Grande é quem a exata noção de si mesmo
1018 | Quaresma | 3ª Semana | Sábado | Lucas 18,9-14
Só não vê quem não quer, para não ter
que mudar de atitude: vivemos numa sociedade intolerante e polarizada, com
grupos contrapostos por ideologias e por disputa de espaços e poderes. O
argumento moral – “nós, os cidadãos de bem; eles, os malfeitores, preguiçosos”
– é usado com uma frequência espantosa. E a ideologia da meritocracia acabou
oferecendo uma justificação adequada a esta divisão social.
Alguém pode se surpreender ao constatar que
esta mesma postura estava presente na sociedade e no contexto cultural no qual
Jesus de Nazaré viveu e atuou. Naquele tempo, vigorava o muro ideológico e
religioso que distinguia puros e impuros e os colocava uns contra os outros. A
ideologia da pureza – que misturava critérios sanitários, religiosos, morais,
étnicos e sociais – definia quem era puro e quem era impuro, ou melhor, quem
era “cidadão de bem” e quem era “elemento suspeito”.
Na parábola de hoje, estes dois grupos sociais
estão tipificados no fariseu e no publicado. O primeiro se considera e é
tratado como homem correto, justo, superior, ou cidadão digno. O segundo é
visto e tratado como suspeito, sujo, herege, sem dignidade e sem direito ao
respeito e à cidadania. Chama a atenção que a prática da oração não os torna
iguais perante Deus; apenas escancara as diferenças.
Para Jesus e seu Evangelho, ninguém pode se
arrogar o status de superior, honrado, merecedor ou melhor que os outros. Todos
são pecadores e necessitam de conversão. O fariseu, que, na oração, manifesta seu
orgulho e seu desprezo pelos outros, exatamente por isso também é pecador. A
diferença é que o publicano, explicitando a dor da exclusão e a percepção das
próprias contradições, é acolhido e justificado, enquanto que o fariseu continua
devendo.
A humildade não é
um simples ou falso sentimento de inferioridade, mas a consciência justa e
correta daquilo que somos: vazio, interdependência, ambiguidade, desejo. É o
reconhecimento de que somos todos devedores uns aos outros, de que ninguém –
começando por nós mesmos – é maior ou melhor que ninguém. Somos o que somos por
graça de Deus.
Sugestões para a meditação
Situe-se
no templo, como quem foi rezar com o fariseu e o publicano, e observe a postura
e as palavras de cada um
Com
qual deles você se parece quando reza? Você se apresenta diante de Deus
ostentando seus méritos e “cobrando a conta”?
Você
considera a humildade uma limitação à sua personalidade e as realizações e o
mérito uma expressão de sua grandeza?
Como
assumir com serenidade e verdade diante de Deus a nossa condição de pecadores e
devedor necessitados de misericórdia?
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