segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pe. Rodolpho Ceolin msf: um auto-retrato (4)

Pe. Ceolin: um auto-retrato provisório (IV)

Neste último artigo da série, tendo sempre como base seu Projeto de Vida, desejo apresentar resumidamente como o Pe. Ceolin projetava, de modo responsável e exigente, sua própria caminhada.  Ao estabelecer o caminho que se comprometia a trilhar para superar as próprias lacunas e carências, ele nos dá a conhecer sua condição de peregrino, de pessoa incompleta, de homem e religioso que jamais cansou de aperfeiçoar-se, mesmo quando isso lhe parecia muito custoso.

Explicitando resumidamente o que mais desejava alcançar no ano 2000, ele escrevia: “a) Como pessoa: ser um homem atencioso, afável, acolhedor, amigo, simples e humilde, deveras humano; b) Como religioso: dioturnamente e em todo lugar, lembrar que sou consagrado a Deus, ser uma presença amiga no convívio comunitário e cooperar responsavelmente dentro da Província e da Congregação; c) Como padre:  servir ao povo com amor, com dedicação de bom pastor, e ter respeito e carinho pelos pobres e pelos enfraquecidos na .”

Para realizar este desejo profundo e complexo, ele reconhecia que precisava “ser persistente no cultivo pessoal e no projeto de vida”, habituar-se à metodologia (observar, registrar, avaliar), “intensificar e melhorar a qualidade da oração individual”, “estabelecer ações diárias e concretas de gratuidade”, melhorar os cuidados com a saúde e a higiene pessoal”, e, para conseguir tudo isso, “revigorar a vontade.” Daqui podemos concluir que a sua proverbial bondade era bem mais que dom natural...

Considerando tudo o que havia constatado sobre si mesmo e aquilo que acreditava, o Pe. Ceolin estabeleceu como objetivo para o ano 2000: “Suplicar ao Senhor sua ajuda vigorosa a fim de efetuar a conversão do meu insconsciente, relutante em abandonar seus apegos históricos, e assim tornar-me pessoa, religioso e padre segundo a vontade de Deus, a espiritualidade e o carisma dos Missionários da Sagrada Família.” Mais ou menos na mesma linha, no ano anterior, havia estabelecido: “Com humildade e docilidade ao Santo Espírito e com o coração e os olhos voltados para a Sagrada família, tratarei de intensificar perseverantemente minha formação permanente em todas as dimensões da vida.”

Ao desdobrar e concretizar sua meta em seis dimensões, o Pe. Rodolpho mostra que não brincava com a resposabilidade pelo próprio crescimento. Eis o que estabeleceu. Na dimensão pessoal: “Exercitar minha vontade; retomar semanalmente meu projeto de vida para efetuar registros e asvaliações, às segundas-feiras à noite; levantar-me às seis horas da manhã.” Na dimensão comunitária: “Ajudar gratuitamente na lavação da louça e limpeza; ser mais alegre e comunicativo no grupo de vivência; ser menos censurador e mais propositivo, com todos.

Dimensão cultural: “Praticar a metodologia proposta no PEP e Plano de Formação; participar dos cursos de formação da Província e Diocese; escrever um artigo para o Bertheriano a cada dois meses.”  Dimensão espiritual: “Participar dos encontros semanais da Palavra-Vida, como instrumento de crescimento espiritual; fazer ao menos dois retiros anuais; dedicar meia-hora à oração individual, três vezes por semana.”

Dimensão pastoral: “Preparar-me em tempo para as homilias e fazê-las de forma mais propositiva, menos moralistas e mais breves; visitar e ser mais presente junto aos pobres do bairro; participar dos encontros de reflexão e avaliação pastoral na paróquia e no IMT.” Dimensão econômica: “Libertar-me do fumo, antes do pentecostes; desfazer-me de roupas, ficando com as necessárias; zelar com o que pertence à casa e à Província; ser transparente e modesto nos gastos pessoais.”

Mas, além de estabelecer metas corajosas e meios empenhativos, o Pe. Rodolpho também tomou as devidas precauções para que o seu Projeto de Vita não ficasse na pura intenção. Por isso, estabeleceu que todo mês reservaria “ao menos meio-dia para um mini-retiro individual, dedicando à oração e à avaliação, tomando por base o Projeto de Vida” e partilharia esta avaliação com os coirmãos da comunidade de vida, no caso, os próprios junioristas, e com outro coirmão da direção provincial! E concluía seu Projeto de Vida com uma prece que nos dá a medida da sua grande alma: “Senhor, sem ti, o quê poderei realizar?... Sabes quão fraco sou! Vem em meu auxílio com os dons do Espírito Santo. Amém!

Espero que estes quatro breves textos, que são praticamente uma transcrição integral do Projeto de Vida do Pe. Ceolin, tenham ajudado e celebrar sua memória e a pintar um retrato, tão provisório quanto parcial, desse nosso querido e saudoso coirmão. Que ele descanse em paz e que sua vida seja fecunda e nos inspire sempre mais.

Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tempo do Natal - Batismo de Jesus

A compaixão é o cumprimento de toda a justiça
Local onde Jesus foi batizado, no rio Jordao
O hábito batizar as crianças logo que nascem não pode obscurecer nossa inteligência e nos levar a esquecer que o batismo pregado e realizado por João Batista não gozava de estima junto às autoridades religiosas. Esta prática não lhes parecia ortodoxa. Tinha conotações de insubordinação e de inovação claramente inaceitáveis, claramente contrárias aos interesses e à doutrina do templo. A festa do batismo de Jesus nos ajuda a compreender mais claramente o sentido deste rito cristão.
Os doutrores da lei ensinavam que os incontáveis pecados do povo ignorante suscitava a ira de Deus, que havia fechado o céu e encerrado sua comunicação com a humanidade. O povo estava acostumado aos anúncios ameaçadores e à violência simbolizada na quebra da cana rachada e na extinção da frágil luz das velas... A lei judaica dizia que só o templo e seus agentes autoizados, mediante sacrificios e holocaustos, poderia lavar culpas e perdoar pecados.
João Batista ousa contrariar estas prescrições e práticas. Proclama que Deus não cobra nada para perdoar, e anuncia que a água abundante do rio Jordão lava as culpas que pesam sobre as costas dos mais pobres. Pede que se aproximem todos aqueles/as que desejam endireitar as estradas da própria vida e da sociedade, que querem “verter” sua vida noutra direção e reestabelecer a justiça. Como os três magos mostraram claramente no natal, João Batista recorda, muitos anos depois, que caminhos da graça de Deus n­ão passam necessariamente por Jerusalém e pelo templo...
Uma multidão de gente cansada e abatida, vergada sob o peso de uma canga de leis e condenações, acorre a João num lugar perdido à beira do rio Jordão. Gente humilde e humilhada, pobre e empobrecida, ignorante e ignorada, anônima e taxada de pecadora. Gente com fome de tudo: de pão, de justiça, de beleza, de graça, de acolhida, de cidadania. Todos os habitantes de Jerusalém, da Judéia e da região do rio Jordão saem à procura do profeta de hábitos simples e palavras exigentes.
Já adulto e prestes a assumir sua missão pública, Jesus deixa a Galiléia e vai à procura de João Batista em meio a essa gente, anônimo, na mesma fila, com os mesmos sentimentos. Ninguém percebe nada de diferente. Como tantos/as outros/as, também ele deseja endireitar caminhos, nivelar colinas, eliminar desníveis. Ele quer chamar o centro para a periferia e a periferia para o centro e preparar um povo bem disposto.
João pressente nessa atitude algo radicalmente novo, uma atitude que lhe parecia em desacordo com as práticas usuais. Percebe que está em curso uma inversão revolucionária. “É eu que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” Mas o Batista descobre que a justiça não pode ser realizada parcialmente. A encarnação de Deus deve atingir a humanidade em sua dimensão mais profunda: ele entra na fila dos pecadores de todos os tipos, se confunde e identifica com eles.
De muitos modos, especialmente na sua solidariedade com os excluídos, Jesus Cristo manifestou ao mundo a compaixão de Deus, sua incrível capacidade de padecer-com, de assumir o lugar dos últimos, das vítimas. Mas é também exatamente por isso que, no seu batismo, a voz do Pai diz que este filho é também a expressão mais profunda e gloriosa da sua complacência, do seu prazer, da realização plena do seu ser. Deus não é apenas compaix­ão mas também complacência!
Por que o Pai ama e se agrada do Filho? Porque Jesus passa no mundo fazendo o bem, mostrando que Deus não discrimina pessoas ou religiões. E faz isso assumindo o caminho do serviço, o papel de Servo. Ele revela a paternidade de Deus recriando os vínculos que irmanam a todos, começando pela acolhida dos últimos. Bem diferente do porta-voz que, anunciando os terríveis decretos do rei, simbolicamente quebrava uma cana e apagava uma vela...
Deus querido, Pai e Mãe dos homens e mulheres que aceitam o desafio de renascer da água e do Espírito, do sonho e da Palavra: te agradecemos porque nos acolhes como filhas e filhos amados, como servos e servas deste povo que amas. Conserva-nos no caminho do teu Filho, para que sejamos o próximo de uma gente que se sente cana vergada e pavio que se esvai. Faz de todos/as os/as batizados/as fator de aliança dos fracos, instrumento de justiça para quem está perto e quem está longe. E não nos deixes cair na tentação de uma justiça parcial ou superficial. Assim seja! Amém!


Pe. Itacir Brassiani msf

(Isaías 42,1-7 * Salmo 28 (29) * Atos dos Apósatolos 10,34-38 * Mateus 3,13-17)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Pe. Rodolpho Ceolin msf: um auto-retrato (3)

Pe. Ceolin: um auto-retrato provisório (III)

Depois de termos apresentado traços da auto-biografia e da “profissão de fé” do Pe. Ceolin, vamos vislumbrar hoje alguns traços do “auto-retrato” que capta como ele se sentia e se via no início do ano 2000. Falando um pouco a contra-gosto de si mesmo, ele escrevia no seu Projeto de Vida: “Considero-me uma pessoa dotada de boa inteligência, embora já não possua mais uma boa memória. Sou bastante perspicaz, com um bom grau de criatividade e espírito inovador. Adapto-me com facilidade face ao novo. Sou compreensivo e bondoso, e tolerante com as faltas alheias.” Em 1999, registrava ainda: “Um tanto alegre e chistoso, dotado de bastante bondade e compreensão”. Como ler isso escrito pelas suas próprias mãos, sem risco de inflação do ego, mesmo depois que ele nos deixou...

Interrogando-se sobre o que, dentre tudo o que vivia e fazia, lhe proporcionava mais satisfação, o Pe. Ceolin escrevia: “Ser Missionário da Sagrada Família, ter a Sagrada Família como modelo; ajudar, através do misnitério, os penitentes e enfermos a recuperar a alegria, a esperança e a paz; celebrar a eucaristia, vendo-me inserido no mistério do amor de Deus, sendo uma presença de amor, esperança e consolo junto às pessoas mais humildes e carentes; ver os coirmãos unidos entre si e cooperando com a Província; ver os postulantes, noviços e junioristas abraçarem a vida religiosa com firmeza.” Possamos nós encontrar nossa alegria em coisas tão simples quanto importantes...

À pergunta sobre as maiores dificuldades e carências que sentia naquela fase da vida, ele respondia com impressionante e sincera auto-crítica: “Debilidade da minha vontade; uma cerca carência afetiva; inconstância na vida de oração e no cultivo pessoal; uma certa tensão interior, junto com a impaciência e insegurança levam-me a ser taciturno; mania de censurar os outros em público; excesso de moralismo e nagativismo. Vivo bastante insatisfeito comigo mesmo, em razão de alguns defeitos que não consigo corrigir.” A estas dificuldades pessoais ele acrescentava, em 1999, “a dependência do fumo”, “a mania de ser um sabe-tudo” e “atitudes irônicas com as pessoas”. Por fim, registrava: “Venho exercendo o ministério da formação meio a contra-gosto, por considerá-lo desgastante, devido à minha idade e mentalidade”.

Da fato, no ano 2000, já com setenta anos de idade e uma saúde que não era das melhores, o Pe. Rodolpho era responsável pela caminhada formativa dos junioristas e vivia com eles no Bairro Castelarin, em Santo Ângelo, que ele mesmo descrevia como “bairro pobre e de periferia, social e religiosamente muito carente, com grande número de pessoas desempregadas”. E acrescentava: “Em nosso meio, ainda restam sinais e vestígios de violência e marginalidade, outrora assustadoras”. Sobre sua vivência com os junioristas e seus compromissos pastorais, escrevia: “Convivo com doze junioristas, estudantes de teologia. Nossa residência está cercada de famílias pobres e humildes. Envolvo-me bastante pastoralmente com o povo da Igreja matriz, das comunidades dos bairros e do interior da paróquia da Sagrada Família.”

Nesta situação pessoal e social muito concreta, nosso saudoso coirmão apontava aquilo que, na sua própria percepção, deveria “encarar com mais seriedade e método”: “O cultivo pessoal programado e perseverante; o revigoramento da vontade, através de exercícios simples que conheço; intensificar e melhorar a qualidade da oração; manter o cuidado com a saúde e a higiene pessoal; estabelecer ações diárias e concretas de gratuidade.”

Não é bonito e instigante se defrontar com uma pessoa que, nesta idade e depois de ter desempenhado tantas responsabilidades de coordenação, reconhece tão serenamente os próprios limites e carências e se propõe tão humildemente caminhos e práticas concretas que sustentem seu desejado processo de crescimento humano e espiritual?

Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Seis meses da Páscoa do Pe. Ceolin

Recordando os seis meses da partida do Pe. Ceolin, tenho a alegria de partilhar um belissimo testemunho escrito pela grande amiga Inez Maciel (Entre-Ijuis).

De flores, pães, pássaros e cacos de vidro...

Num momento dolorido em que o Pe. Itacir postou uma das tantas anotações do querido e saudoso Pe. Ceolin inventei de dizer: “Ita, você  tem que editar um livro, sei lá, com todas essas passagens para que quem o conheceu; faça uma boa memória de alguém tão especial, pra que aqueles/as que perderam de conviver com ele, saibam de quem estamos falando...” Bendita hora! O Itacir lançou-me o desafio: “Você não quer passar para o papel o  que vivenciou?!” Senti-me desafiada, não pelo belo prazer de escrever, mas pelo respeito em conservar a história desse anjo.
Conheci o Pe. Ceolin no Instituto Missioneiro de Teologia (IMT). Eu era uma simples funcionária, ele professor! O certo é que quando ele entrava na biblioteca, onde eu trabalhava, o ambiente se enchia de graça. Era como que uma luz, uma força, naquele lugar solitário, cheio de mofo, cheio de livros... Com meu ar apimentado, dizia: “Sua bênção seu Padre!” E ele graciosamente tomava minha mão e respondia: “Sê benta, minha filha!” Sempre com aquela carinha de rir...
Eu nunca gostei de trabalhar com papel. Eu gosto é de gente! Mas foi preciso... Queixando-me disso pra ele, certa vez ele disse: “Minha filha, você é uma privilegiada: morar no meio de tanta gente silenciosa... Tu podes conhecer o mundo, viajar por muitos lugares, saber coisas que ninguém sabe...” De fato! Daquele dia em diante não reclamei mais dos livros e comecei a ler um pouco, viajar, sonhar, conhecer pessoas e lugares, descobrir coisas que ninguém sabia... Meu trabalho se tornou mais feliz!
Tive a graça também de tê-lo do meu lado, várias vezes em que coordenei o retiro de Mulheres do Movimento de Cursilhos de Cristandade (MCC). Coisa querida!... Um dia convidei-lhe para falar sobre a Graça. Coisa graciosa! Lá no Seminário da Sagrada Família, em Santo Ângelo sempre tem bandos de pássaros fazendo uma algazarra toda, dia e noite.... Num dado momento ele disse: Graça é esse bando de passarinhos que cantam aqui nesse lugar tão distante do barulho. E nos desafiou a escutar o canto dos pássaros... “Façam silêncio! Escutem!...” Por incrível que possa parecer, nenhum pássaro cantou... Silenciaram... Hoje, relembrando, eu me arrepio, porque  ele não perdeu o rebolado e disse: “Pois é!... Eles também fizeram silêncio para receber a graça....” Achei que as mulheres cairiam na risada, mas nós choramos copiosamente...
Noutro retiro de mulheres, na hora da missa, a liturgista esqueceu as hóstias... Ele olhou pra ela e disse: “Mulher não temos pão! Vá até a cozinha e traga algum...” Envergonhada, ela foi buscar o pão. Enquanto isso ele fez uma profunda catequese em cima da “comunhão” , do significado do ter e não ter pão, sobre o significado da partilha!
Mamãe estava acamada há mais de um ano e nove meses, e a gente se revezava no cuidado... Na sexta-feira, a partir do meio-dia, eu deveria estar na coordenação do retiro do MCC... Ela admirava muito meu trabalho. Na terça-feira, dois dias antes de nos deixar, ela me perguntou: “Filha, que dia mesmo você vai pro seminário?” E eu respondi: “Na sexta ao meio-dia...” Perguntei: “Por quê, Mamãe?” Ela disse: “Não, por nada, só queria saber....” Ela faleceu na quinta-feira... Enterramos Mamãe às cinco horas da tarde. Na sexta ao meio-dia lá estava eu, um pouco receosa, porque meu marido me dissera: “Tu não deverias ir... Ou vão achar que você não está nem aí pra sua mãe, ou vão te chamar de aparecida...” Pois bem! Na sua mensagem, em determinado momento, à noite, o Pe. Ceolin convidou para uma oração e disse: “Bem vinda, Inêz! Deixe que os mortos enterrem seus mortos... Sua Mãe deve estar muito orgulhosa de você... Ela te deu tempo de vir servir essas irmãs...” Quem pode com isso?
Como Jesus, o Pe. Ceolin às vezes também se zangava... Um dia contatei com ele para dar uma mensagem no retiro. Não gosto de lembrar... Havia acontecido uma coisa feia no nosso grupo... E ele respondeu: “Não vou! Chame o Padre lá do rincão dos coquinhos!...” Chorei muito naquele dia. Eu não tinha culpa de nada. E aprendi que os deuses e os anjos também se zangam. No primeiro encontro que tivemos, lá estava ele sorridente – seu sorriso era enigmático: a alegria se misturava com um certo sarcasmo – e com o mesmo coração, no caminho, conosco. Então descobri que os deuses e os anjos não guardam rancor!
Tive oportunidade de conviver com essa figura. Tão divina e tão humana. Um sábio! Numa celebração eucarística – ele já estava doentinho – passou mal... A gente percebia que ele não estava bem. Terminada a consagração, ele me olhou e, como sempre disse: “Mulher, chegou a tua hora. Termine a missa pra mim...” Ele estava era roxo, a boca sem cor... Me assustei com ele e com a “missão” que me dava... Fiz tudo direitinho. No final, uma mulher veio e me falou: “Bah, agora eu sei que nós mulheres também podemos chegar perto do ‘sagrado’...” Contei pra ele depois. Na sua seguinte oportunidade ele comentou o episódio e perguntou: “O que é o ‘sagrado’?...
Mulher gosta de tudo bonitinho, direitinho. Um dia ele estava lá na frente do grupo falando sobre os sacramentos e, de repente, vi no meio das flores uma rosa. Olhei para as coordenadoras e perguntei: “O que faz aquela rosa espetada no meio da planta? Quem é que colocou ela lá? Está destoando de tudo....” Mas eu não poderia ir lá e retirá-la naquele momento... Quando o Pe. Ceolin fez a introdução ao sacramento do matrimônio, pegou “a rosa espetada” e disse: “Muitas de vocês já receberam uma rosa de um filho, do namorado, do marido... O Que significa esse gesto?” Todas responderam num eco só: “Significa o amor!” Ele tornou a perguntar, com a rosa na mão: “Mas essa rosa é o amor?” Ficamos caladas... “Pois é”, disse ele. “Assim é o sacramento: sinal do amor...” Pois não é que a rosa espetada se tornou um sacramentinho... Ele havia colocado aquela rosa lá...
Numa celebração eucarística em que ele me chamou – ou foram os anjos  que me enviaram? – para servir o altar (ele era bem despachado nas palavras), me disse: “Mulher, vem aqui, servir a mesa do banquete... Ou você ainda está no tempo em que se acreditava que as mulheres eram só pra lavar a louça?” Eu fui. Depois de tomar o vinho, de um cálice de vidro, ele me passou o cálice... Ao tomar o cálice, olhei no fundo do mesmo e – por isso falei que foram os anjos que me enviaram! – vi no fundo do cálice uns cacos de vidro... Fiz de conta que bebi, dei um jeitinho de colocar água no vinho e o derramei discretamente sobre as flores, sem que ninguém visse... Ele me olhou sem entender nada. E eu disse: “Depois conversamos... Deixa assim...” Quando contei-lhe o que havia acontecido, ele falou: “Pois é!... Pois é!.. Meu sacrifício não vive por si mesmo... Ele tem um motivo, um significado... E é isso que me dá confiança... Vai saber e entender o que ele quiz dizer...
A Gladis Monteiro e eu coordenávamos outro retiro de mulheres. Lembra disso Gládis?... O Ceolin fora convidado para falar sobre o encontro com Cristo. Ele falava exatamente de Jesus e a mulher no poço... Para mim, uma das mais belas passagens dos evangelhos... De repente, no meio da conversa, ele sumiu pra trás do altar... Quem conhece o Seminário sabe... Nós nos olhamos, já prontas pra ir atrás dele, quando ele volta e coloca no chão um pocinho de artesanato, muito lindo... E continua falando: “Quem bebe desta água...” Não é mesmo surpreendente? Divinamente humano? Apaixonante?
Um dia, falando de suas crises que havia enfrentado, disse: "Eu quero ter o direito de ser quem sou! Não recuso o limite, as dificuldades, a crise... São realidades humanas que nos tocam e nos ajudam..."
E por fim quero ainda dizer que tenho essas anotações e muitas outras no meu caderninho... Talvez ele não falado exatamente assim. Mas é assim que tenho anotado e copiei o que ele dizia...
Tem pessoas que não deviam morrer. Mas como isso não é possível, pelo menos que essas “parábolas” fiquem registradas eternamente. Porque não é justo que se perca tanta sapiência.  Quantos anjos e santos/as no meio de nós... Assim, simples! Anonimamente....
Inêz Terezinha Maciel

Solenidade da manifestação de Jesus

Deus não pertence a nenhum povo ou religião!
Com os magos, aproximemo-nos da gruta-estábulo de Belém para acolher e reconhecer o rei-servo que nos faz livres, que nos conduz ao melhor de nós mesmos/as, que nos leva para fora do estreito círculo dos interesses mesquinhos e dos medos disfarçados. Contemplemos a glória de Deus que brilha nas suas criaturas e deixemos aos seus pés nossos melhores dons: o desejo de uma humanidade tecida de infinitos gestos de aproximação e de solidariedade, inclusive entre quem não pertence à mesma religião ou à mesma nação.
Homens de outros pagos e diferentes crenças, os magos chegam a Jerusalém vindos do oriente, guiados por um sinal que brilha no firmamento. Mateus nos diz que eles batem às portas dos chefes políticos e dos líderes religiosos pedindo ajuda para decifrar os sinais e descobrir o caminho. Os escribas mostram saber, mas são incapazes de se mover. Herodes fica sabendo das coisas e é assaltado pelo medo de perder o poder. Os magos aprendem e ensinam que Aquele que merece honra e reverência não está nos palácios, nem nas capitais...
Por mais que o profeta a elogie, Belém está entre as cidades mais insignificantes de Judá. Somente a teimosia e a fé dos pobres podem esperar algo de um lugar tão insignificante. Pois é em direção a Belém que os magos seguem, e é lá que encontram a inocente alegria com feições de um menino, deitado numa manjedoura, sob o olhar cuidadoso de uma mãe. Como os magos, sábios estrangeiros e pagãos mal-vistos, somos chamados a redescobrir nossa fé original em lugares egrupos humanos que tomam distância do terrível vírus do poder.
O Pe. Berthier observa que o mesmo fato que faz a alegria dos magos provoca também o medo de Herodes. O que motiva a viagem dos magos coloca em alerta a capital e a classe dirigente de um pobre país dominado. Mas nada desencoraja estes peregrinos da fé: nem a indiferença dos líderes religiosos, nem o medo do rei submisso ao império, nem o paradoxo da estrebaria. Que prova para uma fé pouco robusta!... Mas eles compreenderam que aquela era a morada mais adequada para quem vinha para abater os poderosos e elevar os humildes.
Herodes aconselhara que os buscadores estrangeiros fossem a Belém e voltassem trazendo-lhe preciosas informações. Mas eles caminhavam levando presentes, e não cadernos de anotações... A estrela-sinal cumpre seu papel transitório, mas o sinal de que a humanidade tem um novo líder é o “menino deitado na manjedoura”. Os magos reconhecem a realeza de Jesus Menino e lhe oferecem ouro. Proclamam sua divindade oferecendo-lhe incenso. Mas também prenunciam sua morte, que seria desde cedo tramada nos corredores dos palácios, oferecendo-lhe mirra.
Este é o núcleo da fé que professamos: um Deus que se sente bem assumindo a carne humana e que, por amor, não recusa a cruz. Como é possível que tenhamos nos afastado tão perigosamente disso? Como entender que as igrejas tenham transformado a estrebaria em palácios, os sábios estrangeiros em reis que barram migrantes, os pastores em imperadores? Como é possível que tenhamos “descafeinado” uma fé tão revolucionária, reduzindo-a a uma espécie de analgésico para as dores de uma má consciência?
Paulo fala de um mistério até então desconhecido e finalmente a ele revelado: que todos os povos e religiões particpam da mesma herança do Reino de Deus e são membros do corpo de Cristo em igual dignidade com os judeus. Com isso, Paulo derruba todos os muros que separam  e hierarquizam, atraindo também a raiva de muitos compatriotas. Em nome de Deus, ele nega toda superioridade religiosa. Na raiz da nossa fé está esta alegre descoberta da igualdade, sem privilégios.
É a ti que nos voltamos, Deus dos humildes, Deus envolto em fraldas, destino e refúgio de todos os que peregrinam nas estradas de um mundo desigual. Dá-nos palavras e sinais que guiem nossos passos inseguros no rumo certo. Não deixes, bom Deus, que tua Igreja se detenha nos palácios, que quase sempre escondem prisões. Ajuda-nos a reconhecer tua presença na Belém de todos os homens e mulheres e a ver as diversas religiões como diferentes caminhos que conduzem ao encontro contigo. E ensina-nos caminhos novos, que nos levem a um mundo novo. Assim seja! Amém!


Pe. Itacir Brassiani msf

(Isaías 60,1-6 * Salmo 71 (72) * Carta aos Efésios 3,2-6 * Mateus 2,1-12)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Palavra na vida

(Jo 1,1-18) Último dia do ano... Hoje, dominados pela ansiedade de preparar a ceia de revelion e pela urgência do rito simpaticamente pagão da passagem de ano, do adeus ao ano que termina e das boas vindas ao ano novo, poucos pensam na oração... Quase todos esperamos, ilusioriamente, que o ano que se inicia seja diferente, que marque uma virada... Esperamos que seja assim, mas, como nos recorda a liturgia, isso não é o essencial. A visão cósmica de João, que lemos no evangelho de hoje, o resumo de tudo que ele escreve já no fim da vida e coloca no início do seu explêndido evangelho, nos oferecem a perspectiva adequada. O tempo é o lugar onde se realiza a salvação, o lugar que Deus nos oferece para que nos conheçamos a nós mesmos e reconheçamos sua presença, para que entendamos o que devemos fazer nesta terra. Hoje somos convidados a fazer uma memória do ano que termina, ano difícil ou complexo, fim de uma etapa e novo início para a Igreja, que somos convidados a reler e interpretar à luz da fé. Assim, podemos recitar o “glória” que encontramos no Salmo e cantar o “te Deum”, o reconhecimento de que Deus é o Senhor da história e dizer-lhe, se quiser, pode ser também senhor da nossa, da minha pequena história. História que Deus enche de luz. Obrigado pelo tempo que nos deste, Senhor. E por aquele que nos ainda darás. (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, dezembro/2013, p. 210)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ano Novo - Jornada Mundial da Paz

Que o Senhor nos mostre seu rosto e nos dê sua paz!
Celebramos o início de um novo ano à luz do mistério do Natal. Nascido e acolhido também por nós e no meio de nós, Jesus de Nazaré pacifica o mundo estabelecendo relações novas, baseadas na justiça, inclusive na justiça internacional. E cumpre a promessa de Deus e a esperança humana através de Maria e através de cada um de nós, dos homens e mulheres de boa vontade, dos/as líderes autênticos/as e das organizações que não se resignam à paz aparente e baseada no equilíbrio de forças ou no terrorismo estatal.
O autêntico espírito do Natal prossegue em nossas comunidades e a liturgia continua nos convidando a penetrar mais profundamente o mistério da encarnação. Hoje, contemplamos a chegada dos pastores à gruta Belém. Lá eles encontram Jesus no seio de uma família pobre e migrante. Ficam vivamente impressionados com o que lhes é dado ver, comparando tudo com aquilo que tinham ouvido. Como pode uma criatura tão frágil ser portadora da Paz a todos os homens e mulheres de boa vontade? Esta é a pergunta dos pastores, de Maria e também a nossa...
Jesus recebe o nome proposto pelo Anjo a Maria no anúncio-convite. Ele se chama boa notícia da salvação: Deus salva seu povo do pecado. De fato, ele agirá libertando, perdoando. Em Jesus fomos libertados do débito que temos conosco mesmos/as e com os outros por não conseguir realizar a utopia que realmente sonhamos. Estamos livres do peso de termoa ficado aquém ou de termos errado o alvo. Deus não espera que cheguemos heroicamente a ele. Ele mesmo vem decididamente ao nosso encontro. Ele é nossa Paz!
Mas a Paz que Jesus nos dá não está unicamente no fim do caminho, na plena confraternização entre lobos e cordeiros, serpentes e crianças. A paz autêntica está no caminho, na caminhada, nos/as caminhantes. Está nas pessoas inconformadas que ousam mudar, renovar, começar de novo, e isso a cada dia, e não apenas no início do ano. Está nos homens e mulheres que adquiriram a sabedoria que vê nas sementes as flores e os frutos que virão depois, que encarnam nas relações cotidianas os sonhos e utopias que, literalmente, parecem não têm um lugar.
O último versículo do evangelho de hoje nos faz saber que Jesus foi circuncidado. Com este rito, Jesus é oficialmente acolhido no mundo do judaísmo, tornando-se partícipe da sua história e das suas utopias. Mas, como nos lembra o Pe. Berthier, com esta marca física ele está a nos dizer também que quer levar no seu corpo a marca do pecado e o peso da dor que faz gemer a terra. E é do ventre desta dor que ele desperta a dignidade de todas as criaturas e o grito em coro: “Abbá, pai querido!” E é compartilhando esta dignidade que ele nos dá a Paz.
Para os cristãos, o fundamento da Paz é a relação com Jesus Cristo. Nascido de mulher e sob a Lei, Jesus conduz todas as pessoas à liberdade, começando pelas que são vistas e tratadas como últimas, pelas que são colocadas à margem. Ele confirma que Deus reconhece todos/as como filhos/as e nos convida a superar as relações pautadas pelo medo e pela escravidão. Todos/as estão em paz com Deus! Todos podem proclamar “meu Papai querido!” É  aqui que a glória de Deus se espalha na terra e começa um ano e um mundo novos.
Na medida em que somos adotados/as como filhos e filhas, somos também herdeiros/as. E qual é a herança que recebemos? Nada menos que o Reino de Deus, o horizonte que deu sentido e força à vida de Jesus Cristo, a “shalom” que proporciona o “tudo de bom” que repetimos nestes dias de passagem, o convívio sadio que descansa em bases de justiça. Somos herdeiros/as do sonho de uma humanidade que se reconheça como família de nações, povos, etnias e religiões, diferentes mas igualmente respeitáveis, dignas e  irmãs.
Deus querido, Pai e Mãe! Neste dia em que começamos um novo ano, faz-nos construtores/as de Paz. Ensina-nos a compreender o anseio de Paz e de comunhão que pulsa no coração do mundo. Suscita em nós o canto que brota da dignidade indestrutível de filhos e filhas. Ensina-nos a respeitar e apreciar todas as expressões religiosas. E dá-nos a graça de experimentar, como Maria, José e com os pastores, a alegria de reconhecer a grandeza de Deus na fragilidade humana. Assim seja! Amém!


Pe. Itacir Brassiani msf

(Números 6,22-27 * Salmo 66 (67) * Carta aos gálatas 4,4-7 * Lucas 2,16-17)

A Palavra na vida

(Lc 2,36-40) Ana, uma mulher que ficou viúva já na juventude, que passa o tempo dando uma mão nas atividades domésticas (a única coisa que restava às mulheres numa religião essencialmente masculina!) no renovado templo de Jerusalém... São poucos/as os/as que reconhecem e acolhem o Senhor: Maria e José, os pastores, Simeão e, agora, esta mulher tão parecida com as vovós das nossas paróquias, sempre nos primeiros bancos, debulhando o terço e participando de todas as celebrações... É bonito constatar que entre as poucas pessoas que acolhem o Deus Menino estão exatamente elas... As tantas “Anas” que continuam firmes e garantem um mínimo de continuidade com o passado. O Senhor não tem o nariz empinado, não corre atrás de novidades a qualquer custo, não deseja estar cercado apenas de pessoas jovens e dinâmicas: também as pessoas idosas sabem viver com verdade a grande novidade do nascimento de Deus. Assim, o Senhor está ao nosso lado em todos os momentos da nossa vida. Então, irmãs e irmãos idosos que, como Simeão e Ana, frequentais assiduamente o templo, saibam que a vossa presença e o vosso serviço são preciosos aos olhos de Deus. Permaneçam na fé e na alegria do Natal!... (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, dezembro/2013, p. 202)

Pe. Rodolpho Ceolin msf: um auto-retrato (2)

Pe. Ceolin: um auto-retrato provisório (II)

Neste segundo texto da série, continuo recolhendo e oferecendo alguns retalhos literários que nos ajudam a compor o auto-retrato do Pe. Ceolin. No seu Projeto de Vida do ano 2000, respondendo à pergunta “qual é meu credo?”, ele responde suscintamente: “a) Que fui criado escolhido e abençoado por Deus que me ama desde todo sempre;  b) Minha de que Jesus Cristo é o único Mestre; c) Que a vida de oração é o pulmão e o coração do discípulo e apóstolo; d) Que Projeto Pessoal de Vida obriga ao auto-cultivo persistente, condição indispensável para a convivência fraterna e para servir o povo com amor; e) Que todas as atividades devem ser planejadas e avaliadas, com a ajuda de uma atualizada metodologia, pois as pessoas organizadas avançam mais; f) Que, para tudo isso, é fundamental que se tenha humildade em grau suficiente.”

Antes disso, em 1999, ele escrevia que, entre os princípios dos quais não abria mão estavam a convicção “de que a humildade é condição básica, requisito ‘número um’, para acolher o amor primeiro de Deus, para viver o discipulado, para auto-aceitar-se, para a vivência da comunhão fraternal e servir ao povo de Deus e aos coirmãos com alegria e gratuidade; de que é necessária a re-opção diária pela vida consagrada como Missionário da Sagrada Família”. Percebe-se que o credo que deu sentido à sua vida não continha apenas princípios religiosos: a mística era completada pela ascética, os valores universais eram ajudados pelas opções metodológicas.

Ao compartilhar sua visão de Deus, o Pe. Rodolpho nos oferece uma maravilhosa síntese daquilo que acreditava e pregava: “Vejo Deus como trindade, una no amor e na ação, princípio unificante de todas as diferenças entre as pesoas e integrador da pessoa toda. Na pessoa de Jesus, vejo e sinto que aquele que mais ama, mais simples e humilde se faz, e vice-versa. Jesus é o rosto e o coração amigo e misericordioso do Pai e do amor-ternura do Espírito Santo. Deus é o meu criador e o senhor da minha vida.”

O Pe. Ceolin demonstra clara e lúcida consciência do vínculo intrínseco entre o Deus do Reino e o Reino de Deus, especialmente da dimensão histórico-política do projeto de Deus: “Retenho que o Reino de Deus seja o projeto de Deus, já presente e ainda em construção, a respeito de cada pessoa, da humanidade inteira, do universo todo. É a relação das pessoas humanas na igualdade, independente de sexo, de idade, de cultura e raça. É a derrubada dos ídolos do poder dominador, do acúmulo egoísta de riqueza e do hedonismo coisificante das pessoas. O Reino de Deus é a comunhão fraternal e solidária daqueles que praticam a justiça e respeitam a liberdade alheia. Reino é missão, tarefa de cada pessoa, de toda instituição civil ou religiosa.”

E vejam agora esta bela síntese de antropologia cristã! “Considero ‘pessoa’ quem conseguiu efetuar a integração de si mesmo com as demais pessoas e com as criaturas todas. É ‘humana’ quando consciente, dialogante, comungante, criativa, responsável, simples e humilde. A pessoa humana é perfectível, vocacionada a ser imagem cada vez mais perfeita do criador. Pessoa humana é quem consegue ser protagonista e cooperador do Espirito no seu aperfeiçoamento global. É quem conseguiu também assumir sua corporeidade e integrar sua sexualidade, tornando-se capaz de estabelecer relações sensíveis, próximas e amigas, de cunho respeitoso e vitalizador com seus semelhantes.”

Sua visão pessoal de Igreja e de Vida Religiosa, o Ceolin a resume com as seguintes frases: “Vejo a Igreja como lugar e mediação congregadora dos discípulos de Jesus que buscam viver a vida de comunhão e, consequentemente, a partilha solidária e sua missão neste mundo. Todos quantos são construtores do Reino de Deus também a ela pertencem, embora a ela não se tenham incorporado explicitamente. Vejo a Vida Religiosa como graça e dom de Deus dados a muitos, aos quais um certo número de homens e mulheres dão acolhida e resposta, assumindo o viver casto, pobre e obediente de Jesus, estabelecendo com Deus, pelos votos, uma aliança de amor pública ou em segredo, num instituto aprovado pela Igreja. Vejo a vida religiosa de natureza comunitária como cenáculo no qual o Espírito cultiva e envia ao mundo os discípulos amados de Jesus.” No seu Projeto de 1999 dizia ainda: “O homem e a mulher são templos e moradas da Trindade... É um ser inacabado e, portanto, que necessita da ajuda da graça”.

Falando da Congregação à qual pertencia, o Pe. Ceolin, mais uma vez, explicita sua satifação e sua gratidão por ser Missionário da Sagrada Família. Isso não lhe parecia um acaso, nem um peso, mas uma opção pessoal e uma graça recebida. Em 1999, escrevia: “Os caminhos da Providência levaram-me à Congregação, que eu desconhecia totalmente...”  No Projeto de Vida do ano 2000, diz: “A Congregação dos Missionários da Sagrada Família é minha família de opção. Felizardo me sinto em ser Sagrada Família, pela espiritualidade e carisma que nos são próprios. Nela sei que posso realizar-me como pessoa consagrada, embora seja simples e pequena no grande elenco de institutos de vida consagrada. Até nisso somos Nazaré!...”

Vejamos agora como ele assimilou e expressou o essencial da nossa identidade e missão: “Nosso carisma consiste em evangelizar: levar o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo e promover a vida abundante, preferencialmente àqueles que estão longe, aos excluídos social e eclesialmente da cidadania e de condições humanamente dignas. Para isso é básico que anunciemos Jesus Cristo, suscitando a nas pessoas e movendo-as a se tornarem solidárias entre si por uma vida em que as relações primem pela justiça e pela fraternidade.”

Finalmente, ele nos brinda também uma síntese aberta da inspiração espiritual da Sagrada Família de Nazaré. "Nossa espiritualidade encontra na Sagrada Família o modelo de viver e de agir segundo a missão e o carisma. A encarnação e a missão expressam e conduzem à vida de comunhão entre nós e com as demais pessoas, meta de nossa missão. Nisto estaremos vivendo na prática o discipulado evangelizador. Para a vivência da nossa espiritualidade encontramos na Sagrada Família algumas atitudes fundamentais, como: a atenciosa escuta do Espírito; o humilde acatamento da vontade de Deus; à proximidade àqueles que mais sofrem, os mais indefesos da sociedade.” Ademais, em 1999 escrevia que faz parte da nossa espiritualidade a “aceitação de si mesmo e de sua história”, a aceitação da Galiléia e de Nazaré, “malvistos e malfalados, ser do segundo ou do terceiro escalão no contexto eclesial”.

Itacir Brassiani msf

domingo, 29 de dezembro de 2013

A Palavra na vida

(Mt 2,13-15.19-23) O Natal nos orbiga a perguntarmo-nos se desejamos deveras um Deus tão frágil e inerme. A mediação desta família e dos trinta anos vividos em Nazaré nos oferecem elementos ainda mais incisivos e intrigantes. Deus vai crescendo na cotidianidade de uma família de gente pobre, plena de fé e atraída pelo mistério. Somos acostumados a dividir o tempo entre tempo de trabalho e tempo de festa: uma coisa é o tempo repetitivo e cansativo dos dias e outra o tempo no qual preparamos com alegria intensa um acontecimento significativo; um é o tempo de trabalho, outro é o tempo inebriante dos dias festivos... Assim acontece com nossa fé: nos domingos separamos, e nem sempre, cinquenta minutos de missa e descansamos, e depois, nos dias da semana, mergulhamos no trabalho. Nazaré nos ensina que Deus vem morar conosco, veio habitar em nossa casa; que na cotidianidade e na repetição dos gestos aparentemente insignificantes podemos realizar o Reino de Deus, fazer uma experiência mística, crescer no conhecimento de Deus. Podemos – é sério! – elaborar uma teologia das fraldas, um tratado místico das tarefas dos filhos/as, uma espiritualidade do empréstimo a ser pago... A extraordinária novidade do cristianismo é exatamente o seu caráter absolutamente ordinário. Deus decidiu habitar e assumir a banalidade, dar sentido ao inexorável e aparentemente vazio passar dos dias...  (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, dezembro/2013, p. 196)