sexta-feira, 21 de março de 2025

Deus é Pai e se alegra quando seus filhos vivem bem

Deus é Pai e se alegra quando os vulneráveis têm mais vida | 659 | 22.03.2025 | Lucas 15,1-3.11-32

Avançando em nossa caminhada quaresmal, a Igreja nos brinda hoje com uma das mais belas e conhecidas páginas dos evangelhos: a conhecida parábola do filho pródigo, que seria mais justo designar como parábola do pai misericordioso. Explico: partindo das tensões descritas nos versos 1-3, fica claro que o personagem central da cena não é o filho mais novo. Os protagonistas são o pai e o filho mais velho.

Enquanto os publicanos e demais categorias de gente considerada “pecadora” se aproximam e confraternizam com Jesus, os fariseus o acusam de misturar-se e aliar-se com gente suspeita. Evidentemente, quem critica e acusa se sente melhor que os outros, superior, com mais méritos que aqueles que são acolhidos por Jesus. E a parábola tem exatamente o objetivo de ilustrar como Deus costuma tratar seus filhos e filhas.

Observemos que o pai tem dois filhos: o filho mais novo cai na miséria mais extrema, vivendo como estrangeiro e forçado a se alimentar da ração dada aos porcos (imagem dos publicanos e demais pecadores); o filho mais velho, cumpridor minucioso das leis e costumes, tem tudo e mais do que necessita (figura dos fariseus). O primeiro tem a sensação de não ser filho de Deus; o segundo, se vê cheio de direitos e não aceita a misericórdia.

O pai, que é figura e imagem do Deus do Reino, em nome de quem Jesus vem e age, trata a ambos como filhos necessitados de acolhida e amparo, mesmo que não mereçam este tratamento. O pai não se interessa pela contrição do filho em situação de miséria e nem deixa que ele termine seu “ato de contrição”. Deus é Pai, e não juiz ou delegado de polícia! Ele não trata ninguém como empregado, pois todos são seus filhos, e jamais deixam de sê-lo. Neste mundo, que é sua casa, ele não quer que uns fiquem com tudo e outros fiquem sem nada, que uns lamentem e outros festejem.

É claro que esta parábola é um chamado contundente à conversão. Mas este chamado à conversão é dirigido ao filho mais velho! Pois é ele que não reconhece o amor do pai, não dialoga com o irmão, não o reconhece, nega a fraternidade que torna todos iguais, e defende a primazia do mérito, que nos separa e nos coloca uns acima dos outros. O filho mais novo, mais necessitado, entra para a festa. E o filho mais velho, será capaz de entrar?

 

Meditação:

§ Leia atentamente essa parábola, considerando os versículos iniciais e a atitude do pai e do irmão mais velho

§ Qual é hoje a reação dos cristãos diante do chamado da Igreja e do Papa a uma fraternidade sem fronteiras?

§ Como você se sente diante dessa parábola? Você concorda e aceita tranquilamente a atitude do pai?

§ Com qual dos três personagens você se sente identificado? Com qual deles precisa se identificar para seguir Jesus de verdade?

A paciência de Deus

PARA QUÊ UMA FIGUEIRA ESTÉRIL?

Jesus esforçava-se de muitas formas para despertar nas pessoas a conversão a Deus. Essa era a sua verdadeira paixão. Ele anunciava que chegou o momento de procurar o reino de Deus e a sua justiça, a hora de nos dedicarmos a construir uma vida mais justa e humana, tal como a quer Ele.

Segundo o evangelho de Lucas, Jesus pronunciou em certa ocasião uma pequena parábola sobre uma figueira estéril. Ele queria desbloquear a atitude indiferente de quem o ouvia, sem responder praticamente ao seu apelo. O relato é breve e claro.

Um proprietário tem plantada no meio da sua vinha uma figueira. Durante muito tempo foi procurar frutos nela. No entanto, ano após ano, a figueira frustrou as suas expectativas. Aí permaneceu, estéril no meio da vinha.

O proprietário toma a decisão mais sensata. A figueira não produz frutos e absorve inutilmente as energias da terra. O mais razoável é cortá-la. «Porque é que vai ocupar um terreno sem produzir nada?»

Contra toda a sensatez, o viticultor propõe-se fazer todo o possível para a salvar a figueira. Escavará a terra em redor da figueira, para que esta tenha a humidade necessária, e acrescentará estrume, para que se possa alimentar. Sustentada pelo amor, pela confiança e pela preocupação do seu cuidador, a figueira é convidada a dar fruto. Saberá responder?

A parábola foi contada para provocar a nossa reação. Para que serve uma figueira sem figos? Para que serve uma vida estéril e sem criatividade? Qual o sentido de um cristianismo sem o seguimento prático a Jesus? Qual é a relevância de uma Igreja sem dedicação ao reino de Deus?

Para que serve uma religião que não nos muda o coração? Para que um culto sem conversão e uma prática que nos acalma e confirma o nosso bem-estar? Para que preocuparmo-nos tanto em ocupar um lugar importante na sociedade se não introduzimos força transformadora com as nossas vidas? Para que serve falar das raízes cristãs da Europa e da América se não é possível ver os frutos cristãos dos seguidores de Jesus?

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

É preciso cuidar do planeta

Estamos no decênio decisivo para o planeta!

A temática ambiental é uma questão urgente. Literalmente, sentimos isso na pele. E a Igreja Católica, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, afirma sem meias palavras a frase que escrevi como título dessa coluna semanal. E acrescenta: “Ou mudamos, convertendo-nos, ou provocaremos, com nossas atitudes individuais e coletivas, um colapso planetário” (cf. Campanha da Fraternidade 2025, Texto-base, § 8).

Essa opção dá palanque para polêmicas e ataques de grupos negacionistas de dentro e de fora da Igreja. Mas a CNBB cumpre seu papel, lembrando que “não há um planeta reserva” e chamando todos a uma urgente e profunda conversão ecológica, ou seja: a passar da lógica extrativista (que considera a terra apenas um reservatório inesgotável de recursos que podemos usar como e quanto quisermos) a uma lógica do cuidado.

Mesmo causando arrepios a algumas pessoas pias, os Bispos pedem que superemos a indiferença frente ao sofrimento dos pobres e da terra e abandonemos a “idolatria dos desejos desordenados do consumismo e do materialismo” (§ 14). E isso começa pela admissão de que “cada criatura expressa na sua singularidade a ternura amorosa de Deus”, e que nossa missão é ser guardiães e zeladores da obra do criador.

Não podemos atribuir a crise ambiental à responsabilidade individual. E menos ainda às pessoas e países pobres. A origem dessa crise envolve fatores históricos, sociais, econômicos e políticos. Mas a causa preponderante é “o modelo de produção capitalista, baseado na exploração dos patrimônios naturais, na queima de combustíveis fósseis, na expansão desenfreada do consumo e na relação mercantilista com a natureza” (§ 26).

Uma das raízes da crise ecológica é humana e social, e só quem quer ser cego pode ignorar a coincidência entre os fenômenos climáticos globais e a aceleração das emissões de gases de efeito estufa. Quem atribui as secas ou enchentes unicamente ao “El Niño” ou “La Niña” está criando bodes expiatórios. Ou será que os oceanos podem mudar de humor e decidir, sem mais, castigar os seres humanos e a natureza da qual fazem parte?

Mas, apesar dos “paradoxos climáticos” que se repetem amiúde e crescem em termos de força destruição, e não obstante os dados seguros da ciência, há grupos que negam as mudanças climáticas ou pretendem diminuir sua gravidade. Alguns divulgam a falácia de que tudo será resolvido pelos avanços da tecnologia ou pela própria economia de mercado. Isso gera confusão e passividade, e retarda a urgente conversão ecológica e as ações concretas para enfrentar a emergência climática.

Do ponto de vista da moral cristã, a agressão à natureza, assim como a omissão e a negação da emergência climática, são “pecados ecológicos”. Este grave pecado consiste no “desrespeito ao criador e sua obra que é a Casa Comum” mediante “ações e omissões contra Deus, contra o próximo e contra o meio ambiente” (§ 52). É um tipo de cegueira ou insensibilidade com o mundo. É uma visão que nos leva a tratar as pessoas e demais seres vivos como objetos, e a entregar às gerações futuras um planeta insustentável.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo de Santa Cruz do Sul

quinta-feira, 20 de março de 2025

Sobre pedras descartadas

Deus transforma a pedra descartada em pedra fundamental | 658 | 21.03.2025 | Mateus 21,33-46

Voltamos ao enfrentamento entre Jesus e a elite religiosa, no templo. O trecho de hoje explicita a tensão crescente inconciliável entre esta elite e a pessoa e o ensino de Jesus. Também neste caso, a parábola é clara, e dispensa uma nova narração. No final, com sua habilidade, Jesus leva seus adversários a pronunciar a própria autocondenação.

Com esta parábola, Jesus sublinha as consequências fatais da indiferença ou da rejeição de sua pessoa e missão, visceralmente ligadas ao Reino de Deus. A identidade e a missão de Jesus estão na linha dos grandes profetas enviados por Deus para defender seus direitos estabelecidos na aliança, que são os direitos dos mais pobres e vulneráveis diante dos prepotentes. Com isso, os profetas acabam atraindo sobre si a ira e a violência.

Os chefes dos sacerdotes e outras lideranças políticas e religiosas de Jerusalém agem como se fossem senhores da vida e da morte do povo, e como se fossem os únicos mediadores e intérpretes autorizados da vontade de Deus. Eles receberam uma responsabilidade ou uma missão, mas agem em causa própria, torcem a vontade de Deus, legitimam as violências perpetradas contra os pobres e indefesos, e eliminam quem ousa criticá-los. E Jesus percebe que será certamente a próxima vítima.

Jesus denuncia e deslegitima os “vinhateiros” e “doutores” que se apossaram da vinha e se assentaram na cátedra de Moisés. Rejeitando Jesus e interpondo dificuldades à vida dos pobres, eles descartam o próprio Deus e sacralizam o que lhes assegura vantagens. A advertência de Jesus é clara: Deus não se deixa enganar por uma adesão simplesmente externa, e, menos ainda, por uma pretensa “supremacia” étnica. A lógica de Deus é transformar os excluídos e descartados em cidadãos plenos.

São os próprios líderes criticados que se qualificam como “canalhas” e “perversos”, e afirmam não serem dignos de confiança. A insistência de Jesus numa fé que produza frutos de misericórdia e justiça enfatiza que a autenticidade da fé não consiste na estética (gestos, ritos e palavras bonitas e corretas) e não é étnica (pertencer a um povo específico ou a uma “raça superior”), mas essencialmente ética: produzir frutos de diálogo, de misericórdia, de solidariedade e de acolhida.

        

Meditação:

§ Leia atentamente essa parábola, com atenção aos vários enviados pelo dono e às ações típicas e perversas dos vinhateiros

§ Observe o julgamento que os próprios líderes religiosos fazem sobre os vinhateiros, sem darem-se conta de que se autocondenam

§ Qual é a sentença de Jesus sobre eles? Que sentido tem o que Jesus diz? Que sentença você daria a eles?

§ Qual é a base que sustenta e legitima sua fé em Jesus? Uma pertença apenas exterior e por tradição? Que frutos você produz?

A propósito de uma polêmica

Velhas lições disfarçadas de canções novas

Eu havia pensado em dedicar as reflexões de março aos temas da ecologia integral e da emergência climática, tão relevantes quanto urgentes. Mas a conferência de um conhecido influenciador católico num programa de TV, no dia 8 de março, rendeu muita conversa durante a semana toda, e eu decidi entrar no debate. Em pleno Dia Internacional da Mulher, o pregador as confinou ao papel de auxiliares do homem.

No último sábado eu estava casualmente conferindo a programação dos canais de TV e visualizei o início da referida palestra a um público presencial de mais de mil mulheres. Não sei qual era o número de telespectadoras. Não suportei ouvir mais que cinco minutos, mas tive a percepção de que aquilo não acabaria bem. Dito e feito: passamos a semana ouvindo vozes dissonantes sobre o pregador e sua pregação.

A pregação ocorreu num canal que se apresenta como católico. O pregador se apresentou em trajes que o identificam com um homem consagrado. A pregação católica não é reservada a pessoas credenciadas, mas é preciso questionar: Ele falou em nome da Igreja Católica Romana? Sua pregação espelha o ensino e a doutrina da Igreja? A canção parece nova e sedutora, mas as lições são velhas e opressoras...

Não defendo o patrulhamento ideológico, seja na escola, na sociedade ou na religião. Mas uma pessoa que é identificada publicamente com a Igreja Católica e tem uma multidão de seguidores, deve perguntar-se pela ortodoxia daquilo que diz e pelo mal que suas posições teóricas e morais podem causar às pessoas e à sua Igreja. Não precisa frequentar academias renomadas; basta consultar o Catecismo da Igreja...

Sua pregação sobre a mulher não tem nada a ver com aquilo que diz o Catecismo da Igreja Católica: “O homem e a mulher foram queridos por Deus em perfeita igualdade enquanto pessoas humanas e no seu respectivo ser de homem e de mulher. São feitos um para o outro: cada um pode ser auxílio para o outro, uma vez que são, ao mesmo tempo, iguais enquanto pessoas e complementares enquanto masculino e feminino” (cf. §§ 369 e 372). Nada de submissão servil, caro pregador!

E sobre comunismo (contra o qual o pregador se pronuncia amiúde), e o capitalismo (em relação ao qual não vê problemas), a Igreja católica tem posição: rejeita as ideologias associadas ao comunismo, assim como o individualismo e o primado absoluto do capital sobre o trabalho, que caracterizam o capitalismo. E diz que é uma falácia apregoar que a vida econômica deve orientar-se apenas pela lei do mercado, pois ela precisa ser racionalmente regulada em vista o bem comum (cf.  § 2425). Portanto, equilíbrio e coerência, sem derrapagens ideológicas, improvisado mestre!

Respeito a fé e a piedade pessoal do jovem e entusiasmado pregador, mas não posso deixar de registrar a profunda desconformidade das suas pregações em relação ao ensino moral à doutrina social da Igreja. Ele precisa de um pouco mais de formação cristã e comunhão com a Igreja e seu ensino. Que a repentina fama não acabe privando-o da humildade e da salutar autocrítica, anulando o bem que poderia fazer.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo diocesano de Santa Cruz do Sul

quarta-feira, 19 de março de 2025

Basta-nos a voz dos profetas

Acreditar nos profetas é mais sábio que esperar milagres | 657 | 20.03.2025 | Lucas 16,19-31

No capítulo 15 do evangelho, Lucas nos apresenta o elogio de Jesus a uma mulher que “desperdiça” tempo procurando uma moeda, a um pastor que “esbanja” cuidado com uma ovelha e deixa as outras noventa e nove de lado, e a um pai que “gasta” seus bens para festejar o retorno do filho que o renegara. O próprio Jesus é uma espécie de “filho pródigo” que abre a festa do Reino a todos os que eram dela excluídos.

No início do capítulo 16, no qual se encontra a parábola de hoje, Jesus elogia um administrador que usa o dinheiro do seu patrão para criar vínculos de amizade e fraternidade, e, ao mesmo tempo, critica os fariseus, porque preferem ser “amigos do dinheiro”. A parábola do rico e do pobre Lázaro está neste contexto de busca e acolhida solidária dos marginalizados e do uso correto dos bens materiais.

A parábola é bem conhecida, o que torna desnecessário descrevê-la. Ela apresenta dois personagens que não estabelecem nenhuma relação um com o outro: estão próximos – o pobre Lázaro está à porta da casa do rico! – mas  não têm nada em comum. Na verdade, a indiferença do rico cavou um abismo – ou levantou um muro – que os separa, apesar da proximidade física. Apenas a experiência da morte os atinge por igual.

O foco da parábola é a urgência da conversão, e a atenção ao presente. A polêmica não se dirige apenas contra os ricos, mas ressoa como alerta àqueles que seguem Jesus. Chama a atenção para o lugar que a posse e o uso bens ocupa no Reino de Deus. Não é sábio desfrutar dos bens de forma egoísta. Não é prudente esperar um milagre para se converter. Não é cristão viver de qualquer jeito, “de olho” na vida eterna.

E não há como ignorar o papel que a Palavra de Deus ocupa na orientação da nossa vida e do processo de conversão. Quando muitos deliram com milagres ostentados como espetáculo ao vivo e a cores, ou esperam desesperadamente um grande sinal, Jesus diz que nos basta a Escritura. Não há milagre capaz de mudar a vida de quem não se abre à Palavra de Deus, não exercita o diálogo, vive uma indiferença olímpica com tudo e com todos, e se recusa a acolher o outro como irmão.       

Meditação:

§ Leia atentamente as duas cenas dessa parábola, percebendo as características de cada um dos dois personagens

§ Evite resvalar para a tentação de interpretar essa parábola como uma ilustração de como será a vida depois da morte

§ Como você se comporta em relação aos pobres e necessitados, especialmente aos que se organizam e lutam por seus direitos?

§ Por que os cristãos de hoje, mesmo tendo as escrituras e o testemunho de Jesus, não levamos a sério a solidariedade?

terça-feira, 18 de março de 2025

Sigamos o exemplo de José de Maria

Com o exemplo de José, vivamos como Deus nos pede | 656 | 19.03.2025 | Mateus 1,16-24

Nem sempre São José gozou de cidadania ou destaque especial na espiritualidade da Igreja católica. Somente a partir do século XIX o conhecido carpinteiro de Nazaré, esposo de Maria e pai de Jesus adquiriu uma relevância maior na liturgia e na devoção. Pio XII o declarou padroeiro dos trabalhadores, e João XXIII o fez patrono da Igreja universal. O Papa Francisco incluiu o nome de São José nas orações eucarísticas e dedicou um ano pastoral a ele.

A liturgia de hoje vê José como o novo “pai da fé”, como o foi Abraão, que partiu, obediente a Deus, sem saber claramente o que o esperava. O evangelho de Mateus narra, com objetivo mais espiritual e cristológico que histórico, alguns acontecimentos protagonizados por José, esse “gigante silencioso”, como o denominou um teólogo contemporâneo.

Mas não podemos esquecer que José é o apaixonado marido de Maria. Mesmo diante daquilo que, para muita gente, era uma evidência de infidelidade e traição de Maria, ele buscou um jeito de evitar qualquer dano à sua amada. O que o moveu nisso foi mais que uma simples atitude de respeito e afeto – o que já seria o bastante! – mas a convicção de que Deus estava escrevendo uma grande e bela história por essas linhas que lhe pareciam tremendamente tortas. Nada é impossível para quem crê!

O filho de Deus faz-se carne no dinamismo desta relação de amor autenticamente humana fecundada pela fé. Um dos sinais da grandeza de José é sua renúncia ao papel masculino estabelecido pela ideologia patriarcal, segundo o qual do homem deriva toda e qualquer iniciativa boa e respeitável, e a mulher é apenas uma auxiliar. José compreende que Deus não está preso a essa ideologia e não privilegia o macho, e que sua vontade não está contemplada nem é realizada pela estrutura patriarcal.

Com Maria, José discerne e trilha um caminho inaudito para realizar a vontade de Deus: decidem viver um casamento que contraria os costumes e expectativas sociais, que poderá ser incompreendido e considerado vergonhoso por muita gente. Completando o matrimônio acordado e não abandonando Maria, ele decide viver com ela uma existência exigente e contracorrente. Nisso ele e Maria são embrião da nova humanidade.

                                                                  

Meditação:

§ Situe-se espiritualmente na cena descrita por Mateus, e procure penetrar nos sentimentos e pensamentos de José

§ Você se dá conta que é exatamente na abdicação dos “direitos” patriarcais que José mostra sua justiça e Deus se faz carne?

§ Você percebe que não é na castidade virginal, mas no amor profundo e inclusivo de José e Maria que nasce o filho de Deus?

§ Em que sentido o amor conjugal plenamente humano de Maria e José é uma inspiração para as relações dos casais de hoje?

segunda-feira, 17 de março de 2025

Deus sempre exalta os humildes

Deus sempre exalta os humildes e rebaixa os arrogantes | 655 | 18.03.2025 | Mateus 23,1-12

Esta página do ensino de Jesus, que tem sua origem na observação crítica da atitude dos fariseus e doutores da lei, ocorre em Jerusalém, no templo, alguns dias antes da sua prisão e condenação à morte. E nós a lemos na perspectiva da conversão ao Evangelho, especialmente da ecologia integral, que é o apelo especial e predominante desse tempo.

Do ponto de vista literário, o episódio vem antes dos sete “ais” dirigidos por Jesus aos fariseus, e antecipa cinco exemplos do esforço deles para impressionar o povo. Por fim, a partir do contra-exemplo dos fariseus, cuja imitação os discípulos devem evitar, Jesus anuncia aos seus discípulos três mandamentos.

É preciso considerar que o objetivo desta cena, apesar da linguagem polêmica e do recurso aos clichês, não é propriamente acusar os fariseus e escribas, mas instruir e prevenir aqueles que seguem a Jesus. Os interlocutores são membros da comunidade, e Jesus quer que eles façam uma autocrítica madura e responsável de suas próprias atitudes.

Jesus pede que seus discípulos escutem o que os escribas leem e proclamam (leis e profetas), mas não deem crédito à interpretação que fazem e ensinam, e não imitem suas atitudes. A fé em Deus e a conversão ao Reino de Deus implica na coerência entre ler, falar e agir. E é nisso que, segundo Jesus, os escribas e fariseus pecam. E seus discípulos não podem ceder a essa tentação, em hipótese nenhuma.

A crítica de Jesus aos fariseus se concentra em três atitudes: eles fazem tudo para serem vistos e causar boa impressão sobre o povo; multiplicam preceitos e proibições sem levar em conta o peso que representam para o povo; se recusam a mexer um dedo para ajudar o povo a carregar os fardos que impõem a eles. Por isso, buscam os primeiros lugares e querem ser chamados e tratados como mestres, líderes e pais.

Isso não pode ser imitado, de modo nenhum, pelos discípulos de Jesus! Todos somos irmãos e servidores uns dos outros, iguais em dignidade, filhos do Pai, guiados e instruídos por Jesus. A igualdade, a fraternidade, o cuidado, a coerência e o serviço configuram nossa identidade como discípulos missionários de Jesus. E isso é coisa séria!

                                                                  

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, a crítica de Jesus aos escribas e fariseus, assim como o que ele pede dos discípulos

§ O que Jesus critica nos fariseus e escribas? Que exemplos de ambiguidade deles Jesus apresenta?

§ Será que nós, individualmente e comunitariamente, não caímos na mesma incoerência e tentação na qual caíram os fariseus?

§ O que Jesus manda e pede aos seus discípulos? Como vivemos hoje este tríplice mandamento?

domingo, 16 de março de 2025

A misericórdia nos faz semelhantes a Deus

A misericórdia é o que torna a pessoa semelhante a Deus | 654 | 17.03.2025 | Lucas 6,36-38

No evangelho de ontem, a voz que ressoou a partir de dentro da nuvem que envolveu os discípulos amedrontados, dizia: “Este é meu filho amado; escutem o que ele diz!” E hoje, aquele que devemos escutar nos ordena (cf. Lc 6,36): “Sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso”. Em outras palavras: ele pede que sejamos e vivamos como ele mesmo viveu, um amor solidário e sem fronteiras.

O Papa Francisco diz que a misericórdia é a palavra-chave que a Bíblia usa para falar do agir de Deus em relação às suas criaturas. E os sinais que Jesus realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, estão marcadas pela misericórdia e dela são expressão. Em Jesus, tudo fala de misericórdia, e nele não há nada que seja desprovido de compaixão.

Recordemos, a título de exemplo, o episódio relatado em João 8,1-11. Jesus estava na praça do templo, e o clima era de tensão com as autoridades. Um grupo de doutores da lei e de fariseus chegou trazendo uma mulher, acusando-a de adultério e pedindo que Jesus tome uma posição. Entre a lei de Moisés e a dignidade daquela pobre mulher, Jesus faz uma escolha surpreendente: chama os acusadores a rever sua própria conduta, e trata a mulher com misericórdia. Ele quer misericórdia, e não legalismo frio!

E, para o discípulo de Jesus, a misericórdia não é apenas um princípio entre vários outros, mas o dinamismo fundamental, aquele que dá concretude e sentido a todas as leis e proibições. Nas palavras de Francisco, a misericórdia é a arquitrave (viga-mestra) que sustenta a vida e a atividade da Igreja. “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.

O que Jesus ensina nos demais versículos são exemplos desdobramentos da atitude misericordiosa: não julgar nem condenar ninguém; perdoar e ajudar todos; dar com generosidade a quem tem mais necessidade que nós. Essa ordem não se refere apenas ao campo das relações interpessoais, mas também na dimensão social: acolher, e não julgar ou criminalizar as pessoas e grupos diferentes; afirmar a igual dignidade de homens e mulheres, brancos e negros, cristãos e ateus; cuidar da nossa Casa Comum.

                                                                  

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, o mandamento de Jesus e os exemplos mais concretos que ele oferece

§ O que é que nos move naquilo que fazemos pelos outros como cristãos e como Igreja?

§ Que medida nós usamos nas ações solidárias com os mais vulneráveis, e como avaliamos e julgamos as pessoas?

§ Como seria a nossa Igreja todas as suas decisões e ações passasse pela estrada do amor misericordioso e compassivo?

sábado, 15 de março de 2025

O mistério da transfiguração

VIVER DIANTE DO MISTÉRIO

O homem moderno começa a experimentar a insatisfação produzida no seu coração pelo vazio interior, pela trivialidade da vida quotidiana, pela superficialidade da nossa sociedade, pela falta de comunicação com o Mistério.

São muitos os que, por vezes de forma vaga e confusa, outras de forma clara e palpável, sentem uma desilusão e um desencanto inconfessável face a uma sociedade que despersonaliza as pessoas, as esvazia interiormente e as incapacita para abrir-se ao Transcendente.

A trajetória seguida pela humanidade é fácil de descrever: foi aprendendo a utilizar com eficácia cada vez maior o instrumento da razão; acumulou um número cada vez maior de dados; sistematizou os seus conhecimentos em ciências cada vez mais complexas; transformou as ciências em técnicas cada vez mais poderosas para dominar o mundo e a vida.

Esta caminhada apaixonante ao longo dos séculos tem um risco. Inconscientemente, acabamos por acreditar que a razão nos levará à libertação total. Não aceitamos conviver com o Mistério. E, no entanto, o Mistério está presente no mais profundo da nossa existência e nos envolve e supera por todos os lados.

O ser humano quer conhecer e dominar tudo. Mas não pode conhecer e dominar nem a sua origem nem o seu destino último. E o mais racional seria reconhecer que estamos envolvidos em algo que nos transcende: devemos caminhar humildemente num horizonte de Mistério.

Na mensagem de Jesus há um convite escandaloso aos ouvidos modernos: nem tudo se reduz à razão. O ser humano deve aprender a viver ante o Mistério. E o Mistério tem um nome: Deus, nosso «Pai», que nos acolhe e nos chama a viver como irmãos e irmãs e a cuidar da criação.

Talvez o nosso maior problema seja a incapacidade de rezar e dialogar com um Pai. Somos órfãos e não nos podemos entender como irmãos. Também hoje, no meio das nuvens e das trevas, se pode ouvir uma voz que nos continua a chamar: «Este é o meu filho... Escutem-no».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez