindicada “inviolabilidade da propriedade privada”. O fato é que, atravessando o campo, os discípulos de Jesus colhem espigas de trigo, e fazem isso porque estão com fome ou para abrir passagem. Os fariseus os acusam diante de Jesus: eles não estão cumprindo as leis!

Jesus responde secamente aos fariseus, dando a entender que eles desconhecem as Escrituras, ou gostam de citar apenas os textos que lhes interessam. Conforme o livro de Samuel (1Sm 21,1-6), Davi recebe do sacerdote os pães sagrados, reservados para o consumo exclusivo dos sacerdotes, e alimenta com eles seus soldados, engajados numa campanha importante e que estavam com muita fome. Ou seja: numa situação de emergência, o alimento, mesmo o mais ‘sagrado e segregado’, pertence a todos!

O que os discípulos de Jesus fazem, e o que Jesus ensina, é uma espécie de “desobediência civil” às normas da política alimentar da Palestina do seu tempo, e isso com base na Escritura, que expressa a vontade de Deus. Com Jesus, a antiga aliança é refeita, e a criação chega à plenitude do sétimo dia. O Reino de Deus é festa, celebração e confraternização com Deus. Por isso, o pão deve chegar a todas as mesas.

Jesus se declara o Humano por excelência, Senhor do sábado e Senhor da casa comum. Nenhuma lei, costume ou instituição pode ser colocada acima ou contra ele. O Reino de Deus, que Jesus anuncia e instaura, é a plenitude, o limite e o fim das leis, costumes e instituições. Nele, o que conta é a Vida, o Dom e a Gratuidade, e não as posses, os direitos, os deveres e os haveres. A angústia de um estômago vazio está acima e vem antes que as leis e mercados.

 

Sugestões para a meditação

Você consegue perceber que está em discussão não apenas a lei do sábado, mas também o direito à alimentação?

Você acha mesmo que a necessidade de uma pessoa está acima do seu direito ao descanso, à propriedade dos bens e outros tantos?

Por que será que os cristãos ainda têm dificuldade de questionar a compra em moeda como único caminho para conseguir alimentos?

Por onde começar para ajudar a Igreja a não colocar as leis, costumes e instituições acima das necessidades das pessoas?

Nenhum comentário: