sábado, 31 de janeiro de 2026

Em que consiste a felicidade?

Jesus mostra qual é a verdadeira felicidade

977 | Tempo Comum | 4ª Semana | Mateus 5,1-12

Buscamos nas bem-aventuranças, que fazem parte da primeira grande pregação ou catequese de Jesus para iluminar nossa vida na primeira semana do mês de fevereiro, a quarta do tempo comum. Depois da experiência forte por ocasião do batismo e das tentações no deserto, Jesus inicia sua pregação na Galileia, e chama os primeiros discípulos. Ele percorre a região “pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo” (Mt 4,23).

Na cena de hoje, Jesus vê diante de si as multidões que vêm de toda a região, e assume sua missão de Mestre e Formador de discípulos. Tendo os discípulos e o povo cansado e abatido diante dos ele fala da novidade jubilosa do Reino de Deus, que reverte a situação de sofrimento e dominação na qual eles vivem. Ao mesmo tempo, pede o engajamento daqueles que desejam segui-lo. E não se trata de cumprir leis minuciosas, mas de assumir um novo estilo de vida!

Por isso, Jesus evita apresentar um simples manual de procedimentos, um conjunto de mandamentos, mas indica uma direção, esboça um mundo bom e alternativo, uma comunidade-semente, um caminho de felicidade compartilhada. Ele oferece várias ilustrações sobre como podemos acolher a vontade de Deus, o Reino de Deus. Não é uma descrição de diferentes virtudes a serem exercitadas, mas alguns exemplos das prioridades do Reino de Deus.

Estas ilustrações podem ser divididas em dois grupos de quatro: as primeiras (v. 3-6) abordam de situações de opressão (pobreza, aflição, impotência e ausência de justiça) que são simplesmente revogadas com a chegada do reino de Deus; o segundo grupo (v. 7-12) apresenta ações humanas que brotam da acolhida da novidade de Jesus (misericórdia, integridade, promoção da paz e luta firme pela justiça). Estas são a razão e o caminho da felicidade.

Para Jesus, pobreza, opressão, injustiça, humilhação e a perseguição não são situações que devemos simplesmente aceitar resignadamente, mas algo que devemos deplorar, denunciar e superar. O Reino de Deus que ele anuncia e inicia provoca essa mudança, e não há caminho de felicidade fora do engajamento nesse processo de mudança. O engajamento se mostra na postura misericordiosa, nas atitudes que promovem a paz, na eliminação da duplicidade de atitudes e palavras.

 

Sugestões para a meditação

Retome as bem-aventuranças uma a uma, observando o porquê da felicidade relacionada em cada aspecto

Podemos dizer que é nisso que reside nosso sonho, nossas aspirações, a meta de tudo o que fazemos e buscamos?

Em qual desses oito aspectos do caminho do discípulo você precisa crescer mais? E qual deles lhe dá mais alegria?

Chamados a ser livres

Onde começa nossa liberdade?

Na carta que escreve aos Gálatas, o Apóstolo Paulo exorta “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, fiquem firmes, e não se deixem prender de novo ao jugo da escravidão. Vocês foram chamados para a liberdade! Mas que a liberdade não sirva de pretexto para a carne. Por meio do amor, ponham-se a serviço uns dos outros” (5,1.13).

Quem segue Jesus Cristo e o reconhece como seu “único e suficiente salvador”, não importa a tradição cristã com a qual se vincula, têm um ponto como firme e seguro: nele e por ele recebemos a salvação, fomos libertados e justificados, e não por qualquer tipo de mérito ou conquista pessoal, mas por incondicional e generosa graça de Deus.

O dom que recebemos e chamamos liberdade também recebe outros nomes, igualmente dignos e significativos: salvação, redenção, libertação, regeneração, vida nova, vida no Espírito, etc. Mas vivemos essa nova condição neste mundo, com tudo o que significa viver a condição humana: em meio a ambivalências, contradições, lutas e buscas.

É por isso que Paulo, depois de afirmar que Cristo nos libertou para vivermos livres, acrescenta que fomos “chamados para a liberdade”, para a vida plena, para a salvação. Ou seja: vivemos essa condição na esperança e na luta contra as forças que desumanizam, separam, aprisionam e se opõem ao amor e ao serviço aos outros e ao bem comum.

Mas a condição de vocacionados à liberdade não pode ser pretexto para a indiferença e o egoísmo. A liberdade é um chamado que nos impulsiona a viver segundo o Espírito, a amar e servir a todos e sempre. É um dinamismo espiritual que nos torna livres do medo e das ambições, solidários e criativos para plantar as sementes de “um mundo outro”.

Os medos exercem sobre nós um poder imobilizador que tende a anular a nossa da nossa liberdade. E o medo da morte é um dos mais poderosos. Por isso, a raiz da liberdade que recebemos em Jesus Cristo é o dom e a promessa de vida eterna. Vencido o medo da morte, renascemos criativos e corajosos para defender a vida, livres para dar a vida.

Estejamos atentos ao engano daquele apelo da loja de armas: “Aqui começa a sua liberdade!” É uma mentira mortal, uma ilusão, uma negação da verdade cristã. Uma arma não nos torna mais livres ou seguros, mas mais agressivos, ameaçadores, e, no limite, violentos. A arma não tem força para regenerar ninguém, mas tem o poder de corromper o que ainda nos resta de confiança, sociabilidade e humanidade.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Ondas que assustam

Que a fragilidade dos sinais não nos assustem!  

976 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,35-41

Recorrendo a diversas parábolas, Jesus havia acabado de desenvolver uma longa catequese sobre o misterioso dinamismo do Reino de Deus. Diante da rejeição das autoridades religiosas, e frente à incompreensão dos próprios familiares, Jesus sente necessidade de intervir para manter a esperança e ativar a paciência. E faz isso em plena travessia do território conhecido para a “outra margem”.

Parece que a missão de Jesus estava dando poucos frutos. Dominados por medos e amarrados por preocupações mesquinhas, os discípulos do tempo de Marcos enfrentam as dificuldades de modo muito diferente de Jesus. Atravessando o mar revolto da vida no mesmo barco, Jesus permanece confiante e tranquilo, enquanto que eles se apavoram. Os discípulos têm dificuldade de aceitar o dinamismo e as exigências e do Reino de Deus. Não conseguem confiar a Deus a própria vida.

Parece também que a Palavra de Jesus, a Boa Notícia do Reino encontrou nos próprios discípulos uma terra dura, rasa ou infestada de ervas daninhas. Eles têm a impressão de que correm o risco de morrer, e não percebem que o que está morrendo neles é a Boa Notícia do Reino de Deus. Pensam que Jesus não se importa com eles, e não percebem o tanto que os ama. Eles ainda precisam percorrer um longo caminho para que uma fé que os sustente. O medo das perdas ainda se sobrepõe à confiança.

Jesus é acordado por eles, e fala forte, ordenando que silenciem estas agitações e se cale a voz dissidente do medo que ameaça seus discípulos. Eles precisam conhecer melhor quem é este profeta da Galileia, esse mestre que ensina com autoridade e enfrenta as forças e instituições que se opõem ao querer de Deus. Muitos caminhos e muitas travessias os esperam.

Os discípulos da primeira hora precisam superar a crônica divergência com Jesus. Precisam descobrir, compreender e acolher o cerne da sua pregação e missão: o Reino de Deus chegou, e é graça que liberta; ele pede mudança das pessoas e estruturas; quem o segue precisa dar prioridade aos pobres e só pode contar com os meios mais frágeis; e este caminho passa pela cruz, pelo dom de si mesmo. Em que medida também nós ainda precisamos assimilar essa realidade?

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, relacionando-o com as repetidas crises nas quais o seguimento de Jesus coloca seus discípulos

Você consegue perceber a agitação e o medo de muitos católicos na passagem de uma fé intimista a um engajamento no mundo?

Não ocorre também a nós pensar que Jesus está longe ou indiferente dos ventos e ondas que ameaçam a humanidade?

Será que também nós não necessitamos conhecer melhor quem é esse Jesus em quem dizemos ter posto nossa confiança?


A luz das bem-aventuranças

Escutar atentamente as Bem-aventuranças

Quando Jesus sobe à montanha e se senta para anunciar as bem-aventuranças, há uma multidão em redor, mas só os discípulos se aproximam para escutar melhor a sua mensagem. O que escutamos hoje, nós, discípulos de Jesus, se nos aproximamos dele?

Felizes os pobres de espírito, os que sabem viver com pouco, confiando sempre em Deus. Feliz uma Igreja com alma de pobre, porque terá menos problemas, estará mais atenta aos necessitados e viverá o evangelho com mais liberdade. Dela é o reino de Deus.

Felizes os mansos, os que vivem com coração benevolente e clemente. Feliz uma Igreja cheia de mansidão. Será um presente para este mundo cheio de violência. Ela herdará a terra prometida.

Felizes os que choram, porque padecem injustamente sofrimentos e marginalização. Com eles pode-se criar um mundo melhor e mais digno. Feliz a Igreja que sofre por ser fiel a Jesus. Um dia será consolada por Deus.

Felizes os que têm fome e sede de justiça, os que não perderam o desejo de ser mais justos nem o empenho por um mundo mais digno. Feliz a Igreja que busca com paixão o reino de Deus e a sua justiça. Nela viverá o melhor do espírito humano. Um dia o seu anseio será saciado.

Felizes os misericordiosos que agem, trabalham e vivem movidos pela compaixão. São os que, na terra, mais se parecem com o Pai do céu. Feliz a Igreja a quem Deus arranca o coração de pedra e dá um coração de carne. Ela alcançará misericórdia.

Felizes os que promovem a paz com paciência e fé, buscando o bem de todos. Feliz a Igreja que introduz no mundo paz e não discórdia, reconciliação e não confronto. Ela será filha de Deus.

Felizes os que, perseguidos por causa da justiça, respondem com mansidão às injustiças e ofensas. Eles ajudam-nos a vencer o mal com o bem. Feliz a Igreja perseguida por seguir Jesus. Dela é o reino de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A pequena semente

Aprendamos a conjugar urgência e paciência

975 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,26-34

Na passagem imediatamente anterior, Jesus ensina que, como a semente pode ser esterilizada pelas condições da terra que a recebe, a luz pode ser escondida por falta de compreensão ou de coragem. A Boa Notícia do Reino de Deus precisa brilhar de modo inequívoco na vida cotidiana dos discípulos e discípulas de Jesus, caso contrário, a fé que proclamam com a boca será absolutamente estéril.

Hoje Jesus continua falando do mistério do Reino de Deus, agora com as parábolas do semeador confiante e da pequena semente. Por trás destas parábolas está uma experiência desoladora: o resultado da pregação de Jesus e os sinais do reino de Deus estavam sendo pouco encorajadores; ele fora abandonado pela família, era perseguido pelas autoridades, e precisava andar discreto, longe das cidades.

Com estas duas parábolas, Jesus quer despertar nos discípulos tanto a paciência quanto a esperança. Ele afasta a ilusão de que a transformação provocada pelo reino de Deus possa ser rápida e triunfal. O importante é encontrar o solo correto, lançar as sementes e acreditar que elas têm em si mesmas a força para se desenvolver e derrubar os poderosos.

Jesus também chama à esperança, pois aquilo que hoje pode parecer pequeno e insignificante, como a desprezível e quase invisível semente de mostarda, se transformará em árvore frondosa, capaz de abrigar os povos. O caminho do Reino de Deus, que é caminho pavimentado pela paciência e pela esperança, é o caminho da não violência e da luta pela justiça; a liderança se torna serviço, o sofrimento frutifica em triunfo e a morte desabrocha em vida.

Ensinando isso, Jesus não desaconselha nosso engajamento lúcido e perseverante nas lutas sociais e todas as demais legítimas causas. Ao contrário, ele lembra que a simples agitação ativista não nos livra da areia movediça da injustiça. Precisamos da sábia paciência e da esperança do homem do campo para não destruir com os pés apressados aquilo que fazemos com as mãos operosas.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção as duas parábolas, relacionando-as com a parábola do semeador e com as ações libertadoras de Jesus

Será que, com nossa agitação e nosso ativismo eclesial, não corremos o risco de atrapalhar o dinamismo próprio do Reino?

Será que também nós às vezes não demonstramos frustração com os aparentes pequenos frutos do nosso trabalho missionário?

Que atitudes são fundamentais para que nosso engajamento seja uma efetiva colaboração com a dinamismo do Reino de Deus?


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A luz da Palavra

A Palavra de Deus deve brilhar e iluminar

974 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,21-25

No trecho do evangelho de ontem, meditamos e rezamos a partir da parábola da semente da Boa Notícia do Reino de Deus que é jogada em diferentes terrenos: três deles frustram a intenção do semeador, mas um deles produz com abundância, e compensa o fracasso dos outros. Estes são os discípulos que entendem, acolhem, praticam e perseveram no dinamismo do Reino de Deus.

Mas precisamos falar com prudência. Quem pensa que já entendeu o mistério do Reino de Deus pode não ter entendido nada! O próprio Jesus nos adverte: “Prestai atenção no que ouvis!” O Evangelho de Deus não nos é dado para ser parte de um rito religioso, para ser guardado meticulosamente por exegeses e interpretações eruditas e cuidadosas, nem para ser lido apenas em ocasiões especiais ou encontros protocolares.

O Evangelho, tal como foi ensinado e vivido por Jesus, deve brilhar como luz que nos ajuda a ver as pessoas com o olhar de Deus e apreciar os acontecimentos com lucidez e responsabilidade. É ele que revela a maldade escondida em pacotes cuidadosamente embrulhados e a mentira solenemente escondida em discursos tão falaciosos quanto piedosos. É à luz do Evangelho que se revela a relação intrínseca entre fé e vida, entre salvação e libertação.

A Palavra de Deus que, no evangelho de ontem, era comparado à semente, é hoje é comparado com a luz. Da mesma forma que a semente pode ser esterilizada pela inadequação da terra que a recebe, a luz pode perder seu brilho ou desaparecer por falta de compreensão ou falta de coragem. A Boa Notícia do reino de Deus precisa brilhar de modo inequívoco na vida cotidiana dos discípulos e discípulas, ou a fé que proclamam com a boca é uma falácia.

Na exortação Verbum Domini, o Papa Bento XVI escreve que, em Jesus Cristo, a Palavra de Deus, pela qual tudo é criado, se encolhe e abrevia, faz-se tão simples e pequena que, sem perder sua força e eloquência, cabe uma manjedoura. Mas, na cruz, a Palavra se faz silêncio, não porque Deus tenha decidido se calar definitivamente, mas porque, em Jesus crucificado por amor, Deus disse tudo o que tinha para comunicar à humanidade sobre sua natureza e seu amor por suas criaturas. Esta é a generosa medida de Deus! Até onde podemos chegar nós?

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, relacionando-o com a parábola da semente e com o anúncio do Reino e as ações libertadoras de Jesus

O que temos feito com a Boa Notícia do Reino de Deus? A escondemos na liturgia? Deixamo-la na superfície da mente?

Ou caímos na tentação de apossar-nos dela, pervertendo-a em lei pesada ou em doutrina abstrata e sem ressonância na vida?