Em Jesus, a profecia e a lei se realizam
1015 | Quaresma | 3ª Semana | Quarta | Mateus 5,17-19
Os evangelhos não deixam dúvidas: aos
olhos de grande parte dos seus contemporâneos, Jesus era um anarquista que
estimulava a desobediência religiosa e civil. A liberdade daqueles que se
fizeram seus discípulos também causou preocupações, até por causa do exagero de
alguns. Daí a pergunta que rondava a cabeça de muita gente: Jesus teria vindo
da parte de Deus para abolir a Lei?
O texto faz parte do processo de formação dos
discípulos, que conhecemos como “sermão da montanha”. É claro que a indicação
das características das pessoas que são “bem-aventuradas”, os santos, as
pessoas que agradam a Deus, causou um certo desconcerto, e não apenas naquele
tempo. A intervenção de Jesus que refletimos hoje procura esclarecer e colocar
as coisas no seu devido lugar.
As citações diretas das escrituras que podemos
ler nos capítulos anteriores de Mateus já poderiam ter eliminado as dúvidas:
tudo na vida de Jesus ocorre “para que se cumpra a Lei”. Mas então, se fosse
simples assim, Jesus seria apenas um profeta judeu como todos os outros, ou um
simples reformador dos costumes? Nele só haveria continuidade, sem nenhuma
espécie de ruptura em relação ao judaísmo?
Para responder a estas interrogações, Jesus
começa com uma advertência: “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas!”
Tanto a Lei como os Profetas, continuam como uma espécie de pedagogos até que o
Reino de Deus seja consumado, até que passe este velho sistema social, cultural
e religioso (“o céu e a terra”). “Eu vim para cumprir plenamente” tanto a Lei
como a Profecia, diz Jesus. Para ele, a prática dos escribas e fariseus era
ostensivamente parcial e imperfeita.
Jesus é o cumpridor do sentido
profético da Lei, até então escondido aos judeus. Jesus se apresenta como a
“chave” que abre o sentido das escrituras, que devem ser lidas e revistas a
partir daquilo que ele viveu e ensinou. Desobedecendo (ou ultrapassando) as
leis para atender as necessidades das pessoas vulneráveis, Jesus se mostra um
profeta, e manifesta o verdadeiro sentido e o objetivo último da Lei. Quem o
segue deva estar disposto a renunciar ao legalismo e ao medo.
Sugestões para a meditação
Você não tem a impressão de que, com seu ensino e sua
prática, Jesus estimula uma postura desobediente e anárquica frente às leis?
Você não acha que, por outro lado, muitas pregações e
práticas de hoje prendem Jesus à simples e inflexível obediência às leis e
costumes?
O que significa para nós, hoje, levar a sério que
Jesus cumpre e revela plenamente as escrituras anteriores a ele e leva à
perfeição a profecia?
Quais as implicações de assumir “o olhar, o agir e o
sentir” de Jesus como chaves para a leitura das Escrituras Sagradas?
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