domingo, 26 de maio de 2013

Fatos & Personagens: João Calvino

João Calvino

Em 1564 morria, com 54 anos de idade, João Calvino, reformador da Igreja na Suíça. Calvino nasceu em Noyon, região da Picardia (atual França), em 1509. Destinado a uma carreira eclesiástica, foi enviado a Paris, mas preferiu os estudos de direito aos estudos teológicos, concluídos em Orleães.

Aproximando-se das idéias protestantes, Calvino começou a escrever A istituição da religião cristã, que continuará a rever e aperfeiçoar até 1560, tanto a versão latina como a versão francesa. Passando por Genebra, calvino foi convidado por Guilherme Farel a colaborar na organização da Igreja reformada local. Então, dedicou-se de corpo e alma à obra reformadora, oferecendo à Igreja de Genebra uma forma jurídica, litúrgica e espiritual, e redigindo o catecismo. Estava convicto de que somente uma reforma real da vida e dos costumes pudesse ajudar os cidadãos de Genebra a interiorizar o retorno à fé das primeiras comunidades apostólicas que os reformadores propunham.

A teologia de Calvino, inteiramente inspirada na sua pregação e fundada sobre a exegese das Sagradas Escrituras lidas no seu conjunto, se difundiu rapidamente em toda a Europa. De fato, ele conseguiu integrar o princípio fundamental do luteranismo – a justificação mediante a fé – com a valorização do aspecto visível da fé e da comunidade eclesial, com uma renovada atenção à ação interior do Espírito Santo no coração dos fiéis. A tensão sempre viva entre interioridade e exterioridade permitirá à reforma calvinista uma atitude de substancial disponibilidade ao diálogo com as instituições e uma certa adaptabilidade aos diversos contextos culturais nos quais a tradição reformada será acolhida.

“Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presunçoso, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina Graça. " (João Calvino)


(Comunità de Bose, Il libro dei testimoni, San Paolo, Milano, 2002, p. 259)

Solenidade da S. Trindade

Oração à Santíssima Trindade

Bendito sejas, Pai, que em vosso infinito amor nos tem dado a vosso Unigênito Filho, feito carne por obra do Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem Maria, e nascido em Belém faz agora dois mil anos.
Ele se tinha feito nosso companheiro de viagem e tinha dado novo significado a historia, que é um caminho feito juntos, no trabalho e no sofrimento, na fidelidade e no amor, até aqueles céus novos e até aquela terra nova, na que Tu, vencida a morte, serás tudo em todos.
Adoração e glória a Vos, Trindade e Santíssima, único e sumo Deus!
Faça Pai, que por tua graça o ano jubilar seja um tempo de conversão profunda e de alegre retorno a Vos;  Concedei-nos que seja um tempo de reconciliação entre os homens e de redescobrir a concórdia entre as nações; tempo no que as lanças se troquem em rosas, e ao fragor das armas sucedam cantos de paz.
Adoração e glória a Vos, Trindade e Santíssima, único e sumo Deus!
Sustenta, Pai, com a força do espírito, o empenho da Igreja em favor da nova evangelização e guia nossos passos pelos caminhos do mundo para anunciar a Cristo com a vida, orientando nossa peregrinação terrena a Cidade da luz. Fazei Pai, que brilhem os discípulos de vosso Filho por seu amor fazia os pobres e oprimidos; que sejam solidários com os necessitados, e generosos nas obras de misericórdia, e indulgentes com os irmãos para obter eles mesmos de Vos indulgência e perdão.
Adoração e glória a Vos, Trindade e Santíssima, único e sumo Deus!
Fazei Pai, que os discípulos de vosso Filho, purificada a memória e reconhecidas as próprias culpas, sejam uma única coisa, de sorte que o mundo creia. Outorga que se dilate o diálogo entre os seguidores das grandes religiões, de sorte que todos os homens descubram a alegria de ser teus filhos. Fazei que a voz suplicante de Maria, mãe das gentes, se unam às vozes orantes dos apóstolos e dos mártires cristãos, dos justos de todo povo e de todo tempo, para que o ano Santo seja para todos e para a Igreja, motivo de renovada esperança e de júbilo no espírito.

Adoração e glória a Vos, Trindade e Santíssima, único e sumo Deus!
A Vós, Pai onipotente, origem do cosmos e do homem, por Cristo, o Vivente, Senhor do tempo e da historia, no espírito que santifica o universo, a Adoração, a honra, a glória, hoje e nos séculos sem fim.
Amém!
(João Paulo II)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Fatos & Personagens: Nicolau Copérnico


Monumento em homenagem a Copérnico
em Torun, sua cidade-natal (Polonia)
Os hereges e o santo

No dia 24 de maio de 1543, morreu Nicolau Copérnico. Morreu enquanto entravam em circulação os primeiros exemplares do seu livro que demonstrou que o mundo gira ao redor do sol.

A Igreja proibiu o livro, “por ser falso e contrário às Sagradas Escrituras”, mandou para a fogueira o sacerdote Giordano Bruno, por divulgá-lo, e obrigou Galileu Galilei a negar que tivesse lido e acreditado no que leu.

Três séculos mais tarde, o Vaticano se arrependeu de ter assado Giordano Bruno e anunciou que ia erguer, em seus jardins, uma estátua de Galileu Galilei. A embaixada de Deus na terra precisa de um bom tempo para fazer justiça...
Pedestal do monumento 

Mas ao mesmo tempo em que perdoava esses hereges, o Vaticano transformou em santo o cardeal da inquisição, Roberto Bellarmino, são Roberto que estais no céus, que havia acusado e sentenciado Bruno e Galileu.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 170)

Solenidade da Santíssima Trindade


Em Deus vivemos, caminhamos e sonhamos.
(Pr 8,22-31; Sl 8; Rm 5,1-5; Jo 16,12-15)

A festa da Santíssima Trindade é um convite a mergulhar no mistério de Deus e deixar que ele nos envolva, abrace e dinamize. Dialogando com os intelectuais de Atenas, Paulo afirma que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). Deus é o fundamnento de todas as formas de vida, o dinamismo de todas as transformações, o horizonte do sentido definitivo. Nossa vida se desenrola no Filho, o caminho; sob o Espírito Santo, o guia; em direção ao Pai, origem e meta. Celebremos e meditemos sobre o mistério de Deus revelado em Jesus Cristo, conscientes de que falar sobre Deus é falar sobre o mistério mais profundo do ser humano. E esta é uma tarefa tão difícil quanto necessária.
“A tribulação gera constância...”
No trecho do Evangelho proclamado na festa de hoje, Jesus fala aos discípulos no contexto da ceia, num clima de apreensão. Ele não está preocupado em discorrer sobre Deus recorrendo a conceitos abstratos e técnicos. Seu objetivo é prevenir os discípulos a respeito das dificuldades que deverão enfrentar e encorajá-los frente às perseguições que sobrevirão. Jesus evita explicitamente sobrecarregar os discípulos com doutrinas tão difíceis quanto inócuas.
Depois de antecipar sacramentalmente na ceia o dom de si que se radicalizaria na cruz, Jesus lembra aos discípulos que sua vida e seu ensino têm consequências que eles ainda não são capazes de compreender. “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora.” E acena para o dom do Espírito da Verdade, à luz do qual eles saberão entender o dinamismo e a meta do projeto de Deus, o caminho do amor crucificado.
Vivemos também nós tempos complexos, marcados pelo isolamento, pela fragmentação e pelas acusações dirigidas – nem sempre sem fundamento – contra a Igreja católica e suas lideranças. E a atitude mais adequada dos cristãos católicos seria abandonar a auto-defesa ingênua ou mentirosa e se confiarem com humildade e abertura ao Espírito da verdade, deixando que ele os guie à Verdade plena, mesmo que esta seja dolorida. A Igreja precisa efetivamente viver, caminhar e se inspirar em Deus.
“Tudo o que o Pai tem é meu...”
E Deus é um horizonte e um caminho de vida, e não uma equação matemática ou uma muralha inexpugnável. Ao elaborar o conceito ‘trindade’ ou ‘tri-unidade’ a tradição cristã não está propondo uma charada ou um enigma a ser decifrado. Sobre Deus é preciso falar em termos de profundidade e de intimidade, e não em termos de quantidade. Não há porque quebrar a cabeça na tentativa de conjugar as três pessoas com uma única natureza. Esta não é a questão fundamental.
O conceito ‘trindade’ pretende sublinhar, em primeiro lugar, que Deus é mistério de comunhão e de liberdade. E isso é importante no contexto de uma cultura que reduz tudo a fragmentos isolados e a relações fluídas e numa visão de Igreja centrada na autoridade hierárquica e na obediência submissa e obsequiosa. Sendo dinamismo vivo de comunhão mediante o reconhecimento do outro e o dom generoso de si, Deus é caminho e imagem de uma humanidade aberta, relacional e solidária, como também de uma Igreja que se organiza como uma comunidade de dons e ministérios.
É a partir desta comunhão essencial que podemos entender e realizar nossa vocação à liberdade. Na Trindade, a liberdade se expressa como força de ação e dinamismo de doação que não se submete ao imperativo da preservação de si mesmo e dos próprios interesses, mas se rege pelo princípio da afirmação da dignidade e da integridade do outro enquanto outro. Daqui emerge uma proposta de Igreja liberta da tentação de agir mediante o medo e a imposição, e uma imagem de pessoa humana centrada no reconhecimento da dignidade do próximo.
“Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações...”
Em outras palavras, o conceito ‘trindade’ sublinha que Deus é dinamismo de amor e de lealdade. É verdade que atualmente a idéia de amor se tornou refém de romantismos e sentimentalismos, da liquidez incontrolável e inconsistente das relações. Por isso mesmo, só entendemos o que significa o verbo amar olhando para a vida concreta de Jesus Cristo. Sua inteira história, de Belém a Jerusalém, da encarnação à páscoa, das sinagogas ao templo, da acolhida dos pecadores às refeições com eles, da compaixão pelos pobres às denúncias contra os opressores, é um narração viva do que é o amor. “Compreendemos o que é o amor porque Jesus deu a sua vida por nós...” (1 Jo 3,16).
Esta é a glória ou o brilho de Deus e, ao mesmo tempo, a honra e a celebridade conferida à pessoa humana pelo Espírito Santo. Paulo não hesita em afirmar que nossa honra está na glória de um Deus que, por causa do seu amor leal, não foge à cruz. E é por isso que, como ele, não podemos deixar-nos intimidar pelas dificuldades e perseguições que a missão acaba suscitando. Pois “a tribulação gera constância, a constância leva a uma virtude provada, e a virtude provada desabrocha na esperança”.
A qualidade do amor se manifesta na lealdade. O Pai é a fonte e origem de um amor que se comunica no Filho e permanece com ele na sua compaixão pela humanidade. O Filho é o amado do Pai, aquele que responde amando sem medida Aquele que o ama e o ser humano gerado neste mesmo amor. O Espírito é nada mais que este dinamismo pessoal de dom de si, comum ao Pai e ao Filho e derramado em todas as criaturas. O Filho e o Espírito, cada um a seu modo, nos asseguram que este amor perdura no tempo. Deus nos ama desde o seio materno e mesmo depois das nossas muitas e reiteradas faltas.
“Quando preparaste os céus, ali eu estava...”
A criação inteira manifesta o rosto de um Deus amigo. Precisamos tomar distância do estéril debate que divide criacionistas e evolucionistas e lembrar que, afirmando que Deus é o criador de tudo o que existe, estamos querendo dizer que a criação é dotada de beleza e de bondade, e que há uma comunhão fundamental que sustenta e une todas as criaturas singulares. A fraterna amizade que une todo o criado é mais importante e fundamental que qualquer subsequente hierarquização.
Como a salvação e a santificação, também a criação é uma obra trinitária: do Pai, pelo Filho, no Espírito. O trecho do livro dos Provérbios que lemos na celebração de hoje é sugestivo e belíssimo. A criação não é um fatigante trabalho realizado por um agente isolado e superior. A comunhão é anterior à individuação das coisas, e a criação é uma obra comunitária! À frente e ao lado de quem cria hà uma Presença, alguém que é para o criador o que é mestre-de-obras para o construtor. Mais ainda: a obra criadora de Deus se cumpre no encanto, na alegria e no gozo da comunhão.
Daí que precisamos superar uma visão mercantilista das coisas e ler nas criaturas a mensagem sillenciosa de quem as criou e as fez nossas parceiras e amigas. “Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. O dia transmite ao dia a mensagem, e a noite conta a notícia a outra noite...” (Sl 19/18). “Quando olho para o céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: que coisa é o homem, para dele te lembrares, que é o ser humano, para o visitares?” (Sl 8,4-5)
“Da boca das crianças te procuras um louvor...”
A boca dos poderosos não consegue anunciar e louvar Deus convenientemente. Como o hábito do cachimbo deixa a boca torta, o poder acaba deixando seus traços na palavra dos que a ele estão aferrados. O poder se dá bem com mandatos e exigências, mas não sabe suplicar e agradecer. Para ele, a essência e o fundamento das coisas é a lei, a hierarquia e a utilidade. Tudo o mais não passa de fumaça transitória, de poesia inconsequente ou de perigosa heresia.
Ao reconhecer extasiado a glória de Deus brilhando em todas as criaturas, o salmista afirma que é na boca das crianças e bebês, nos lábios das pessoas que não foram domesticadas pela doutrina do poder, que Deus encontra o louvor perfeito que lhe é devido. É neste louvor inocente e reverente que também podemos encontrar as forças para enfrentar os poderes inimigos e opressores, inclusive aqueles que se apresentam diabolicamente em nome de Deus.
Glória a ti, Deus Pai-Mãe, fonte de todas as formas de vida e defensor dos pobres. Glória a ti, Deus-conosco, libertador de todas as prisões, caminho de vida. Glória a ti, Espírito Santo, motor da integral libertação, derramado gratuita e abundamente em todas as criaturas como bondade, beleza e irmandade. Glória a ti, Deus-comunidade de quem tudo recebe a vida, o movimento e a existência.
Pe. Itacir Brassiani msf

terça-feira, 21 de maio de 2013

Nesse Nome somos livres!


Seu Nome é Jesus

Deus veio até a casa, desdizendo-se de sua glória.
Pediu licença ao ventre de uma menina sacudido por um decreto de César,
e se tornou um de nós: um palestino entre tantos, em sua rua sem número,
semiartesão de toscas tarefas, que vê passar os romanos e as andorinhas,
que morre depois, de morte ruim, matada, fora da Cidade.

Já sei que faz muito que o sabeis, que vo-lo dizem,
que o sabeis friamente porque vo-lo disseram com palavras frias...
Eu quero que o saibais de repente,hoje, quiçá,
pela primeira vez,absortos, desconcertados, livres de todo mito,
livres de tantas mesquinhas liberdades.

Quero que vo-lo diga o Espírito, qual machadada em tronco vivo!
Quero que O sintais como um esto de sangue no coração da rotina,
em meio a esta carreira de rodas entrechocadas.

Quero que tropeceis com Ele como se tropeça com a porta da Casa,
retornados da guerra, sob o olhar e o beijo impaciente do Pai.

Quero que O griteis como um alarido de vitória pela guerra perdida,
ou como o parto sangrante da esperança
no leito de vosso tédio, noite adentro, apagada toda ciência.

Quero que O encontreis, em um total abraço, Companheiro, Amor, Resposta.
Podereis duvidar de que haja vindo para casa,
se esperais que vos mostre a patente dos prodígios,
se quereis que vos sancione a desídia da vida.

Mas não podeis negar que seu nome é Jesus, com patente de pobre.
E não podeis negar-me que O estais esperando
com a louca carência de vossa vida rejeitada,
como se espera o sopro para sair da asfixia,
quando a morte já se enroscava ao pescoço,
como uma serpente de perguntas.

Seu nome é Jesus.
Seu nome é como seria nosso nome
se fossemos, de verdade, nós mesmos.
(Dom Pedro Casaldáliga)

Fatos & Personagens: o martírio de Tibbirine


Martírio dos trapistas de Tibbirine

No dia 21 de maio de 1996 um comunicado do Grupo Islâmico Armado – organização extrejmista argeliana – anunciava a execução dos sete monges trapistas do mosteiro Notre Dame de Atlas sequestrados dois meses antes. Foi a culminância de um itinerário de testemunho evangélico que tornou visível a presença do Emmanuel, o Deus-Conosco, em meio à inimizade que fere a humanidade.

O caminho dos monges de Atlas havia iniciado em 1938, com o estabelecimento de alguns deles na região de Tibbirine, com o objetivo de testemunhar silenciosamente, na oração e na amizade discreta, a fraternidade universal dos cristãos. Na década de 1960 a comunidade esteve prestes a ser fechada, mas experimentou um notável desenvolvimento espiritual, graças à intervenção direta de diversas abadias francesas e à direção do novo prior, Fr. Christian de Chergé.  Fr. Christian nos deixou alguns escritos de grande valor evangélico, nos quais desenvolve a makrothymía, a grandeza de ânimo de quem, como o Mestre, sabe ver o outro e o próprio inimigo com os olhos de Deus.  

Ao lado dele estarão seus coirmãos Bruno, Célestin, Christophe, Luc, Michael e Paul, compartilharando até à morte cada alegria e cada dor, cada angústia e cada esperanza, doando inteiramente a vida a Deus e aos irmãos argelinos. Com a precipitação dos acontecimentos eles tomaram juntos a decisão de permanecer na Argélia e construído profundos vínculos de diálogo e comunhão espiritual com os muçulmanos residentes na região.

A morte violenta destes monges, que chamou à atenção dos cristãos do Ocidente a possibilidade do martírio, presente numa vida cristã autêntica, transmitiu aos homens capazes de escutar a convicção de que somente quem tem uma razão pela qual está disposto a morrer tem verdadeiramente uma razão pela qual vale a pena viver.

Eis alguns trechos do testamento espiritual de Fr. Christian de Chergé.

Se ocorresse um dia – e pode ser hoje – de eu ser vítima do terrorismo que parece querer engolir todos os estrangeiros que vivem na Argélia, gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja e a minha família lembrassem que a minha vida foi doada a Deus e a esse país.
Peço-lhes que associem minha morte a tantas outras mortes igualmente violentas, mas esquecidas pela indiferença e pelo anonimato. Minha vida não tem mais valor do que outra qualquer. Nem menos. Em qualquer caso, não tem a inocência da infância.
Eu vivi o suficiente para saber que compartilho o mal que parece, infelizmente, prevalecer no mundo, e até mesmo em quem me atacar cegamente.
Quando chegar a hora, gostaria de poder ter um momento de lucidez que me permitisse pedir perdão a Deus e aos meus companheiros seres humanos, e ao mesmo tempo perdoar de todo meu coração aquele que estiver me golpeando.
Minha morte, é claro, poderia parecer dar razão àqueles que me julgaram ingênuo ou idealista. Mas essas pessoas precisam saber que finalmente vai ser liberdada a minha maior curiosidade. Se Deus quiser, poderei mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, para contemplar com ele seus filhos muçulmanos como Ele os vê, todos brilhando com a glória de Cristo, preenchidos com o dom do Espírito, cuja alegria secreta será sempre estabelecer comunhão, brincando com as diferenças.
E você também, meu amigo do último minuto, que não soubia o que eu estava fazendo. Sim, eu quero dizer para você também este "obrigado" e este a-Deus em cuja presença você vive. Que possamos nos encontrar novamente, como ladrões felizes no Paraíso, se quiser Deus, nosso Pai comum. Amém! Inch'allah.” (Argel, 1 de dezembro de 1993)

(Comunità de Bose, Il libro dei testimoni, San Paolo, Milano, 2002, p. 245))

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Fatos & Personagens: Ota Benga


Dia da diversidade cultural

Em 1906, um pigmeu caçado na selva do Congo chegou ao zoológico de Bronx, em Nova York. Foi chamado de Ota Benga, e foi exibido ao público, numa jaula, junto com um orangotango e quatro chimpanzés.

Os especialistas explicavam ao público que aquele humanoide podia ser o elo perdido, e para confirmar essa suspeita o mostravam brincando com seus irmãos peludos.

Algum tempo depois, o pigmeu foi resgatado pela caridade cristã.

Fez-se o que foi possível, mas não teve jeito. Ota Benga se negava a ser salvo. Não falava, quebrava os pratos da mesa, batia em quem quisesse tocar nele, era incapaz de fazer qualquer trabalho, ficava mudo no coro da igreja e mordia quem queria se fotografar com ele.

No final do inverno de 1916, depois de dez anos de domesticação, Ota Benga sentou-se na frente do fogo, se despiu, queimou a roupa que era obrigado a vestir e apontou para o coração a pistola que havia roubado.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 167)

domingo, 19 de maio de 2013

Fatos & Personagens: jornada de 35 horas


Um raro ato de lucidez

Em 1998, a França baixou uma lei que reduziu a trinta e cinco horas semanais a jornada de trabalho.

Trabalhar menos, viver mais: Tomás Morus tinha sonhado isso, em sua Utopia, mas foi preciso esperar cinco séculos para que enfim uma nação se atrevesse a cometer tamanho ato de bom-senso.

Afinal de contas, para que servem as máquinas, se não for para reduzir o tempo de trabalho e ampliar nossos espaços de liberdade? Por que o progresso tecnológico precisa nos dar desemprego e angústia?

Por uma vez, ao menos, houve um país que se atreveu a desafiar tanto absurdo. Durou pouco, a lucidez. A lei das trinta e cinco horas morreu dez anos depois.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 166)

Preparando a acolhida do Divino Espirito Santo


Ensina-nos a ler os sinais!

Espírito Santo, Tu que abres os olhos do nosso coração para discernir em todas as coisas sua dimensão interior, ajuda-nos a ‘ver’ a Realidade espiritual escondida nas palavras e nos sinais que Jesus de Nazaré multiplicou pelos caminhos da Palestina.

Espírito Santo, Tu que és a fonte do discernimento, dá-nos o olhar da fé, para que aprendamos a ‘ver’ através dos acontecimentos, pessoais e coletivos, pequenos e grandes, os sinais que Jesus Cristo realiza hoje por nós.

Espírito Santo, Tu que és o dinamismo da história, dá a cada um/a de nós a graça de ‘ver’ através das aspirações, dos sofrimentos e dos engajamentos dos homens e mulheres, dos sacramentos da Igreja, do grito dos profetas e profetizas, da vida dos santos e santas,dos frágeis brotos do amor, da justiça e da paz, os sinais da lenta construção do Reino e a presença dAquele que vem.

Espírito Santo, Tu que és a inteligência e a vigilância do coração, sacode nossa sonolência e nosso torpor e ensina-nos a ‘ver’ no vazio do cotidiano – um doente, uma reunião, uma viagem, o riso de uma criança, um passarinho, uma nuvem, um pôr-de-sol, uma flor, uma palavra, um silêncio, uma oração, uma pessoa que chora, uma carta, uma chamada telefônica, uma refeição em família, uma cruz numa encruzilhada... – os sinais do Reino que vem, passos do Cristo Vivo que nos convida cada dia a crescer amando.

(Michel Hubaut, Prières à l’Esprit Saint, Desclée de Brouwer, 1997, p. 83-84).

Dia dos migrantes e Festa dos Povos


Um encontro che provoca mudanças


Há 22 anos a Igreja de Roma celebra o Dia dos Migrantes promovendo a Festa dos Povos. Os ramos feminino, masculino e leigo dos Missionários Scalabrinianos se unem à Cáritas e à Pastoral dos Migrantes da diocese de Roma para patrocinar e organizar este evento já tradicional numa cidade que, não sem resistência, pouco a pouco se assume como multi-étnica e pluricultural.
Neste ano, a festa coincidiu com a solenidade de Pentecostes, e teve como lema “Encontro que provoca mudanças”. Portanto, a festa está se realizando hoje. Começou pela manhã, com a acolhida, na praça da basílica São João de Latrão, dos vibrantes e coloridos grupos de mais de cinquenta comunidades nacionais e étnicas que vivem em Roma e prosseguiu com uma bela e participada missa às 12:00, no interior da basílica.
A missa, presidida por Dom Matteo Zuppi, bispo auxiliar de Roma, exibiu as marcas de uma diversidade digna do Espírito Santo. As diferentes vozes, cores e ritmos ficou evidente nos cânticos: um coro multi-étnico cantou o canto de entrada; o ato penitencial foi animado por grupos de migrantes de Ghana, do Sri Lanka, da China e de Bangladesh; o hino de louvor foi dirigido pela comunidade de migrantes nigerianos; a entrada da bíblia foi cantada pela comunidade congolesa; o salmo responssorial foi cantado pela comunidade libanesa; a sequência de Pentecostes foi entoada pela comunidade brasileira; a aclamação ao Evangelho coube à comunidade de migrantes de Cabo Verde; o canto das oferendas foi responsabilidade da comunidade de indianos; o hino do hosana foi conduzido pela comunidade ucraniana; o canto da paz coube à comunidade de Madagascar; os cantos de comunhão foram conduzidos pelas comunidades filipina e polonesa; e o canto final foi puxado pela comunidade greco-católica da Romênia.
Cada comunidade cantou na sua língua! Mas as diversas línguas também foram ouvidas nas diversas partes da missa. A presidência e a homilia foram feitas, obviamente, em italiano; a primeira leitura, em romeno; a segunda leitura foi proclamada em língua espanhola; as preces foram feitas nas línguas swahili, albanesa, egipciana, etíope, kituba, francesa e eslovaca. Tudo isso em perfeita harmonia e sintonia, coisas que só podem vir do Espírito de amor, cuja missão é abrir portas e estradas, criar comunhão respeitando as diferenças.
Depois da missa, dezoito diferentes comunidades de migrantes (Bangladesh, Brasil, Bolivia, Cabo Verde, Chile, Congo, Colômbia, Eritréia, Filipinas, Ghana, Guatemala, India, Moldavia, Mauricius, Peru, Polônia, Romênia e Ucrânia) ofereceram mais de cinco mil refeições típicas por 5,00 euros. Os diferentes sabores completaram as diferentes cores e vozes. E a tarde está sendo ocupada (deixei a festa às 15:00) por manifestações folclóricas e culturais de mais de trinta grupos.
Na homilia, Dom Matteo Zuppi saudou calorosamente a beleza e a riqueza que a diversidade étnica oferece à cidade e à diocese de Roma. Lembrou que encontros como esse de hoje, mas também os múltiplos, cotidianos e às vezes tensos encontros entre os diferentes realmente nos transformam e, assim, mais cedo ou mais tarde, provocam também mudanças na sociedade e na cultura. E a Igreja não passa e não pode passar ilesa ou indiferente às mudanças trazidas pelo encontro de sujeitos tão diversos e originais.
Mas o bispo auxiliar de Roma lembrou também as dores e feridas que as diferentes comunidades de migrantes carregam no corpo e na alma. Como esquecer que muitos chegam a Roma fugindo da violência e da fome em seus próprios países, deixando longe os familiares e amigos, e depois de atravessar mil perigos e ameaças? Como não lembrar o sofrimento e o medo gerados pela burocracia estatal, esta ilegalidade que acusa os imigrantes de serem ilegais? Como esquecer que aos filhos de migrantes nascidos na Itália ainda é negada a cidadania italiana? Como não denunciar que a maioria dos imigrantes ainda é tratada como estorvo e ameaça, como cidadãos de última classe?
Ainda bem que a Igreja, ao menos em alguns dos seus serviços pastorais, acolhe e valoriza essa diversidade, cuida de suas feridas e promove os valores próprios de cada tradição. É claro que isso é pouco, e a Igreja ainda tem muito caminho a fazer naquilo que se refere à valorização da cultura e das tradições de cada povo. Mas, no núcleo da nossa fé, está a convicção de que Jesus derrubou os muros que separam e as pirâmides que hierarquizam, e não há mais diferença de dignidade entre cristãos e pagãos, ocidentais e orientais, hemisfério norte e hemisfério sul, homens e mulheres, escravos ou livres. Desde os primeiros passos da Igreja, este encontro entre diferenças aparentemente irreconciliáveis provocou mudanças que ainda não chegaram ao seu termo.
Itacir Brassiani msf