terça-feira, 4 de junho de 2013

Sagrado Coração de Jesus

Nosso Deus tem um coração, grande e humano!
(Ez 34 11-16; Sl 22/23; Rm 5,5-11; Lc 15,3-7)

A tentação de fazer de Deus uma imagem abstrata e de propor a mensagem cristã como se fosse somente doutrina está sempre nos rondando. O fé num Deus uno e trino, celebrada na festa da Trindade, pode virar uma questão de matemática. A boa notícia recordada na solenidade de Corpus Christi pode descambar numa discussão polêmica e fisicista. E acabamos representando o mistério de Deus mediante figuras abstratas ou ameaçadoras, como o triângulo, a lei, o olho. Até a cruz corre o risco de passar uma idéia parcial e doentia de um Deus sedento de sacrifícios. Imagens como o Cordeiro, a Mesa, o Pastor e o Coração não seriam mais adequadas?
“Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, emfaixarei a quebrada...”
De certo modo, a maior parte da humanidade vive em uma situação de exílio e dispersão. Exílio, dispersão, fratura, falta de referência e de horizonte,  sentimento de vazio e de carência não supõem necessariamente transgressão ou culpa. Trata-se mais de uma situação, da condição humana na história. Somos sempre menos do que desejamos ser. Nossos passos e projetos nem sempre nos levam à meta que nos atrai. Mas este é o chão no qual Deus vem ao nosso encontro e se deixa experimentar.
Cresce sempre mais a cosciência de que estamos em situação de vulnerabilidade: como a de uma ovelha que se perde do rebanho e se torna presa fácil da voracidade dos lobos; como rebanho que, na busca de pastagens cada vez mais raras e inacessíveis, é surpreendido pela escuridão da noite em pleno deserto; como ovelhas que se descobrem abandonadas ou manipuladas por aqueles que deveriam ser seus pastores e defensores. Esta é a terra na qual Deus vem nos procurar.
Ao peso inerente à própria condição humana se acrescenta o fardo produzido por um modo de vida que considera o ser humano como lobo do outro, por sistemas que geram ovelhas fortes e gordas às custas do trabalho e da desnutrição de outras, por decisões que priorizam a fabricação de armas de guerra ao cultivo de alimentos para o bem comum. Não dá para esquecer que nos últimos 10 anos os EUA aumentaram em 75% os gastos militares, chegando a 3% do PIB? E que no ano 2009, apesar de a economia mundial ter encolhido em 06,%, os gastos militares cresceram 4,9%?
“Quando éramos inimigos de Deus...”
Às vezes esta situação de dispersão, abandono e risco é agravada também pelas imagens de Deus viuculadas pelas religiões e ideologias. Precisamos superar imagens abstratas e distorcidas de Deus. Que consolação podemos encontrar naquela representação de Deus como um triângulo, composto de linhas e ângulos absolutamente simétricos, mas carentes de vida? Que orientação pode nos vir de conceitos herméticos como união hipostática, duas pessoas em uma natureza?
Algumas elaborações teológicas mais recentes fizeram esforços significativos na hercúlea tarefa de trazer a noção de Deus para dentro da cultura moderna. Mas o que significa concreta e existencialmente conceitos como Absoluto, Transcendente, Divindade? Correm o risco de passar mensagens ambíguas ou incompletas, como os antigos conceitos de Altíssimo, Onipotente e Senhor. E às vezes não fazem outra coisa que cavar um abismo entre Deus e ser humano, exluir de Deus qualquer traço de humanidade e reforçar a idéia de que somos inimigos de Deus.
“Fortalecerei a ovelha doente e vigiarei a ovelha gorda e forte.”
A Sagrada Escritura nos apresenta a imagem de um Deus vivo e caracterizado pela compaixão, e é isso que a solenidade do Sagrado Coração de Jesus quer colocar em evidência. Não precisamos ter medo de reconhecer traços antropomórficos em nossas imagens de Deus. Nunca nos livraremos disso! O que precisamos evitar é projetar na nossa idéia de Deus elementos de uma antropologia que exclui aspectos fundamentais como a croporeidade, a relação, o sentimento e a solidariedade.
Quando a tradição bíblica nos apresenta Deus como Pastor, está destacando a compaixão, o cuiadado, a proteção e a orientação que o caracterizam. Via de regra, Deus realiza este modo de ser mediante os homens e mulheres que chama a tomar conta dos seus semelhantes. E, segundo o profeta Ezequiel, se trata de se colocar no meio do povo, inclusive nos lugares em que estão exilados; de resgatá-lo das mãos daqueles que o dominam; de conduzi-lo a um lugar no qual se sinta em casa e  tenha boas condições de vida; de criar condições para que tenham o necessário repouso; de cuidar das ovelhas fracas e doentes; de vigiar para que as ovelhas fortes e gordas não dominem sobre as demais...
“A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.”
A solenidade de hoje quer sublinhar que Deus tem um rosto humano, tem um coração que ama apaixonadamente a humanidade. Convicto de que as dificuldades levam à perseverança e à virtude, que, por sua vez, desabrocha na esperança, Paulo insiste que Cristo deu sua vida por nós, sem levar em conta nossas fraquezas e impiedades. É difícil encontrar alguém que queira dar a vida por uma pessoa boa e meritória, mas “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores...”
Esta é a prova de que Deus nos ama, diz Paulo. Seu amor não se conjuga apenas no tempo passado e no tempo futuro, mas também no tempo presente, e em todas as pessoas. Mais que conceito, princípio, idéia ou equação, Deus é coração humano e humanizador. E é nisso que se baseia a firme esperança de que nosso destino é a plenitude feliz e não a nulidade vazia, assim como nossa certeza de que os oprimidos e excluídos serão conduzidos a uma situação de vida em abundância.
“Deixa as noventa e nove e vai atrás daquela que se perdeu...”
A imagem do pastor bom/belo nos ajuda a compreender por quem é que bate o coração de Deus. Com a parábola do bom bastor Jesus responde aos fariseus que o acusam de ter um coração demasiadamente generoso e de ser ingênuo com os pecadores. Por definição, os fariseus são o grupo dos judeus que se consideram justificados pela própria condição ou pelo cumprimento literal e cego de algumas prescrições legais e, por isso, se separam e tomam distância do comum dos mortais.
Diante deles, Jesus faz questão de afirmar com palavras e ações que Deus não se alegra com os puros e separados. Para ele, uma só daquelas criaturas vistas como perdidas, desorientadas, em situação de risco, à margem do sistema religioso e político judaico, vale mais que noventa e nove crentes auto-indulgentes e separados. É por isso que, como um verdadeiro e bom bastor, Jesua vai em busca dos últimos, sem cansar e sem levar em conta se merecem ou não seu amor.
O coração de Jesus bate forte pelos últimos da escala social, pelas pessoas arruinadas por causa de escolhas mal feitas ou de sistemas que excluem. Longe de cair na armadilha de uma generosidade ingênua, Deus escolhe muito bem aqueles a quem dirige seu amor preferencial e ocupam um lugar nobre no seu coração. Ele sai premurosamente ao encontro dos perdidos, reconduz os desgarrados, cura os machucados, fortalece os doentes e vigia atentamente os fortes. Deus tem um coração grande e um amor universal, mas não tem medo de fazer opções concretas por quem mais necessita.
“Alegrai-vos comigo!”
Deus nos livre da auto-justificação, do sentimento de superioridade moral e espiritual, do distanciamento e da indeferença em relação aos pobres e sofredores. É terrivelmente anti-cristã a presunção de que a pureza das intenções e a nobreza das atividades espirituais desenvolvidas por religiosos/as e sacerdotes é que fazem a alegria a Deus. Não é possível conjugar o sentimento de superioridade e a atitude de separação com a fé em Jesus Cristo!
Mais que na celebração de cultos solenes, na elaboração de doutrinas eruditas e na obediência formal a leis minuciosas, a alegria de Deus consiste em buscar e proteger as pessoas indefesas e ameaçadas e preparar para elas uma mesa farta bem na cara dos inimigos que as perseguem implacavelmente. E isso na proporção de 1 por 99! Este é o caminho e a proposta de Jesus. Não deveria ser outro o caminho das Igrejas e de todos/as aqueles/as que crêem que Deus tem um coração.
Jesus de Nazaré, amado e humano coração de Deus num mundo sem coração!  Restaura nossas forças de discípulos/as e missionários/as e guia-nos pelos caminhos da vida. Unge nosso rosto com o óleo perfumado que nos proteger do calor ardente dos desertos. E faz com que saiamos da igreja com o propósito de prosseguir a caminhada, certos de que tua graça e tua felicidade nos acompanham. Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

Peregrinando na cidade de Jerusalém

Será que nós entendemos o que Jesus fez?

Este foi praticamente nosso último dia de peregrinação na terra santa, já que reservamos umas horas do dia de amanhã para um momento mais prolongado de oração na gruta do nascimento de Jesus. Em seguida, ao meio-dia, partiremos para o aeroporto. Hoje nosso dia foi todo dedicado a Jerusalém. Retomamos alguns dos últimos passos de Jesus, visitamos alguns outros lugares caros ao judaísmo e reservamos uma hora inteira para rezar junto à sepultura de Jesus.
“Não sei nem compreendo o que você diz...”
A igreja do Canto do Galo
Nossa primeira parada, logo de manhã, foi na igreja construída sobre o lugar onde habitava o sumo-sacerdote Anás. Ali Jesus foi julgado, condenado e jogado numa cela, que ainda hoje se conserva e pode ser visitada nas escavações sob o templo. A igreja é conhecida como Canto do Galo, pois teria sido ali que, depois de Pedro ter negado seus vínculos com Jesus três vezes, o galo cantou.
A cena narrada pelos evangelhos é paradoxal. Aquele que se reúne ali não é um tribunal que avalia as acusações contra o reformador galileu, mas um tribunal de exceção, cuja tarefa é dar um verniz de legalidade a uma condenação já decretada. As provas são apenas detalhes de menor importância. Marcos registra que os testemunhos eram falsos e contraditórios entre si (cf. Mc 14,53-59).
Mas este lugar quer recordar as contradições que marcam a vida de todo discípulo/a de Jesus, a começar por Pedro. Fazia pouco tempo que, desafiado por Jesus, ele havia declarado: “Ainda que eu tenha que morrer contigo, mesmo assim não te negarei.” (Mc 14,31). Misturado com os soldados reunidos no pátio e interrogado por eles e outras pessoas sobre Jesus, tomado de medo, Pedro negou: “Nem conheço esse homem de quem vocês estão falando.” (Mc 14,71). Então o galo fez ouvir seu canto, Pedro se lembrou do que Jesus lhe havia dito, e chorou...
Pobre Pedro... Tão generoso, a ponto de fazer pouco caso das próprias contradições. Tão parecido conosco, com as lideranças da Igreja, mais nas contradições e incoerências que no arrependimento e nas lágrimas. É triste quando, diante de alguém que aponta nossos pequenos e grandes pecados, nós desconversamos como Pedro: “Não sei nem compreendo o que você diz...”
Cela onde Jesus ficou preso
Inclina os teus ouvidos ao meu clamor...”
Depois de meditar sobre essa passagem do Evangelho, cantamos: “Um certo dia, ao tribunal, alguém levou o jovem galileu. Ninguém sabia qual foi o mal e o crime que ele fez, quais foram seus pecados. Seu jeito honesto de denunciar mexeu na posição de alguns privilegiados.” Mas é sempre importante lembrar que a vida de Jesus não lhe foi simplesmente roubada: ele a doou livremente e com plena consciência ao povo que amava.
Descemos à cela, que estava sob a casa do sumo-sacerdote (que dispunha também de uma guarda policial) onde Jesus possivelmente tenha ficado preso. Ali, no ventre da rocha fria e envolvidos por um silêncio gritante, recitamos o Salmo 88/87. Possivelmente Jesus o tenha recitado naquela noite, misturando o sentimento de terror de quem vê a morte de frente e a confiança própria de um homem de fé profunda e inabalável. Depois desta experiência, ao recitarmos este salmo, nossos sentimentos serão muito mais concretos.
“Senhor Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite.
Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor;
Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura.
Estou contado com aqueles que descem ao abismo; estou como homem sem forças,
Estou entre os mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais, e estão cortados da tua mão...
Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti, e de madrugada te esperará a minha oração.
Senhor, porque rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face?
Estou aflito, fui infeliz e moribundo desde a minha mocidade...
Eles me rodeiam todo o dia como água; eles juntos me sitiam.
Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus conhecidos estão em trevas.”
“Tomem, isto é o meu corpo...”
A caminho do Cenaculo
Depois, seguimos para o lugar em que transcorreu um fato cronologicamente anterior: o lugar da última ceia de Jesus, que está a menos de um quilômetro acima da igreja do Canto do Galo. O Cenáculo estava muito tumultuado, não pelas orações em diversas línguas mas pelos diversos grupos de turistas, especialmente as caravanas de estudantes.
Recordamos que ali, repartindo pão e vinho como sacramento da doação de si mesmo e lavando os pés dos discípulos, Jesus deixou-nos seu testamento. A pergunta dele ressoa ainda hoje nos ouvidos de quem repetimos o rito eucarístico numa perspectiva habitual e quase mágica: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer?” (Jo 13,12)
Além do memorial eucarístico, celebrado num clima de ternura, amizade e apreensão, esse lugar testemunhou o ressurgimento e o arranque missionário da comunidade dos discípulos/as com o recebimento do Espírito Santo. É importante lembrar que naquela ‘sala de cima’ não estavam apenas os doze apóstolos, acompanhados por Maria, mas toda uma comunidade de mais de cem discípulos/as de Jesus (cf. At 1,15; 2,1).
Afastamo-nos um pouco do tumulto e, mesmo no corredor, meditamos sobre a última ceia de Jesus (Mc 14,12-25). E  lembramos que dali os apóstolos partiriam renovados pelo Espírito Santo para anunciar o Reino de Deus em Jerusalém, na Judéia, na Samaria e até os confins do mundo. Por isso, invocamos o santo Sopro de Deus cantando: “Espírito de Deus, desce sobre nós! Guia-nos, Espírito, salva-nos, forma-nos! Rende-nos dóceis, humildes, simples! Suscita virgens, dá-nos apóstolos! Liberta os pobres, dá a paz aos povos!”
Mosaico de N.S.Guadaupe,
no interior da igreja da dormiçao
“Porque não me abandonarás no túmulo...”
Nas imediações está também o lugar onde Maria teria falecido, a ‘igreja da dormição’. Na verdade, é nesta colina, nas imediações do Cenáculo, que habitaram os apóstolos, e também Maria. Segundo a teologia católica, Maria foi assunta no céu em corpo e alma, mas isso não significa que não tenha morrido. Nossa fé diz que seu corpo foi glorificado, e isso não exclui a morte.
A propósito, ontem visitamos o lugar que onde teria sido sepultado o corpo de Maria, aos pés do Monte das Oliveiras, nas margens da torrente de Cedron. Estas palavras do Salmo 16/17 poderiam ter saído da boca de Maria: “Tenho Javé à minha frente sem cessar. Com ele à minha direita, jamais vacilarei. Por isso, meu coração se alegra, minhas entranhas exultam, e minha carne repousa em segurança; porque não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura.”
A igreja que faz memória da passagem de Maria para a glória é muito linda. Contém vários mosaicos de inspiração bizantina, que representam passagens da vida de Nossa Senhora e algumas de suas manifestações, como aquela de Guadalupe. Ali invocamos o nome da Mãe e cantamos, ante os olhares surpresos de muitos turistas: “Pelas estradas da vida, nunca sozinho estás. Contigo pelo caminho, Santa Maria vai.”
O muro de todos os lamentos...
“Junto aos rios da Babilônia nós choramos com saudade de Sião.”
Depois dessas três visitas, atravessamos os muros da cidade, percorremos um trecho daquele que era o principal eixo viário da Jerusalém do tempo de Jesus e paramos para um rápido almoço. Com as pernas mais em dia e as energias refeitas, descemos ao Muro das Lamentações, ponto de encontro e de oração dos judeus dispersos no mundo e lugar de peregrinação de quem lhes é próximo.
Começamos lembrando do alegre cântico dos peregrinos quando avistavam a cidade querida:  “Alegrei-me com os que me disseram: "Vamos à casa do Senhor!" Nossos pés já se encontram dentro de suas portas, ó Jerusalém!... Para lá sobem as tribos do Senhor, para dar graças ao Senhor... Lá estão os tribunais de justiça... Vivam em segurança aqueles que te amam! Haja paz dentro dos teus muros e segurança nas tuas cidadelas! Em favor de meus irmãos e amigos, direi: Paz seja com você! Em favor da casa do Senhor, nosso Deus, buscarei o seu bem.” (Salmo 122/121)
Com a destruição do templo, obra do império romano, com a progressiva dispersão dos judeus e substituição da população local, e, mais tarde, com a conquista dos árabes, os hebreus perderam o templo, referência fundamental da sua fé. Impedidos de acessar à antiga esplanada do templo, aquele resto de muro era o que lhes restava de mais próximo ao antigo lugar sagrado. E desde então é ali que os hebreus acorrem para apresentar a Deus seus lamentos.
Imagem panoramica do muro das lamentaçoes
Juntamos nosso lamento àquele dos hebreus, mas também à dor dos palestinos, dos índios brasileiros e de todas as pessoas e povos que perderam ou tiveram roubadas suas referências religiosas e culturais. E rezamos com o Salmo 137/138, composto num outro contexto histórico, mas enraizado em semelhante dor: “Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião. Ali, nos salgueiros, penduramos as nossas harpas; ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres... Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira? Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti! Que me grude a língua ao céu da boca, se eu não me lembrar de ti e não considerar Jerusalém a minha maior alegria!
“Ele ressuscitou! Não está aqui”
Às mulheres que foram de madrugada à sepultura para ungir o corpo sem vida de Jesus e se assustaram ao ver que a pedra fora rolada, os mensageiros divinos esclareceram: “Não fiquem assustadas! Vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vejam o lugar onde o puseram...” (Mc 16,6). Esse é o fundamento da fé cristã, mas desde cedo aqueles que aderiram a Jesus começaram a peregrinar ao seu sepulcro.

Assim também nós hoje: mesmo sabendo que Jesus não está lá, e mesmo tendo já visitado sua sepultura ontem, voltamos lá hoje. Ontem queríamos ver, chegar perto, observar, fotografar. Hoje voltamos para rezar, indiferentes ao tumulto de sempre. E lá permanecemos em silêncio por mais de uma hora. Não tem magia nenhuma, mas estar próximo do lugar de onde Jesus assumiu e recapitulou os clamores de todas as criaturas nos convida a alargar os braços da nossa oração e assumir nelas todos os clamores, conhecidos ou ignorados, expressos ou inarticulados.
Na tentativa de perceber as fibras e nervuras que unem todas as pessoas e povos, que criam e sustentam a comunhão de todas as coisas, pedimos o dom de compreender que a ressureição de Jesus significa, entre outras coisas, que no seu corpo despedaçado e na sua vida doada incondicionalemente se esconde a força de uma semente que germinará em todas as estações e terras. Entrar no dinamismo da ressurreição significa entrar no caminho do dom, conseguir ver grandeza e glória no amor que se compadece e sofre, onde os poderes só identificam nulidade e derrota.

Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Caminhando com Jesus ao Calvario

Como uma pedra rejeitada pelos construtores

Este é o nosso sexto dia de peregrinação nos caminhos trilhados por Jesus, e esta é minha sétima crônica sobre esta aventura. Hoje nossa peregrinação foi praticamente toda dentro do território de Israel, seguindo os últimos passos de Jesus. Mas antes de iniciar este relato, quero agradecer aos amigos/as e coirmãos que têm acompanhado e apreciado nosso percurso mediante a leitura destas crônicas, especialmente aqueles/as que tiveram a delicadeza de nos escrever.
Casa de Joaquim e Ana
Os padroeiros dos vovôs
Assim que entramos na cidade murada, que hoje é uma parte bascicamente comercial e árabe de Jerusalém, paramos no complexo de Bethesda. Trata-se de um conjunto de piscinas cuja água, no tempo de Jesus, era utilizada para fins terapêuticos e para purificar as ovelhas que seriam sacrificadas no templo. Lembramos daquele paralítico que não conseguia ser curado porque outros entravam na sua frente? Hoje Bethesda é um enorme sítio arqueológico ainda em estudo.
A igreja dedicada a São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus fica neste sítio. Segundo a tradição, ali teria nascido e vivido Maria, até o momento em que foi prometida em casamento a José. Entramos neste belo e despojado templo e rezamos pelos avós, lembrando que Joaquim e Ana fazem parte da Sagrada Família e são os padroeiros dos vovôs.
A via dolorosa
Deixamos a igreja e começamos a percorrer o caminho que Jesus trilhou nos últimos momentos da sua vida. Algumas das tradicionais quatorze estações estão assinaladas com alguma igreja ou oratório, mas outras se resumem a um simples sinal no muro, e o que chama a atenção é que hoje a via-crucis está em pleno centro comercial da cidade. Os peregrinos se misturam e confundem com os turistas e comerciantes. Por isso, rezamos juntos as estações apenas onde isso era possível, deixando as demais à meditação individual.
Aqui Jesus foi julgado e condenado
Em português, nos referimos a este caminho como ‘via-sacra’, roubando a palavra à ideologia do império romano (que designava com esta expressão a rua pela qual desfilava a corte e o exército imperial para celebrar suas vitórias militares) e dando-lhe um significado novo e diverso: a via sagrada não é aquela da guerra vitoriosa e violenta, mas da doação de si por amor; e os senhores que merecem o nosso respeito não são generais e imperadores, mas o amigo e servidor da humanidade, Jesus de Nazaré.
Experiências de solidariedade que salva
Não me parece justo falar da via-sacra como ‘via dolorosa’. É verdade que a dor está profundamente presente neste caminho, mas não é este seu conteúdo espiritual mais relevante. Penso que o mais importante deste caminho é o mergulho definitivo de Deus na condição humana, partilhando conosco não uma ‘natureza’ abstrata mas uma ‘condição’ humana de humilhação e impotência.
Aqui Cirineu ajudou Jesus
E não se trata apenas de uma impotência como que ontológica ou existencial, mas daquela condição concreta das pessoas a quem os poderes institucionalizados roubaram a potência e a dignidade, reduzindo-as a meios e joguetes de interesses pouco humanos. As estações da condenação, do coroamento, das quedas, do despojamento das vestes, da crucifixão e da morte evidenciam essa submissão de Jesus à condição humana.
Mas neste caminho sagrado de Jesus, algumas estações recordam gestos de alta densidade e fecundidade humana: o gesto de verônica, a ajuda de Simão de Cirene, a presença das mulheres de Jerusalém, o encontro com Maria. Por isso, poderíamos dizer, provocativamente, que a via-sacra é o caminho no qual a glória de Deus e o brilho humano se mostram com toda a sua força.
“Ele foi incluído entre os fora-de-lei...”
Nas estações que vão da condenação à última queda de Jesus não encontramos muita gente. Mas chegando à basílica do Santo Sepulcro fiquei muito impressionado. Primeiro, com a multidão que se movimentava e comprimia, disputando uma vaga para entrar. Segundo, pela falta de reverência, pela agitação e pelo forte rumor. Terceiro, pelas manifestações exageradas de piedade. Finalmente, pela disputa dos espaços internos da basílica entre as diferentes igrejas cristãs (são seis as que loteram entre si cada espaço ao redor do sepulcro de Jesus).
Mas lá estava, e nós tocamos com as mãos, alguns restos da rocha do calvário que não
O santo sepulcro de Jesus
foram sepultadas pelas edificações. E lá estavam também os restos daquilo que fora a sepultura de pedra que acolheu o corpo ensanguentado e exangue do jovem galileu, do carpinteiro de Nazaré, do Messias que disse que Deus espera gestos de misericórdia e não sacrifícios. Ali, fora dos muros da cidade, o profeta do Reino de Deus foi incluído entre os fora-de-lei (cf. Mc 15,28), sendo-lhe roubado tudo, inclusive o direito à vida.
Permanecemos um longo tempo ali, tentando cavar um silêncio interior nas rochas do tumulto dos turistas, buscando um sentido para aquilo que aquelas rochas testemunharam há dois mil anos atrás. Nestes momentos e lugares a oração não se faz com palavras, e a reflexão não se baseia em silogismos. Nos momentos marcantes da nossa vida simplesmente nos deixamos tocar, como as cordas esticadas de um violão, deixando que venha de fora o movimento capaz de revelar a harmonia e a beleza que se esconde em nós.
“Senhor, ensina-nos a rezar...”
O roteiro da nossa caminhada não seguiu a lógica dos acontecimentos mas o critério da acessibilidade. Assim, depois de uma breve parada para almoço, seguimos para o Monte das Oliveiras, e começamos visitando o lugar da ascensão de Jesus, hoje situado no pátio de uma mesquita. Como a ascensão de Jesus abre o tempo de espera do Espírito, cantamos: “Estaremos aqui reunidos, como estavam em Jerusalém, pois só quando vivemos unidos é que o Espírito Santo nos vem.
Depois, ainda no Monte das Oliveiras, seguimos para a igreja do Pai-Nosso, onde a piedade cristã determinou que Jesus ensinou aos seus discípulos a oração cristã, a oração do Reino de Deus. Isso não parece verossímel, pois Jesus não teria deixado para a última semana da sua vida esta importante lição. Em todos os casos, lá está esta bela oração pintada em mais de oitenta línguas, e foi significativo cantá-la em som e ritmo brasileiros.
Depois, começamos a descer em direção ao vale que separava o pequeno monte dos muros da cidade de Jerusalém, tendo ao lado esquerdo o imenso cemitério hebreu. Os hebreus acreditam que, quando vier, o Messias chegará à cidade santa pelo lado do sol nascente. Por isso, eles disputam com unhas e dentes uma sepultura neste já multi-secular e imenso cemitério.
“Vigiem e rezem, para não cair na tentação...”
Mais ou menos no meio da ladeira, está situada uma pequena igreja em forma de lágrima. Encontramos um grupo de brsaileiros de Joinville neste lugar que recorda uma das passagens mais comoventes da vida de Jesus. “Jesus se aproximou, e quando viu a cidade, começou a chorar. E disse: ‘Se também você hoje compreendesse o caminho da paz! Agora, porém, isso está escondido aos seus olhos...’” (Lc 19,40). Segundo Mateus, Jesus também exclamou: “Jerusalém, Jerusalém... Quantas vezes eu quis reunir seus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas você não quis...” (Mt 23,37).
Aqui Jesus olhou Jerusalém e chorou...
Quase no fim da ladeira, próximo do túmulo de Absalon, filho de Davi e daquela que teria sido a sepultura de Maria, está a bela igreja do Getsêmani (que significa literalmente moenda de oliva), com suas janelas escuras, que dão ao templo um ar de melancolia e tristeza. Lá está, como testemunha silenciosa, a pedra na qual Jesus se prostrou, rezando e suando sangue, pedindo que o Pai lhe desse uma luz, enquanto os três discípulos escolhidos dormiam. Ali, diante daquela rocha, meditamos Marcos 14,27-46.
Pedro, fazendo coro com todos os demais discípulos, há pouco havia assegurado a Jesus que jamais se escandalizaria dele. Então Jesus convidou ele, João e Tiago para acompanhá-lo na oração. “Pai, tudo é possível para ti! Afasta de mim este cálice!... Simão, você está dormindo? Você não pôde vigiar nem sequer uma hora?...” No momento mais dramático que antecedeu a sua paixão, e mesmo depois da lição da ceia, os discípulos deixam Jesus sozinho...
“Ali também estavam algumas mulheres, olhando de longe...”
Assim terminamos nossa caminhada de hoje. Voltamos para o hotel com uma sensação estranha. Fomos à missa na igreja vizinha e o evangelho nos falava da vinha arrendada, dos enviados perseguidos, do assassinato do filho e herdeiro, da pedra rejeitada. Marcos sublinha que, na hora H, todos os discípulos abandonaram Jesus, mas um grupo de mulheres que o seguira desde a Galiléia ficou olhando tudo de longe.
A igreja sobre a rocha onde Jesus suou sangue...
Esse é o risco que corremos: ficar olhando tudo de longe, como se a paixão e morte de Jesus fossem algo de outros tempos ou de outra dimensão da vida. Para quem vive aqui tudo é terrivelmente concreto: Maria é de Nazaré; Jesus nasceu logo ali em Belém; o templo estava naquela esplanada; o Monte das Oliveiras fica ali do outro lado; o calvário está logo ali, fora dos muros da cidade, e a sepultura logo abaixo; Anás e Caifás eram as autoridades religiosas do momento...
Não é possível olhar de longe e tirar o corpo fora. Não honramos a memória de Jesus de Nazaré fazendo turismo religioso. Não fazemos justiça ao sonho que deu sentido à sua vida simplesmente acendendo velas e repetindo ritos vazios de vida e de paixão. Traímos sua pobre e fecunda vida se fazemos dele um honrado fundador de um sistema religioso. Esvaziamos sua hostória sagrada se reduzimos tudo a um evento que pode salvar nossa alma.
Não precisamos apenas de algo mais: precisamos de algo totalmente diverso. Ou o caminho de Jesus – sua paixão pelo Reino de Deus e sua compaixão pelos últimos – é nosso caminho, ou devemos pagar aluguel pelo nome que usamos indevidamente.

Itacir Brassiani msf

domingo, 2 de junho de 2013

Peregrinando na periferia de Jerusalém

Não tenham medo, pois nasceu um libertador!

Aqui em Jerusalém o dia vai terminando. Recém chegamos da nossa peregrinação pelos arredores de Belém nesse domingo, que para nós é o dia do Senhor, mas para a população local é o primeiro dia da semana e dia de trabalho, pois para eles o dia do Senhor é o sétimo, o sábado. Nossa peregrinação hoje contemplou praticamente apenas dois lugares: o lugar onde nasceu e cresceu de João Batista e o lugar do nascimento de Jesus.
Uma das grutas do sitio arqueologico
“Isso vos servirá de sinal...”
Começamos nossa visita pela gruta dos pastores. Como fica em Belém, que é território palestino, quem nos acompanhou foi um guia palestino-cristão, jovem muito simpático chamado Nizar Lama. Ele nos lembrava que Belém é a cidade de origem de Raquel, esposa de Jacó, cuja história remonta a 1500 anos antes de Cristo. Fica a 10 km de Jerusalém. Em hebraico, Bet’lehem significa ‘casa do pão’, mas em árabe significa ‘casa da carne’. Para mim, depois do nascimento de Jesus, os dois significados apontam para a mesma coisa...
A primeira gruta que visitamos, chamada gruta dos pastores, remonta a 1500 anos antes de Cristo. Servia de abrigo noturno para os pastores e seus rebanhos, e fica a mais ou menos um quilômetro da gruta da natividade. A gruta dos pastores está situada num grande sítio arqueológico, que ainda está sendo estudado. Apesar de ter sofrido intervenções antigas e recentes, a gruta conserva as laterais, o fundo e o teto originais.
Entramos na gruta com grande emoção e referência. Lemos ali o relato do nascimento
Gruta na qual os pastores receveram a boa noticia...
de Jesus e da revelação aos pastores (Lc 2,1-14). As palavras ditas àqueles trabalhadores socialmente mal-vistos ressoaram hoje bem mais fortes e límpidas: “Não tenham medo! Eu anuncio para vocês uma boa notícia, que será uma grande alegria para todo o povo... Hoje nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido envolto em faixas e deitado na manjedoura.”
Terminamos a visita cantando uma bela canção natalina da tradição italiana, composta por Santo Afonso de Ligório: “Tu desceste das estrelas, ó rei do céu, e vieste numa gruta fria e gelada... Ó menino meu, divino, eu te vejo aqui a tremer... Ó Deus bendito, quanto te custou haver-me amado... A ti que és do mundo o criador, faltam pão e fogo, ó meu Senhor... Meu querido e escolhido, esta tua pobreza me apaixona, pois a assumiste por puro amor...” Mas não deu para sair sem murmurar ‘noite feliz...’
“Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura...”
Deixamos o campo dos pastores e nos dirigimos à gruta da natividade, lembrando daquilo que eles mesmos teriam dito: “Vamos a Belém ver o acontecimento que o Senhor nos revelou!” (Lc 2,15). A serena alegria do guia palestino-cristão, assim como a dor do seu povo, exilado e discriminado na própria terra, que ele não deixava de partilhar, nos dava a impressão de que é preciso redescobrir o alcance dessa revelação para o tempo de hoje...
O exato lugar do nascimento de Jesus de Nazaré
No lugar onde Jesus nasceu, naquele tempo existia um albergue para os viajantes e peregrinos que vinham do sul e se dirigiam a Jerusalém. Nos arredores do alojamento, as grutas naturais, muito abundantes nessa região rochosa, serviam de abrigo para os animais. Então podemos entender o que aconteceu: Maria e José não encontraram lugar no albergue e acabaram imporvisando o pouso junto aos animais. E foi ali que nasceu Jesus de Nazaré, o Salvador.
A gruta da natividade está sob uma basílica que remonta ao tempo das cruzadas, construída sobre os alicerces da primeira, mandada construir pelo imperador Constantino no ano 320 dC. Esta primeira foi semi-destruída pelos persas e reconstruída sob as ordens do imprador Justiniano, no ano 530 dC. Hoje o espaço está ‘repartido’ entre as comunidades católica, ortodoxa armênia e ortodoxa grega. Um pouco mais de comunhão deixaria feliz aquele que ali nasceu...
“E todos os que ouviam os pastores, ficavam maravilhados...”
O evangelista diz que os pastores foram até a gruta sinalizada pela estrela, encontraram Maria e José com o menino, e contaram aquilo que os anjos lhes haviam anunciado. Parece que outras visitas já haviam chegado, pois Lucas diz que “todos os que ouviam os pastores ficavam maravilhados com aquilo que contavam”. Seria o eco da alegria provocada pela evangelização pós-pascal?
Porta da humildade, na entrada da igreja da Natividade
Como somos um grupo pequeno, nosso guia conseguiu que entrássemos na gruta danatividade pela porta de saída, evitando assim a grande fila. E isso acabou sendo uma bênção, pois chegamos à gruta exatamente no momento em que estava para começar a santa missa en italiano!... Assim, éramos um grupo de umas trinta pessoas, de língua italiana, espanhola e portuguesa, unidos na mesma fé e na mesma emoção.
Celebramos a liturgia eucarística do natal em pleno domingo do Corpo e Sangue do Senhor! E isso faz sentido, pois Jesus se faz pão sacramental porquê é o Verbo de Deus que se fez carne para sempre. Como descrever os sentimentos que palpitavam na nossa mente e no nosso coração? Posso dizer apenas que todos vocês – familiares, coirmãos e amigos/as – e suas intenções e necessidades estiveram muito presentes nos vários momentos da celebração.
São Jerônimo: sábio e devoto servidor da Palavra
Quase contígua à basílica da Natividade está a igreja de Santa Catarina de Alexandria, que nosso guia anunciava com sereno orgulho como ‘a nossa paróquia’. Foi uma agradável surpresa também para as Irmãs Leonor e Tarsila, nossas companheiras de peregrinação, pois elas pertencem à Congregação das Irmãs de Santa Catarina de Alexandria.
Placa indicativa na gruta de S, Jerodnimo
No subsolo da igreja de Santa Catarina está a gruta onde São Jerônimo passou seus trinta e dois anos em Belém. No século IV, morando nesta gruta que está diante da gruta da natividade de Jesus, São Jerônimo realizou a formidável façanha de traduzir todo o Antigo Testamento do hebraico para o latim e todo o Novo Testamento do grego para o latim. É graças a ele que as escrituras sagradas chegaram até nós e à nossa língua.
Ao lado da gruta ocupada por São Jerônimo está também um altar dedicado a Santa Paula, uma mulher romana que veio com Jerônimo, e fundou e dirigiu um mosteiro feminino em Belém. Santa Paula foi a primeira mulher a assumir semelhante missão. E mais ao lado avistamos um altar que marca o lugar onde São José teria ouvido, em sonho, a ordem para fugir com Maria e com Jesus para o Egito, para livrar o menino da ira assassina de Herodes.
“E tu, menino, serás profeta do altíssimo...”
O calor estava de rechar, mas mesmo assim, ao meio-dia, depois de comermos um kebab, partimos para nossa próxima visita: Ain Karen, casa de Zacarias e Isabel, lugar do nascimento de João Batista. Antes disso, fizemos uma breve visita ao kibutz no qual vive nosso guia Cornélio, que retomava o papel de guia, e ao sítio arqueológico que está na área e traz restos de uma cidade 700 aC.
Hino ded Zacarias, pintado em portugues
diante da gruta onde nasceu Joao Batista
A casa de João Batista fica num vale íngreme, abaixo do nível de Jerusalém. A igreja, construída com apoio da monarquia espanhola, guarda no seu interior aquela que teria sido a casa/gruta na qual nasceu João Batista, filho tardio de um sacerdote do templo de segundo escalão e de sua mulher idosa e estéril. Zacarias nos testemunha que a falta de fé pode nos emudecer, e nos ensina que calar diante dos males e da vontade de Deus pode ser sinal da falta de fé.
Ali, sentados nos degraus, diante da gruta/capela que testemunhou o crescimento do profeta do rio Jordão, daquele que reconheceu e anunciou Jesus como ‘o cordeiro de Deus’, recordamos a alegria e a simplicidade das festas juninas no Brasil e cantamos o cântico de Zacarias: “Bendito seja o Deus de Israel, porque nos visitou e nos salvou, e fez surgir para nós um poderoso salvador na casa de Davi, seu servidor... E tu, menino, serás chamado profeta do altíssimo, pois irás ò frente do Senhor...” (cf. Lc 1,67-79)
“Bendita és tu entre as mulheres!”
A tradição diz que, apesar de estar no sexto mês da gravidez de João Batista, Isabel foi encontrar Maria quando ela descia os montes. Assim, fomos caminhando para o último ponto da nossa peregrinação deste domingo: a igreja da Visitação. Na caminhada de uns mil metros, exigentes por causa do calor e da subida, passamos pela fonte que leva o nome de Maria, pois era a única da redondeza, e ali ela teria buscado água para ajudar sua prima.
Um encontro para marcar época...
No pátio da igreja, o cântico de Maria está pintado em mais de trinta idiomas. Depois de encontrar a versão brasileira, entramos na igreja bela e simples, lemos o relato de Lucas sobre a visitação (Lc 1,39-45) e cantamos o engajado louvor que brotou dos lábios de Maria naquele encontro entre duas mulheres, duas pessoas humilhadas pelas tradições masculinas mas exaltadas por Deus (Lc 1,46-55).
Ali lembramos nominalmente de várias pessoas que nos acompanham com suas preces ou que pediram nossas orações; pessoas que necessitam da feminina e materna ajuda de Maria, ou que nós gostaríamos que fossem por ela visitadas. E como esquecer dos humilhados que ainda não foram reconhecidos em sua dignidade e, muito menos, exaltados? E como fazer de conta que não existem pobres que choram diante de mesas vazias? “Maria, mãe dos caminhantes, ensina-nos a caminhar!...”
Guia nossos passos no caminho da paz!
O hino de Zacarias agradece a bondade misericordiosa de Deus que nos enviou como visita o Sol Nascente, para iluminar aqueles que jazem na sombra da morte e para guiar nossos passos no caminho da paz. A paz fal falta em tantos lugares do mundo, mas aqui em Israel/Palestina isso é sentido com mais força. Infelizmente, o povo palestino se sente permanentemente ameaçado por gente que os tratam como inimigos...
Como viver em paz quando um muro de concreto de oito metros de altura e de
Um muro que deve ser abatido para construir a paz
setecentos e quarenta quilômetros separa os hebreus e humilha diariamente os palestinos? Como os palestinos podem viver em paz vendo seu território, definido pela ONU, sendo sistematicamente ocupado por assentamentos que acolhem hebreus que continuam chegando de muitas partes do mundo? Como viver em paz com 38% de desemprego nos territórios ocupados?
Nosso guia Nizar Lama lembrava que tem muitíssimos amigos hebreus e muçulmanos, com os quais vive em perfeita concórdia e amizade. A população árabe de Belém é de 44000 habitantes, sendo que 80% são muçulmanos e 20% são cristãos, mas ambos convivem pacificamente. A violência e a injustiça são perpetradas por radicais e interessados de ambos os lados. E dói na alma saber e ver que já são 22 os assentamentos hebreus, protegidos por cercas eletrificadas, nas terras roubadas aos palestinos.

Itacir Brassiani msf

sábado, 1 de junho de 2013

Subindo a Belém pelo caminho do Jordão

Peregrinando de Nazaré a Belém

Na manhã de hoje, 1° de junho, partimos da simpática cidade de Nazaré rumo a Jerusalém e Belem. Antes de deixarmos a cidade, ainda visitamos os restos daquela que teria sido a sinagoga frequentada por Jesus e seus pais, a escola na qual ele se familiarizou com as profecias, as leis, as orações, a história e as esperanças do seu povo. Teria sido ela um dos fatores do seu crescimento em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens.
A antiga sinagoga de Nazaré
“O Espírito do Senhor me ungiu e me enviou...”
Lucas nos conta que nesta sinagoga Jesus viveu uma experiência que acabou mudando sua trajetória de pregador e reformador (cf. Lc 4,14-30). Tendo já adquirido uma certa fama na região da Galiléia, ele voltou à sua casa e no sábado, como de costume, foi à sinagoga local. Sendo maior de idade e pregador renomado, foi-lhe concedida a oportunidade de ler e comentar as escrituras.
Antes de ser um pregador, Jesus foi um assíduo ouvinte das escrituras. E naquela oportunidade, o profeta Isaías foi decisivo para compreender o horizonte e o chão da missão que lhe tocava. “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a boa notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19).
Hoje resta pouco daquilo que foi a sinagoga, e as pedras silenciam aquilo que viram e ouviram da boca do jovem de Nazaré. Uma comunidade cristã de rito grego guarda as imediações, mas o sonho e o testemunho de Jesus ultrapassaram as colinas da Galiléia, os desertos da Judéia, as fronteiras do império romano e ganharam o mundo. E ainda hoje continuam despertando adormecidos e emancipando oprimidos.
“Devemos cumprir toda a justiça...”
O rio Jordão no lugar onde Jesus foi batizado
Deixamos Nazaré e descemos o vale no qual corre mansamente o pequeno e famoso rio Jordão. Muito me impressionou o deserto que se estende por quase toda a sua dimensão, do mar da Galiléia ao mar Morto, tanto do lado de Israel como no lado da Jordânia. Mas nas suas margens, ergue-se hoje um mar de estufas onde são cultivadas frutas, legumes e verduras.
Paramos no lugar onde Jesus teria sido batizado. O calor de 45 graus fazia zunir a cabeça. Ali, sentados nos degraus à beira do rio, lemos e meditamos a pregação audaciosa do profeta João Batista (cf. Lc 3,1-6) e renovamos a graça e as promessas do batismo. “Sim eu quero que a luz de Deus que um dia em mim brilhou, jamais se esconda, e não se apague em mim o seu fulgor...”
Ali Jesus entrou na fila dos homens e mulheres conscientes dos próprios limites e desejosos de preparar uma estrada na qual Deus pudesse vir para visitar e libertar seu povo. Mateus nos conta que, diante da indecisão de João, Jesus insistiu que era preciso cumprir toda a justiça, ou seja: em nome de Deus, ele deveria entrar na fila com as pessoas comuns e assumir suas dores e seus sonhos, sem deixar de carregar suas debilidades.
Logo à frente, já no árido deserto, se ergue a cidade de Jericó. É uma das mais antigas cidades com povoação contínua da história da humanidade. Este lugar é povoado continuamente há mais de oito mil anos! Não entramos em Jericó, cidade de magníficos acontecimentos bíblicos, mas paramos para contemplar à distância o lugar para onde Jesus teria se retirado depois do batismo a fim de discernir sua missão, e onde confrontou-se com todas as resistências e tentativas que marcam o ser humano, especialmente as mais fortes, aquelas que atribuímos ao diabo.
O mar Morto e a comunidade de Qumram

Aspecto do parque arqueolóico de Qumram
Prosseguimos nossa viagem acompanhando o rio Jordão, ladeados pelo impressionante e escarpado deserto, cruzando com pastores e seus rebanhos, atravessando imensas plantações de frutas que emergem como milagres verdes no meio de um oceano de secura. Mas o que chama a atenção também é as cercas farpadas erguidas na ilusão de dar segurança a uma região continuamente em disputa (ultimamente, com a Jordânia). O próprio lugar do batismo de Jesus é uma zona plena de minas ainda não desativadas.
Nossa parada seguinte foi em Qumran. Nos últimos séculos do período pré-cristão viveu ali uma espécie de comunidade monástica que cultuava um judaísmo messiânico, comunitário e radical, à espera do Messis, o Mestre da Verdade. Alguns pesquisadores acham que João Batista teve contato com eles. A comunidade foi dispersada com a chegada dos romanos, no ano 67 antes de Cristo, mas deixou um imenso tesouro, descoberto somente na segunda metade do século passado.
Trata-se dos conhecidos ‘manuscritos do mar Morto’: uma grande quantidade de papiros e pergaminhos contendo intactos vários livros do Antigo Testamento, as regras de vida da Comunidade e a correspondência da comunidade com os sacerdotes de Jerusalém. Percebendo a aproximação do exército romano, antes de se dispersarem, os monges esconderam os manuscritos nas carvernas da redondeza, que os conservaram e transmitiram ao mundo moderno.
Um pastor conduz seu rebanho próximo ao rio Jordão
Almoçamos no restaurante junto ao pequeno museu e sítio arqueológico de Qumram e depois descemos ao mar Morto, que se estende à frente. O calor era amordaçante, mas isso é compreensível se levarmos em conta que este mar é a mair depressão geológica do planeta, pois o espelho de água está a 420 mt abaixo do nível do mar! E, em algumas partes, o mar chega a 180 mt de profundidade. Sua água extremamente salgada e seu barro têm reconhecida qualidade terapêutica.
“Desejem a paz para Jerusalém...”
Deixamos o mar Morto, a 420 mt abaixo do nível do mar, e, em pouco mais de 40 km, alcançamos Jerusalém, que está a mais de 700 mt de altitude. No caminho, apenas rochas e colinas ressequidas. Na chegada, o inaceitável e terrível muro erguido pelo medo e pela prepotência, separando povos, acirrando ódios, consolidando a dominação. Não me conformo com o silêncio do mundo político e midiático diante dessa barbaridade...
Aproximando-nos de Jerusalém, lembrei-me das palavras emocionadas do salmista (Sl 122/121): “Alegrei-me quando me disseram: ‘Vamos à casa de Javé’. Nossos passos já se detêm junto aos teus umbrais, Jerusalém... Para ela sobem as tribos, as tribos de Javé, segundo os costumes de Israel, para celebrar o nome de Javé. Aí estão os tribunais da justiça... Desejem a paz para Jerusalém: ‘Vivam seguros os que amam você, haja paz dentro dos seus muros e segurança em seus palácios. Por meus irmãos e meus amigos, eu digo: ‘A paz esteja com você’. Pela casa de Javé nosso Deus, desejo todo bem a você.
Um mar Morto com uma vida bastante agitada...
Sabemos que Jesus não teve uma boa impressão e não viveu bons momentos nesta cidade. Contemplando a sua amada cidade de longe, Jesus chorou. Visitando o templo dedicado ao Deus que libertara o povo do Egito, ele não se conteve e virou as mesas dos cambistas, exigindo que o recinto voltasse a ser lugar de oração para todos os povos. Para ele, os tribunais não foram justos.  Em resumo, na cidade de Jerusalém Jesus não encontrou a paz que está no seu próprio nome.
Hospedados na ‘casa do pão’
Atravessamos a cidade de Jerusalém e chegamos a Belém (literalmente, casa do pão), onde estaremos hospedados nos próximos quatro dias da nossa peregrinação. Ainda bem que tivemos sorte melhor que Maria e José: para nós havia um lugar reservado nas hospedarias da cidade... O dinheiro ajuda a evitar alguns contratempos... Mas às vezes também nos afasta do coração do Evangelho e se arvora em senhor e comandante pouco disposto a fazer concessões.
Outra imagem do mar Morto
Aqui estamos para viver a segunda etapa da nossa peregrinação. Nestas montanhas veio à luz o Verbo feito carne, e o Messias da Galiléia foi julgado e condenado à morte. Mas foi aqui também que ele celebrou sua última ceia, lavou os pés dos discípulos e deixou um contundente testamento a todos. E foi também aqui que ele se mostrou teimosamente vivo e convidou-nos a voltar à periferia da Galiléia, onde desde sempre ele nos espera.
Oxalá possamos superar a tentação tão própria dos turistas: ver, fotografar e correr para a próxima atração. Não foi isso que me motivou a fazer esta peregrinação. Como gostaria que a oportunidade de visitar estes lugares e de pisar na mesma terra na qual Jesus pisou e derramou seu suor e suas lágrimas me ajudasse a ser um discípulo mais simples, mais autêntico e mais humilde. Será que posso pedir e esperar essa graça?

Itacir Brassiani msf