O amor a Deus e ao próximo está acima do culto
1017 | Quaresma | 3ª Semana | Sexta | Marcos 12,28-34
A cena oferecida à nossa leitura neste sexta-feira
da segunda semana da quaresma, mesmo parecendo bastante tranquila e isenta de
provocações, faz parte das armadilhas que os chefes do judaísmo colocam a Jesus
com a intenção de acusá-lo e das tensas disputas teológicas e políticas com
ele. Não esqueçamos que elas ocorrem no ambiente do templo, do qual Jesus já
havia expulsado os comerciantes. Este é o último confronto de Jesus antes de
ser preso, condenado, torturado e crucificado.
No centro da disputa está a questão do primeiro ou
principal mandamento da ética religiosa judaica. Quem questiona e chama ao
debate é um mestre da lei, que disfarça sua intenção ardilosa falando num tom simpático.
Ele pergunta pelo “primeiro de todos os mandamentos”. Jesus responde no
horizonte com cautela, mas se atreve a juntar ao mandamento de amar a Deus (cf.
Dt 6,4-13), conhecido e aceito, o de amar ao próximo (cf. Lv 19,18). “Não
existe outro mandamento maior que estes!”
É importante perceber ainda que, no primeiro
testamento, o mandamento “ame ao seu próximo como a si mesmo” não vem isolado,
mas situado num conjunto de normas que se opõem às práticas de indiferença e
opressão dos mais pobres das tribos de Javé (cf. Lv 19,9-18). Jesus já havia
dito que estas normas são violadas pelos escribas. Para Jesus, o céu precisa
vir à terra, e a terra é o único caminho para o céu. Não há lugar para
escapismos e espiritualismos de qualquer espécie.
O texto
termina dizendo que ninguém mais se atrevia a apresentar armadilhas a Jesus.
Ele venceu todos os seus opositores: expulsou os comerciantes do templo,
enfrentou as ciladas de fariseus e saduceus sem cair nelas, questionou a
legitimidade e os privilégios dos chefes, assumiu seu papel de mestre. Em
síntese, “amarrou o homem forte e reconquistou sua casa”, como refletíamos
ontem (cf. Mc 3,27).
No caminho da
conversão precisamos decidir quem manda em nós: Jesus e seu evangelho da
fraternidade, ou o Mercado, que incensa o consumismo individualista e
predatório, que trata tudo – as pessoas e todas as demais criaturas – como se
fossem bens dos quais pode se apropriar e desfrutar.
Sugestões para a meditação
Situe-se no
interior da cena, no templo, diante de Jesus e do escriba, especialista nos
mandamentos da lei de Deus
O escriba parece
candidato a discípulo, seu tom é simpático, mas, em verdade, é ardiloso e
enganador, como os outros
Estaríamos nós
também comprometidos com a manutenção das relações de dominação e
legitimando-as com falsa ortodoxia?
Perceba a novidade
corajosa de Jesus: ele une o amor a Deus e o amor ao próximo, e faz dos dois um
só mandamento
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