domingo, 29 de março de 2026

Homilia no Domingo de Ramos

Jesus Cristo, nossa Páscoa!

Queridos irmãos e irmãs! Recordando o dinamismo do esvaziamento amoroso de Jesus, Paulo diz porque, diante de Jesus Crucificado se dobra todo joelho: não porque Deus tenha manifestado sua grandeza e seu poder, mas porque ele desceu tão e se fez tão amorosamente pequeno que, para receber seu abraço salvador precisamos abaixar-nos.

Enquanto os soldados que servem aos que governam mediante a violência desafiam o poder daquele que é acusado de querer ser o rei dos Judeus, e enquanto os que propõem uma religião indiferente à sorte dos humanos ironizam aquele que diz ser o Messias, o oficial e alguns soldados pagãos contemplam a doação incondicional e sem limites de Jesus na cruz e proclamam: “Ele era mesmo o Filho de Deus”.

A páscoa é aqui!

Participemos desde já da festa da Páscoa, por enquanto ainda espírito e imaginação. Mas é uma participação mais real e concreta que aquela do povo hebreu que, no êxodo, venceu a escravidão imposta pelo faraó do Egito e peregrinou para a conquista de um território livre e solidário.

Dentro de uma semana, participaremos da Páscoa de modo mais pleno, embora sacramental. O Verbo de Deus virá beber conosco o vinho novo no reino de seu Pai, revelando definitivamente o que até agora só em parte nos foi revelado, e que pouco compreendemos. Entretanto, a força espiritual que bebemos na Páscoa nos é oferecida em cada celebração eucarística.

Nossa Páscoa, a páscoa de Jesus e dos cristãos, é sempre real e nova. Não é a simples recordação de um passado distante. Não é um ritual protocolar e vazio. Também não é algo que tem a ver apenas com a intimidade e a fé privada de cada pessoa. É memória, experiência e futuro que envolve e renova a humanidade.

Participemos dessa festa ritual e existencial, sacramento da Nova e Eterna Aliança de Deus conosco. Participemos de modo perfeito, deixando-nos banhar e regenerar pelas águas batismais. Alimentemo-nos na mesa da ceia partilhada. Entremos com Jesus em Jerusalém, não na atual capital de Israel, onde mandam os senhores da guerra impiedosa, mas na Jerusalém celeste, a cidade dos homens e mulheres livres, irmãos e solidários.

Não sacrificaremos novilhos ou carneiros com chifres e cascos, nem mesmo peixes, vítimas sem vida e sem inteligência. Ofereceremos a Deus um sacrifício de louvor, o fruto do trabalho das nossas mãos e da partilha solidária das quatro semanas da quaresma. Apresentemos isso em comunhão com todas as vítimas da violência, seja ela doméstica ou política, perpetrada em nosso país ou ao redor do mundo.

Mais ainda: ofereçamos diariamente ao Deus e Pai de Jesus Cristo e nosso a nós mesmos e todas as nossas relações e ações. Levemos para a mesa dos irmãos e irmãs nossos pães e nosso vinho. Respondamos com o amor aos irmãos e irmãs ao amor e a misericórdia com que Jesus nos trata. Imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo. Honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente com ele à cruz.

A Via-Sacra é hoje!

Nesta santa semana que estamos iniciando, acompanhemos os personagens que se cruzam com Jesus Cristo na sua via-sacra, na sua santa e derradeira peregrinação.

Se nos sentimos tocados pelo povo que vivia na periferia e fora dos muros de Jerusalém, acolhamos Jesus Cristo em nossa vida, veneremos sua santa humildade, anunciemos que ele é o Messias justo e pobre, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Com este resto humilde e pacífico, clamemos pedindo socorro ao filho de Davi, juntando-nos a todas as vítimas que clamam e seus gritos são sufocados pelos desertos.

Se consideramos execráveis o julgamento combinado e a condenação hipócrita de Jesus à tortura e à morte, não nos dobremos diante da tentação de presumir que todos os outros são culpados, e que nós e o “nosso lado”, somos bons e justos. E não nos calemos diante das condenações lapidárias perpetradas diariamente por setores da imprensa e do grande capital, e até nas redes sociais, contra os movimentos e organizações populares e os defensores dos direitos humanos.

Se o coro insano dos que pedem a morte de Jesus de Nazaré e a anistia para Barrabás nos apavora e o gesto hipócrita de Pilatos nos desconcerta, não descansemos tranquilamente enquanto os grandes criminosos não sejam condenados, dentro do devido processo legal, e a dignidade dos inocentes seja restaurada.

Se nos vemos espelhados em Simão Cireneu, tomemos nossa cruz e sigamos a Cristo, ajudando também aqueles que sofrem extenuados sob o peso de tantos males dos quais não têm culpa. Façamo-nos próximos e solidários dos idosos e dos doentes, dos sem casa, daqueles que as guerras e conflitos expulsam de sua pátria e daqueles que adentram nosso país para refazer suas vidas despedaçadas.

Se quem nos inspira são as mulheres de Jerusalém, acolhamos a recomendação de Jesus e choremos pelas dores dos irmãos e irmãs, particularmente daqueles que são as primeiras vítimas dos eventos climáticos extremos, acelerados e intensificados pelo nosso consumo descontrolado e predatório.

O Salvador crucificado

Se ressoam fortemente em nós a atitude e as palavras do malfeitor crucificado com Cristo, reconheçamos nossas muitas faltas, inclusive a indiferença e o individualismo que nos seduz mais que a fruta proibida. Reconheçamos a fonte de vida que brota do lado esquerdo de Jesus e peçamos a ele a graça de sermos contados entre seus amigos e amigas.

Se por nossa causa e por nosso pecado Jesus foi tratado como malfeitor, ele nos torne justos por seu amor. Adoremos aquele que foi crucificado por nossa causa. Preso à nossa própria cruz, à cruz que a maior parte da humanidade é obrigada a carregar, aprendamos a tirar proveito até da nossa própria iniquidade.

Aceitemos a salvação que Jesus nos oferece dando a vida por amor, amando mais aos pequenos e pecadores que à própria vida. Entremos com Jesus no paraíso. Contemplemos as belezas desse lugar imaginado o oferecido por Deus a todas as suas amadas criaturas, e deixemos que os malfeitores rebeldes fiquem fora dele.

Se o grito de Jesus na Cruz questiona a paz interior e tranquilidade que buscamos nas práticas religiosas, não tapemos os ouvidos aos clamores dos pobres e ao clamor da terra. Virar o rosto e fechar os ouvidos a eles significa desconhecer o rosto e ser surdos ao Senhor que nos visita.

A esperança que não engana

Se José de Arimatéia brilha diante de nós por sua delicada atenção ao corpo de Jesus, contemplemos e acolhamos com cuidado materno e medicinal nosso próprio corpo alquebrado pela idade, pelas doenças ou pelo trabalho, assim como o corpo dos crucificados que jazem perto ou longe de nós. E experimentaremos a graça de acolher a vítima que expiou o pecado do mundo.

Se nos sentimos semelhantes a Nicodemos, o discípulo oculto e adorador noturno de Deus, envolvamos com óleos e perfumes e ornemos com flores o seu corpo para a sepultura. Mas não esqueçamos de envolver com nosso abraço silencioso e amoroso as pessoas desconsoladas e enlutadas pelos entes queridos, roubados do seu convívio por acidentes, decisões ou omissões de quem deveria cuidar de todos.

Se nos identificamos com Maria Madalena, a outra Maria, Salomé, ou Joana, derramemos lágrimas diante do Crucificado no Calvário e junto aos milhares de crucificados ao redor de nós e ao redor do mundo, começando pelos irmãos e irmãs que ainda hoje ainda podem desfrutar de uma moradia digna, ou pelas esposas e mães que são espancadas por aqueles que dizem amá-las.

O Ressuscitado e nossa missão

Levantemos de manhã bem cedo, como aquelas mulheres da madrugada. Procuremos ser os primeiros a ver a pedra afastada, e encontrar anjos com boas notícias, ou o próprio Jesus, que nos espera com suas mãos e pés feridos, mas sempre de braços abertos. E escutemos o que ele nos diz:

“A paz esteja com vocês! A paz que eu dou não é como a paz que o mundo promete. Minha paz é desarmada e desarmante! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês! Se vocês se amarem um aos outros, eu morarei para sempre no meio de vocês! Vocês são minhas testemunhas! Lutem, ao lado de todas as vítimas, pelo fim das guerras e de tantos calvários!

Felizes e bem-aventurados os que promovem a paz, pois, como eu, serão chamados filhos de Deus! E felizes se vos perseguirem por causa de mim e do Evangelho, pois assim foram tratados os verdadeiros profetas que vieram antes e virão depois de mim”.

Dom Itacir Brassiani msf

(Inspirado numa homilia de São Gregório de Nazianzo, Século VI)

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