sábado, 7 de março de 2026

Uma fé com sabor

NÃO SABEMOS SABOREAR A FÉ

Talvez uma das maiores desgraças do cristianismo contemporâneo seja a falta de experiência religiosa. São muitos os que se dizem cristãos e, no entanto, não sabem o que é desfrutar da sua fé, sentir-se bem com Deus e saborear a sua adesão a Jesus. Como se pode ser crente sem nunca gozar do amor acolhedor de Deus?

O desenvolvimento de uma teologia marcadamente racional e a importância que se deu no Ocidente à formulação conceitual levou frequentemente a entender e viver a fé como uma adesão doutrinal a Jesus Cristo. Muitos cristãos acreditam em coisas sobre Jesus, mas não sabem comunicar-se com ele de forma jubilosa.

Algo semelhante acontece nas celebrações litúrgicas. Observam-se corretamente os ritos externos e pronunciam-se palavras belas, mas tudo parece acontecer fora das pessoas. Canta-se com os lábios, mas o coração está ausente. Recebe-se o Corpo do Senhor, mas não se produz uma comunicação viva com Ele.

É significativo também o que acontece com a leitura da Bíblia. Os avanços da exegese moderna permitiram-nos conhecer como nunca a composição dos livros sagrados, os gêneros literários ou a estrutura dos evangelhos. No entanto, não aprendemos a saborear o evangelho de Jesus como uma boa notícia atual.

Tudo isso produz uma sensação estranha. Dir-se-ia que nos movemos na epiderme da fé. Na Igreja não faltam palavras nem sacramentos. Pregam-se todos os domingos. Celebra-se a eucaristia. Também há batismos, primeiras comunhões e crismas. Mas falta algo, e não é fácil dizer exatamente o quê. Isto não é o que viveram os primeiros crentes.

Precisamos de uma nova experiência do Espírito que nos faça viver por dentro e nos ensine a sentir e saborear as coisas internamente, como dizia Inácio de Loyola. Falta-nos saborear aquilo que dizemos crer; saborear em nós a presença silenciosa, mas real, de Deus. Falta-nos espontaneidade com Ele, confiança jubilosa no seu amor.

Essa experiência de Deus não é fruto dos nossos esforços e trabalhos. É preciso dar espaço ao Espírito na vida e no coração, nas nossas celebrações e na comunidade cristã. A Igreja dos nossos dias deve escutar também hoje as palavras de Jesus à samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus...». Só quando se abre à ação do Espírito é que o crente descobre essa água prometida por Jesus, que se transforma dentro de nós em «manancial que jorra para a vida eterna».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

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