quarta-feira, 14 de março de 2012

Quarto Domingo da Quaresma

Que o SUS garanta saúde e vida ao povo brasileiro!
(2Cr 36,14-16.19-23; Sl 136/137; Ef 2,4-10; Jo 3,14-21)

Um juíz implacável, impassível, sem coração, sempre pronto a defender a universalidade da lei e a pronunciar sentenças irreversíveis: essa é a imagem de Deus que muitos cristãos têm e divulgam. Mas, no Evangelho, Jesus diz claramente que Deus enviou seu Filho ao mundo para salvá-lo, para conduzi-lo à vida, e não para condená-lo. A gratuidade do amor de Deus é que nos salva. Como experimentar e testemunhar a Boa Notícia da gratuidade e da benevolência de Deus no contexto da luta por uma saúde pública e de qualidade a serviço de todo o povo brasileiro? Um dos objetivos da Campanha da Fraternidade é exatamente este: despertar nas comunidades cristãs a reflexão sobre a realidade da saúde pública em vista da defesa do SUS e da reinvindicação do seu adequado funcionamento...
“Deus enviou seu Filho não para condenar o mundo...”
Pessoas doentes e dobradas pelo sofrimento as vemos por toda a parte. Umas condenadas à miséria presente e a um futuro incerto; outras condenadas a um presente vazio e a um futuro que assusta. Umas forçadas a viver em casa como se estivessem numa prisão e outras condenadas à prisão por qualquer coisa. Umas condenadas por sua cor ou orientação sexual e outras pela falta de chances de estudo, por pensar diferente ou por querer desmascarar a hipocrisia.
A tentação é grande, e se não formos eternamente vigilantes acabamos dividindo o mundo entre culpados e inocentes, merecedores e indignos. E é fácil encontrar na Bíblia versículos isolados que se prestam a fundamentar nossas sentenças inapeláveis. E, via de regra, culpadas são as pessoas diferentes, as que tentam caminhos novos, as que questionam nossos interesses e privilégios, as que amargam derrotas e se curvam sob dores as mais diversas, as pessoas disfuncionais de toda sorte.
Como nos custa entender que Deus se rege por uma gramática diferente! É incrível a facilidade com que os homens (sim, no masculino!) que dirigem as igrejas e se apresentam como procuradores de Deus sentam na cadeira de juiz, cadeira que o próprio Jesus recusou. Com que frequência nos escondemos por trás de máscaras de benfeitores e imparciais e estamos prontos a denunciar o cisco no olho dos outros sem darmo-nos conta do nosso próprio lixo. Não, esse não é o jeito de Jesus Cristo!
“É preciso que o Filho do Homem seja levantado...”
O rosto do Messias é outro, a prática de Jesus é diversa. Ele recusa a cadeira de juiz e senta-se ao lado dos acusados, como aliado e defensor. Isso é evidente desde a estrebaria, onde os proscritos o visitaram, até a cruz, quando foi moeda de troca por condenado e compartilhou o calvário com outros dois. O Filho de Deus desceu todos os degraus para alcançar o ser humano no nível mais baixo, no lugar de culpado e de devedor. E não o fez insensível ou com o dedo em riste, mas de braços abertos.
O que deve nos impressionar não é o fato de que Jesus tenha subido ao céu, mas de que Deus tenha descido definitivamente à terra. E ele desceu tanto que, mais que assumir a frágil e contraditória condição humana, assumiu a carne dos/as condenados/as para declará-los/as justificados/as. Deus desceu tanto, que adentrou solidariamente no inferno vivido pelos/as condenados/as à morte ou a uma vida que tem mais a ver com um lento processo de morte. Desceu tanto que o levantaram numa cruz!
É para esse homem levantado na cruz dos malditos e entre dois condenados que somos chamados/as a voltar nosso olhar. Eis aqui o Messias, aquele que sola a língua aos mudos, abre o ouvido aos surdos, resgata a vida dos condenados à morte, anuncia boas notícias aos pobres, cura os doentes, proclama o ano da graça de Deus! Mudo, ela pronuncia palavras incomparáveis. Imóvel, abraça e acolhe os/as condenados/as de todos os tempos e rincões. Eis o ser humano! Eis o corpo de Deus!
“Deus amou de tal forma o mundo que entregou o seu Filho único...”
Não desperdicemos esta quarta e insuperável lição na escola da caminhada pascal. Começamos acompanhando Jesus no deserto para aprender a vencer as tentações. Subimos com ele no Tabor para apreder a lição da humildade e do serviço. Fomos com ele ao templo para que ele tirasse da nossa vida toda superficialidade, falsidade e autoritarismo. Neste domingo ele nos ensina que lamentar débitos ou exigir créditos não faz o menor sentido. “Vocês foram salvos pela graça”, insiste São Paulo, e isso para que ninguém se encha de orgulho. Deus é misericórdia e nos ama sem medida.
É Jesus quem diz que “Deus amou de tal forma o mundo que entregou seu Filho único...” Trata-se do mundo em sua globalidade, sem distinções entre culpados ou inocentes, homens ou mulheres, devedores ou merecedores. Em Jesus Cristo se manifesta de forma clara a glória de Deus, e essa glória não é outra coisa que o amor que se faz dom e acolhida sem nenhum tipo de condição ou exigência. Ele nos deu a vida “quando estávamos mortos por causa de nossas faltas”, sublinha Paulo.
“Todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna”
Em Jesus Cristo a salvação é gratuita, mas é também geradora gratuidade. Na fé cristã não há espaço para a passividade irresponsável. Acreditarnessa relação libertadora de Deus conosco implica na adesão a este dinamismo de gratuidade, no empenho pessoal e profundo para transformar esse princípio em pedra angular do comportamento pessoal e da organização eclesial e social. E isso é indispensável para que não sejamos tragados pela morte e não sejamos geradores de morte.
Este rio de graça, este sol de justiça que nos vem de Deus em Jesus Cristo começa por desmascarar nossos pretensos merecimentos, avança revelando nossa verdade mais profunda e termina capacitando-nos a agir como homens e mulheres novos. “Fomos criados para as boas obras” diz São Paulo, e precisamos nos ocupar delas. Crer é aderir à proposta de Jesus, e aderir é agir. Quem não decide somar sua ação à ação libertadora de Deus acaba desperdiçando a própria vida.
O amor de Deus feito carne no alto da cruz não tolhe a liberdade do ser humano. Ele apenas toma o lugar ocupado pela lei e se torna luz que orienta as nossas ações e opções. Nada está definido de ante-mão e tudo deve ser discernido. Nossas ações são guiadas e julgadas por essa  luz, a única capaz de revelar a bondade ou a maldade das nossas ações. Aderir a Jesus Cristo significa crer na dignidade inerente a cada pessoa humana e nas suas possibilidades positivas, e esse é o caminho da vida.
“A luz veio ao mundo mas os homens preferiram as trevas à luz”
Temos sempre a tentação de identificar a lei com a luz. “A lei é clara”, repetimos com frequência. Todas as leis são frutos dos consensos políticos e do equilíbrio de forças num determinado momento. Em última instância, são regras impostas pelo grupo mais forte, aquele que tem mais recursos para convencer os demais. Mais que luz, a lei é fogo, ela queima. A luz verdadeira, aquela da qual precisamos nos aproximar para que nossa bondade radical seja confirmada, é aquela afirmada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ou melhor, é a prática amorosa de Jesus Cristo.
Não temos outra lei que possa ser caminho seguro de vida e de liberdade. Não há outra norma que possa conduzir à nova sociedade. Mas há aqueles/as que, para disfarçar a malícia dos seus projetos e a estreiteza dos seus interesses, fecham os ouvidos a essa Palavra e odeiam essa luz, mesmo que queiram demonstrar o contrário. Estas pessoas acabam produzindo frutos amargos que enchem a mesa dos outros: dominação, desigualdade, exclusão, violência, insegurança.
O Messias que acolhemos como caminho é aquele que desceu do céu aos infernos e, permanecendo fiel ao seu amor pelo mundo, foi elevado entre os condenados. Esse dinamismo de descida e esvaziamento solidário é nossa única lei, uma lei que não vem imposta de fora pois está no próprio coração da vida. Essa é a luz a partir da qual a verdade dos nossos projetos e práticas vêm à tona. Outros caminhos são máscaras, trevas e disfarces que escondem nossa verdade, violentam as pessoas e conduzem à morte.
“Tinha compaixão do seu povo e da sua morada...”
Deus pai e mãe, rico em misericórdia: é imenso o amor com que nos amas! Enviaste teu filho amado para nele todos/as tenhamos vida e saúde sem limites! Dá-nos um amor assim intenso e lúcido, a fim de que sejamos capazes de dar continuidade a este dinamismo que salva e renova mundo, lutando por um sistema de saúde público e de qualidade. Não permitas que sentemos e choremos passivamente nosso desterro, mas coloca-nos a caminho para reconstruir o mundo na força do teu amor. Amém! Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 8 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.

Phoolan
Phoolan Devi teve a má idéia de nascer pobre e mulher, e numa das castas mais baixas da Índia. Em 1947, aos onze anos de idade, seus pais a casaram com um senhor de casta não tão baixa, e deram a ele uma vaca como dote.
Como Phoolan ignorava os deveres conjugais, seu marido a instruía torturando-a e violando-a. E quando fugiu, ele a denunciou, e os policiais a torturaram e violaram. E quando voltou às sua aldeia, o boi, seu boi, foi o único que não a acusou de ser impura.
E ela foi embora. E conheceu um ladrão de frondoso prontuário, e esse foi o único homem que perguntou se ela tinha frio e se sentia bem.
Seu amante ladrão caiu crivado de balas na aldeia de Behmai, e ela foi arrastada pelas ruas e torturada e violada por vários donos de terras. E algum tempo depois, Phoolan voltou a Behmai, em plena noite, e à frente de um bando de foragidos procurou aqueles homens, de casa em casa, e encontrou vinte e dois, e os acordou, um por um, e os matou.
Naquela época, Phoolan Devi tinha dezoito anos. Toda a região banhada pelo rio Yamuna sabia que ela era filha da deusa Durga, bela e violenta como a mãe. (p. 294)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Terceiro Domingo da Quaresma

As pessoas doentes são um templo de Deus!
(Ex 20,1-17; Sl 18/19; 1Cor 1,22-25; Jo 2,13-25)

Via de regra, a experiência religiosa está relacionada com lugares, tempos, normas e gestos que a tornam palpável e ajudam  a expressá-la. O povo hebreu suspirava nos seus salmos: “Como são desejáveis as tuas moradas, Javé dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios de Javé... Felizes os que habitam em tua casa: eles te louvam sem cessar... Mais vale um dia em teus átrios do que mil em minha casa” (Sl 84/83).  Mas a ambiguidade pode penetrar até mesmo nestes símbolos intimamente relacionados com a experiência de fé, como o templo. Assim, a Quaresma se oferece um percurso pedagógico e espiritual que nos ajuda a purificar o olhar, o pensar e o agir. E o ponto de partida dessa mudança radical é a consciência de que o que caracteriza Deus é ação de amar, e não há lei, lugar ou coisa que possa ser anteposta ou sobreposta ao mandamento de reconhecer o outro como outro e servi-lo em suas necessidades. Não seria exatamente esta a missão da Pastoral da Saúde: assegurar a importância do amor e do serviço concreto aos doentes para a fé em Jesus Cristo?
“A lei do Senhor é perfeita...”
Na travessia do deserto, deixando para trás o Egito e suas leis excludentes e opressoras, as tribos que fugiam da opressão do Egito se constituíram em assembléia constituinte. As leis que Deus promulgou e entregou a Moisés em vista do povo foram o resultado final de um processo de discernimento que envolveu as tribos e suas lideranças. E todas as leis, proibições ou mandamentos, têm um alvo fundamental: garantir a paz, a fraternidade e a justiça na sociedade que construirão assim que entrarem na terra prometida.
Afirmando que sua lei deriva da aliança com Deus, as tribos de Israel sublinham seu caráter transcendente e inegociável: ela é muito mais que um contrato social, um equilíbrio de forças ou a prevalência do mais forte. Essa lei é louvada e celebrada pelos frutos de igualdade e de liberdade que produz.  “A lei do Senhor é perfeita, um descanso para a alma. O testemunho do Senhor é firme, instrução para o ignorante. Os preceitos do Senhor são retos, alegria para o coração. O mandamento do Senhor é transparente, luz para os olhos” (Sl 18/19).
Entretanto, com o passar do tempo, a lei que o povo considerava mais preciosa que o ouro e mais doce que o mel tornou-se um fardo pesado nas costas de um povo já cansado e encruvado. Como sempre, quando cai nas mãos das elites religiosas e políticas, a lei  deixa de servir à liberdade e à vida do povo e passa a garantir os privilégios de uns poucos; deixa de ser árvore e caminho de vida e se torna algema que aprisiona, princípio que exclui e veneno que mata. Vira um entulho autoritário e opressivo.
Não tenha outros deuses diante de mim.”
A imponência amedrontadora dos deuses dos faraós não saía da cabeça dos hebreus. Eram deuses que sustentavam e legitimavam os que detinham o poder, os fortes, os vencedores. Aquele punhado de escravos e escravas havia protestado contra a opressão, mentido às autoridades e iniciado a travessia em nome de um outro Deus, a único Vivo e Verdadeiro: o Deus que ouve os clamores dos oprimidos, conhece seus sofrimentos, desce para fazer subir e acompanha na dificil e longa travessia (cf. Ex 3,7-10).
“Eu sou Javé,s eu Deus, que fiz você sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não tenha outros deuses diante de mim.” No coração dos mandamentos está a fé agradecida e responsável no Deus dos pobres, no Deus que abre caminhos de liberdade e de vida para os oprimidos. Aceitar um deus diferente seria entrar no perigoso caminho da desigualdade, dos privilégios, da indiferença. E usar o nome de Deus para sustentar sistemas e práticas opressivas e excludentes é algo que provoca sua indignação.
Entrando no templo e expulsando os comerciantes e cambistas, Jesus denuncia o uso do nome de Deus para fins de exploração e diz que, na prática, aquela gente cultuava outros deuses. E hoje não é diferente, pois muitas são as pessoas que fazem de tudo para defender e aumentar seus bens; que excluem e violentam em nome da própria honra; que invocam o nome de Deus para justificar sua prosperidade e refutar as lutas dos pobres; que só têm olhos para si mesmas e seus interesses...
“No templo, Jesus encontrou os vendedores...”
Jesus vai a Jerusalém e entra no templo num momento festivo e forte. Na festa da páscoa a cidade ficava entulhada de peregrinos e o comércio fervia e faturava. Estima-se que, por ocasião das festas pascais, no templo de Jerusalém eram sacrificados mais ou menos 18000 animais! E os vendedores de animais e cambistas estavam lá para facilitar os ‘negócios de Deus’. O povo chegava de todos os lados para oferecer os sacrifício e precisava comprar os animais. Como a lei proibia o uso de moedas com imagens, lá estavam os cambistas.
Jesus fica simplesmente indignado com tudo isso. O zelo pelo bem-estar do seu povo o inflama e consome. As próprias autoridades religiosas, em nome da fé, usando o nome de Deus em vão, haviam transformado o templo em espaço e instrumento de exploração. Jesus expulsa os comerciantes, derruba as mesas dos cambistas e pede aos vendedores de pombas que levem suas gaiolas embora. “Tirem isso daqui!” Jesus mostra-se mais indignado com estes últimos, pois exploram a fé dos mais pobres, daqueles que, por sua miséria, só podiam comprar e oferecer pombas (cf. Lv 5,7; 14,30).
 “Que sinal mostras para agir assim?”
Não esqueçamos que essa é a primeira ação propriamente pública de Jesus relatada por João. Por isso, os dirigentes do templo regem solicitando as credenciais de Jesus, perguntando com que direito ele faz isso. “Que sinal nos mostras para agir assim?” Os dirigentes pouco se importam com a exploração dos pobres. Estão interessados nas credencias de Jesus. Eles não querem saber apenas se Jesus se apresenta como profeta, já que fazer um chicote e ‘botar ordem’ no templo era um gesto ligado à chegada do Messias. Querem uma demonstração de que ele é mesmo o messias esperado.
Lembremos aqui o que diz Paulo, ilustrando aquilo que é visto como importante até hoje: “Os judeus pedem sinais e os gregos procuram sabedoria.” Traduzindo numa linguagem atual: uns procuram e valorizam gestos grandiosos, demonstrações de poder; outros confiam no conhecimento e no saber bem organizado. Infelizmente temos até Igrejas e movimentos que não fazem outra coisa senão promover cultos e ‘milagres’ espetaculares e se amoldar à ideologia do sucesso e da prosperidade...
“O templo de que Jesus falava era o seu corpo.”
Com esta desconcertante ação simbólica, Jesus faz mais que purificar o templo ou corrigir suas práticas. Ele declara que o templo não é mais mediação de Deus, que os sacrifícios são inúteis e nulos. A partir de Jesus, Deus se deixa encontrar na humanidade das pessoas que amam e na comunidade que serve. O templo permanece unicamente como espaço de encontro e lugar para fazer memória e cultivar a esperança. A verdadeira sacralidade migra do templo para os corpos e para as ações concretas.
A resposta de Jesus ao desafio dos dirigentes do templo é um pouco desconcertante. “Destruam esse templo e em três dias eu o levantarei.” E o evangelista observa que ele se referia ao seu corpo. A realidade visível e humana de Jesus com suas possibilidades e vulnerabilidades, o corpo que traz as marcas e cores do povo, o corpo que ele compartilha com todos os humanos e que, mesmo sob tortura, é doado livremente, esse é templo no qual a glória de Deus brilha, age e liberta.
É por isso que possibilitar alimento a quem está com fome e abrigo a quem é peregrino, solidarizar-se com quem está doente e vestir os desabrigados, enfim, cuidar dos corpos desfigurados, abre a porta para o encontro com Deus. O corpo é o templo no qual Deus habita. Socorrê-lo e servi-lo com amor – missão própria da Pastoral da Saúde – é a única lei que deve ser cumprida. E o tempo favorável à nossa salvação é agora. A divindade habita a corporeidade. “Isto é meu corpo e meu sangue dados por vós...”
“A loucura de Deus é mais sábia que os homens...”
Senhor Jesus, para muita gente, teu ensinamento e tuas atitudes parecem exageradas e loucas. Pensam que uma religião que prioriza o corpo seja coisa destinada ao fracasso. Estão habituados/as a decorar leis, frequentar cultos, oferecer sacrifícios e ouvir condenações. Mas Paulo diz que loucura de Deus é mais sábia que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Vem e limpa as Igrejas do entulho moralista e autoritário. Que nossas comunidades sejam teu corpo, constituído de membros igualmente dignos e solidários, continuadores do teu cuidado pelos doentes. Amém! Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.
Yasmin
Num dia do ano 1998, (na Jordânia) Yasmin Abdullah entrou em casa chorando. Só atinava dizer e repetir: “Não sou mais uma menina!” Tinha ido visitar sua irmã mais velha. Fora violada pelo cunhado...
Yasmin foi parar no cárcere de Jweidah, até que o pai tirou-a de lá comprometendo-se a cuidar dela e pagando a finaça correspondente.
Naquela altura, o pai, a mãe, os tios e setecentos vizinhos tinham decidido, em assembléia, que a honra da família devia ser lavada com sangue. Yasmin tinha dezesseis anos.
Seu irmão Sarhan meteu-lhe quatro balas na cabeça. Passou seis meses na prisão. Foi tratado como herói. Também foram tratados como heróis outros vinte e sete homens presos por casos semelhantes.
De cada quatro crimes cometidos na Jordânia, um é crime de honra... (p. 293-294)

terça-feira, 6 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.

Matilde
Cárcere de Palma de Maiorca, outubro de 1942: a ovelha vermelha.
Está tudo pronto. Em formação militar, as presas aguardam. Chegam o bispo e o governador. Matilde Landa, comunista e chefe de comunistas, atéia convicta e confessa, será convertida à fé católica e receberá o santo sacramento do batismo. Arrependida, se incorporará ao rebanho do Senhor e Satanás perderá uma ovelha vermelha.
Se faz tarde. Matilde nã aparece. Está no telhado, ninguém a vê. Joga-se lá de cima. O corpo explode, como uma bomba, contra o pátio da prisão. Ninguém se move.
Cumpre-se a cerimônia prevista. O bispo faz o sinal da cruz, lê uma página dos evangelhos, exorta Matilde a renunciar ao mal, recita o Creio em Deus Pai e toca sua testa com água benta. (p. 274-275)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.
Camille
A família declarou-a louca e meteu-a num manicômio. Camille Claudel passou ali, prisioneira, os últimos 30 anos de sua vida. Foi para o seu bem, disseram.
No manicômio, cárcere gelado, se negou a desenhar e esculpir. A mãe e a irmã jamais a visitaram. Uma ou outra vez seu irmão Paul, o virtuoso, apareceu por lá. Quando Camille, a pecadora, morreu, ninguém reclamou seu corpo.
Anos levou o mundo até descobrir que Camille não tinha sido apenas a humilhada amante de Auguste Rodin. Quase meio século depois da sua morte, suas obras renasceram e viajaram e assombraram: bronze que baila, mármore que chora, pedra que ama.
Em Tóquio os cegos pediram licença para apalpar suas esculturas. Puderam tocá-las. Disseram que as esculturas respiravam. (p. 237)

domingo, 4 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.

Susanne
Aristóteles sabia o que dizia: “A fêmea é como um macho deformado. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.”
As artes plásticas eram um reino proibido aos seres sem alma. No século XVI, havia em Bolonha 524 pintores e uma pintora. No século XVII, na Academia de Paris, havia 435 pintores e 15 pintoras, todas esposas ou filhas de pintores.
No século XIX, Suzanne Valadon foi verdureira, acrobata de circo e modelo de Toulouse-Lautrec. Usava espartilhos feitos de cenouras e dividia seu estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela fosse a primeira artista a se atrever a pintar homens nus. Tinha que ser uma doida...
Erasmo de Roterdam sabia o que dizia: “Uma mulher é sempre mulher, quer dizer: louca.” (p. 237)

sábado, 3 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.
Emily
Aconteceu em Amherst, em 1886. Quando Emily Dickinson morreu, a família descobriu mil e oitocentos poemas guardados em seu quarto.
Tinha vivido na ponta dos pés, e na ponta dos pés escreveu. Não publicou mais que onze poemas em toda a sua vida, quase todos anônimos ou assinados com outro nome.
De seus antepassados puritanos herdou o enfado, marca de distinção de sua raça e de sua classe: proibido se tocar, proibido se dizer. Os cavalheiros faziam politica e negócios, e as demais perpetuavam a espécie e viviam doentes.
Emily viveu a solidão e o silêncio. Trancada em seu quarto, inventava poemas que violavam as leis, as leis da gramática e as leis do seu próprio confinamento, e ali escrevia uma carta por dia à sua cunhada Susan, e as mandava pelo correio, embora ela morasse na casa ao lado.
Esses poemas e essas cartas fundaram seu santuário secreto, onde quiseram ser livres suas dores escondidas e seus proibidos desejos. (p. 213-214)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.



Juana
Como Teresa de Ávila, Juana Inês de la Cruz se fez monja para evitar a jaula do matrimônio. Mas também no convento seu talento ofendia. Tinha céerebro de homem aquela cabeça de mulher? Por que escrevia com letra de homem? Por que queria pensar, se cozinhava tão bem?
E ela, zombando, respondia: “O que podemos saber as mulheres, a não ser filosofias de cozinha?”
Como Teresa, Juana escrevia, embora o sacerdote Gaspar de Astete já tivesse advertido que “à donzela cristã não lhe é necessário saber escrever, e pode ser-lhe danoso.” Como Teresa, Juana não apenas escrevia como, para aumentar o escândalo, escrevia indubitavelmente bem.
Em séculos diferentes, e em diferentes margens do mesmo mar, Juana, a mexicana, e Teresa, a espanhola, defendiam por falado e por escrito a desprezada metade do mundo. Como Teresa, Juana foi ameaçada pela inquisição. E a Igreja, a sua Igreja, a perseguiu por cantar o humano tanto ou mais que o divino, e por obedecer pouco e perguntar demais.
Com sangue, e não com tinta, Juana assinou o seu arrependimento. E jurou silêncio para sempre. E muda, morreu. (p. 136)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.
Teresa
Teresa de Ávila havia entrado no convento para se salvar do inferno conjugal. Mais valia ser escrava de Deus que serva de macho.
Mas São Paulo tinha outorgado três direitos às mulheres: obedecer, servir e calar. E o representante de Sua Santidade o Papa condenou Teresa “por ser fêmea inquieta e andarilha, desobediente e contumaz, que, a título de devoção, inventa doutrinas más contra São Paulo, que mandou que as mulheres não ensinassem”.
Teresa tinha fundado na Espanha vários conventos onde as monjas davam aula e tinham autoridade, e muito importava a virtude e nada a linhagem, e de nenhuma era exigida limpeza de sangue.
Em 1576, foi denunciada diante da inquisição, porque seu avô dizia ser cristão velho, mas era judeu convertido, e porque seus transes místicos eram obra do diabo metido em corpo de mulher.
Quatro séculos depois, Francisco Franco se apoderou do braço direito de Teresa, para se defender do diabo em seu leito de agonia. Por uma dessas estranhas reviravoltas da vida, naquele momento Teresa já era santa e modelo da mulher ibérica, e seus pedaços tinham sido enviados a vrias Igrejas da Espanha, exceto um pé, que foi parar em Roma. (p. 136-136)