“Que a guerra não me seja indiferente...”
O compositor argentino León Gieco compôs, em 1978, a canção "Sólo le
pido a Dios”, que se tornaria uma das suas canções mais conhecidas e lhe daria
reconhecimento internacional. A canção é uma espécie de manifesto contra toda
espécie de indiferença, desde a sua forma mais inocente e inimputável até a sua
forma mais cínica e culpável.
Começa com uma sinceridade comovente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte
não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria”. E prossegue, questionando até o mandamento de oferecer a outra face a
quem nos agride impunemente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja
indiferente”.
Creio que seria de esperar que essa canção ressoasse hoje em várias
traduções nos rádios e nas redes sociais. Não sei exatamente qual foi o vírus
que infectou o mundo e destruiu uma das características humanas mais
fundamentais: a capacidade de indignar-se. A indiferença se globalizou e passou
a ser receitada como estratégia para sobreviver.
As guerras e os destroços humanos e materiais que elas multiplicam nos
são servidos diariamente enquanto jantamos placidamente. Quem teria conseguido
a façanha de nos convencer de que são normais e aceitáveis? “Eu só peço a Deus que a guerra não me seja
indiferente; é um monstro grande e pisa forte toda pobre inocência desta gente”.
Os chefes do mundo promovem guerras
apelando a desculpas defensivas, preventivas e até humanitárias. Mas a guerra é sempre
injustificável. “Toda a
guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da
política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as
forças do mal” (Papa Francisco).
Para os cristãos, as razões da paz devem
ser sempre mais fortes do que os interesses particulares (econômicos ou
políticos) e a ingênua confiança na força das armas. Apostar na guerra denota a
falta de uma visão de futuro e de uma consciência compartilhada sobre o nosso
destino comum, diz o Papa Francisco (cf. Fratelli
tutti, § 261).
Aceitemos o pedido do Papa, e não
disfarcemos nossa indiferença pecaminosa com cínicas discussões teóricas.
Toquemos a carne de quem sofre os danos das guerras. Consideremos a verdade das
vítimas, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias
com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer a monstruosidade da guerra, e faremos
pouco caso se nos tratam como ingênuos por defendermos a paz.
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