sexta-feira, 13 de março de 2026

O fariseu e o publicano

Grande é quem a exata noção de si mesmo

1018 | Quaresma | 3ª Semana | Sábado | Lucas 18,9-14

Só não vê quem não quer, para não ter que mudar de atitude: vivemos numa sociedade intolerante e polarizada, com grupos contrapostos por ideologias e por disputa de espaços e poderes. O argumento moral – “nós, os cidadãos de bem; eles, os malfeitores, preguiçosos” – é usado com uma frequência espantosa. E a ideologia da meritocracia acabou oferecendo uma justificação adequada a esta divisão social.

Alguém pode se surpreender ao constatar que esta mesma postura estava presente na sociedade e no contexto cultural no qual Jesus de Nazaré viveu e atuou. Naquele tempo, vigorava o muro ideológico e religioso que distinguia puros e impuros e os colocava uns contra os outros. A ideologia da pureza – que misturava critérios sanitários, religiosos, morais, étnicos e sociais – definia quem era puro e quem era impuro, ou melhor, quem era “cidadão de bem” e quem era “elemento suspeito”.

Na parábola de hoje, estes dois grupos sociais estão tipificados no fariseu e no publicado. O primeiro se considera e é tratado como homem correto, justo, superior, ou cidadão digno. O segundo é visto e tratado como suspeito, sujo, herege, sem dignidade e sem direito ao respeito e à cidadania. Chama a atenção que a prática da oração não os torna iguais perante Deus; apenas escancara as diferenças.

Para Jesus e seu Evangelho, ninguém pode se arrogar o status de superior, honrado, merecedor ou melhor que os outros. Todos são pecadores e necessitam de conversão. O fariseu, que, na oração, manifesta seu orgulho e seu desprezo pelos outros, exatamente por isso também é pecador. A diferença é que o publicano, explicitando a dor da exclusão e a percepção das próprias contradições, é acolhido e justificado, enquanto que o fariseu continua devendo.

A humildade não é um simples ou falso sentimento de inferioridade, mas a consciência justa e correta daquilo que somos: vazio, interdependência, ambiguidade, desejo. É o reconhecimento de que somos todos devedores uns aos outros, de que ninguém – começando por nós mesmos – é maior ou melhor que ninguém. Somos o que somos por graça de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo, como quem foi rezar com o fariseu e o publicano, e observe a postura e as palavras de cada um

Com qual deles você se parece quando reza? Você se apresenta diante de Deus ostentando seus méritos e “cobrando a conta”?

Você considera a humildade uma limitação à sua personalidade e as realizações e o mérito uma expressão de sua grandeza?

Como assumir com serenidade e verdade diante de Deus a nossa condição de pecadores e devedor necessitados de misericórdia?

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